Textos dos outros — Conto “O peru de Natal” (1942), de Mário de Andrade

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu …

Continue lendo Textos dos outros — Conto “O peru de Natal” (1942), de Mário de Andrade

Textos dos outros — Ensaio “Revolução, uma bela doença” (1979), de Leszek Kołakowski, tradução de Renato Rezende

Chamamos de revolução um movimento de massa que, pelo uso da força, quebra a continuidade dos meios existentes através dos quais o poder é legitimado. As revoluções são diferenciadas dos golpes de Estado pela participação de uma massa significativa de pessoas; a ruptura na continuidade do sistema de legitimação distingue-se das mudanças constitucionais legais que …

Continue lendo Textos dos outros — Ensaio “Revolução, uma bela doença” (1979), de Leszek Kołakowski, tradução de Renato Rezende

Textos dos outros — Crônica “Das 6 às 8” (1975), de Luis Fernando Verissimo

Das 6 às 8, as coisas se precipitam. Ninguém se controla, das 6 às 8. Há comprovadamente mais suicídios e menos caráter, das 6 às 8. O sol se retira como um velho patriarca com o seu xale cinzento, para uma noite de tosse e urinóis, e as coisas se precipitam. Uma sugestão de encontros …

Continue lendo Textos dos outros — Crônica “Das 6 às 8” (1975), de Luis Fernando Verissimo

Da língua viva à língua acossada

Quase ninguém contesta o gênero masculino da expressão Dia dos Namorados. Dizer que o título “não é inclusivo com as mulheres” seria admitir a tese extravagante e psiquiátrica de que a data vinha se referindo, até então, apenas a casais de homens. Esse óbvio que ulula resiste à cruzada femista-identitária, mas tem baixo poder de …

Continue lendo Da língua viva à língua acossada

E agora esse papel nublado nos livros

Ondas que arrastam têm uma função iconoclasta: pessoas tidas como a inteligência se deixam levar por elas sem fazer meia hora de diálogo interno antes do mergulho, e nisso a sua aura se arrebenta. Lá vão os partidários da enchente da ocasião, sorrindo satisfeitos no meio d’água mijada e pensando que são carregados prum lugar …

Continue lendo E agora esse papel nublado nos livros

Textos dos outros — Excerto de “Correio europeu” (1959), de Marques Rebelo, segmento “Paris”

XLVIII Quando o amoroso aeronauta entrou no metrô, já lá estavam os três padres de boina preta, com ar campônio e o cheiro peculiar de incenso e suor. Ocupavam os lugares reservados aos mutilados de guerra, cegos ou inválidos civis, e a idade que os separava podia fazer pensar em avô, filho e neto, embora …

Continue lendo Textos dos outros — Excerto de “Correio europeu” (1959), de Marques Rebelo, segmento “Paris”

Textos dos outros — Crônica “Paredes de mim mesmo” (1954), de Max Nunes

Lins de Vasconcelos, pela pureza do clima e silêncio das noites, já foi lugar recomendado para pessoas fracas. Hoje, com ladrões fazendo footing e malandros à solta, só se recomenda às pessoas fortes, bem arrumadas e de pouco amor à vida. E se você já foi ou não foi à Bahia, mas ainda não foi …

Continue lendo Textos dos outros — Crônica “Paredes de mim mesmo” (1954), de Max Nunes

Caderno de exercícios nº 3

SOLIDÃO (I) Ele só é quando não está. * SOLIDÃO (II) De domingo a quinta, madrugada é quando todo mundo morre. * AS MOSCAS (I) Publicava panegíricos aos textos medíocres de uma mulher. Quando acusado, defendeu-se: “todo mundo precisa comer”. * AS MOSCAS (II) Debateu com um troll, diminuindo a si mesmo e promovendo o …

Continue lendo Caderno de exercícios nº 3

Textos dos outros — Crônica “Um milagre”, de Graciliano Ramos

R28829. Anúncio miúdo publicado num jornal: “A Nossa Senhora, a quem recorri em momentos de aflição na madrugada de 11 de maio, agradeço de joelhos a graça alcançada.” Uma assinatura de mulher. Em seguida vinha o 29766, em que se ofereciam os lotes de um terreno, em prestações módicas. Esse não me causou nenhuma impressão, …

Continue lendo Textos dos outros — Crônica “Um milagre”, de Graciliano Ramos