No dia 11 de setembro de 2001, Hilary North se atrasou pro trabalho e por isso deixou de morrer asfixiada ou soterrada junto aos 176 colegas que partilhavam com ela o 103º andar da Torre Sul do World Trade Center. Absorta no episódio, North escreveu a lista “Como a minha vida mudou” (cf. Shaun Usher, Listas extraordinárias), que foi lida como um poema e tem este início:
Não posso mais flertar com o Lou.
Não posso mais dançar com a Mayra.
Não posso mais comer brownies com a Suzanne Y.
Não posso mais cumprir o prazo com o Mark.
Não posso mais conversar com o George sobre a filha dele.
Não posso mais tomar café com o Rich.
Não posso mais causar boa impressão na Chris.
Não posso mais sorrir para o Paul.
Não posso mais deixar a porta aberta para o Tony.
[…]
Morto a morto, o resultado comove: amiga de muitas das vítimas, North publica todas as ausências que fazem parte do seu luto, e com ela sofremos diante duma crescente pilha de corpos não anonimizados.
Essa lista é clara nos seus efeitos emocionais, mas duvidosa no talhe: se poema nato ou simples enumeração do corolário do horror depois emoldurada em estratégica poesia. Artisticamente — se ambicionava isso — a peça é boa, mas não é grande nem médio-grande, pois se sustenta numa manobra trivial e acaba avantajada pela regra tácita de que se você der largada com um tema trágico já sairá à frente na sedução. Ponh’alguém pra sofrer do que é fácil e facilite o próprio trabalho; a afinidade pela dor arrasta e abate a hegemonia da arte.
Coisa similar acontece com É a Ales, de Jon Fosse, que almeja fins artísticos. A parca pontuação não atravancando o fluxo, as solidões norueguesas rodeadas de mar, os pensamentos repetitivos que são ondas quebrando na consciência, os diálogos anódinos —
O que você está transportando hoje, Asle, diz Kristoffer
Estou levando mercadorias para Bergen, diz Asle
Que mercadorias, diz Kristoffer
Um pouco de tudo, diz Asle
Você não quer me contar, diz Kristoffer
Mais ou menos, diz Asle
e Kristoffer diz que tudo bem, é justo que se mantenha segredos comerciais, ele diz, e então pergunta se Asle pensa em passar muito tempo em Bergen
Uns dias, diz Asle
Sim, já que você está indo para a cidade, diz Kristoffer
É, está na hora de viajar, diz Asle
É verdade, diz Kristoffer
e Kristoffer vai ao Cais e começa a recolher o barco dele
Você vai sair de barco, diz Asle
Vou tentar pescar um pouco, todo mundo precisa comer, diz Kristoffer
Posso ir junto, diz Asle
Claro que pode, diz Kristoffer
A propósito, diz Asle
Eu não tenho tempo, ele diz
Entendo, diz Kristoffer
Afinal, você está com o barco cheio e estava a caminho de Bergen, ele diz
Eu posso encontrar você mais tarde hoje, diz Asle
Mas você está indo para Bergen, diz Kristoffer
É verdade, diz Asle
—, as almas que assolam a memória de Signe, o frio e a espera evidentemente inútil dessa mulher que rumina um sumiço: tudo isso contribui pra criar um’atmosfera nórdico-melancólica que tenta engolfar o leitor na história, que é boa, mas não é grande (nem médio-grande). Ela já deu largada em vantagem ao ser sobretudo lúgubre.
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Suas melhores imagens contam bastante com a imaginação externa pra preencher o vazio deixado pelo efeito:
[…] ele pensa e olha para a Antiga Casa onde mora, para a janela, e lá está ela, pequena, com os cabelos pretos, ela está lá parada, olhando para fora, ela, tão querida, está lá parada olhando para fora da janela, como se fosse parte da janela, está lá parada, ele pensa, sempre, sempre quando ele a imagina ela está junto à janela, talvez ela não fizesse aquilo nos primeiros tempos, mas depois, nos anos que vieram a seguir ela estava sempre lá, ele pensa, é assim que ele se lembra dela, pequena, com cabelos pretos, olhos grandes, com a escuridão ao redor como uma moldura, ele pensa […]
Note-se aí que os tijolos porosos são “lá parada olhando para fora da janela, como se fosse parte da janela” e “com a escuridão ao redor como uma moldura”; o restante é praticamente cascalho jogado no ar. Somos urgidos a pôr as mãos na obra pr’assentar a casa; o esforço pra dar densidade à construção é nosso.
Muitos acham que esse minimalismo de sólidos levitando numa plenitude de espaço é magnífico, etéreo, voa-cascalho. Pra mim costuma — o itálico é pr’inibir quem vê absolutos onde eles não existem — ser sinal de logro dos preguiçosos. Prefiro ver a obra perfeitamente assentada, bela imagem sobre bela imagem, tendo o autor deixado aos meus cuidados “apenas” a faina não de preencher vazios que ventam, mas de descobrir como a casa foi feita — supor os vergalhões, reconhecer a qualidade da argamassa, traçar a procedência das portas — e onde estão os focos de encantamento que o olho grosseiro atropela quando, aflito pelas fofocas (¿quem está traindo?, ¿quem está morrendo?), corre pelos cômodos.
Nos bons romances às vezes essa diligência é interminável. Vargas Llosa leu Madame Bovary do rosto às costas seis vezes de 1959 até 1975, quando publicou seu longo ensaio-adoração A orgia perpétua, e cada escavada era uma conquista:
Nunca tive uma desilusão, diferente do que me ocorreu ao repassar outras histórias queridas; ao contrário, sobretudo relendo os ápices — as reuniões agrícolas, o passeio de fiacre, a morte de Emma —, sempre tive a sensação de descobrir aspectos secretos, detalhes inéditos, e a emoção foi idêntica, com variações de grau que tinham a ver com a circunstância e o lugar.
A maioria dos livros é como a maioria das pessoas: em poucas horas deu tudo que tinha pra dar, e o que foi dado não era nada de mais. Uma minoria de livros é como uma minoria de pessoas: merece revisita constante pelo universo que abriga, embora com frequência receba tratamento de item qualquer numa lista — check. Flaubert virou chopinho na boca da escumalha. Merecia só leitores como Vargas Llosa.
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Não sei se porque tinha lido na contracapa uma comparação com Samuel Beckett, mas em meados de É a Ales pensei “parece uma história escrita por um dramaturgo contumaz”, pra pouco depois de terminá-la descobrir que Jon Fosse era fértil autor de peças. É possível que meu estranhamento provenha dum dissenso entre gênero e conteúdo — quando a arte é mal apreciada porque servida no formato menos adequado a ela, cubos numa jarra com cintura de vespa. O conflito é comum: a literatura fraca que se transforma num bom filme (penso em Clube da luta, de Chuck Palahniuk, bastante preenchido e melhorado por David Fincher), a trama seca que transborda quando guarnecida por corpos quentes (penso em Barrela, de Plínio Marcos, que não me sai da cabeça na interpretação dirigida por Mário Bortolotto e encenada no Cemitério de Automóveis da Rua Frei Caneca).
Justo ou injusto — faz tempo que não leio Dostoiévski, e nos últimos anos parte do meu juízo literário mudou —, Nabokov sentiu essa incompatibilidade de continente e conteúdo n’Os irmãos Karamázov. Num texto republicado na The New York Times Magazine em 23 de agosto de 1981, ele tenta nos persuadir das falhas de seu conterrâneo — “escritor medíocre”, “com centelhas de excelente humor em vastos campos de banalidades” — e sustenta que Dostoiévski errou de profissão. Em tradução leiga:
À luz do desenvolvimento histórico da visão artística, Dostoiévski é um fenômeno bem fascinante. Se examinar de perto algum dos seus trabalhos, digamos Os irmãos Karamázov, você notará que o fundo natural e todas as coisas relevantes pra percepção dos sentidos dificilmente existem. A paisagem que há é uma paisagem de ideias, uma paisagem moral. O clima não existe em seu mundo, então não importa muito como as pessoas se vestem nele. Dostoiévski caracteriza suas pessoas pela situação, por questões éticas, reações psicológicas, murmúrios internos. Depois de descrever a aparência dum personagem, ele usa o recurso antiquado de não mais se referir às suas características físicas particulares nas cenas. Não é assim que age um artista — digamos Tolstói — que vê seu personagem em sua mente o tempo todo e sabe exatamente o gesto específico que ele empregará neste ou naquele momento. Mas existe algo ainda mais notável em Dostoiévski. Ele parece ter sido destinado, pelas letras russas, a se tornar o maior dramaturgo da Rússia, mas tomou o caminho errado e escreveu romances. Os irmãos Karamázov sempre me pareceu uma peça teatral esparsa, com a quantidade exata de móveis e outros utensílios necessários aos diversos atores: uma mesa redonda com a molhada e redonda marca dum copo, uma janela pintada de amarelo pra fazer de conta que havia luz solar lá fora ou um arbusto trazido às pressas e arrumado por um assistente de palco.
Dá vontade de ler Dostoiévski agora mesmo pra verificar se o que Nabokov diz sobre ele é crítica literária ou literatura crítica, mas o que importa, aqui, é o argumento de inadequação da forma.
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Essa forma, essencial no exame do que vai dentro dela, pode ser ~esquecida~ pela malícia. Foi o que fez o escritor paulistano Marcelo Mirisola em artigos pra Revista Oeste (2022), pro Jornal Opção (2026) e pra Revista Bula (2026) depreciando quem resolve “trocar Tolstói por Carolina Maria de Jesus”. A zanga parece não se dever somente ao ato da troca, mas a um grande ¡pfã, não é nenhum Tolstói! que Mirisola endereça a Carolina nas vitrines das livrarias. Esse salvador da boa literatura que decerto escreve com uma antena no mestre russo e não no gibi Geraldão —
Sem falar que Paulinha recebia cinco entidades! Cada noite eu teria uma mulher diferente na cama, ou, sei lá, as cinco ao mesmo tempo. Surubão! Putaqueopariu! Só faltava pedi-la em casamento, e explicar-lhe delicadamente que a porra de chapeuzinho de poodle na carapinha era de amargar, tá lindo, tá ótimo, tá perfeito, que venha com Rivotril, com a irmã macumbeira & Francisnight, com seu Akira e com todas as entidades, rimas e metáforas desse mundo e de alhures, tá tudo bem, Paulinha Denise, claro que tá. (cf. Hosana nas alturas)
— está chocado com a sociedade ufanando uma favelada inculta que não vale meio parágrafo d’A morte de Ivan Ilitch.
A comparação do militante beletrista que decerto cria pensando em Anna Kariênina e não numa música dos Raimundos —
[…] estudante de direito, serpente, bissexual e safa. Tesão. Difícil confiar em Ariela. Impossível não confiar. A mesma idade de Paulinha, um filho de 4 anos, fumava feito uma doida, e a nossa trepada começou — nem seria preciso dizer — no primeiro beijo.
— teria cabimento se se referisse a O escravo, romance deficitário de Carolina que só foi lançado em 2023 pela Companhia das Letras. Confrontar uma ficção clássica com um diário que é um raro registro de próprio punho de quem almoçava restos de lixo é fazer bagunça com gêneros textuais, suas formas e funções. Guerra e paz tem deveres que Quarto de despejo não tem, e vice-versa.
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É a Ales se desdobra em escalas de cinza mesmo com os gorros vermelho e bege, mesmo com as lembranças doutras estações que não este outono, “quando o sol brilha no Fiorde e o lugar está tranquilo e tudo é azul sobre azul”. Num filme em preto e branco de Ingmar Bergman alguém de repente aponta o verde das árvores, e você só supõe esse verde, porque a pintura permanece cinzenta. Isso também contribui pra boa vontade do leitor. Dê uma doença (evite mencionar câncer, mas se quiser sugira) a um homem que fala pouco e quando fala parece adepto doutra sintaxe, anemize a paisagem, recorra ao truque do silêncio — e toque urubus contaminados pela ideia de que o descorado, o ausente e o tristonho sempre soam profundos.
Embora tristonha — um estereótipo escandinavo —, a história às vezes acende uma lamparina rala nas banais alegrias humanas quando uma criança faz companhia à avó ou quando é rememorado o encontro típico do casal que já foi um ente de quatro pernas, quatro braços e dois rostos separado por um ser mitológico inseguro:
[…] e então ele olhou para ela, e ela ficou lá parada, e os dois se olharam, sorriram um para o outro, e foi como um encontro entre velhos conhecidos, como se os dois se conhecessem desde sempre, de certa forma, e como se fizesse um tempo infinito desde o último encontro, e por isso a alegria foi tão grande, aquele reencontro deixou os dois tão alegres que a alegria tomou conta, levou-os, a alegria levou-os um na direção do outro, como se fosse uma coisa que tivesse estado ausente e faltado durante a vida inteira, mas agora estava lá, finalmente, agora estava lá, foi esse o sentimento quando os dois se encontraram pela primeira vez, totalmente por acaso, como de fato aconteceu, e não foi nada difícil, não houve nada de assustador, não, foi uma coisa natural […], como se estivesse predeterminado, ela pensa […]
Um dos poucos pontos luminosos na névoa deprimida é essa imagem desgastada de duas pessoas que se encontram e sentem que foram feitas uma pra outra. Consciente ou inconscientemente, talvez o autor norueguês sintonizasse um camarada já citado nesta resenha: quando felizes, seus personagens são clichês, quando infelizes, são infelizes à sua maneira. Mas a mãe cujo urro se expande ao ver o filho perder a luta contra um mar que invade seus pulmões e sacode seu pequeno cadáver —
o grito de Brita ocupa tudo que existe, o Fiorde, a Montanha, mas Asle não responde
— sofre essa dor que se afigura única e intransferível por causa daquele mesmo feitiço do trágico (vagamos num círculo) que submete a análise, ajoelhada. O grito materno que ocupa “tudo que existe” neste mundo constituído pelo Fiorde e pela Montanha é universalmente reconhecível, não é tão à sua maneira, ele aparece o tempo todo nas televisões brasileiras. Sofrer, portanto, não basta. E Tolstói — ou seu narrador — estava errado.
Por último, ainda quanto ao estilo do autor — frugal no vocabulário e nas construções, e causando efeito com repetição, fluxo de consciência e a força das águas num país que deve tanto ao mar —, talvez ele tenha se enxertado neste Asle da geração mais recente (há dois Asle e uma Ales no livro) que não gosta de “palavras grandiosas”:
[…] porque mesmo que ele não insinuasse palavras grandiosas, ela insinuava, ela escrevia palavras grandiosas, mas ela não deve pensar naquilo, porque se havia uma coisa da qual ele não gostava era de palavras grandiosas, que serviam apenas para mentir e ocultar, as palavras grandiosas, elas não permitiam que o que estava lá existisse e vivesse, mas levavam tudo para uma coisa que se pretendia grandiosa, era assim que ele pensava, e era assim que ele era, ele gostava das coisas que não se pretendiam grandiosas, ela pensa […]
Ao contrário de Asle, e de Fosse, gosto muito de palavras grandiosas na literatura, sejam elas avassalar e pertinácia ou couve e papelote. Portanto este É a Ales pelo qual passo a mão e pouco agarro — a menos que fantasie muito — não me absorve nem afoga na sua hidrosfera literal ou aludida. Entrei, saí e só meus pés ficaram molhados.
Não é um mau livro, repito. Dada a expectativa que a crítica criou pra cima de Jon Fosse, tampouco é um médio-grande livro. A discrepância frustra. Leitores que tiveram visões espetaculares ali dentro poderiam requerer sua parte do prêmio Nobel, pois participaram do empreendimento de fecundar uma literatura tão despovoada de grandiosidades.
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NOTAS
Algumas das músicas que embalaram esta resenha:
Peter Murphy — Deep ocean vast sea / The Neon Judgement — Chinese black / DJ Harrison, Yazmin Lacey — It’s all love / Baxter Dury — Schadenfreude / John Martyn — Dealer