O negro que traiu seus irmãos (Série “Radical do Movimento Negro”, texto nº 8)

Em 18 de fevereiro de 2022, a Folha de S.Paulo publicou um raro parecer negativo sobre a produção de um autor negro. O artigo foi escrito pelo crítico literário e pesquisador da USP Luiz Mauricio Azevedo e tratou do último livro do capixaba Stefano Volp, Homens pretos (não) choram, publicado em nova edição pela HarperCollins. Azevedo avaliou a obra com apenas uma estrela (de cinco), chamando-a de “anêmica”, “ingênua”, “infantil” e “soma de clichês”, atravancando por poucos minutos o trânsito da galera até a mesa de bebidas numa festa motivada pelo sucesso de mais um oprimido histórico.

Seria pra se festejar, realmente, o estranho milagre que avançou sobre o mundo livreiro e que embaralhou os sentidos de tantos leitores a ponto de começarem a farejar cores e lamber sonatas: todos os autores negros que vêm sendo publicados por grandes e médias editoras são considerados ótimos pra quem tem na identidade um critério de aptidão. Se lá no canto escuro do salão se acotovelam alguns críticos profissionais enquanto enchem a boca de pão e sopa pra não ter que falar nada sobre as pencas de livros que vêm da repentinamente produtiva lavoura das minorias – quando requisitados a se pronunciar, apontam, de olhos arregalados e expressão de impedimento, para as próprias bochechas estufadas de comida –, o público acha que deve ser porque é tudo um talismã e que qualquer reserva soaria como chamar o pôr do sol de horroroso. Ao insistir pra que esses críticos façam algum comentário que não seja panegírico ou tergiversação, há o risco de vê-los correr para o banheiro segurando os fundilhos das calças. A afronta pode servir de medicina para os constipados.

Entre escritores brancos e homens, de cada dez que surgem no mercado é possível salvar meio, e do meio talvez a trigésima parte possa concorrer à disputada perduração no tempo. Mas cada-autor-negro-e-mulher que assina contrato com uma editora é “sensacional”, “necessário”, “denunciante da realidade”, “luz no túnel” e “cheio de sentimento” pra uma multidão de comuns em êxtase, e invisível pra intelectuais que noutras ocasiões assumem ares de microscópio ao apontar colônias de bactérias onde leigos, a olho nu, não percebem grande coisa. Matronas e seus ajudantes estão se acudindo pra dar conta de sovar tanto pão e cozinhar tanta sopa em caldeiras industriais só pra que os mortos de medo de contrariar a farra identitária tenham uma desculpa pra fingir que nada acontece. Uma das cozinheiras está deitada na janela, com metade do corpo caído pra fora, tamanho o esgotamento.

Até que Azevedo entrou – “penetrou” – no recinto cheio de balões e agiu como um estraga-prazeres. Nos primeiros parágrafos do seu estorvo, ele diz:

“O autor, o sudestino Stefano Volp, espalha por 224 páginas a tentativa estulta de transformar em matéria literária as limitações sociais que a realidade concreta impõe aos homens negros. A despeito de seu esforço, o que chega até nós é uma soma de clichês, truísmos e cenas cujo valor se perde na adoção de uma voz autoral que se deseja poética, mas que se apresenta insegura, pueril e sem repertório.”

Perto de finalizar:

“De resto, o problema não é a falta de ambição estética em ‘Homens Pretos (Não) Choram’, ou o fato de a obra pertencer às fileiras da literatura de massa. O busílis é ela ser má literatura, aquela que não questiona e também não diverte; aquela para a qual o ato de permanecer na superfície das coisas não é fruto de uma escolha, mas de uma carência.”

Finalizando:

“O fracasso do autor nesse livro não interdita eventuais acertos no futuro. Porém, a estratégia de lançar a obra com paratextos adulatórios de nomes que já provaram seu valor no cenário cultural brasileiro — como Jeferson Tenório e Emicida — reforça a sensação de que talvez essa obra seja importante porque quem a escreveu o é. Isso, é claro, funciona muito bem para a celebração das mídias sociais, mas não para o ofício literário. A existência de Volp, afinal, merece nosso festejo. A julgar por essa obra, sua literatura ainda não.”

Ainda que francamente insatisfeito com a falta de qualidade do livro que fora incumbido de resenhar, Azevedo comparte das causas que buscam fortalecer pessoas com a identidade de Stefano Volp. Celebra a existência do autor, reconhece “as limitações sociais que a realidade concreta impõe aos homens negros”, menciona 18 escritores negros que, na sua opinião, tornam desnecessário “que se saia por aí publicizando haver ouro onde não há”, não deprecia a literatura de massa. É um aliado do progressismo, enfim.

Ativistas das identidades, entretanto, tendem a desaprovar até suaves matizes de discordância, e achacam evidentes posturas não glorificantes a seus cultuados como desonras vermelho-sangue, formas de regicídio. Por isso, quando Volp veiculou o artigo de Azevedo em sua página no Twitter, outros usuários logo vieram socorrer o jovem autor que ficara espantado ao descobrir que seu arraso não era unânime. A antropóloga Debora Diniz, professora da UnB, defendeu Volp com o argumento de quem pensa tutelar escritores negros como se fossem crianças cheias de sonhos que encontrou chorando na porta da sua casa:

“Vou ler o livro. Obrigada por tornar pública essa maneira torta de a crítica operar no meio literário. E mais: se o crítico achou o livro mesmo tão frágil, por que usar o poder da palavra própria e o privilégio da publicação para desmoronar a obra alheia?” (grifos meus)

Sentir pena de um escritor e achar que ele é um miserável que deve ser poupado de crítica literária é mais humilhante do que efetivamente maldizer esse escritor. É assumir que ele não é nem digno de receber avaliação profissional de tão rebotalho que é. A caridade da professora só não ofende aqueles que perverteram valores e agora pensam que é positivo depender de misericórdia pra escapar das regras do jogo. O trecho grifado acima declara que livros frágeis não deveriam ser depreciados “pelo poder da palavra” em publicações que alguns acessam por “privilégio”, o que elucida o silêncio da crítica especializada sobre obras de minorias que parecem O Confuso, O Bizarro e O Fuleiro liquidificados e postos pra assar. Azevedo concede mais respeito a Volp do que Debora Diniz com sua piedade intelectual de “se é fraco, ignore, não seja cruel”. Mas Diniz muito bem sintetizou a lógica dos calados.

Ainda no Twitter, Veronica Oliveira, influenciadora de faxina, ganhou 599 curtidas ao escrever: “se a Folha tá contra eu tou a favor”. Seria ela a favor de ditaduras, da tortura e do homicídio qualificado – coisas às quais a Folha se opõe? Além disso, parece não fazer ideia de como funciona a crítica literária ou mesmo uma publicação plural, pois acha que o artigo de um opinador transitório é a Folha. É até estranha essa sua repulsa, já que o jornal lhe deu espaço pra divulgar sua história e seu trabalho – em texto e vídeo –, e ainda hoje lhe cederia a palavra na seção de tendências e debates se ela requisitasse.

Por outros tantos usuários Azevedo foi chamado de “insensível”, “mal-educado”, “racista”. O juiz Luis Carlos Valois, atuante no Tribunal de Justiça do Amazonas e popularizado após ajudar a negociar a libertação de reféns durante uma rebelião de presidiários, disse que o crítico provavelmente gosta de “literatura morta, sem posicionamento” e que “deve ser daqueles que têm um pinguim caro decorando a casa” (?). Recebeu 570 curtidas por um comentário aparentemente tão tosco quanto o livro que defendia, mas lembro que há duas leis da biblioteconomia que dizem: “todo livro tem o seu leitor” e “todo leitor tem o seu livro”. Talvez seja bonito que Valois e Volp se encontraram num mundo em que tantos ainda se procuram.

Alexandre Bahia, professor de Direito da Universidade Federal de Ouro Preto, disse que a crítica beirava “o racismo explícito”. A cantora Karina Buhr escreveu: “no primeiro parágrafo […] quis parar, mas segui. Aí ele começa a vomitar racismo e não para mais.” Ganhou 529 curtidas com a acusação baseada na ideia de que criticar um autor negro é racismo, e racismo desengolido. Depois que alguém avisou que o próprio crítico era negro, uma mulher com trejeitos textuais de lá-vou-eu,-Moisés,-descendo-a-montanha-com-as-tábuas disse que Azevedo estava “traindo seus irmãos”. Se malucos solitários discursando pra ninguém nas portas dos bares e nos terminais de ônibus soubessem que em redes sociais as curtidas vêm às centenas pra apoiar delírios como “um negro criticar o livro de outro negro é traição a um irmão”, talvez tentassem adquirir um celular. Às vezes você só não alcança a glória porque insiste em persuadir a plateia errada. Em algum lugar de não tão difícil acesso, gente bruta e não medicada está à espera das suas arengas doloridas ou escandalosas pra começar a pressionar corações com os polegares. Onde estão? Aqui estão. Eles se saúdam.

A tempestade que ameaça desabar sobre quem atrapalha o alto-astral dos festejos a autores passíveis de reprovação – ou, vá lá, passíveis de ressalvas, de mínimos poréns – explica a atual situação da crítica, acamada justamente quando existe tanto lote pra carpir no seu campo de trabalho. Há um espírito no ar de “não quero me envolver”, “não quero arranjar encrenca”, e quem sai favorecido com isso é a tralha que pensa que pra escrever bem basta inspiração, que “vivência” habilita qualquer um a criar ficção desde que os personagens tenham as mesmas características que as suas, que membros de minorias redigindo meras opiniões na universidade devem ser chamados de cientistas. Nesse ambiente de temor e sussurros, um artigo contraindicando o livro de um jovem negro com milhares de seguidores no Twitter é algo a se destacar.

Além da coragem, outro mérito da crítica de Azevedo é a clareza. Essa clareza não deve se confundir com a banalidade estilística de tantos textos de opinião que saem na imprensa ou em páginas independentes, cujos autores, visando a compreensão do usuário médio das redes sociais, escrevem como se tivessem nível A2 – elementar – de proficiência no próprio idioma. Com uma escrita acessível que não é ordinária, Azevedo não contorna e não hesita: todo parágrafo fisga, nenhuma frase é obscura pra propositalmente esconder um juízo desfavorável. Nisso difere de alguns de seus colegas de ofício, tratados na postagem anterior deste blog, que não têm na artimanha do ininteligível um costume que se distribui de forma democrática a todas as apreciações que fazem, mas que selecionam quais tipos ganharão sua faceta “adentrando a mata fechada à noite e sem lanterna”.

Pra tratar do que é incontroverso ou irrelevante nos tribunais da internet, esses críticos são descomplicados: dizem coisas como “isto é maravilhoso, pura poesia” ou “de espantosa frivolidade, morrerá na praia”. Mas quando julgam vacas sagradas que intimamente não aprovam, compelem o leitor a espremer os olhos em esforço pra entender o significado daquelas tintas: “dado o opróbrio de uma desqualificada exegese erigida sobre destroços do ser-em-si moderno, oriundo daquilo que Fulano de Tal chamou de pitoresco agônico, é mister alumiar o encalço do feitio alucina-ação, neologismo leve, pois apenas hifenizado, da lavra de Ciclana, que já abordava o petardo em 1967, mas por vias tortas – vias essas que, hodiernamente, cabe a nós alinhar ao derradeiro cartapácio posto em questão, nada obstante lançando mão de certo relativismo de classe que pesaremos na balança de precisão do extremo rigor acadêmico, algo que, urge revelar, tomamos de inspiração dos russos”. Se no século 21 o novelo embaraçado do estilo já tende a causar suspeita, ainda pior é o expediente do impenetrável que serve a uns analisados e não a outros. Espero que os adeptos desse truque tenham dificuldade pra dormir à noite, porque o conflito moral e a culpa pelo menos são sinais que afastam alguns diagnósticos perigosos de transtornos de personalidade.

Pra embasar este queixume habitual contra o princípio da covardia no qual se pautam muitos supostos heróis da crítica quando precisam tratar de escritores e artistas frágeis (cf. Diniz) que tentam crescer no mercado das ideias usando o passe da opressão histórica – ainda que hoje quase não sejam oprimidos, a menos que pobres –, seria possível citar uma fileira de pensadores antigos e modernos que destoaram das farsas impostas por uma sociedade escorada em tantos enganos. Mas cederei a palavra apenas a John Stuart Mill, que está saindo fresco do meu forno de leituras com seu Sobre a liberdade, de 1859. O chapéu serve em 2022 como se ele fosse um gêmeo univitelino daquela atmosfera:

“Mas o preço a pagar por esse tipo de pacificação intelectual é o sacrifício de toda a coragem moral da mente humana. Um estado de coisas no qual uma grande porção dos mais ativos e inquisidores intelectos acham recomendável manter os princípios e fundamentos gerais de suas convicções dentro de si mesmos – e tentar, naquilo com que se dirigem ao público, adequar tanto quanto possam de suas próprias conclusões às premissas às quais interiormente renunciaram – não pode pôr em evidência os caracteres destemidos, e os intelectos lógicos, consistentes, que outrora já adornaram o mundo pensante. O tipo de homens que se pode buscar nesse estado de coisas ou são meramente pessoas conformadas com o lugar-comum, ou são oportunistas da verdade, cujos argumentos quanto aos grandes temas se conformam a seus ouvintes, e não aqueles que convenceram a si próprios.”

Adiante, há mais defesa da liberdade de intelecto contra a opinião arrebanhada:

“Mas não são as mentes dos heréticos que estão mais deterioradas, e sim a proibição imposta a toda inquirição que não termine com as conclusões ortodoxas. O maior dano é o que atinge aqueles que não são heréticos e a quem todo o desenvolvimento mental é restringido com o raciocínio subjugado pelo medo da heresia. Quem pode calcular o que o mundo perde na multidão de intelectos promissores combinados com temperamentos tímidos, que não ousam acompanhar nenhum curso de pensamento atrevido, vigoroso, independente, por medo de que poderia levá-los a algo que se admitiria ser considerado irreligioso ou imoral? Entre eles podemos, ocasionalmente, ver algum homem de profunda consciência, de entendimento sutil e refinado, que passa uma vida inteira sofismando com um intelecto que não pode ser silenciado, e exaurindo todos os recursos da engenhosidade na tentativa de reconciliar as manifestações de sua consciência e de sua razão com a ortodoxia, coisa que talvez ainda não tenha conseguido levar a bom termo. Ninguém pode ser um grande pensador se não reconhecer que, como pensador, é seu dever primeiro ser fiel a seu intelecto, quaisquer que sejam as conclusões às quais possam levá-lo. A verdade ganha mais até com os erros de alguém que, com o estudo e o preparo necessários, pensa por si mesmo, do que com a verdade de opinião daqueles que só a mantêm porque não se dão ao trabalho de pensar.”

Como a difundida política da pena tem conseguido assimilar mesmo pessoas inteligentes, a causa está sendo ajudada pelo empenho coletivo de vários estratos intelectuais – dos rasteiros aos eruditos – visando racionalizá-la. A trajetória da humanidade sempre muda, mas preserva alguma essência, e há coisas que eternamente retornam porque estão cravadas na nossa natureza de animais que se engajam em absurdos, desde que eles confiram aceitação ou prestígio social. Se um dia nos livrarmos da “pacificação intelectual” desta temporada que tem aniquilado “a coragem moral da mente humana”, não será pessimista, mas realista, prever que logo embarcaremos em outra ortodoxia assassina da liberdade de meramente pensar. Enquanto isso, seguimos chamando nanicos de colossos por indulgência ou poltronaria.

Não há muito mais pra falar de Azevedo – só o conheci por causa do artigo que escreveu na Folha –, mas vale apontar que uma pesquisa de minuto pelo seu nome no Google revela sua opção ideológica pelo marxismo. Hoje a corrente me interessa apenas no sentido histórico – não pra explicar ou revolucionar o mundo –, mas me dá alguma alegria ver pessoas de esquerda sendo genuína resistência ao combo perverso que o autoritarismo identitário – com megalomania, perseguição e paranoia típicas das tiranias – tentou lhes empurrar.

Amantes e contemporizadores de aberrações da extrema direita praticada ou discursada não impressionam quando fazem denúncias à nova onda apartante: estão somente aderindo a outro combo que põe essa aversão junto ao refrigerante e às batatas com tempero de naftalina. Têm um roteiro a cumprir entre adoradores de bestas indomáveis, e cumprem, amiúde com cinismo e pensando que ironia é sempre sinal de argúcia. Já alguém de esquerda desviar um pouco da cartilha do movimento atual pra escrever uma rara crítica honesta e clara ao livro de um autor negro – isso tem valor. Possivelmente Azevedo seja algo identitário, mas não a ponto de sacrificar o bom senso fingindo que Stefano Volp a) é um rei, e que b) está vestido.

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NOTAS

1. As NOTAS, como de praxe, tratam de assuntos correlatos ao texto e também de assuntos banais, amenidades, coisas que falamos enquanto cortamos as unhas dos pés sob o sol. Começarei pelas que têm relação com o texto principal em respeito a quem só se interessa por ele.

2. Fazia tempo que eu não escrevia uma postagem curta, mas o inusitado tem explicação: pensei em tratar de alguns episódios diversos na mesma postagem, mas desisti disso porque demoraria muito pra publicar. Então, por enquanto, ficou aí só a parte sobre o caso Volp versus Azevedo.

3. A internet não exacerba apenas o ódio, mas também o amor. Anúncios como MAIS UM TEXTO SENSACIONAL DE ou QUE LIVRO SENSACIONAL DO têm alta probabilidade de não trazer nada de sensacional: o conteúdo algumas vezes é básico, dado a obviedades, ou tresloucado; e o estilo é preguiçoso, clichezento, falso e tomado pela crise vocabular que marca quem tem escasso repertório e deixa por isso mesmo. Ou de quem tem repertório, mas não sabe modelar com ele, pois não adianta apenas ler os bons – é preciso também prestar atenção. Psicólogos herdeiros da ideia de que “ninguém tem que sofrer” devem ficar contentes ao ler textos com essa construção vulgar. Angústia, receio da própria ignorância, suor e exaustão – desnecessários pra quem respira os vapores deste tempo de soberba e relaxo. A depender dos trechos de Homens pretos (não) choram que Azevedo selecionou pra provar seu ponto, a displicência da escrita de Volp se beneficia dessas características.

3.1. É claro: existe o bom texto simples e o mau texto simples. E não é porque um texto é simples que ele foi fácil de fazer. Os bastidores de um artigo que delicia o leitor podem revelar um cenário de guerra. Mas parece que alguns presunçosos que passam mais horas diárias querendo influenciar os outros em redes sociais do que tentando ser influenciados pelos mestres se pensam capazes de também escrever textos ao se deparar com um bom texto simples. Na hora em que se põem a redigir, no entanto, seu amadorismo fica claro: não têm experiência de encadeamento; acham que é fácil copiar estilo, enxerto de citações e sarcasmo alheios; compõem de uma vez só e ainda anunciam, com triunfo: “escrevi em uma sentada”. Dá pra perceber, amigo. “Muitos gostaram.” É a sua audiência que aceita qualquer coisa ou elogia por gentileza. Quando alguém que escreve não tem autocrítica, o elogio de uma audiência desatenta, às vezes até parva, é uma armadilha, pois leva o escritor a achar que o topo da excelência já foi alcançado. Crescerá somente para os lados, como um musgo, e não pra cima, como uma árvore.

3.2. Profissionais ou gênios muitas vezes têm facilidade pra escrever bons textos rapidamente. Fazer uma ótima página por dia, na minha opinião, já é algo de extrema destreza e velocidade, mas um avaliador da Amazon chamou Philip Roth de “charlatão” por escrever apenas uma lauda diária, disse que essa informação sobre seu ritmo de escrita o deixou “chocado” e que por isso ele, Roth, “não é um escritor profissional nem aqui nem em Weequahic”. Estou contando a anedota só pela diversão, pois o choque do usuário decepcionado com uma suposta lentidão de um de seus autores mais lidos não tem nenhum cabimento. Não há morosidade que derrube o valor de um bom resultado textual, que é o que importa. Joseph Mitchell que o diga.

4. Sempre gostei da imagem do rei nu, mas, como já fiz uso dela algumas vezes, penso em colocá-la num cruzeiro sem data de retorno a partir desta postagem. São várias as imagens boas que se desgastam quando repetidas nos nossos textos ou no grande conjunto do que já foi publicado. Outra que me vem à mente agora é “a história se repete: na primeira vez como tragédia, na segunda vez como farsa”, de Marx, que é uma referência muito usada e que talvez possamos enfiar na mesma viagem do rei nu. Quem sabe “o bom, o mau e o feio” também possa conseguir um bilhete. E se sobrar espaço, o “é simples sem ser simplório” quer embarcar, escondendo na sacola seus amigos mais rodados “tragédia anunciada” e “seria cômico se não fosse trágico”. Existem outros exemplos – afora os clichês mais maria-sem-vergonha dos quais até pessoas bacanas se fartam –, mas isso é tema pra outra hora.

4.1. Já usei tantas vezes o “é simples sem ser simplório” e já vi tanta gente usando que o termo está cadavérico, maltrapilho e sem alguns dentes. Também balbucia coisas enfadonhas como “está tão frio hoje”, “está tão quente hoje” e “nossa, como ela cresceu”.

4.2. O irmão dele, o “é sentimental sem ser sentimentaloide”, está oficialmente desaparecido no banco de dados da polícia, mas às vezes surge pra jantar e logo vai embora de novo. A família não sabe que se prostitui no editor de textos de quaisquer clientes, sem critério.

5. Textos bons têm temperatura quente ou fria. Fora disso estão os mornos e febris, que, embora muitas vezes ruins, têm público.

5.1. Parafraseando Frank Zappa, a maioria das pessoas não reconheceria qualidade textual nem que ela viesse mordê-las na bunda. E algumas só sabem reconhecer o que presta quando um tutor lhes aponta o mérito. Sem tutor e colocadas pra fazer um teste cego, muitas seriam expostas bendizendo um pacote de lixo que já vão embolsando, felizes, e esnobando um pedaço de ouro que lançam rapidamente no rio, com asco. É mais fácil ter bom gosto quando o cânone – ou alguém “de renome” – decide tudo do que se deve gostar.

5.2. A ideia de democracia pautada em “uma pessoa, um voto” tem influenciado as redes sociais. Zés que não conseguem compor três frases seguidas com coerência e que abandonam na página 30 tudo de valioso que tentam ler de repente se tornam “opiniões a se considerar” quando se inspiram na atriz Amber Heard pra manifestar reprovação na internet: fazendo cocô no território de quem odeiam. Azevedo foi massacrado por centenas, talvez milhares de grosseiros que não souberam interpretar seu texto muito simples. Tem quem ache que esse repúdio volumoso deveria significar a necessidade da sua capitulação, mas a opinião de uma multidão de tolos não é parâmetro pra nada. Azevedo deveria ficar desanimado com a potência numérica da burrice, mas alegre ao não agradá-la quando sabe que está apenas fazendo seu trabalho.

6. Escrevi que a Folha se opõe a ditaduras. Não sei bem qual é o público que me lê, mas vou me adiantar ao possível leitor que nesse ponto do texto lembrou do apoio do jornal ao golpe militar e me rebateu mentalmente. O golpe foi em 64 – há quase sessenta anos –, muitos veículos de imprensa da época não imaginavam a dimensão autoritária que viria a partir dali, quem trabalhava na Folha naqueles anos e que possa ter exaltado militares já se arrependeu, se aposentou ou morreu. Somente o desespero argumentativo ou o ódio pelo ódio podem levar alguém a dizer que a Folha de hoje merece punição porque décadas atrás apoiou o Golpe.

6.1. Não vou tratar agora das críticas que a Folha de fato merece porque isso pede uma postagem única. O jornal já não vinha bem, mas nos últimos meses tem descido a ladeira com a performance de um corpo esférico. E não estou falando de nenhum colunista de opinião, mas das seções de notícias.

7. Uma edição antiga de Sobre a liberdade, do Mill, descansava na pequena biblioteca do meu quarto em Blumenau. Pretendia ler algum dia. Então recentemente um jovem doutorando em Direito me mandou um trecho do livro e assegurou que eu ia gostar dele. Comprei outra edição mais recente, da Penguin/Companhia das Letras, e li. É excelente – um clássico cujos argumentos permanecem relevantes – e recomendo a leitura a todos, especialmente pela defesa feita à liberdade de expressão. Obrigada pelo empurrão que me fez antecipar essa leitura, Henrique!

7.1. Essa edição que recomendo traz junto o texto A sujeição das mulheres. Este eu li há muitos anos, no auge do meu feminismo – quando o movimento ainda não era tendência e alucinação generalizada, tanto que eu não tinha quase ninguém com quem falar a respeito a não ser dentro dos livros –, mas não me lembro de quase nada dele e vou relê-lo.

8. E agora, Godofredo, traga nossos cortadores de unhas pra acertamos a harmonia dos nossos pés sob o sol.

9. Ruy Castro comprou uma briga difícil: no momento em que divulgava seu último livro, As vozes da metrópole: uma antologia do Rio dos anos 20, foi requisitado pela mídia pra aprofundar suas críticas ao louvor às vezes até gemente à Semana de 22, que comemorou seu centenário há pouco. A reação dos ilustrados veio – embora confusa, emocionada, fragmentária e em alguns casos com ar de “não tenho que gastar meu tempo refutando isso” –, e suspeito que possa ter prejudicado a importância do lançamento da antologia organizada pelo Ruy. O que é triste, porque ela é ótima e mostra um Rio de Janeiro tão moderno, antenado e criativo nos anos 20 que sua leitura torna justificável a revolta do Ruy com o apagamento de inúmeros dos autores que colocou nela. Eram pessoas dedicadas à pauta racial, de gênero, de classe; autores – e autoras – que escreviam textos eróticos pra fascinar qualquer um que esteja vivo e com sentidos; escritores poderosos na forma e no conteúdo, atentos à sociedade e às graças e desgraças das relações humanas.

A Folha publicou um texto precário, sem indicação de autoria, sobre o livro. Ainda que se trate de uma antologia permeada por uns poucos comentários do Ruy, acredito que valeria uma resenha sobre a seleção, o frescor e o visionarismo de alguns dos autores e as provocações que o antologista faz à turma de 22 quando a usa como contraponto aos que, na sua opinião, realmente mereciam ser chamados de modernos.

Deixei uma avaliação sobre o livro na Amazon, com trechos escolhidos. O Ruy já tinha me apresentado ao Agrippino Grieco por meio de suas colunas na Folha, e agora me levou a buscar outros autores que estão em As vozes da metrópole e merecem um aluguel de olhos mais longo. Recomendo a aquisição.

10. Do Oswald de Andrade li, no ano passado, Serafim Ponte Grande, e, recentemente, Memórias sentimentais de João Miramar. São bons livros pra garimpar: há histórias curtas, neologismos e gracinhas pra encantar e guardar. Mas não colocaria na cabeceira da cama e não levaria pra uma ilha se me dessem a oportunidade de carregar 100 livros comigo. Ou 200. A originalidade tem valor, só que parece sobrestimada quando o que mais importa ainda é a qualidade. Oswald tem dela em alguns momentos, mas em outros parece apelar ao estranho intrínseco e à bizarria anárquica que às vezes fede a pedantismo. Tem quem quase rasgue as vestes de tanta emoção com seus atributos de ousadia – “Oswald! Insólito! Vanguardista! Sui generis! Sempre oswaldeandradeando!” –, mas acho que os dois livros que li seriam melhores se tivessem descansado entre um polimento e outro.

10.1. Alguns bons trechos garimpados de Memórias sentimentais de João Miramar:

“No desabar do jantar noturno a voz toda preta de mamãe ia me buscar para a reza do Anjo que carregou meu pai.”

“No silêncio tic tac da sala de jantar informei mamãe que não havia Deus porque Deus era a natureza.”

“E mostrava-nos versos dizendo-se partidário da poesia vagabunda mas cheia de alma.”

“Albornoz e cafetãs de pele cúprica turcavam no expresso internacional guardanapando suores velhos.

“O lago gilette monoculava para o sol entre litografias convexas.

Montanhas espetavam tetas para a sede azul do céu.”

“O céu jogava tinas de água sobre o noturno que me devolvia a São Paulo.”

“Mas o dr. Pilatos confiara-me secretamente na travessinha alcoviteira dos corretores que estávamos à beira de um abismo econômico nacional.

– E desta vez é a bancarrota, meu amigo!

Mas o esganiçado Mendes Mindella sócio águia de Trancoso Carvalho retrucara-me adiante que qual o quê – São Paulo era como um gato, caía de um quinto andar e saía miando.”

10.2. Sempre que possível, sugiro comprar livros em edições comentadas e com textos adicionais, pois eles ajudam a entender melhor a obra. A edição de Memórias sentimentais de João Miramar que li tem textos suplementares de Menotti Del Picchia, Mário de Andrade, Haroldo de Campos e Antonio Arnoni Prado. O texto do Haroldo foi essencial pra digerir e contextualizar o que eu tinha acabado de ler.

10.3. Nem sempre os textos adicionais são bons, claro: a edição da editora Antofágica de O grande Gatsby traz um prefácio maçante da Rita Von Hunty, obcecada com a crítica ao “capital” na obra.

11. Abaixo, algumas músicas que embalaram esta postagem. Escolhi colocar aqui apenas material de artistas ainda em atividade, que mostram ser um mito a ideia de que “não se faz mais música boa”. É verdade que a maior parte do que está no mainstream é ruim, mas há centenas de artistas, conhecidos ou quase anônimos, fazendo música boa em diversos gêneros. Não desista da modernidade se refugiando apenas em baús.

Rendez Vous – Workout

Rendez Vous – The others

VR SEX – End vision

VR SEX – Snake water

VR SEX – Live in a dream

VR SEX – Dog complex

Kendrick Lamar – Alright

Caribou – Bees

Tamaryn – Softcore

Second Still – Recover

Matthieu Faubourg – Yaret

Matthieu Faubourg – Caffeine

Stazzia e Basic 96 – You can’t stop the groove

11.1. Rendez Vous é uma banda pós-punk de Paris que faz a fala do David Bowie “não gosto de músicas, mas de trechos de músicas” parecer desvario. Tem algumas músicas perfeitas de ponta a ponta, faz ótimos clipes baratos compilando vídeos existentes – implosões de prédios em The others, pessoas se socando nas ruas em Distance – e precisa vir pro Brasil.

11.2. VR SEX, de Los Angeles: só posso dizer que é uma das melhores bandas do mundo e que até agora não tem nenhuma música ruim. Nenhuma. Deus está nas grandes coisas também. Lançaram um álbum em 2022 que torna o uso de drogas ilícitas pra aflorar fortes emoções totalmente desnecessário. Dois copos de cerveja só pra relaxar os músculos no culto já estão de bom tamanho. Lembra Red Lorry Yellow Lorry, que também é uma das melhores bandas do mundo (Spinning round, Monkey’s on juice, Hand on heart, This today, Talk about the weather, etc.).

11.3. Kendrick Lamar lançou um álbum novo, duplo, há poucos dias, mas ainda não o ouvi. Anos atrás conheci duas músicas suas, não gostei e já supus que minha amostragem fosse reveladora. Não era. Há poucos meses me deparei com Alright, Swimming pools (Drank) e DNA., que achei ótimas na hora e aí me levaram a procurar a discografia dele. Tem letras e clipes justiceiros que superdimensionam problemas raciais, mas a arte, se bem-feita, aceita quase tudo. E, felizmente, artistas justiceiros ainda não cobram um passe identitário pra decidir quem pode apreciar seu trabalho (alguns talvez até quisessem). Aliás, a melhor música do EP Isso, dos rappers do SKiT, é justamente a mais justiceira, Nota de escurecimento.

11.4. Second Still é uma banda de pós-punk de Los Angeles – já devem ter esbarrado muito com o VR SEX – que faz algumas músicas que parecem saídas do final dos anos 80. A música Recover é demais – a partir dos 3min, quem está sentado quer se levantar e quem está de pé quer se deitar –, mas há outras também ótimas. Conheci no Spotify, por acaso, ouvindo playlists no escuro.

11.5. Matthieu Faubourg é um DJ francês que mora em Hamburgo e faz um dos melhores subgêneros de música eletrônica: house music. Pra quem gosta, recomendo procurar a discografia dele no Spotify. Em 2022, Faubourg lançou o EP Modern music for dreamers, onde está a Caffeine mencionada acima.

11.6. Bom, uma banda que também embalou esta postagem e sobre a qual infelizmente tenho que me referir usando o verbo no passado – era uma banda – é a 16 Horsepower (1992-2005), que já citei em algum outro texto. Nos últimos dias ouvi demais Heel on the shovel. O 16 fazia um country rock realmente de tirar o chapéu.

12. E foi assim que as notas esticaram a postagem. (Falei na postagem anterior que responderia meus e-mails acumulados em fevereiro, mas responderei em julho, depois das férias, e quero mandar um abraço sincero a todos que têm paciência.) Obrigada pela leitura e até a próxima!

Sobre a recomendação de ler autores negros e mulheres (Série “Radical do Movimento Negro”, texto nº 7)

Não existe código que defina o bom escritor. O que existe são manuais condensando métodos que aumentam a probabilidade de um trabalho se transformar em texto legível e no mínimo interessante para o público visado. Mesmo os doutrinadores da escrita não querem se comprometer demais com normas e correntes quando vão aconselhando alunos, pois sabem que alguns dos ilustres de hoje foram justamente pessoas que romperam com aquilo que se ensinava e reproduzia em escolas, enquanto figuras diligentes e sistemáticas que matam qualquer professor de enfado com mil perguntas sobre a sedução dos preâmbulos e remates acabam escrevendo livros cujos exemplares repetidos os donos de sebos não aguentam mais empilhar. Há um caminho seguro que provavelmente vai dar lá, mas um ou outro insolente que rasga o mapa e vai se guiando pelo olfato também pode chegar.

Essa elasticidade técnica e estética às vezes é uma maçada porque fica difícil desvendar os próprios gostos e desgostos com uma argumentação que ultrapasse a conversa com o carteiro que pergunta se são bons os livros que ele leva à porta da sua casa. Um leitor não bitolado que emenda clássico atrás de clássico e de repente se deslumbra com uma literatura moderna pode se complicar pra explicar essa traição ao movimento.

Se não existe código que garanta o escritor excelente, tampouco existe código que garanta a constância do leitor – pelo menos daquele não bitolado. Quem está acostumado às capitais europeias pode passar uma tarde enternecedora em Hortolândia. E depois ficar aborrecido ao não conseguir convencer familiares curiosos sobre “o que é que tinha pra fazer” na cidade. Os pouco exigentes se contentam com o “gostei porque é bom” e o “não gostei porque é ruim”, mas pra outros o detalhamento da afeição ou do desagrado é um dever – embora nem sempre fácil de cumprir, porque algumas coisas têm aquele não-sei-o-quê custoso de decifrar.

A expectativa costuma funcionar – falta de fôlego na Europa, um passeio controlado em Hortolândia –, mas notícia mesmo é quando ela é frustrada ou superada. O escritor Filho do Outro Escritor dá aulas de escrita criativa, causa alvoroço nos bairros de classe média das capitais sudestinas, tem uma rede de referências – e não empolga. É enfatuado; pra não usar do estilo repolhudo, em baixa, simula anorexia, ressecando os parágrafos; esnoba qualquer coisa do nada e avisa algumas vezes que vai empregar um clichê pra que o leitor saiba que ele reconhece clichês e tem nojo deles. Aí na outra ponta aparece uma favelada com experiências quase todas limitadas à pobreza, sem mentor ou inspiração de vertente, que manuscreve com certo fluxo e deixa abertos alguns raciocínios – ela prende seu olhar, se assenhora do seu tempo e vai habitar sua memória pra sempre. Esta é Carolina Maria de Jesus (1914-1977), reencontrada. Se descrevessem seu estilo e história sem me mostrar os textos, apostaria no meu desagrado a seus livros. Lendo e passando alguma abstinência nos momentos de não leitura – porque precisava trabalhar, cuidar de afazeres domésticos, prestar atenção nos jornais que não deixam ninguém morrer de tédio no Brasil –, tudo mudou de figura: ela encanta escrevendo de uma forma que professor nenhum recomendaria.

É até excitante ter algumas teorias pessoais assim abaladas. Só recentemente descobri que o Drummond dos livros didáticos era o pior Drummond, e que a pedra no caminho que atrasou nosso romance foi o próprio poema No meio do caminho. Nenhuma curadoria poética excêntrica vai mais impedir que fiquemos juntos agora que cheguei à fonte.

O que Carolina Maria de Jesus observou e escreveu tendo apenas dois anos incompletos de estudo formal é uma dessas surpresas que alguns locais inesperados guardam pra quem tem interesse e disponibilidade em procurar. Consagrada após a descoberta de seus cadernos pelo jornalista Audálio Dantas no final dos anos 50, recebeu elogios de Ferreira Gullar, Clarice Lispector e Manuel Bandeira, e teve seu livro mais famoso, Quarto de despejo, traduzido pra 13 idiomas. Depois de sair da favela do Canindé e comprar uma casa melhor, não demorou a voltar à pobreza e a ter que catar lixo nas ruas pra complementar a renda familiar. Morreu em 1977 – pobre, asmática e abandonada.

O novo resgate de Carolina de Jesus aconteceu há pouco tempo, impulsionado pelo identitarismo. É possível que alguns ativistas a admirem como uma estratégia oportunista de badalar minorias porque são minorias e não por compreender seu valor, mas é equivocado confundi-la com esses calculistas do ressentimento e presumir que sua obra é “coisa de identitários”: Carolina merece a empolgação que cerca seu trabalho sem que seja necessário fazer concessões ofensivas às suas identidades. É certo que ela só viveu o que viveu – e escreveu o que escreveu – porque era negra, mulher e pobre no Brasil, mas quase nenhum leitor forçará estima aos seus textos autobiográficos somente por compaixão. Qualquer repórter pode visitar favelas com o intuito de entregar cadernos aos moradores pra que contem suas histórias de sofrimento, mas a emoção que isso vai gerar não é garantia de valor narrativo e é difícil que saiam dali muitos escritores.

Por meio da escrita e da audácia, Carolina transformou sua tragédia pessoal em registros para a posteridade que nos aliciam pelas queixas e por algum pontual lirismo. Ali vale o “o que” e o “como”, e mesmo os erros de português, quando preservados em edições, têm uma dinâmica que revela os detalhes do seu aprendizado tão peculiar. A mãe, espantada com sua inteligência quando criança, disse: “O que tem de ser, já nasce”. A frase é ruim como fórmula, mas é um curioso apontamento que pode servir pra matutar que Carolina não dependeu de enfeite, maquiagem e propaganda enganosa de militância pra criar fascínio no público. Não precisou ser inventada como boa escritora – já nasceu assim desde os primeiros diários.

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Mas a espontaneidade não é para todos. Quando existe muita vontade de vender e faltam dotes ao produto, entra em ação a equipe de campanha pra trabalhar na arte do merchandising. Anúncios de cigarros ofereciam uma experiência completa de liberdade, sucesso amoroso e financeiro, amizades entrosadas, brio. É impossível dizer quanto da queda do consumo de cigarros se deveu à proibição dos comerciais, mas podemos especular que o veto a essas histórias ao menos contribuiu pra que deixássemos de fantasiar que o tabagismo nos aproximava daquela gente confiante que parecia não dever nada a ninguém e jamais pediria uma quentinha pra viagem na rodoviária. Agora temos outro tipo de anúncio, que nos promete as delícias do jardim da moralidade e da boa cotação social se participarmos de determinada compra coletiva de autores que dizem dirigir o bonde da História. “Vai perder essa? Não durma no ponto, todos estão embarcando!”

Às vezes converso com ex-fumantes e pergunto por que começaram a fumar. Costumam dizer que não sabem direito, mas sempre lembram que na sua época “todo mundo” fumava. Assumem que aderiram a uma tendência. Ouvimos boquiabertos memórias como “no meu tempo, o professor fumava vários cigarros enquanto dava aula”. Espero estar viva pra ver jovens boquiabertos com as novas memórias de seus pais: “no meu tempo, o professor dizia que todos éramos racistas e tínhamos uma dívida a pagar”. Todo mundo está se deixando enganar por essa propaganda.

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Conceição Evaristo (1946) é uma escritora mineira, negra, que ganhou proeminência nos últimos anos graças a uma campanha voluntária de leitores e ativistas. Sua vida foi marcada pela miséria – morava na favela Pindura Saia, em Belo Horizonte –, e enquanto estudava teve que trabalhar como babá e faxineira. Tornou-se a primeira pessoa de sua família a concluir uma graduação, e em 2011 recebeu o título de Doutora em Literatura Comparada pela UFF. Foi finalista do prêmio Jabuti em 2015 e também foi homenageada numa edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Vem sendo considerada uma das grandes vozes da literatura negra e feminina brasileira.

É admirável sua trajetória vencendo obstáculos materiais básicos que muitos nem imaginam em que nível oneram e o quanto conspiram pra reduzir miseráveis a um ciclo perverso de sobrevivência e alienação, mas essa luta não redime sua fraca produção literária. Biografia sofrida, idade avançada, o timbre e o rosto da bondade, a cor e o gênero da violência histórica – absolutamente nada disso conserta um livro ruim, embora outro cenário valha: autores excelentes que têm todas essas marcas às vezes merecem ser mais cultuados, pois alcançaram o topo tendo dado largada em desvantagem.

Uma matéria na Carta Capital dizia que a escritora “atribui suas publicações tardias ao racismo institucional que se reflete na literatura”. Acha que não escreveu tão cedo e que publicou tão tarde por causa do racismo que a embargava. Alguns escritores negros prosperaram apesar do racismo porque dominavam seu ofício, mas Conceição tem a desculpa do racismo não apenas pra demorar a escrever – pelo visto também pra justificar que escreva mal. O racismo pretérito que escorreu sintomas de pobreza para a população negra brasileira e faz com que hoje ela tenha muito mais problemas por ser pobre do que por ser discriminada racialmente tem efeito no baixo acesso de seus herdeiros a bens culturais. Isso é quase indiscutível, e o “quase” aqui é só pra não cimentar que existam assuntos proibidos ao debate. Mas uma vez que uma pessoa negra conquistou esse acesso e está de posse das ferramentas necessárias pra escrever um bom livro, não há mais que se ter comiseração ou regalias avaliativas ao se deter no trabalho dela. Não é o que ocorre com Conceição, protegida por uma redoma, com a redoma cercada por ovos, com os ovos cercados por taças de cristal.

O primeiro livro seu que li foi Olhos d’água. É um livro pequeno, de contos curtos, que estava na lista de literatura do vestibular da UFSC até uns anos atrás. Peguei por curiosidade. Apesar de algumas descrições boas – não me lembro de nenhuma muito boa –, a escrita é geralmente simplória, apelativa e piegas. Tem quem goste. Peculiar é que tenha virado um culto.

Conceição põe um personagem pra falar com um erro de português não perceptível ao ouvido: “ela estava atrazadérrima”. Pessoas pensam e falam com erros, mas eles são sonoros: “pobrema meu”, “pregô as tauba”, “fazem cinco dias que ela pariu”, “ficou meia chateada”, “fui ao cabeleleiro”. O personagem de Conceição inova: o narrador externo descreve sua fala com erros ortográficos que não notamos pela audição. Não é crível que uma Doutora em Literatura Comparada erre a ortografia de uma palavra básica, então o provável é que a escritora tenha usado esse erro como estilo, de propósito. Dado o contexto, ficou sem cabimento. Quando viu outros autores escrevendo com erros ortográficos, talvez Conceição não tenha captado que o recurso não é um oba-oba e que precisa ter sentido: um narrador simples que comete erros no decorrer de todo o texto, erros de português que soam, etc. Mas o narrador de O cooper de Cida usa palavras como “turbilhão”, “desmesuradamente”, “premeditados”, “cronometrados” – e aí solta esse “atrazadérrima” quando vai descrever a fala de um personagem. Inconsistente. Mas um equívoco até suave perto da fixação com a matança como desfecho que a dona de Olhos d’água tem.

Em Di Lixão, de quatro páginas – fonte robusta, espaçamento folgado –, o personagem que dá nome ao conto é um rapaz que vive na rua. Passado ruim, viu a mãe morrer, e ao se lembrar dela pensou “ainda bem que aquela puta tinha morrido!” Sua história nas mãos de Conceição termina assim:

“Fez um esforço. Sentou. Pegou a bimbinha dolorida e fez xixi. Assustou-se. Estava urinando sangue. Passou a língua no canto da boca. O carocinho latejou. Num gesto coragem-desespero levou o dedo em cima da bola de pus e apertou-a contra a gengiva. Cuspiu pus e sangue. Tudo doía. A boca, a bimbinha, a vida… Deitou novamente, retomando a posição de feto. Já eram sete horas da manhã. Um transeunte passou e teve a impressão de que o garoto estava morto. Um filete de sangue escorria de sua boca entreaberta. Às nove horas o rabecão da polícia veio recolher o cadáver. O menino era conhecido ali na área. Tinha a mania de chutar os latões de lixo e por isso ganhara o apelido. Sim! Aquele era o Di Lixão. Di Lixão havia morrido.”

Seu papel como leitor é sentir pena de Di Lixão tendo por base essas frases secas. Ele morre; tenha coração. No conto seguinte, Lumbiá, que não chega a cinco páginas de texto, há esse final:

“O sinal! O carro! Lumbiá! Pivete! Criança! Erê, Jesus Menino. Amassados, massacrados, quebrados! Deus-menino, Lumbiá morreu!”

Num terceiro conto, a personagem é assassinada. Em um quarto conto, ocorre um suicídio coletivo. Num quinto, o protagonista toma veneno, e assim são suas últimas linhas:

“O outro podia levar os poucos pertences de Ardoca. Podia tomar-lhe tudo. Ardoca não tinha mais nada, nem a vida. Naquela tarde, ainda no trabalho ele resolvera tudo. Num gesto desesperado e solitário bebera lentamente um veneno e decidira levantar para morrer no trem. O outro levava os pertences de alguém que já despertencia à vida e jazia no banco da estação. O barulho da máquina sobre os trilhos entoava uma música réquiem de descanso eterno para Ardoca. Amém.”

Em Olhos d’água, Conceição foi surda para a máxima de André Gide de que “não é com bons sentimentos que se faz boa literatura”, e parece ter radicalizado a receita de Cortázar de que “o conto vence por nocaute”, talvez achando que quanto mais nocauteasse personagens negros, mais potência dava às histórias. Nem Agatha Christie matou tanta gente em tão poucas páginas.

Ela disse no Roda Viva que muitas vezes escreve chorando, o que não admira, pois extermina quase todo mundo que tenha nascido debaixo dos seus dedos. O personagem que ganha consciência e se percebe sua cria já pode se antecipar entrando em contato com a funerária pra assinar um plano, pois é possível que seja mais uma vítima da chacina dessa autora que tenta comover o leitor com soluções drásticas. “Como terminar um conto que não sabemos mais desenvolver? Matando o personagem”, diria seu manual de escrita, um fôlder.

Fiéis um pouco mais transigentes, do tipo que ficam no portão tentando atrair passantes para o culto enquanto os radicais estão lá no fundo do galpão lavando os pés do líder, pediram que eu não me apegasse somente a Olhos d’água e lesse Ponciá Vicêncio, publicado pela primeira vez em 2003. Li. É melhor que o livro de contos, mas ainda assim não justifica a celebração sem emendas à escritora, pois a história não tem a grandeza que lhe embutem, utiliza para Ponciá algumas situações que ocorreram a Carolina Maria de Jesus – homenagem ou falta de imaginação? – e termina de maneira preguiçosa, talvez contando com a moleza do leitor permissivo. Isso porque o livro, ao que parece, foi editado. Resta à imaginação fazer conjecturas sobre como eram livros regulares antes de passar pela moldagem da edição.

Poderia dizer que gostei do prefácio escrito por Conceição em parceria com Vera Eunice, filha de Carolina Maria de Jesus, para os diários de Casa de alvenaria, publicados em 2021 pela Companhia das Letras, mas justamente por desconfiar do peso da mão dos editores é que não sei o que é estilo dela e o que é reparo de editor. Afinal, a escritora já claudicava no meu conceito, e ainda começou um texto sobre Toni Morrison, pra Folha de S.Paulo, assim: “Uma vez escutei uma afirmação a qual não entendi logo o significado da mesma”. O velho conselho de tentar cativar o leitor logo na abertura deu certo, a frase é fascinante. E, depois de um toque na seção de comentários, foi corrigida. Nada como a autoestima daqueles que enviam textos sem revisão para o jornal publicar – parece até coisa de personagem de propaganda de cigarros.

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É claro que quando avaliamos criações artísticas ou intelectuais estamos tentando persuadir o leitor a dar mais atenção a pequenas joias que podem passar despercebidas na obra – e que, somadas, vão justificando os festejos de um autor – ou a abandonar predisposições muito positivas só porque alguém de renome disse que determinado trabalho tinha qualidade – tem quem só saiba diferenciar ouro de latão depois da análise de supostos ourives. Mas os trechos de Conceição selecionados acima não têm tanto como meu objetivo disciplinar o gosto dos outros, numa expressão usada pelo crítico Agrippino Grieco. Ambicionar que leitores deixem de correr desembestados para as prateleiras dos livros ruins é como querer parar o vento com as mãos, e não é dessa causa impossível que estou me ocupando. Ou seja, não tento arrasar o leitorado da escritora, pois estou ciente de que todos os livros têm espaço no mercado naturalmente hierarquizado da apreciação estética e argumentativa. Tem quem queira publicar? Publique, atenda à demanda.

O que me recuso a compreender é a ausência de crítica desvantajosa sobre a obra de uma autora que já foi recomendada em vestibulares, que um grupo tentou alçar à Academia Brasileira de Letras com um abaixo-assinado – se é assim vamos fazer enquetes na internet – e que ativistas conseguiram entuchar nos meios de comunicação só em tons elogiosos. Nem Machado de Assis alcançou essa unanimidade – o já citado Agrippino o criticava, bem como Guimarães Rosa –, então somos abraçados sem consentimento por qual maldito espírito cultural pra que essa questão seja interditada? Na seção de comentários de um perfil que divulgava uma entrevista de Conceição, postei: “tem uma louvável história de superação da pobreza, mas escreve muito mal”. Em poucos minutos recebi o teto dos xingamentos: “nazista”. Não vale a pena tentar me defender de uma excrescência dessas, mas tenho certeza que nenhum real adepto do nazismo vai me enviar convite pra participar do movimento por causa de um inofensivo comentário sobre as habilidades literárias de alguém.

Essa tática de querer nos catalogar em ideologias extremas que nunca nos reconheceriam como membros não é usada apenas pra criar constrangimento pela suave iconoclastia, mas pra mostrar aos outros que estão acompanhando a discussão o que acontecerá se eles se atreverem a fazer críticas a alguns semideuses. Não zelo muito pela minha reputação nesse setor, mas a maioria das pessoas não é assim – não é à toa que depois que apaguei as luzes, fechei o bar e estou indo pra casa, dos becos aparecem leitores trajando sobretudo, capuz e óculos escuros pra revelar: “concordo, mas não conte pra ninguém, finja que nunca me viu, nunca tivemos esta conversa”.

Autoritários que por séculos usaram o artifício da autocensura pra manter multidões sob seu jugo ficariam maravilhados ao constatar como as redes sociais encurtaram os caminhos que levam a certas retrações – sem violência, expulsão da cidade ou apelo estatal. Projetos de tiranos agora têm total controle sobre algumas pessoas, não precisando exibir facas, tacar fogo em suas casas, raptar suas filhas e derramar sangue. É tudo na base do terrorismo psicológico e da ameaça de exposição feita por um coletivo que pode fazer danos a quem quiser sem se responsabilizar por nada.

Neste regramento penal – popular, identitário e on-line –, o preso ideológico não tem direito à identificação dos responsáveis pela sua punição. Como identificar juízes que têm milhares de dedos e aplicam sentenças numa sombra que não se agarra? Se muita gente é capaz de te condenar em uma sentada, você não saberá individualizar quem te condenou. É mais seguro se censurar e deixar que vândalos tomem conta de um espaço que também deveria ser seu. A fogueira foi abolida, mas animais sociais continuam não suportando a ideia da humilhação e do banimento – é jogando com essa natureza grupal que o novo tribunal inquisitório aterroriza.

Não tememos mais O Rei, tememos A Internet. Era tão mais fácil fazer panfletos e piadas contra o personalíssimo rei; agora quando se quer atacar a figura tirânica que mais nos molesta parecemos o navegador ensandecido que tenta golpear o mar em fúria com um bastão.

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Ninguém parece achar necessário recomendar “ouça mais músicos negros” ou “aprecie esportes em que negros atuam”. Negros que se destacam nesses setores não só alcançaram o posto por merecimento como devem ter obrigado muitos racistas de fato a corrigir suas ideias de superioridade racial ou, ao menos, a ter que morder a língua por um instante quando viram John Coltrane tocando ou Jesse Owens correndo. Se é preciso receitar a categoria generalizante escritores negros pra que o público se dedique a ela é porque existe alguma barreira entre os leitores e esses autores. A barreira não é, hoje, racial – se fosse, estenderiam o conselho a músicos e atletas –, mas quem prescreve essa leitura direcionada à cor do autor tenta nos fazer pensar que é a discriminação contemporânea que não abastece bibliotecas particulares com tantos negros.

Surpreendente seria se os detentores de uma marca racial que foi oprimida por longo tempo no Ocidente e que colore tantas regiões pobres tivessem produzido e estivessem produzindo livros na mesma proporção que as pessoas brancas. Não, você não lê poucos negros porque é racista, mas porque poucos negros publicaram livros – o que não quer dizer que você seja obrigado a concentrar todos os seus esforços em ler esses poucos negros que publicaram só pra se provar “antirracista”. Deixe o pregador cobrar o dízimo, mas só pague quando achar que deve. É uma forma de respeito aos bons autores negros não fazer da negritude a sua maior importância.

E quando disserem “leia autores negros” não é exatamente Machado de Assis ou republicanos negros dos EUA que querem – ou aceitam – que você leia. A recomendação é ideológica, e os proponentes da campanha estão se autopromovendo e tentando insuflar o nicho estratégico onde conseguiram se inserir. Já quem veicula de graça esse tipo de gentileza paternalista – que só não é considerada ultrajosa porque delírios impedem a soberania do raciocínio – forja que age por um voluntariado despretensioso. Na sociedade do espetáculo a aparência de virtude é uma característica cada vez mais requisitada, então mesmo o tal homem branco de classe média, não escritor, que diz “leia autores negros” pode estar se lançando à venda. A vida não é só um palco, é também um grande mercado.

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Da mesma forma, provavelmente não é por machismo que você lê poucas autoras. Dos 47 livros não infantis que li em 2021, 10 foram escritos integralmente por mulheres. Metade deles é de regular a ruim, e três já vão para a conta (positiva) de Carolina Maria de Jesus. Dos 40 livros não infantis que li em 2020, apenas 4 foram escritos integralmente por mulheres: Lugar de fala, da ideóloga Djamila Ribeiro, Poemas, de Wislawa Szymborska, Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk, e Outro silêncio: haikais, de Alice Ruiz. Só o primeiro título não se aproveita.

Leio majoritariamente homens por acaso – não costuma me interessar o gênero do autor – e por afinidade temática. Gosto de material de divulgação científica, por exemplo, e os livros que leio sobre esse assunto são de imensa maioria masculina. Não porque eu delibere privilegiar homens, mas porque existem ramos nos quais mulheres livres pouco querem se envolver ou pouco querem divulgar para um público mais amplo, fora de gabinetes e laboratórios. A divulgação científica “sofre” dessa situação. Quando dou uma espiada na seção Ciências da minha estante, não vejo com facilidade nenhuma mulher ali. Depois de alguma busca aparece Biologia, de Campbell, que tem mulheres entre os autores, e livros da Janet Browne, que é uma historiadora da ciência. É mais ou menos isso, e para a maioria dos homens presentes não consigo puxar da memória nenhuma mulher que tenha equivalência em trabalho e prestígio entre leigos. Quem são as “versões femininas” de Sagan, Harris, Pinker, Dawkins, Sapolsky ou Sacks?

Então “ler mais mulheres”, como algumas feministas têm pedido, me obrigaria a abrir mão da divulgação científica, pois poucas mulheres publicam livros sobre esse assunto. O mesmo sucede com leitores de ficção russa, ficção científica, crítica marxista, técnicas de xadrez, filosofia, história da Segunda Guerra, história do jazz, conservadorismo, manuais de direito penal, cursos de direito civil, peças teatrais ou textos bíblicos: ler mais mulheres faria com que tivessem que abandonar grande parte daquilo que lhes importa pra atender a uma agenda promovida por pessoas obcecadas com diversidade que são capazes de sacrificar a relevância e a qualidade de quase qualquer coisa em nome dessa causa estética. Uma causa que não busca qualificar ditas minorias sociais pra que cresçam dentro de áreas onde são minorias numéricas, mas opta pelos atalhos não só de variadas cotas como de querer nos forçar, incitando sentimento de culpa, a dar dinheiro e atenção pra gente que mal merece o rótulo piedoso de “esforçada”; gente que sem a comoção da simbologia histórica do fenótipo que carrega seria apenas mais do mesmo meh no seu ramo profissional.

Pedem que leiamos o que não queremos pra satisfazer o corporativismo feminista; que percamos muito tempo com essa Nova Literatura Feminina, que é tantas vezes uma remodelagem dos livros de mulherzinha, mas agora repisando exaustivamente o demônio do meio-dia feminino, as agruras da maternidade e a desilusão matrimonial da balzaquiana que pensa merecer marido melhor porque tem entranhada a ideia do resgate do príncipe; que troquemos clássicos literários, onde homens sobejam, por estudos de gênero, onde mulheres abundam; e, ainda, que nos apressemos em louvores às primeiras “icônicas” que aparecem dentro de uma área costumeiramente dominada por homens.

Aquelas que consideram a seriedade e a maturidade intelectual do seu gênero não vão adotar o comportamento desesperado de elogiar de antemão outras mulheres quaisquer, como se fossem anões carentes que sentem obrigação de se amar numa terra de gigantes. Supor que é preciso chamar de “genial” cada mulher que surge na área da Informática ou da Física pra assim “apoiar mulheres” pode ser um negócio furado: uma estudiosa ordinária que é chamada de genial na marra não impedirá que os atentos e os verdadeiramente geniais notem a farsa que está sendo fomentada, nem vai dissuadi-los de comentar, ainda que pelos cantos, sobre a piada da consagração de uma mulher comum que se mantém de pé num pódio de que não é digna graças às muletas do gênero. Não haverá escândalo de “eu mereço estar aqui, sim!” que faça a fabricação da mulher prodígio soar natural pra quem não está dopado.

É inegável que opressões históricas têm responsabilidade na proporção demográfica que vemos hoje em algumas profissões, na política e nos ramos do conhecimento. Chega a ser malicioso ler darwinistas econômicos alegando que não existem banqueiros negros porque eles, os negros, não querem ser banqueiros, e que não haveria problema nenhum nessa disparidade natural entre grupos raciais. E depois de milênios de domínio do espaço público pelos homens é possível que exista uma influência inconsciente e coletiva de que o poder é uma prerrogativa masculina. Mas vamos graduar um pouco essa abordagem em 8 tópicos:

1. Embora mulheres de várias culturas tenham desenvolvido métodos de cura testando plantas e cuidados no âmbito familiar, a prática da Medicina enquanto profissão é historicamente masculina. Isso não impediu que elas, após conquista de direitos igualitários no Ocidente, decidissem seguir essa carreira, e hoje muitos cursos de Medicina têm mais mulheres do que homens entre seus estudantes. Portanto, não é porque uma profissão é historicamente masculina que mulheres não se interessarão por ela num contexto de liberdade de escolha.

2. Mesmo em países considerados modelos de igualdade de gênero nas oportunidades, muitas profissões não têm “paridade de gênero” orgânica, como utópicos imaginam que deveria ocorrer numa sociedade livre. Mulheres tendem – não confundir tendência com destino – a determinadas carreiras, homens tendem a outras. É difícil que diferenças naturais não influam em diferenças culturais prolongadas e acabem afetando, goste-se ou não, a escolha estatística das profissões, inclusive em sociedades liberais onde mulheres são incentivadas a seguir as carreiras que desejam. Talvez isso ajude a explicar por que o movimento feminista não precisa, atualmente, levantar bandeira por mais mulheres na Medicina.

3. Se a Medicina brasileira é uma área onde a proporção de homens e mulheres está balanceada, o mesmo não se pode dizer das especialidades médicas. Enquanto mulheres são maioria em Dermatologia, Pediatria, Endocrinologia, Alergia e Genética, em quase todas as especialidades cirúrgicas homens são cerca de 90% dos profissionais, bem como eles são imensa maioria em Ortopedia, Urologia, Medicina Esportiva e Perícia Médica. Dá pra especular a razão de alguns padrões observando o relatório de Demografia Médica no Brasil de 2020, mas espero que o feminismo da quarta onda não se meta a tentar corrigir esse tipo de diferença usando suas ferramentas de nivelamento. Se não existe nenhuma barreira objetiva pra que mulheres escolham seguir carreira como cirurgiãs, ortopedistas ou urologistas, não há por que aplicar a régua do gênero nesse setor.

4. Feministas não só infantilizam mulheres ao transformá-las em vítimas perpétuas e intocáveis como também rebaixam os espaços e ramos onde somos maioria. Homens que são minoria em carreiras predominantemente femininas não costumam se rebelar sobre essa disparidade, mas feministas não podem ver uma profissão com poucas mulheres que começam a exigir presença nela, às vezes até fazendo parecer que aquilo em que homens se destacam é mais interessante e é lá que a vida de fato acontece. Nas entrelinhas de alguns discursos, de repente a pedagogia infantil soa como uma carreira menor e até meio estúpida.

O ativismo não prioriza apresentar a mulheres outras opções de trabalho que contornem o estereótipo feminino, mas prefere marcar terreno por meio do salto com varas. Depois de demandar paridade, demandam apreço: quem não quiser seguir mulheres no futebol ou não estiver “acompanhando a produção literária de mulheres” será comparado a medievais. Se disser que gosto muito do voleibol feminino e da ginástica rítmica feminina, mas que acho o futebol masculino mais interessante que sua versão feminina, há uma grande chance de ganhar aulas sobre sororidade para as quais não me inscrevi.

5. Seria ótimo encontrar mais mulheres na política, um ramo que diz respeito a todos. Feministas da quarta onda concordam, mas preferem resolver isso por meio da representatividade forçada, implementando cotas nas candidaturas e no Congresso. Acham que se mulheres são 50% da sociedade, obrigatoriamente elas deveriam ser 50% do quadro político. Como a proporção não é satisfeita de modo espontâneo, creem que ela deve ser imposta por providências imediatas, alterando a lei de oferta e procura. É uma engenharia social que começa a construir prédios pela cobertura.

O Congresso atingir a proporção de gênero da sociedade por meios artificiais é um equívoco iliberal – ainda que bem-intencionado – e clubista. Não faz sentido tratar mulheres como um povo, habitantes de um estado específico que demandaria representação compelida por lei, como se o fato de termos vaginas ou vestimentas associadas ao feminino nos unisse em política e cultura. Nenhuma deputada do PSL me representa apenas porque, como eu, tem útero e usa batom. Fazer cálculos estéticos de gênero para o Congresso – ou para a universidade, ou para profissões – soa quase tão aberrante quanto querer que esses lugares também reflitam a proporção de gordos e de idosos da sociedade. Os grupos das mulheres, dos gordos e dos idosos têm, dentro deles, experiências comuns e particulares, mas elas não são grandes e profundas o suficiente pra que sejam tratadas como uma artéria que passa por todos os membros, transformando esses grupos em homogêneos políticos. Mulheres conservadoras têm mais identificação com homens conservadores do que com mulheres de outras disposições políticas. Mulheres progressistas têm sintonia ideológica quase nula com mulheres reacionárias.

Se alguns idealistas pensam que forçar mais mulheres no Congresso significaria aumentar a possibilidade de descriminalização do aborto, talvez seja o momento de trocar os óculos. Porque mulheres não nos identificamos como grupo ideológico, não temos, na maior parte do tempo, os mesmos interesses. Evangélicos só crescem no Brasil, e a força que eles têm nessa que é uma das suas bandeiras principais quando em conflito com progressistas – a pauta “pró-vida” – será usada pelas mulheres evangélicas que entrarem na política por cotas. Candidatos unidos pela paixão às armas têm mais coesão política do que candidatas que se assemelham por possuírem características femininas. E se uma candidata pró-armas tende a fazer muito mais pelas armas do que pelas mulheres ao chegar ao Congresso, de que serve tê-la enfiado lá, à revelia do voto popular, por ser mulher? Não somos um clube e não é por meio de atalhos que mulheres deveriam participar da política.

É possível que o aumento artificial de mulheres na política influencie outras a enxergar aquele espaço como uma opção? É possível – até certo ponto a representatividade altera nossa visão e nossas escolhas, especialmente quando somos fracos e inseguros. Basta que você seja premiado num concurso nacional de contos de terror pra que um primo comece a pensar “ora, se até meu parente Zé das Quintas consegue, talvez eu também consiga”. Se você ganhar o Nobel da Paz, alguns habitantes do seu país, do seu estado e principalmente do seu município acharão que têm uma pequena parte do seu mérito, e muitos vão se cogitar, em sonhos, futuros candidatos à condecoração, como nunca tinham feito antes. Uma mulher de 60 anos que chega ao pico do Everest pode despertar outras mulheres dessa faixa etária a buscar o mesmo objetivo. A representatividade inspira.

Mas em papéis em que se exige não apenas estética – senão instrução, liderança e criatividade – é melhor que o sujeito representativo alcance seu posto por merecimento e capacidade. Essa parte do processo tem que ser justa pra que a consagração seja quase inabalável. Estamos certos de que o louvor ao mulato Lima Barreto se deve à sua inteligência. Desconfiamos que o louvor a alguns modernos “escritores oriundos das minorias” não se deve ao talento quando eles parecem só ficar de pé no palco com a ajuda de um colar cervical, talas e sendo segurados por três auxiliares suados.

Um público alienado pela campanha militante nem sabe se esses premiados são bons, mas já os vai festejando. Se alguém descobre, sob a solidão do abajur, que está lendo uma porcaria, provavelmente optará por manter silêncio. Criticar as criações artísticas de oprimidos históricos pode provocar a ira de quem só sabe contrapor através de urros, e também pode, dizem terroristas ideológicos, “ajudar o outro lado”. Imagine quão atrofiado está o juízo de uma pessoa que deixa um abjeto como Bolsonaro pautar os seus apoios e gostos, e aí pensa que esse circo vale o ingresso porque é uma forma de “combater o bolsonarismo”. A vida é muito curta pra se anular em nome disso. Logo retomo este ponto.

6. Proporcionalmente, mulheres ainda não têm o mesmo interesse que homens em política. Convido o leitor a ir a uma biblioteca pública e sentar próximo à seção de jornais e revistas. Contabilize, num dia, quantos homens e quantas mulheres leem revistas especializadas em política e cadernos de política dos jornais. Aliás, ao meramente contabilizar quantas pessoas de cada gênero leem jornais o leitor já notará uma diferença. Fatos feios continuam sendo fatos.

7. Mulheres que escolhem carreiras de Humanas e denunciam a falta de mulheres nas Exatas não deveriam, pra começo de conversa, migrar para as Exatas a fim de melhorar a paridade de gênero nessa área? Seja a mudança que você quer ver no mundo.

8. Algumas minorias que demandam privilégios no presente com base em opressões históricas são mais capciosas do que outras. É o caso de muitas feministas. Enquanto a maioria das pessoas negras tem a própria condição socioeconômica como provável sinal dos danos prolongados da escravidão e do racismo científico – cujos efeitos perduraram mesmo depois de oficialmente superado –, a maioria das mulheres burguesas pouco tem do que reclamar sobre si. Mas elas não só protestam pelo seu estado de vassalagem ante um patriarcado que se acumula nas paredes e fissuras – elas também se colocam com alguma prepotência e espírito nonsense no balaio de oprimidos que mal têm onde cair mortos.

Pessoas negras honestas, não cooptadas pelo identitarismo, podem dizer que raramente aparecem em cursos de Engenharia e na direção de empresas porque é difícil superar a pobreza e todos os problemas advindos dela. Uma pobreza que é sintoma de um racismo largamente praticado no passado – insisto – e que aumenta a chance de integrar uma família desestruturada, estudar em más escolas, não ter acesso a bens culturais que elevam a posição social, receber nutrição inadequada, ser vítima de violência doméstica e sexual, aceitar os piores empregos disponíveis. Mas qual é a desculpa que uma mulher de classe média tem pra não estar em ramos dominados por homens e não chefiar a própria empresa? Ela pode dizer: “é que não me interessam as áreas dominadas por homens; prefiro me dedicar à família ou ao trabalho delimitado a chefiar uma empresa – não segui nesse caminho porque eu não quis”. Ou pode cometer estelionato moral: “a culpa é da mão invisível do machismo”. Uma mulher em situação financeira confortável pode pedir ao movimento feminista pra protegê-la de danos como assédio sexual, violência doméstica, estupro e padrões de beleza exagerados. Mas geralmente soa vigarice alguém assim alegar, nestes tempos, que tem obstruída sua liberdade de escolha na carreira “por causa dos homens”.

*

Por que deveríamos “ler mais mulheres”, “prestigiar profissionais do sexo feminino” ou elogiar a criação de datas comemorativas como “agosto, mês das tradutoras”? Essas recomendações são inúteis pra escritoras, médicas e tradutoras de excelência – reconhecidas pelo próprio valor –, e só servem pra elevar, às custas da qualidade, mulheres dependentes da publicidade farsesca de um movimento que só consagra incompetentes mediante a exigência de inúmeras concessões. Quantas concessões foram necessárias para reputar Conceição Evaristo como excelente escritora que não merece nenhuma crítica? A quantas concessões se obrigam estudiosos que leem os textos de Silvio Almeida e “não percebem” que ele é anticapitalista, mau observador da realidade e “anacrônico crônico” sobre a questão racial? Quantas concessões fizeram alguns anestesiados jornalistas da Folha de S.Paulo que elogiaram o ideólogo negro Frank B. Wilderson III quando ele disse que brancos não filmam agressões de policiais contra negros por justiça, mas “porque têm fetiche em ver negros sendo agredidos”, que “relações entre brancos e negros são sempre parasitárias” e que é “escravo da própria esposa” porque ela é branca?

Tais concessões partem da política da pena, mas quando a pena se torna vezeira e uma espécie de direito adquirido, alguns passam a fazer concessões por medo – torna-se arriscado criticar. Quem se atreve às vezes almeja ser chamado de corajoso, mas provavelmente será esculachado como cruel e perverso.

Essa política exige uma relação vertical, pois temos pena de quem está abaixo de nós numa dada situação, contínua ou temporária. Isso pode ter efeitos positivos quando se trata de caridade – damos dinheiro a um pedinte porque temos pena da sua condição inferior à nossa – ou de consideração pelo sofrimento alheio – você tem pena do colega de trabalho cuja mãe morreu. No campo intelectual e artístico, entretanto, a política da pena é humilhante. É ela a responsável por fazer adultos serem tratados como crianças do jardim de infância que têm todos os seus desenhos elogiados pela professora, não importa se feitos com capricho ou com desleixo, e é ela a responsável pela ausência de críticos de porte que coloquem certas “escrevivências” – neologismo-crochê de Conceição – sob a mesma lente utilizada pra analisar outros textos.

Se é preciso conceder tratamento especial pra intelectuais e artistas de determinadas identidades, parece que os favorecedores usam como analogia o preceito legal reservado às pessoas com deficiência – o princípio de “tratar desigualmente os desiguais”. Toda essa cortesia, esse finjo-que-não-estou-vendo, esse anúncio de que o rato pariu uma montanha é uma confissão: os benevolentes concessores acham que mulheres, negros e outras minorias são desiguais intelectualmente. Que esses grupos foram historicamente desiguais em direitos todos já sabemos, mas a novidade dos últimos anos de estouro identitário foi essa declaração sutil de que eles são prejudicados inclusive na capacidade intelectual e por isso precisam ser ajudados com júbilos, contratos, espaços e premiações imerecidas.

Ter ciência de que se é favorecido de maneira injusta por misericórdia abala o orgulho de qualquer pessoa sadia, mas os heróis das letras e das artes que jornais e cadernos literários tentam nos empurrar aquietam essa voz interior por meio da racionalização. Eles se esforçam pra acreditar que são mais publicados, mais aplaudidos e mais citados porque merecem e não porque são vítimas da política da pena. Dá pra ver os vinte e oito cabos que erguem alguns deles sobre a multidão, mas você olha ao redor e está todo mundo gritando, emocionado, “estão levitando!, estão levitando!”. É atuação canastrona, e, como em rompantes coletivos, contagia.

*

Saudosistas vaticinam que a crítica intelectual e artística já vem morrendo há tempos, mas note que o que sobra dela misteriosamente não busca tratar dos livros das aclamadas minorias, a não ser de modo laudatório. Não trata de forma negativa – se trata, é num linguajar tão cheio de rodeios, tão labirinto de Escher entre névoas, que parece querer esconder numa artificial profundidade analítica o que de fato pensa da bodega que tem nas mãos.

– O que ele disse ali?

– Na verdade não entendi muito bem.

– Ele está criticando ou elogiando?

– Olha, parece que está criticando, mas não sei dizer com objetividade por que acho isso, nem sei indicar os trechos onde estariam as críticas.

– Estranho, ele costuma ser muito claro ao dar opiniões.

É uma entrevista com político. A repórter pergunta: “senhor, sim ou não?” A resposta do entrevistado sai de São Paulo, passa por cachoeiras pra chegar a Minas Gerais, faz uma caminhada até o Piauí, dança com vendedoras de acarajé em Salvador, volta de carona, dá um pulo na lanchonete pra tomar um suco e comer um pastel, retoma o assunto, coloca um ponto final, diz “bem, é isso” – e ninguém entende o que aquilo sintetiza. Nesse momento a repórter poderia forçar “senhor, imagine que tem uma arma na sua cabeça, sim ou não?”, mas peixes ensaboados não se deixam pegar.

– Ela estava grávida ou não?

– Veja bem…

*

– Afinal, é um bom livro?

– Ora, senão vejamos. “Bom” é um conceito muito relativo. Ademais…

– O senhor pode nos dizer o que considera ser um bom livro e depois revelar se esse que tem no colo se aplica ao seu conceito de qualidade.

– Mas serei eu a medida de todas as coisas? Não me tenham em tão alta conta…

A falta de clareza não serve apenas pra estofar o banal; ela é útil quando se quer escapar de penalidades. É difícil que tribunais que já estão a nosso favor consigam nos condenar por opiniões mal compreendidas que tivemos medo de assumir e que por isso enfeitamos com “hermetismo” vocabular ou com uma malandra confusão argumentativa. Advogados ficam empolgados ao discursar diante do juiz que não é evidente o que se tencionou dizer, que o cliente não tem que produzir provas contra ele mesmo e que lhe é assegurado o direito de permanecer calado sobre o que estava, de fato, opinando. Terminada a audiência, eles vão para o boteco comemorar a disputa vencida por falta de provas, e o advogado finalmente pergunta: “agora, cá entre nós – estava ou não estava criticando o livro daquela romancista identitária?”. O absolvido responde: “hehe, eu estava”. O advogado – espichado, cabelo seboso na altura dos ombros, uma pequena tiara, óculos de armação quase invisível – dá tapas na mesa enquanto gargalha com grandes gengivas, balançando o corpo e soltando inúmeros perdigotos. Pede mais uma rodada. O crítico se torna um paradigma para os que virão depois dele.

– Neste parágrafo aqui ele deprecia o livro ou é impressão minha?

– Não dá pra saber, o palavreado não deixa.

É usual ver a tática em funcionamento, e parece que a pilantragem obtém certo sucesso. Entendo quando pessoas comuns se resguardam de conceder opiniões polêmicas em público porque têm medo de ser perseguidas como Bruxas de Salém nesse recente surto que nos leva a especular sobre a circularidade histórica, mas intelectuais tagarelas evitando tais temas “delicados” e achando que basta nos alimentar com repetitivas críticas a figuras e comportamentos já gastos pra que fiquemos satisfeitos com seu “posicionamento diante das aflições deste tempo” é uma demonstração do quanto rebaixam a inteligência dos seus leitores. Realmente há uma parte da plateia que aceita ser feita de panaca, mas é vexatório se propor a pensar pra esse perfil. É como fazer o exercício de imaginar qual é o tipo mediano de leitor que você agrega – e começar a escrever só pra ele.

O debate público está com tantos críticos semelhantes que eles parecem ter saído de uma indústria de enlatados. Se você leu um, você já leu quase todos, porque os gostos, as indignações, as denúncias, os panegíricos e as formas de aderir à tentação polarizadora – que puxa ou empurra nos temas mais inusitados – são iguais. Pode fechar os olhos e apanhar qualquer um, eles estão falando as mesmas coisas. Às vezes são obviedades ululantes, às vezes é bololô enigmático; quando não é isso, são apelos chocantes, hiperbólicos e febris que não exigem muito conhecimento e que qualquer sindicalista que nunca abriu um livro seria capaz de fazer em termos até parecidos.

Tem intelectual pensando que ao apenas espinafrar o reacionarismo já está exercendo sua função crítica. Tem intelectual pensando, em sua imaginação megalomaníaca, que ao se opor a Bolsonaro está desafiando ditaduras, equivalendo-se ao chinês de sacola na Praça da Paz Celestial – nesta nova versão, ele seria O Rebelde Conhecido –, gritando impropérios contra Pinochet, dando uma banana para Geisel, resistindo aos coturnos dos marechais. Ao encontrar alguém que foi torturado, perseguido e exilado por alguma real ditadura, esse faminto pelo reconhecimento da sua valentia talvez seja capaz de dizer: “vivo a mesma situação e também estou resistindo”. Expõe-se ao ridículo quem coloca um preço muito maior no que a própria “resistência” vale, mas se você se aconchegar entre outros Napoleões é possível que seu colar de melancias inteiras não seja nem notado.

Se por um lado é cinismo fingir que Bolsonaro é um mero vereador maluco, como alguns liberais e alguns gazeteiros populares têm feito, por outro é de dar pena – o sentimento de inferiorização – quando um intelectual que só sabe falar disso e não vê mais nada na frente do nariz parece querer medalhas pela sua rotinária “bravura” ante um desgoverno já bastante malquisto no meio que esse intelectual frequenta. Dá pra exigir mais dos estudiosos que foram oferecidos pra pautar Cultura & Sociedade. Afinal, os críticos que comparam tudo de que não gostam a Hitler não têm mais nada pra desenvolver. Há muito mais coisas acontecendo simultaneamente, e as análises fáceis, exclamativas, feitas por alguns deles parecem só servir a uma audiência bruta que pretende matar tempo até ser sepultada ou cremada. Uma audiência que podia substituir tudo isso por jogos de baralho e então descongestionar a internet.

*

Assim como muito do identitarismo foi importado, logo alguns brasileiros importarão também a crítica que intelectuais de fora vêm fazendo a essa corrente há bastante tempo. Serão pioneiros das ideias velhas de estrangeiros – essa tradição do pensamento nacional. As lâmpadas estão vindo de barco e vão impressionar aqueles que na sala escura seguram uma vela acesa na cara de um problema só. Antes tarde do que mais tarde.

***

NOTAS

1. Relembro que este campo das NOTAS comenta alguns fios soltos no texto principal, mas também fala de coisas aleatórias, amenidades. Por respeito ao tempo dos leitores que só têm interesse no assunto do texto principal, vou avisar quando as notas deixarem de tratar dele pra começar a jogar conversa fora.

2. No futuro talvez escreva um texto somente sobre Carolina Maria de Jesus. E outro garimpando poemas do Drummond.

3. Estou compilando alguns xingamentos que recebo por causa das críticas a identitários. Vão de “branca pobre”, passando por “nazista”, “neonazista”, até chegar a este que veio na seção de comentários da Folha de S.Paulo: “você consegue ser ainda pior do que Hitler e Bolsonaro”.

Falei no texto principal que “nazista” era o teto dos xingamentos. Mas pouco tempo depois fui chamada de “pior do que Hitler e Bolsonaro”. Acima do que chamei de teto havia outro teto. Acima disso, talvez estaria “você é pior do que Hitler, Bolsonaro e Stálin”. E depois: “você é pior do que Hitler, Bolsonaro, Stálin e Ceaușescu”. E assim sucessivamente. Ter um cérebro de Homo sapiens e usá-lo dessa forma na seção de comentários de um jornal – que desperdício.

3.1. A propósito:

4. Aconselharia Conceição Evaristo a tentar escrever teatro. Há peças marginais que são ruins no papel, mas que ganham brilho quando encenadas. Como ainda há poucas dramaturgas – e menos ainda dramaturgas marginais –, aí está um nicho a ser explorado, já que parece haver certa sina dos identitários em criar nichos e dominar os existentes.

5. A Companhia das Letras publicou no ano passado o livro As 29 poetas hoje, com seleção de Heloísa Buarque de Hollanda. Tem alguns bons poemas ali, mas muitos são constrangedores, como este de Renata Tupinambá:

“[…] não sou cega

não sou surda

não sou muda

não me abusa

não me usa

feridas abertas foram deixadas pela

humanidade

apartheid

nazismo

genocídio

colonização

sem equidade

sem justiça social

não existe igualdade

digo sim à pluralidade […]”

Parece resultado de uma daquelas gincanas de poemas que professoras de português fazem com a turma do oitavo ano, achando que é uma boa ideia incentivar os alunos a escrever poesia antes de ler poesia – ordem de fatores que espera levar o Sol a girar ao redor da Terra pra que depois a Terra tenha interesse em girar ao redor do Sol.

Não dá pra dizer que é espantoso uma editora desse porte publicar poemas ruins por ativismo, já que mesmo antes da explosão identitária a Companhia das Letras e algumas outras casas vinham lançando livros de poemas de homens brancos em que quase nada prestava. Notável mesmo é que é quase impossível achar crítica a muitos desses livros que saíram mais recentemente – não há nem sequer um medroso “é ótimo, [pigarro] com algumas ressalvas [pigarro]” –, e no caso das 29 poetas talvez isso se deva a um acordo tácito de que não se deve atrapalhar a ascensão de quem está se empoderando no cenário cultural. Nada de deixar o direito ao ordinário como apanágio de Francisco Alvim e Arnaldo Antunes, o concretista lisérgico; vamos estender esse direito às mulheres também.

6. Lista de livros escritos por mulheres que li em 2021:

Rastejando até Belém – Joan Didion (Todavia)

Ficções: feminino (contos) – Várias autoras (SESC-SP)

Colorismo – Alessandra Devulsky (Jandaíra)

As 29 poetas hoje – Várias autoras, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda (Companhia das Letras)

Diário de Bitita – Carolina Maria de Jesus (SESI-SP)

Quarto de despejo: diário de uma favelada – Carolina Maria de Jesus (Ática)

Casa de alvenaria, volume 1: Osasco – Carolina Maria de Jesus (Companhia das Letras)

Laços de família – Clarice Lispector (Rocco)

Fome: uma autobiografia do meu corpo – Roxane Gay (Globo)

Ponciá Vicêncio – Conceição Evaristo (Pallas)

O que recomendo dali é Joan Didion e Carolina Maria de Jesus. Não gosto muito de Clarice Lispector, mas marquei trechos bons em Laços de família e acho que alguns leitores poderiam gostar do livro.

7. Em áreas dominadas por homens, às vezes centenas ou milhares deles são considerados comuns até surgir alguém de destaque. Mas quando uma mulher aparece nessas áreas, ela já é chamada, por alguns, de incrível. Probabilidade estranha.

8. É raro encontrar livros que aglutinem um ramo jurídico inteiro – cursos e manuais – escritos apenas por mulheres. Uma busca na área penal, por exemplo, só retorna homens como autores únicos desses livros volumosos, e a única mulher que encontrei é coautora de um manual. Como hoje o ramo jurídico tem proporção praticamente igual de homens e mulheres, tentei decifrar por que elas são tão desafeitas a se dedicar a essa empreitada. Também me perguntei se a razão dessa diferença é o que explica por que cientistas mulheres parecem publicar muito menos livros de divulgação científica que homens. Algumas hipóteses:

a) Ambição. Homens são mais ambiciosos que mulheres e podem sentir maior desejo de prestígio por escrever livros que se tornem material fundamental nas áreas em que atuam?

b) Desafio. Esses livros precisam de várias centenas de páginas pra abarcar o assunto todo com um grau adequado de especificidade. É um trabalho cansativo, extenso e demorado, ou seja, desafiante. Homens se sentem mais atraídos por desafios? Sabemos que homens são mais afeitos ao risco do que mulheres – isso inclui o risco de escrever uma obra desse porte?

c) Administração do tempo. As prioridades cotidianas de homens cientistas e juristas é diferente das prioridades das mulheres cientistas e juristas? Sabemos que mulheres gastam muito tempo com cuidados estéticos, afazeres domésticos e, quando mães, com os filhos. Com essas prioridades tantas vezes autoimpostas, elas provavelmente têm menos tempo e disposição para a tarefa de escrever um livro de 800 páginas.

9. Não é todo mundo que tem privilégios no tribunal identitário e pode alegar “complexidade” e falha de interpretação pra se safar de condenações. Lilia Moritz Schwarcz, aliada da causa, é tratada por muitos militantes como inimiga prioritária. Outra hora vem um texto desta série só pra essa situação excepcional dela.

10. Quando friso que o racismo largamente praticado no passado escorre efeitos socioeconômicos para o presente não estou negando que ainda exista racismo. Estou negando que ele se manifeste, hoje, na proporção que identitários apregoam. Não é surpresa nenhuma que grupos ideológicos queiram fazer diagnósticos radicais sobre a sociedade contemporânea pra depois oferecer remédios que só os laboratórios deles sabem produzir – e numa dosagem venenosa. Tem que ser muito ingênuo pra não perceber que uma diferença de proporção transformou pautas justas em seitas delirantes. Ingênuo ou mal-intencionado.

A novidade é que o identitarismo anda tão mal cotado em alguns lugares que agora seus defensores colocam aspas no termo – “identitarismo” – porque não querem se associar à marca dele, e até dizem que a crítica ao movimento é a crítica a um espantalho. Só se for porque espantalhos têm um aspecto horrendo, e não no sentido da falácia do espantalho: basta ler com atenção qualquer livro de bolso dos seus ideólogos pra começar a esquematizar o que defendem e representam em termos de anacronismo, anticiência, anti-intelectualismo, desproporcionalidade, paranoia e justiçamento.

“Identitarismo é um problema imaginário, inventado”, de repente alegam. É o velho truque de negar que um problema exista pra não ter que enfrentá-lo nem ter que admitir que dentro do seu território uma doença vai atacando a população. Também na História nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Quem acompanha o curso dos homens no tempo vive com o gosto de “já vi isso antes” na boca. Às vezes é um gosto amargo, e nessas horas guardamos o pequeno busto de Rousseau na gaveta e desengavetamos o busto de Hobbes.

11. A partir desta nota, assuntos aleatórios que não têm a ver com a postagem. Agradeço a quem leu até aqui. Pra quem vai continuar lendo, vou preparar um cafezinho. Açúcar mascavo? O quê? Sim, sim, pode pôr os pés no sofá se eles estiverem limpos.

12. Meu motivo pra começar a fumar foi que desde criança eu gostava do cheiro de cigarros. (Sei que é inusual, mas somos o que somos.) O cheiro de um bom cigarro – Dunhill, antigo Carlton – misturado a um bom perfume sempre me agradou. Parei por alguns motivos, mas continuo gostando do cheiro – não sou como o típico ex-fumante. Quando a fumaça de outro apartamento chega à minha sacada, não me importo, e às vezes até dou uma longa fungada, à Chandler Bing.

O que me irrita é quando a fumaça de outros apartamentos é de incenso. Incenso já tende a ser péssimo, mas tenho uma vizinha não bem localizada que consegue escolher os piores, e, em vez de colocar essa coisa pra empestear a casa dela, põe o palito na sacada pra aromatizar o mundo inteiro com aquele sequestrador de serotonina. Geralmente sou muito calma, mas já estive a ponto de gritar “não queremos a porcaria do seu incenso na nossa casa!” e já pensei em desenhar um panfleto pra colar no elevador – “não gostamos do seu incenso, vá cheirá-lo sozinha” –, mas basta uma ação justificada dessas pra ganhar certa fama de maluca no condomínio e nunca mais conseguir lavar a pecha – e às vezes até começar a fazer mais maluquices porque “minha imagem já está manchada, mesmo”. Vou guardar meu surto pra outra ocasião.

Suponho que a dona do palito de incenso seja mulher por uma questão de probabilidade.

13. Tem sido cada vez mais demorado terminar um texto. Isso porque quando olho textos velhos – textos que têm mais de dois anos – não costumo gostar do que leio, tanto é que reverto muitos pra rascunho. Até gosto de trechos, mas é muito difícil gostar do que escrevi na íntegra. Então agora vou enrolando pra escrever, reviso vinte vezes o mesmo texto – sempre mudo coisas –, às vezes fico um mês sem abrir o editor pra que o tempo possa dar o distanciamento que permite ver erros e tons inadequados que a proximidade disfarça. Enfim, tudo isso pra dizer que quando escrevo “texto escrito ao som da música X e outras coisas”, esse “outras coisas” tem sido com cada vez mais coisas. Se fosse anotar todas as músicas que embalaram o texto acima, por exemplo, faria uma lista extensa. Mas quero dar destaque a duas bandas que tenho ouvido muito – minhas preferidas do momento –, e que estiveram por aqui: Uriah Heep e Kat Onoma.

13.1. Só recentemente passei a ouvir Uriah Heep. E fiquei de joelhos, com um braço erguido e o outro segurando um lencinho no nariz. Talvez devesse começar um Diário de descobertas pra anotar quando descobri de verdade coisas que já estavam por aí e pelas quais passei como uma lhama arrogante, supondo que fossem ruins. Vale para o Uriah Heep que só fui ouvir de fato em 2022, vale para o Drummond que só passei a “olhar com outros olhos” em 2021 (livros didáticos terem fotografado o poeta em seu ângulo menos sedutor não ajudou). Apenas nas últimas semanas Uriah Heep já me deu sensação de poder, já me fez sentir um Zaratustra, já me fez sentir um lixo, já me fez chorar (demais; preciso comprar um barco), já me fez cultuar a seleção natural – por ter sido capaz de criar algo como o Uriah Heep –, já me fez passar por um luto atrasado porque o primeiro vocalista, David Byron, morreu por complicações advindas do alcoolismo em 1985. (Esse luto atrasado é uma constante, já fiquei desse jeito com João Ubaldo Ribeiro, Bob Welch, Chus Lampreave, Verónica Forqué, MF Doom – só fiquei sabendo da morte muitos meses depois porque a família dele só divulgou muitos meses depois –, Cherushii, etc.)

É assim que muitos cultos conquistam: por arrebatamento, desequilíbrio emocional, choque apaixonante. E aí se alguém critica seu novo culto – no meu caso, Uriah Heep –, a vontade é de dizer que essa pessoa não é nem digna de pronunciar o nome do culto e que não é à toa que está destinada ao inferno dos gostos. Estou algo ciente de que isso tudo é exagero, fanatismo, mas, como ainda passo pela fase da recém-conversão, fui cegada pelo sublime e sinto que minha obsessão se justifica. Também tenho aquela sensação de que meu culto é superior aos outros, e que os membros do culto repousam sobre nuvens enquanto lá embaixo todo mundo rasteja, e que os apóstatas – “ah, Uriah Heep…, eu já gostei, hoje não ouço mais” – são ainda piores do que aqueles que não aderiram à idolatria apenas porque, como índios isolados, não tiveram oportunidade.

13.2. É difícil escolher músicas pra dar uma palinha – os primeiros álbuns são de matar ou morrer –, mas seguem algumas sugestões, com o ano de lançamento entre parênteses:

Pra matar: Real turned on (1970)

Pra morrer, especialmente da metade pro final: Wake up (Set your sights) (1970)

Pra matar, morrer no meio, ressuscitar depois: Born in a trunk (1970)*

Pra matar na ópera: Bird of prey (1971)**

Pra matar e morrer três vezes dentro de 16 minutos: Salisbury (1971)

Pra morrer, tanto é que tocaram como homenagem quando David Byron morreu: July morning (1971)

Pra adquirir um visual matador; parece uma daquelas músicas pra ouvir quando você está chegando à escola com tênis novos e um corte de cabelo que copiou de algum grande artista (tudo bem que daqui a pouco vão pisar nos seus tênis e zombar do seu cabelo, mas uma das funções da música – da arte em geral – é justamente essa fuga da dura realidade): Tears in my eyes (1971)

Pra matar com a anuência dos anjos: Poet’s justice (1972)

Pra morrer no grande jardim de um bairro rico: Paradise (1972)

Pra matar e morrer com roupas coloridas, chapeuzinho de aniversário, tomando capilé batizado, assoprando uma cornetinha, dentro de uma música que parece ter cinco músicas dentro dela: The magician’s birthday (1972)

Pra morrer na praia vazia e ventosa, à noite: Tales (1972)

No começo parece que é pra matar, mas o refrão é pra morrer no chão, abraçado às próprias pernas: Sweet freedom (1973)

Pra matar no vilarejo medieval e depois terminar ensinando o abecedário a algumas crianças maltrapilhas que vinham carregando cestos de cereais: Seven stars (1973)

Pra matar morrendo: Suicidal man (1974)

*Born in a trunk não era originalmente desse álbum. A música era do Spice, banda que antecedeu o Uriah Heep com a mesma formação. Na versão expandida do álbum colocaram essa versão alternativa de Born in a trunk.

**Bird of prey é a primeira música do álbum Salisbury (1971). O Spotify cadastrou a primeira música do álbum como High priestess, mas quando você clica no nome da música é a Bird of prey que toca.

13.3. Agora que voltei do culto Uriah Heep – o pastor deixou que eu desse meu depoimento no púlpito hoje, mui gentil –, só vou guardar as velas, colocar minha roupa de faxina e um avental, e já retomamos as notas, um minuto.

13.4. Kat Onoma também poderia ser um culto, mas menor e muito mais apartado. A banda, de Estrasburgo, esteve ativa de 1980 a 2004, lançou alguns álbuns… e só tem verbete na Wikipédia da França. Nem em inglês alguém se dispôs a escrever um. Isso tudo é um mistério, pois a banda é apaixonante. A Wikipédia francesa a define como “rock, jazz e música experimental”, mas eu acrescentaria que tem uma dengosa veia country e, ainda, às vezes lembra Lou Reed. Muitas músicas são pra colocar no repeat e esquecer, pra deixar que sejam a trilha sonora de uma noite inteira.

13.5. Vai também uma palinha do Kat Onoma:

Pra abrir um vinho e sentir muito carinho pela vida enquanto funga cigarros alheios na sacada: Memo (1992)

Pro baile esvaziado, já de madrugada: Will you dance? (1992)

Pra resolver assuntos pendentes com bandidos no Texas: The gun (1992)*

Parece aquelas músicas que casais muito magros e muito altos ouvem em coberturas de apartamento (com móveis quase todos brancos e enormes) enquanto tomam gim em silêncio porque há alguma tensão entre eles; ainda existe amor, mas o cara desviará o beijo que a mulher vai tentar dar nele porque continua magoado: Le désert (1992)

Pra morrer: Artificial life (1993)**

*The gun tem clipe. O clipe é legal, mas tira um pouco da experiência “imaginativa” da música, então recomendo primeiro só ouvir e depois, talvez, ver o clipe.

**Artificial life está no álbum Far from the pictures, de 1993. É outra versão, e não é tão poderosa quanto a que coloquei no hiperlink. Sou contra upar para o YouTube músicas que já estão lá, mas decidi upar novamente essa versão de Artificial life porque o guri que já tinha upado não escreveu “versão alternativa” no nome do vídeo. Não estou competindo – o vídeo dele tem áudio melhor, aliás –, mas gosto das coisas mais explicadas.

13.6. Descobri Kat Onoma sem querer, há pouco mais de um ano. Tinha o hábito de baixar compilações no SoulSeek, às vezes com centenas de músicas. Ia ouvindo e garimpando o que prestava. Interessante é que a compilação onde estava o Kat Onoma era muito ruim, excluí dezenas de músicas umas atrás das outras, até que achei The gun e Artificial life. Então valeu muito a pena ouvir tantas músicas ruins pra encontrar, lá no fundo da palha, esse pingente bonito.

13.7. Desde que comecei a assinar o Spotify, passei a baixar muito menos músicas no SoulSeek. Só vou pra lá quando não encontro o que procuro no Spotify. Uma forma boa, e barata, de inibir esse comportamento fora da lei de piratear músicas.

14. No segundo semestre de 2021 aprendi a gostar de coentro. Parece que minha exposição leve e gradual ao tempero ativou o gene da sua apreciação. Para Darwin nada é impossível (tudo bem, algumas coisas são impossíveis, mas a frase perde força se eu fizer ressalvas, haha). Isso vai facilitar futuras viagens pra países como Chile e Portugal, onde já passei maus bocados com esse ingrediente do qual nunca imaginei que pudesse vir a gostar.

15. A Amazon Prime disponibilizou no catálogo alguns filmes mais antigos do Almodóvar, esse gênio de sensibilidade, comicidade, loucura e cores. Uns são melhores que outros, mas recomendo todos. Queria um dia escrever sobre ele aqui. Planos, planos, planos.

16. Falando em “planos”, sei que estou bem atrasada na resposta a alguns e-mails de pessoas queridas. Fevereiro será um mês cheio, mas vou responder. Não comecem, essas pessoas queridas, a achar que sou tratante, arrogante, etc. Fora isso, é como canta Raphael: “digan lo que digan, digan lo que digan, digan lo que digan… los demás!

17. Texto finalizado ao som de Organised crime, do U.K. Subs. Obrigada pela leitura, um abraço e até a próxima!

Testes cegos, bula na arte e politização do funk (Série “Radical do Movimento Negro”, texto nº 6)

Em julho de 2020, Anthony Tommasini, principal crítico de música clássica do The New York Times, escreveu um artigo chamado Fim dos testes cegos é solução para levar diversidade a orquestras, traduzido no mês seguinte pela Folha de S.Paulo. Quando li o título, pensei que fosse ironia. Enquanto lia o artigo, ainda achava que o autor estivesse desenvolvendo uma ideia com a qual não concordava, fazendo uma espécie de argumentação-embuste para testar a aceitação do público sobre um despropósito, com intenção de, mais tarde, revelar a estratégia. Não era ironia nem embuste. Tommasini acha mesmo que testes cegos devem acabar na contratação de integrantes das orquestras com a finalidade de torná-las mais diversas racialmente.

Testes cegos são adotados por muitas orquestras – e por outros ramos do mundo da música, como a primeira seleção do programa The Voice – para que o perfil do candidato não sugestione a escolha do contratador, que deveria se pautar pela qualidade. Sem eles, um avaliador pontual que não percebe seu sutil racismo ou sexismo pode deixar de contratar uma pessoa competente em prol de outro candidato menor porque foi influenciado pela aparência. Portanto, testes cegos surgiram para fazer justiça ao mérito. Se meu avaliador não vê minha cor, meu gênero, minha beleza/feiura, minha indumentária ou se estou em cadeira de rodas, ele será obrigado a me julgar apenas pela minha habilidade e capacitação.

Seria benéfico se em outras áreas da vida profissional e estudantil fosse possível aplicar esses testes que primam pela qualidade e desencorajam que características geralmente irrelevantes para os fins da contratação tenham peso. A maioria dos concursos públicos, de certa forma, funciona como teste cego, assim como os vestibulares no Brasil: a seleção é feita puramente pelo domínio de conhecimentos dos assuntos da prova. (Em outro momento voltarei a esse tema, que tem nuances: teste cego não é panaceia.)

Estudos de psicologia social mostram que certas características estéticas podem dar vantagem na seleção de emprego, como é o caso do favorecimento das pessoas bonitas (lookism). Isso não acontece de maneira descomunal – é algo que se percebe mais quando se avaliam estatísticas de contratação –, então o fenômeno não é gritante. Para minar o pouco dele que ocorre, defende-se a adoção de testes cegos.

Mas Tommasini constata que tais testes não conseguem tornar orquestras estadunidenses diversas do ponto de vista racial. Então, em vez de propor que existam políticas públicas para melhorar o nível educacional das comunidades onde muitas pessoas negras estão – comunidades onde o tipo de música que se toca em orquestras é ainda mais raro de ser apreciado do que no restante da sociedade –, o crítico do NYT propõe a abolição dos testes cegos. Ele diz:

“[…] a transformação não foi suficiente. As orquestras americanas ainda figuram entre as instituições com menos diversidade racial do país, sobretudo [considerando] músicos negros e latinos. Um estudo de 2014 revelou que apenas 1,8% dos músicos das maiores orquestras eram negros e apenas 2,5%, latinos.”

E depois:

“O status quo não está funcionando. Para que a situação mude, as orquestras precisam poder adotar medidas proativas para combater o desequilíbrio racial enorme ainda existente em suas fileiras. Os testes cegos não podem continuar.”

Tommasini alega que a prática pode ser bem-intencionada, mas é restritiva, e que os sindicatos que a defendem não percebem o quanto ela faz mal para os próprios sindicatos, para as orquestras e para a música. O que importa agora é que as orquestras sejam “relevantes para suas comunidades”, palavras dele, e reparem desigualdades sociais.

Compreendo perfeitamente a reivindicação de representatividade em propagandas governamentais. Parece escárnio que o atual governo brasileiro tenha usado crianças de feições nórdicas para compor a marca “Pátria amada, Brasil” num país de maioria autodeclarada parda. Também apoio representatividade em propagandas comerciais, mostrando famílias negras acessando aplicativos de banco pelo celular e mulheres negras passando maquiagem, bem como apoio que o mercado de brinquedos faça mais personagens negros e menos bonecas que reflitam a estereotipada dona de casa jovial dos anos 50.

Mas orquestras não são apenas rostos e sua finalidade não é a representatividade estética da população. Orquestra é música. Seu propósito primordial é tocar música. Se testes cegos não dão conta de fazer com que elas sejam mais diversas, o problema não está neles, mas, em tese, na sociedade – assim deveriam pensar aqueles que acham que tudo de “altivo” deve refletir proporções demográficas. Testes cegos são a solução para que as contratações nas orquestras sejam justas, e não um empecilho.

O que Tommasini pede é que as contratações voltem a ser um pouco injustas como possivelmente já foram, mas desta vez em prol da diversidade? Mais ou menos. Em seu artigo, ele defende que uma vez que um músico alcançou a excelência, é muito difícil diferenciá-lo em qualidade de outro músico de excelência: por isso, entre um grupo de músicos excelentes valeria a pena priorizar a contratação daqueles que pertencem a minorias raciais e de gênero, até porque eles podem apresentar outras qualificações que vão além da “pura habilidade musical”. Nem todo especialista em música clássica concorda com isso, como você pode ler nesta breve réplica de Max Raimi, violista da Sinfonia de Chicago, ao artigo do NYT.

Não tenho muito o que acrescentar aqui porque não entendo do assunto, mas suspeito que Tommasini se esforça, de boa-fé, para aninhar um erro. Para melhor nos empurrar a ideia de que testes cegos devem ser abolidos a fim de que orquestras sejam mais diversas, e sem parecer com isso que defende a queda de qualidade delas – como se poder tocar entre os melhores sem ser um dos melhores fosse parte dos direitos humanos –, o crítico cria uma justificativa que soa mirabolante: os excelentes já são praticamente iguais, então é benéfico que o critério de desempate entre eles seja o fenótipo.

Mesmo que seu argumento fosse verdadeiro – outros do ramo dizem que não é –, discordo do seu critério de escolha que estimula diferenciação entre pessoas com base em loteria genética. Os Estados Unidos têm uma classe média negra bem estabelecida que pode, se quiser, financiar bons cursos de instrumentos para as crianças que nascem dentro dela. Não há nenhum impedimento objetivo para que mulheres de famílias com dinheiro sigam a carreira que quiserem naquele país. Não vejo por que alguém que cresceu dentro de um ambiente cultural e economicamente favorável deveria levar vantagem por causa das dificuldades que sua cor ou seu gênero sofreram no decorrer dos séculos passados.

Essa abordagem, na verdade, fomenta alguns oportunistas da reparação histórica: pessoas que tiveram oportunidades na vida, mas querem se aproveitar dos sofrimentos dos seus ancestrais para angariar privilégios no presente. Se isso fizesse algum sentido, também eu poderia reivindicar minha carteirinha de sofrimento ancestral: sou branca e loira porque na loteria genética herdei a cor do meu pai, mas minha mãe é mulata e tenho, pelo seu lado, ancestrais que foram escravos no Brasil. Se importa mais a história dos meus ancestrais do que as dificuldades que individual e objetivamente vivi – e que aí poderiam ser um critério de desempate na remota hipótese de uma disputa entre candidatos igualmente qualificados –, então eu e muitos outros brancos brasileiros com ancestrais negros podemos nos beneficiar desse fator pregresso. (Tratarei melhor desse emaranhado num texto sobre cotas raciais.)

Pensando no público que aprecia orquestras, há alguns cenários possíveis caso o pedido de Tommasini seja atendido:

1. O público continuará o mesmo.

Esse cenário não é impossível, mas acredito improvável, especialmente se o novo modelo de admissão for publicizado.

2. Mais gente passará a apreciar orquestras para apoiar a recente diversidade delas e mostrar que a comunidade gosta de atrações que estejam alinhadas com sua formação demográfica.

Aqui cabe perguntar por quanto tempo essa empolgação vai durar, já que é difícil criar um hábito à força. Nos primeiros meses de “orquestra diversa” os teatros poderão estar sempre cheios, mas isso vai durar até quando? Manter o gosto pela música clássica adquirido tardiamente me parece tão difícil quanto manter a prática de exercícios físicos iniciada no último mês e o estudo autodidático de idiomas adotado depois de ver uma palestra sobre aprendizado solitário no YouTube.

3. Menos gente passará a apreciar orquestras.

Quem nunca gostou desse tipo de música ou não quer gastar dinheiro com a novidade da “orquestra diversa” não passará a frequentar os teatros. Jovens negros que só saem de casa para ver shows de hip-hop continuarão só indo a shows de hip-hop. Já alguns daqueles que sempre gostaram desse tipo de música e tinham o hábito de ver os espetáculos podem sentir que a qualidade diminuiu. Provavelmente é um efeito nocebo: pessoas que sempre gostaram de orquestras mas não tinham ouvido apurado para diferenciar detalhes na música podem passar a achar que conseguem notar a queda de qualidade após a adoção da “orquestra diversa”. Não conseguem. Mas o efeito psicológico de saber que orquestras não estão mais primando pela estrita qualidade pode fazer com que essa parte do público deixe de frequentá-las achando que percebe a diferença.

Confirmando-se o terceiro cenário, a queda de público será atribuída, por alguns, ao racismo. Quando alguém questionar “e por que, então, o público negro não passou a vir aos espetáculos se agora há mais negros no palco?”, será dito que o público negro não vai porque não tem dinheiro para pagar as entradas. Pedirão que baixem o valor das entradas. Os administradores das orquestras dirão “mas já estamos em crise, se baixarmos o valor das entradas não vamos conseguir nos manter”. Baixam o valor das entradas por imposição de quem não entende como o mercado funciona. O público negro ainda assim não se anima a ir aos espetáculos. Pode ser o fim das orquestras que não conseguem se manter apenas com doações e recursos públicos – ou seja, daquelas que precisam do valor das entradas –, tornadas espetáculos do passado, lembradas em museus.

Se testes cegos não conseguem corrigir a falta de diversidade de orquestras e empresas, esse pode ser um grande sinal de que o problema da padronização racial nesses lugares não se deve ao “racismo estrutural e contemporâneo”, como radicais do movimento negro alegam (muitos certamente com impostura, pois sabem que seu raciocínio é equivocado). Provavelmente a maior causa (embora não a única) da elevada disparidade racial em empresas e orquestras advém de racismo praticado em outras épocas que ainda se reflete em condições socioeconômicas desfavoráveis no presente. Essa conjuntura prejudica o desenvolvimento de pessoas negras na educação e, por corolário, na carreira. O lógico seria, portanto, corrigir o presente. Mas militantes negros já plantaram casa, escritório e jardim no passado, e querem que todos acreditemos que é tratando obsessivamente de racismo – e não de pobreza – que se vai ajustar o mundo.

Pobres continuarão pobres. Muitos negros continuarão com dificuldade de competir por posições e cargos em condição de igualdade com brancos. Cotas serão necessárias para sempre. Teóricos do racismo estrutural, que bem analisado é evidente teoria da conspiração, não desejam alterar as estruturas da pobreza que hoje impedem a ascensão de tantos negros na sociedade. Eles sabem que sua relevância depende da permanência na superfície, tratando de uma guerra racial que alegam ser diária e insistente. Criam tempestades para poder nos vender guarda-chuvas. Tommasini talvez tenha sido convencido a comprar o seu. E agora também quer nos convencer de que está chovendo.

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Durante os mais agitados protestos do Black Lives Matter em 2020, o roteirista de 12 anos de escravidão (12 years a slave, 2013), John Ridley, aproveitou para escrever um artigo no Los Angeles Times pedindo que a HBO retirasse o filme …E o vento levou (Gone with the wind, 1939) de seu catálogo porque a trama perpetuava estereótipos ruins sobre pessoas negras e romantizava a Guerra da Secessão. Em seu artigo, Ridley se queixava da falta de alertas sobre esses pontos precedendo o filme e da ausência de outros títulos no catálogo que retratassem de modo mais realista como a escravidão e a Guerra da Secessão ocorreram.

No dia seguinte à publicação do artigo, a HBO retirou o filme do ar e disse que só o exibiria novamente após a feitura de um vídeo de contextualização histórica e reflexão sobre os papéis que negros representavam nele. O vídeo explicativo foi criado pouco tempo depois e precedeu a exibição do filme na plataforma de streaming da empresa.

Não me oponho muito ao vídeo senão pelo precedente que abre, mas pergunto o que precisa ser explicado e a quem. Nenhum adulto em condições normais de educação assiste a um filme de outra época e pensa que deve reproduzir os estereótipos negativos nele representados, especialmente se aberrantes. Se aberrantes, aliás, a tendência é que causem indignação, não tolerância e imitação. E se a preocupação é com uma possível contaminação inconsciente, a cruzada terá que se expandir e matar a maior parte do que foi produzido pela arte. Talvez tenha que matar o homem.

Ainda que “matar” seja uma palavra muito drástica, o próprio excesso de explicação “local” de qualquer abordagem artística considerada ofensiva é um exagero moralista, podendo fazer com que todo livro, quadro, música ou peça de museu criados no espírito de outro tempo tenham que carregar, consigo, uma aula sobre por que aquilo é errado e como as coisas deveriam ter sido. Não duvido que logo essas explicações serão desenroladas para limpar mesmo a arte atual: o escritor cria um protagonista preconceituoso que se dá bem no romance e a editora pedirá a um membro da equipe – provavelmente o medíocre “editor de diversidade” – que arranje uma introdução pedagógica intitulada “por que o protagonista deste livro não é alguém para se admirar ou reproduzir”. Ao elaborar uma bula apontando efeitos morais adversos da história, querem garantir que o leitor não se encante por um cafajeste. Acham que O estrangeiro, de Camus, deve ter levado muita gente a naturalizar o assassinato de árabes na praia. Os mais neuróticos talvez se perguntem se as peças de Shakespeare em que há suicídio não deveriam vir acompanhadas de um encarte sobre o Setembro Amarelo.

Mas se o vídeo contextualizador e reflexivo da HBO foi criado para conscientizar crianças que acabam sintonizando filmes antigos na TV sem a supervisão de adultos, tudo bem.

*

Funk é cultura. Também é cultura a famosa Corrida do Queijo que acontece anualmente na região de Cotswolds, na Inglaterra, em que redondos queijos de Gloucester são jogados de uma colina e participantes da competição têm que correr atrás deles, pegá-los e passar a linha de chegada que fica na parte de baixo dessa colina. Ganha o queijo resgatado quem for o primeiro a passar com ele pela linha de chegada. Equipes de primeiros socorros participam do evento porque algumas pessoas se machucam ao rolar pela colina, havendo casos inclusive de concussão. Diz-se que essa tradição tem no mínimo 200 anos. Experimente criticar a Corrida do Queijo em alguma página bastante acessada. Depois experimente criticar o funk brasileiro.

Quem estuda manifestações culturais alheias não será muito profissional se se preocupar em julgar antes de entender, acreditando que sua primeira missão é mostrar à comunidade acadêmica se encontrou práticas de arrepiar os cabelos ou de maravilhar os olhos entre os objetos de estudo. O relato “quando cheguei à tribo e vi que os índios cozinhavam um parente morto, comecei a gritar e explicar para eles que era horrível o que estavam fazendo” é algo que esperamos de um missionário cristão, não de um antropólogo que está escrevendo um artigo para ser apresentado em congresso da sua área. Mas se mesmo esse pesquisador pode fazer juízo de valor sobre as práticas que estuda em livros de memórias sem pretensões acadêmicas ou no ambiente protegido da sua mente – que a polícia do pensamento tenta invadir, mas parcas vezes consegue –, que diremos de nós, pessoas comuns?

A despeito do autoritarismo de alguns protestos contra a cultura “dos outros”, querendo determinar o que deve ser permitido e o que deve ser proibido com base no próprio interesse, todo mundo tem o direito de não gostar de certas manifestações culturais e de querer argumentar por que não gosta delas. A submissão das mulheres aos homens em tantos países do Oriente Médio é uma tradição cultural e não penso duas vezes antes de dizer que somos muito melhores nesse aspecto. No âmbito cotidiano e informal, posso tranquilamente chamar de triste e absurda a tradição dos pés de lótus que perdurou por séculos em algumas regiões da China. Até pelo menos os anos 70, alguns ianomâmis da Venezuela matavam membros de outras aldeias por prazer – meramente porque os consideravam covardes – e cometiam o que na nossa civilização chamamos de infanticídio. Podemos nos opor aos evangelizadores salesianos que invadiam territórios ianomâmis para tentar convertê-los ao cristianismo – afinal, não estavam apenas querendo impedir a morte de crianças – e, ao mesmo tempo, podemos não sentir admiração nenhuma por essas características da cultura ianomâmi. O relativismo tem o seu lugar – é quase impossível fazer bons trabalhos descritivos de ciências humanas sem considerá-lo –, mas não parece prudente que seja professado como estilo de vida.

Uma conversa normal:

– Detesto o funk brasileiro. Não gosto das batidas repetitivas, não gosto das letras sobre sexo e ostentação, mesmo os clipes desse tipo de música são muito ruins.

– Olha, eu gosto de algumas coisas de funk. Mas entendo que você não goste.

Uma conversa anormal:

– Detesto o funk brasileiro. Não gosto das batidas repetitivas, não gosto das letras sobre sexo e ostentação, mesmo os clipes desse tipo de música são muito ruins.

– Você detesta porque é elitista, porque tem nojo de pobre e nega às periferias o direito à manifestação cultural que não venha da sua cartilha de suposta “alta cultura”. É vergonhosa a sua posição reacionária.

Note que o primeiro falante não diz que o funk deveria ser proibido por lei ou banido das plataformas de compartilhamento de música. Ele diz apenas que não gosta do gênero e explica por quê. Se uma pessoa pode tranquilamente dizer que não gosta de power metal (e eu lhe dou toda razão), por que ao dizer que não gosta de funk o interlocutor ativista e facilmente ultrajado já supõe que esse desgosto se deve a ódio à “cultura dos pobres e pretos”? Asseguro que muita gente que não gosta de funk gosta de samba (de origem preta e pobre), de flamenco (originado de misturas culturais, inclusive da cultura cigana) e de jazz (de origem popular e preta). Querer obrigar todo mundo a dar valor a todas as culturas originadas dos pobres de qualquer época para assim provar estima pelos pobres (?) não tem nenhum cabimento.

Por mais paradoxal que possa parecer num primeiro instante, santificar minorias é uma forma de desumanização. Participam dessa glorificação nociva aqueles que dizem que “gays são maravilhosos”, que “pobres são virtuosos” e que “o mundo seria perfeito se mulheres estivessem em cargos de poder”. Gays, pobres e mulheres realistas sabem que nada disso é verdade, e que a expectativa de que sejam impecáveis enquanto grupo cria uma responsabilidade perversa sobre condutas alheias que eles não conseguem (nem querem) controlar. O que desejam os canalhas que nos reverenciam de modo disparatado e assim atravancam nosso acesso à humanidade comum? Tem exaltação que é puro rebaixamento.

Também é direito de qualquer pessoa proceder a uma hierarquia cultural, embora reconhecendo que diversas manifestações culturais possam coexistir. Uma mãe muito liberal ainda pode preferir colocar seu filho adolescente nas aulas de piano, sem ficar em conflito relativista pensando que “na verdade, tanto faz se eu colocá-lo nas aulas de pancadão ou de piano, pois ambos são igualmente bons”. É natural e recomendável que façamos julgamentos culturais: isso faz parte da nossa liberdade e da construção da nossa individualidade. Ao conhecer coisas novas é preciso tanto avaliá-las quanto reavaliar as velhas, pois mudar de preferências exige exame e classificação. Haverá quem critique as artes das quais gostamos – o que geralmente não tem problema e também pode nos incentivar a progredir na apreciação artística –, e do mesmo modo nós somos livres para maldizer o gosto alheio. Gosto se discute, e muito. Mas parece que alguns gostos estão blindados da crítica.

Sem que o funk brasileiro pedisse, muita gente da classe média culpada assume a incumbência de defensora pública da cultura periférica como quem protege os desamparados da opressão. O paternalismo não existe sem o papel da vítima, mas será que aqueles que se orgulham do funk que produzem querem atuar nesse papel e receber o abraço misericordioso do andar de cima, cheio de pessoas que mal reconhecem? O funkeiro que espera vender sua música, crescer na indústria fonográfica e fazer a juventude descer até o chão aprecia essa militância que ao praticar condescendência ofensiva muitas vezes degrada o protagonismo do funkeiro, agora reduzido a alguém que “precisa de ajuda para ser defendido”?

Entre o respeito e a pena há uma grande distância que pode ser medida pelo discurso e pela tragédia do melodrama. Algumas pessoas confundem as duas coisas, põem-se com afetação e ranger de dentes sobre palcos que elas mesmas montaram numa comunidade que não lhes pertence, prestam serviços de advocacia a quem é plenamente capaz de se defender. Não acho exagero dizer que em muitos casos, no campo das ideias e das artes, quem nos critica nos respeita mais como indivíduos do que quem sente piedade de nós. Aqueles que estão com a autoestima em dia não costumam gostar de ser tratados como coitados.

Quando estourou a Revolução Iraniana (ou Revolução Islâmica) em 1979, Kate Millet, feminista estadunidense, foi ao Irã fazer discursos em prol do feminismo, movimento que com a ascensão do aiatolá Khomeini ao poder perderia prestígio e direito de atuação. No final de uma reportagem do Fantástico na época, uma mulher iraniana interrompe a fala ao ar livre de Millet para dizer que também era contra o xador – véu que cobre todo o corpo feminino, com exceção do rosto –, mas que “não precisava de ajuda externa”. É interessante observar o conflito entre a postura “as feministas iranianas precisam de mim” e a reação “vá embora, podemos nos defender sozinhas”. Millet podia ser bem-intencionada, mas era talvez maternalista e seguramente mal informada, pois parte da revolta dos iranianos se deveu à exaustão de receber tantas ingerências exteriores em seu país, especialmente dos Estados Unidos. A vontade de proteção às vezes é uma presunção.

E é aí que se insere algo da tese identitária sobre roubo de protagonismo. O conceito desandou – quase tudo que começou justo no identitarismo desandou –, mas seu princípio tem algum bom senso. Se o movimento negro, o movimento feminista e o movimento gay têm suas pautas e são capazes de sustentá-las, não é soberba que pessoas externas a eles extrapolem a ideia de respeito, queiram “ajudar” com atos dramáticos, e acabem, de propósito ou sem querer, buscando aparecer ainda mais que os membros diretamente ligados aos movimentos? O que é que Fábio Porchat pensa que está fazendo ao criar um banner em que diz que é um “racista em desconstrução”? Isto não é sobre você, Porchat: pode desligar o holofote, recolher o caixote e ir para casa.

Como disse a jornalista Lygia Maria em seu Twitter, famosos que vêm a público anunciar um grandioso “eu sou racista” não dão nenhum exemplo claro do que fazem de racista. Não confessam que preterem negros em relação a brancos, que não querem que seus filhos se casem com mulheres negras, que evitam estar ao lado de homens negros em aglomerações. Com o vago “eu sou racista, pois todos somos racistas”, esses chamarizes de atenção enganam os militantes impressionáveis e caroneiros, irritam os militantes orgulhosos afetados pelo racismo amplo que alegam existir em seus mundos de paranoia estrutural e não precisam responder por nada de objetivo.

Se quem diz “somos todos racistas” desse um único exemplo pessoal de prática racista, mesmo que no passado distante, a reação popular viria sob gritos, paus e pedras, além de exigência de demissão à empresa onde o confessional racista trabalha. Celebridades estão se exibindo com o bordão “eu sou racista”? Chamem a polícia. Depois queremos assistir ao desagravo com os possíveis “veja bem” e “não, não é que eu seja um racista-racista” seguidos de citações de livros da Coleção Feminismos Plurais e com o delegado fazendo cara de que algo não lhe caiu bem no estômago. Inquiridos, os exibicionistas tentarão se defender dizendo que são racistas “filosóficos, metafísicos”, e serão enxotados da sala como moleques que precisam arranjar mais o que fazer. Com o susto talvez aprendam algo sobre não banalizar o sentido das palavras graves. Atendendo a chamados futuros, a polícia precisará questionar se a denúncia se trata de racismo-racismo ou de racismo transcendental.

Você é racista, Porchat? Dê exemplos. Um racismo assumido e que não pode ser reduzido a termo quase certamente é só uma confissão vaga que espera ser celebrada.

Num momento em que a popularidade nas redes sociais desbancou até o desejo sexual – é engraçado que uma esquerda que já foi liberada contribua para a redução coletiva da libido, pelo menos dos heterossexuais de classe média –, não admira que tantos queiram aderir a novos modismos para aparecer às suas custas. O identitarismo, tendência, tem possibilitado assunto e discurso exibitório de virtude para elevar alguns babacas fenomenais. Fica ao gosto do freguês decidir quando isso provém de distorção – é possível, pois se até Jesus foi distorcido em seus sermões ultradidáticos – e quando essas atitudes vaidosas são perfeitamente explicáveis dentro de uma ideologia construída para promover fracassados e aproveitadores. Há militantes noviços exaltados em colunas e postagens que só passam credibilidade a quem exerce cegueira voluntária. Tem fraude que se lê na cara e no cheiro de vendedor de carros que o texto exala pelas linhas. Espero que canastrões morais possam finalmente encontrar um público que perceba como atuam mal. Para esse teatro interativo quero comprar bilhetes com assento no camarote. Desmarcarei outros compromissos. Na bolsa levarei um binóculo e um saquinho de amendoim japonês.

Arrematando a elevação cultural do funk, há quem chame o gênero de “resistência”, colocando-o como forma de protesto político da periferia. Isso é forçar a barra. Podem até existir letras que sirvam ao ativismo, mas mesmo aqui é preciso separar o estilo à procura de um assunto do assunto à procura de um estilo. A indústria musical está infestada de letras de protesto que servem à rebeldia vazia e à vontade de chocar. Além disso, são raros os músicos satisfeitos com a melodia sem voz – às vezes a voz é necessária para melhorar o conjunto, que seria fraco com uma melodia simplória soando sozinha –, e são poucos os músicos que fazem como Ed Motta, que é despreocupado com o sentido da letra porque acredita no poder do som das palavras: “Marta escolhe o seu lugar/ Senta atrás do banqueiro/ Planejou, foi certeiro/ Marta sabe arquitetar/ O transmissor nuclear/ Vai ativar/ O som do sonar/ Do mar/ Ao pousar no estaleiro”. Ou seja, se você vai montar uma banda de punk ou um grupo de funk ou uma roda de pagode, vai precisar de assunto. Alguns escolhem assuntos “de protesto”, outros escolhem assuntos já marcados pelo gênero no qual compõem.

O funk tem muitas letras exaltando intensa vida sexual, ostentação e bandidagem. Não julgarei esses temas porque eles estão presentes em muitas das músicas de hip-hop que eu ouço também, mas gostaria de entender que salto ornamental a esquerda romântica fez para chamar todo esse entretenimento de “resistência”. Músicas que são criadas para bailes em que os jovens querem dançar, exibir seus atributos físicos e apavorar sobre os valores dos pais são muito mais para dar sentido à festa do que para dar sentido a um inventado ativismo. O funk mais difundido resiste a quê? Ao recato, ao tênis barato e à lei? Mas desejar carros caríssimos, roupas de marca e popozudas é resistir a que, exatamente? E pelo que protestam? Ou é um protesto niilista? Marx & Engels não estariam muito satisfeitos ao visitar os bailes do Furacão 2000 e não se deixariam enganar nem por um segundo pelo trecho “Então martela/ Martela/ Martela o martelão”.

O verniz politizado que jogaram sobre pichadores segue a mesma liturgia. Jovens periféricos geralmente do sexo masculino estão à procura de aventura e desafios. Escalam pontes, prédios e trens para “deixar a sua marca”, que é mais para impressionar outros da sua área e de áreas rivais pela ocupação de território do que para protestar contra a desigualdade. Às vezes também pensam que estão atuando “contra o sistema”, mesmo sem conseguir definir que sistema é esse e sendo incapazes de elaborar uma reivindicação que não seja confusa, filha do achismo divagado – fazem da oposição não uma causa, mas um maneirismo. Pouco disso é apanágio dos pichadores ou de sua classe: jovens abonados têm a mesma programação de buscar o risco e a rebeldia, mas a estrutura familiar e o meio em que vivem talvez não permitam que esse impulso seja tão exacerbado. Ultrapassar limites de velocidade num carro esportivo ou pichar o túnel de um metrô, fazer uma faculdade que o pai desaprova ou largar o ensino médio: atitudes tão diferentes, mas que podem ter uma raiz comum.

Esse misto de situações somado a uma vida de poucas perspectivas ajuda muito a explicar o pichador. Há, todavia, quem prefira fazer história encantada dele – suas motivações seriam ativistas e um chamado à sociedade: “vejam, sou um animal político”. Quem leva a sério essa análise artificiosa de consciência de classe pensará que esses jovens estão pedindo melhores escolas públicas, emprego, bibliotecas comunitárias. Convido aos românticos que façam projetos para as periferias em que tudo isso seja oferecido e vejam a adesão dos pichadores. A realidade mostrará que nada é simples. (Mas um trabalho muito bom pode ser feito com os irmãos menores deles.)

Assim como o funk serve geralmente ao entretenimento, não à política, o picho geralmente serve à aventura e ao tribalismo, não à resistência. Cortadores de cana que após 12 horas de labor vão começar um torneio de baralho não estão “resistindo ao canavial por meio de jogos de cartas”: eles querem se divertir e relaxar. A empregada doméstica que aproveita seu dia de folga no domingo para ir à missa não está “fazendo um ato político”, mas procurando conforto religioso. O pedreiro que passa no bar antes de ir para casa a fim de se embebedar não está “protestando contra sua condição de classe”. É possível que ele seja mais suscetível ao alcoolismo por viver num desastre socioeconômico constante, mas resistência, protesto e atos políticos demandam um mínimo de consciência sobre o significado daquilo que se está fazendo. Por que bebe? Ele vai dizer que é porque gosta. Mas se disser que é para “esquecer os problemas”, ainda assim seu ato não se torna político. Milionário muitas vezes também bebe por esse motivo.

Em um país mal instruído como o Brasil, nem o voto é sempre um ato político. Se pensarmos “ato político” como uma prática advinda da consciência política, ainda que às avessas (o fascismo também é um ato político), veremos que o conceito não se aplica a muita gente que sai de casa para eleger um candidato.

São inúmeros os brasileiros que mostram pelo voto que são completamente alienados em política. Quem resolve conversar com as pessoas e se coloca a ouvi-las com atenção em vez de meramente esperar sua vez de falar sabe que o dever do voto foi compelido sobre cidadãos perdidos que não têm ideia do que estão fazendo. Se nem o símbolo supremo do direito político é em todas as situações exercido como um ato político, é infundado e é até uma fabricação da realidade alegar que toda manifestação cultural periférica é uma forma de resistência e de ação politizada. Não é.

Quando alguém da periferia diz que é, antes da concordância é melhor escavar a origem da alocução. Às vezes estamos há muito tempo fazendo determinada coisa e uma pessoa externa – ou uma pessoa interna que faz intercâmbio em outros círculos – põe um rótulo inadequado sobre aquilo que estávamos fazendo. Se aceitamos a rotulagem, há casos em que mudamos nosso modo de fazer para que fiquemos mais coerentes com o rótulo, mas também há casos em que o rótulo é só um papel que não altera o conteúdo no qual ele gruda. Portanto, ainda que funkeiros e pichadores se encantem pela ideia de chamar suas manifestações culturais de “resistência” e “ato político”, da própria cabeça ou incentivados por outros, isso pode não modificar em nada a essência do que fazem. As coisas e as pessoas são o que são, não o que dizem que são – embora exista um comércio de falsários que conseguem se vender apenas pelo gogó porque há compradores iludidos achando que coisas e pessoas são mesmo o que dizem ser.

Politizaram na marra a diversão e o desejo de aventura dos jovens pobres. Querendo que tudo seja político e vendo que nem tudo assim é, ideólogos pegaram o atalho de inventar politização onde ela não está. Nada escapa à megalomania militante. Nem o baile, nem o picho.

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NOTAS

1. Não me entenda errado, gosto do chamado “funk das antigas”, mas apoio que todos os gêneros musicais possam ser criticados. Isso não impede a “crítica à crítica”, desde que ela não seja, à toa, uma excomunhão moral. Está muito fácil chamar de racista, elitista e malvado quem não gosta de alguma manifestação cultural periférica. Pode-se criticar tudo, menos a periferia? Não desumanize os pobres com advocacia paspalhona.

2. O poder do sample. Algumas das músicas mais conhecidas do funk carioca devem parte do seu apelo à boa escolha de samples. Quando comecei a namorar o André, estávamos fazendo uma das nossas tradicionais festinhas com cerveja, petiscos veganos e músicas intercaladas escolhidas por um e outro. Era a vez dele de escolher a música. Quando ela começou a tocar, eu falei “isso é Tati Quebra-Barraco, rs”; ele replicou “isso é Layo & Bushwacka, rs”. Até aquele momento eu não sabia que o ótimo som de fundo de “Boladona”, da Tati, era um sample da música “Love story”, da dupla de house Layo & Bushwacka. Não consegui descobrir quem é o responsável pela escolha do sample dessa música, mas como o álbum da Tati onde ela está foi produzido pelo DJ Marlboro, que é uma enciclopédia musical, chuto que foi ideia dele.

“Cerol na mão”, do Bonde do Tigrão, tem sample da música “Headhunter”, do Front 242, e “O baile todo”, do mesmo grupo, tem sample da “Who let the dogs out”, do Baha Men.

(E a própria “Love story”, de Layo & Bushwacka, usa como base a música “Mongoloid”, da banda Devo.)

2.1. Tem quem ache que músicas desenvolvidas em cima de samples são cópias que não merecem crédito. Eu discordo. É necessária alguma arte pra saber copiar. Quentin Tarantino é um excelente copiador – apropria coisas de inúmeros lugares, mistura elementos próprios e consegue criar um resultado inovador –, a Era de Ouro do Hip-Hop estadunidense usou muitos samples de jazz como base e compôs músicas sensacionais. Algumas colchas de retalhos são bonitas, outras são feias: é preciso saber escolher os retalhos e saber como costurá-los.

2.2. O que existe de ruim no mundo da cópia:

a) Os maus copiadores. Copiam errado ou copiam o que não presta.

b) Os que só copiam. Imitam tudo que os outros fazem e não conseguem adicionar nenhum bom elemento próprio à mistura.

c) Os que copiam algumas vezes, enganam por um tempo, mas depois não conseguem se sustentar na cópia. É comum na internet, onde pessoas copiam ideias bem elaboradas e sintetizadas de outros, mas se são cavoucadas a se aprofundar no assunto não conseguem. Quando simplórios surgem com opiniões muito arredondadas sobre uma questão difícil, suspeite. Possivelmente a opinião não apareceu de “algumas leituras seguidas de um longo pensamento”, mas de pura cópia de uma opinião alheia já finalizada. A opinião alheia é que surgiu de algumas leituras seguidas de um longo pensamento.

Já me aconteceu, há alguns anos, de receber aulas não requisitadas de uma pessoa que queria me mostrar suas grandes ideias, mas tudo que essa pessoa disse tinha sido elaborado nos últimos textos muito particulares de um colunista de jornal. Eu queria ter perguntado “você não deveria dar crédito ao colunista desse jornal que nós assinamos, já que está usando os últimos textos dele de ponta a ponta como se fossem ideias suas?”, mas não perguntei. Às vezes vale a pena deixar que os outros achem que nos enganam.

2.3. Não acho que devemos dar crédito a tudo e todos de maneira obsessiva – a vida não é um artigo acadêmico –, mas se nós temos um grande guru que copiamos com muita frequência talvez seja o caso de fazer alguma menção. Ler alguém escondido, adotar a maioria das suas ideias, fazer de conta que todas essas ideias resultam da sua pesquisa em muitas fontes junto ao processo do seu pensamento e não dar nenhum crédito ao guru – isso não é muito honesto.

– Engraçado, 90% do que você fala sobre filosofia é puro Schopenhauer.

– Não sei quem é Schopenhauer. Essas ideias sobre o mundo como vontade e representação são minhas.

2.4. Parece que estou dando indireta para alguém em especial, mas não estou.

3. Não me entenda errado, apoio a decisão de Ed Motta de não se preocupar com o significado das letras porque as palavras já têm uma sonoridade própria. (Adoro inúmeras das suas composições, aliás: seu álbum AOR, de 2013, é uma joia). Existem músicas que são ótimas em letra e melodia, que bom, mas a finalidade da música é a… musicalidade. Não procuro as letras da maioria das músicas estrangeiras que ouço. A voz modulando em cima da melodia já me cativa. Já chorei com músicas cujas letras não compreendia.

4. Advogados morais se parecem com alguns advogados comuns: você apresenta seu problema e eles aumentam o número de pedidos na causa. Um processo que seria apenas sobre a falta de pagamento de FGTS se transforma, na criação desses espetaculares, em pedido também de danos morais, horas extras e equiparação salarial. O funkeiro que deseja somente <FAZER SUCESSO> e <GANHAR DINHEIRO> se vê às voltas com um advogado moral que diz “tudo bem, mas vamos aproveitar para reivindicar que você enaltece o Brasil, que a sua cultura faz parte da resistência e que cantar na periferia é um ato político”.

– Não posso só fazer sucesso e ganhar dinheiro?

– Por que se contentar com uma parte se podemos ter tudo? Vamos pensar grande! Vamos pedir qualquer coisa que esteja ao nosso alcance!

5. Mili, a pequena militante:

6. Texto escrito ao som de “Sous le soleil de Bodega”, do Les Négresses Vertes, e outras coisas.

6.1. Outras músicas que recomendo do Les Négresses Vertes: “Ces’t pas la mer à boire”, “Orane”, “L’homme des marais”, “Hey Maria”, “Les yeux de ton père”, “Famille heureuse”, “Face à la mer” e “Accouplés 2020”.

Se Lumena moderasse o tom, ainda assim estaria errada (Série “Radical do Movimento Negro”, texto nº 5)

Existe uma grande confusão – ou, como diria Gilmar Mendeseine grosse Konfusion – quando misturamos tom e discurso. Treinadores de políticos em tempo de campanha sabem disso. A jornalista Olga Curado, que já assessorou Lula, Dilma e Aécio, trabalha para que seus clientes mudem de tom e postura, não de plataforma. Profissionais como ela são contratados porque os partidos têm ciência de que a maneira como se fala pode contar mais com certo público do que aquilo que se fala.


Timbre, dicção, simpatia, estabelecimento de vínculo com o eleitor e convicção às vezes têm mais eficácia do que um redondo programa de governo. O maior entrave para Marina Silva chegar ao Executivo Federal é justamente sua aparência e seu tom, que sugerem fraqueza e despreparo. Já Bolsonaro – tosco, com histórico de abana-moscas em quase 30 anos de Câmara dos Deputados e carregando um projeto político obscuro – foi eleito por 57,8 milhões de brasileiros, que viram em sua incivilidade alguma coisa de estupendo. Democracia em país de maioria ignorante é capaz de eleger candidatos de comportamentos que nos remetem à Pré-História. Não é todo mundo que admira conquistas da civilização como os talheres, o vaso sanitário, os direitos humanos e a urbanidade.


A política eleitoreira escancara como um tom sedutor pode ser usado para ocultar um discurso fraco, incoerente ou com promessas difíceis de implantar, mas o problema da confusão entre tom e discurso não se reduz a ela. Quando pensamos que políticos corruptos e sem programas consistentes se elegem ao adotar tons que arrebatam o povo, costumamos achar que certa “gente simples” é que se permite enganar por esses falsários. Tenho ressalvas quanto ao grau de simplicidade que explicaria a perpetuação de estelionatários na política – porque acredito que o Congresso representa muito bem as características marcantes de boa parte da população brasileira –, só que a dominância do tom em relação ao discurso vai além disso. Entre pessoas esclarecidas ostentando doutorados que valem cada vez menos o tom tem nublado a propícia análise de conteúdos. Tanto se defendem discursos mancos porque feitos em tons considerados justos quanto se execram discursos íntegros porque embalados em tons “ofensivos”.


Nem eu gosto de inúmeros tons. Acho que deboche tem hora, lugar e medida, que cinismo pode mascarar estultice e desconhecimento de causa, que o recurso da comédia é abusado por aqueles que não sabem do que estão falando, que o autoelogio constante é uma demonstração de insegurança, que a grosseria deveria ser expediente a se recorrer em último caso, que o purismo ideológico é sectário, que vaidades tendem a sujar discursos, que o estilo exaltado cansa e que a pergunta retórica ao vivo costuma ser feita por quem gosta de dar palestras às quais não nos inscrevemos. Todo mundo tem o direito de preferir uns tons a outros.


Às vezes chegamos a um ponto em que mais nos irritamos com o tom de um opinador do que exultamos com seus acertos, e decidimos: “o custo-benefício está muito ruim, não aguento mais esse reinado que pensa inventar uma roda por dia”. Quebramos o vínculo porque a postura enlouquecida do mensageiro se sobressai às mensagens que veicula: ele estimula mais ódio e ansiedade do que raciocínio. É reconfortante acordar na manhã seguinte e não ter aquela montanha-russa de emoções como presença em feeds de notícias, e-mails, colunas, livros, encontros. Perde-se algo – o polemista “passado no tom” tem algumas razões –, mas ganha-se mais. O ar fica salubre outra vez e estamos libertos de acompanhar um desequilibrado tacando fogo na sala dos nossos pensamentos – apenas porque não conseguia puxar uma cadeira, tomar um vinho e dialogar discordâncias.


Tem quem só se sinta vivo criando incêndios. Não somos obrigados a embarcar em aventuras piromaníacas para descobrir, no final da devastação, que criamos dez inimigos novos e instauramos pânico no bairro só por causa de um quadro desalinhado na parede que nosso “influenciador” resolveu vingar. Há pessoas ressentidas que transformam seus problemas pessoais em problemas coletivos, e há pessoas que usam o tom “proletários, uni-vos contra a opressão do capital!” quando um chefe meramente diz que é preciso voltar a bater o ponto.


Uma causa correta tratada num tom dramático, excessivamente grosseiro ou presunçoso pode espantar parte do público. Se esses recursos desproporcionais espantam de um lado, mas arrebanham de outro, é o caso de seus operadores se perguntarem se é mesmo para esse perfil que desejam continuar falando. Nem sempre temos culpa de angariar simpatizantes fanáticos que se esforçam para criar neurônios no fígado, pois não temos controle sobre quem resolve gostar de nós – às vezes parecendo que só gostam porque não entendem o que de fato estamos pregando –, mas há situações em que somos não só algo responsáveis pelas bestas-feras invasoras dos salões que divulgamos, como estimulamos que elas venham ter conosco para aumentar o volume de gente que nos sanciona. 


Quando se acredita que a inflação da popularidade é necessariamente uma consequência da inflação da qualidade – ou do reconhecimento da qualidade –, pode ser mais difícil enxergar o número de idiotas que nos aplaudem só porque idolatram tom amargo, ódio, humor vazio e arrogância. Se fazemos questão de manter a fidelidade deles, acabaremos como as lojas: alterando nossas ideias para seguir uma lógica de comércio. Quem manda é o cliente, com ou sem razão.


Além disso, o discurso certo feito repetidamente com o tom errado pode levar, sem que seu proprietário perceba, a um discurso errado. Um opinador começa muito bem, sopesando tudo, mas um dia perde a mão e nessa circunstância congrega uma turma de apaixonados. Se o opinador se deixa enfeitiçar pela aclamação e quer dar à sua cabeça mais dessa droga que é o êxito social, ele pode extremar o tom gradualmente. Aposte: em pouco tempo é provável que ele extreme também o discurso. Muitos críticos de justiceiros ficaram tão ardentes nas proposições feitas à categoria contra a qual lutavam que não perceberam que seu tom radicalizou, que seu discurso piorou com o tom e, no final das contas, também não notaram que se transformaram em justiceiros de outro jeito ou reacionários. Só não direi que “não se nasce extremista, torna-se extremista” porque creio que algumas pessoas têm uma tendência natural ao jacobinismo. A cultura, que nos diferencia dos outros animais, deveria ajustar esse erro de programação, não agravá-lo.


Também podemos abandonar alguém que exibe alguns juízos aproveitáveis, mas tem um tom malemolente, choroso, enfadonho. Muita gente se encanta pelo estilo da jornalista Eliane Brum, mas chego à metade de um texto seu tamborilando na mesa com impaciência e com vontade de voltar a fumar. Fui ver o documentário Laerte-se, na Netflix, com direção e roteiro de Brum, e saí dele melancólica e sentindo pena de Laerte. O documentário queria mostrar que Laerte tem depressão? Brum opta pela alienação quando se trata de criticar insânias identitárias, mas já escreveu linhas excelentes sobre figuras da direita brasileira. Por causa do seu tom, entretanto, opto por raramente lê-la. Vivemos numa época em que existe informação demais disputando nossa atenção e é preciso estabelecer um critério de leitura dentro do que pode aprimorar nossas opiniões sobre assuntos de interesse geral. O tom é um dos filtros para selecionar o que é útil nesse bombardeio informacional. Com tantos escritores capacitados tratando dos mesmos tópicos, não vejo sentido em perder muito tempo escolhendo para ler aqueles que têm estilo ruim e mudam de tom conforme a tribo criticada.


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Já a drástica oposição a essa ideia de abandono por causa do estilo talvez esteja naquele que não quer ouvir nada de “desagradável”. Trata-se de maneira incisiva o que merece abordagem incisiva, talvez com uma ironia bem dosada aqui ou acolá, e o sensível se levanta para ir embora porque desaprova o tom. Qualquer tratamento mais afiado de uma questão ou a demolição controlada de uma crença pela qual o sensível tinha ternura é motivo para que ele se recuse a ouvir uma opinião contrária e CULPE O TOM sem julgar o mérito do argumento.


A mente fechada considera que uma opinião combativa é, por si, um “tom inadequado”. Discordar sem pedir licença, trazer flores, almofadar a sala, tirar os sapatos e questionar, baixinho, “será que, por acaso, talvez, quem sabe, vocês não estão, digamos, equivocados?” é “errar o tom”. Teria havido Reforma Protestante se Martinho Lutero suavizasse o tom? O que teriam alcançado as sufragistas se reivindicassem o direito de voto das mulheres com um tom recatado? Em vez de rebeliões, escravos revoltados contra sua condição de mercadoria deveriam ter convidado seus senhores para uma conversa amigável e conscientizadora à beira do lago?


O autoritarismo nem sempre precisa de palavras de ordem e armas para se manifestar. Num convento em que os decibéis se mantêm muito baixos e onde facas de manteiga e cabos de vassoura são utilizados apenas para as finalidades às quais foram destinados, uma noviça com dúvidas pode ser calada porque sua pergunta é tida como um problema de tom.


– Madre, será que…?

– Ah, Teresinha, esse seu tom, esse seu tom!


A suposta rejeição a um tom pode ser só uma forma de calar um discurso: o que é “de bom tom” é não tocar no assunto. Neste caso, o problema do polemista não é o estilo que professa, mas sua existência de boca aberta. O interlocutor que reclama do nosso tom pode querer contribuir para que qualifiquemos uma abordagem. Ou talvez queira só nos amordaçar. Saber avaliar essa diferença não é tão simples em algumas situações.


Para aborrecimento dos sensíveis, existem temas que ofenderão alguém mesmo se tratados com cortesia por uma japonesa risonha dentro de uma floricultura ao som de “Summer breeze”, de Seals & Crofts, pois são intrinsecamente de potencial ofensivo. E para adicional resmungo desse grupo abaladiço que transita entre a sutileza e a frescura, muitas vezes é o tom desafiador e cavaleiresco que faz o charme merecido de alguns bravos que não temem confrontar matérias urgentes.


De minha parte, a admiração pelos desbocados só é mantida quando essa braveza não é estapafúrdia – como fazem os combatentes de lagartixas que alardeiam derrubar dinossauros – e quando ela é proporcional ao tamanho do problema. Quem manda publicar o próprio jornal cheio de exclamações para acusar o tremor de terra que formigas causam ao caminhar, mas finge que acontece um festival de música & dança toda vez que uma fileira de elefantes passa pela cidade – isso é muito mais do que uma “diferença de tom”, isso é canalhice. Num contexto democrático em que sua vida e seu emprego não estão em risco, tolerar problemas grandes e fazer escândalo por problemas pequenos pode ser um desvio de caráter. Avalia-se um opinador público não apenas sobre o que ele fala, mas sobre o que ele cala. Tem quem faça profissão dessa patifaria.


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Não compreendo aqueles que tentam determinar certa universalidade tônica. Primeiro porque esses senhores tendem a pedir mansidão apenas para uma categoria. Aquele que diz “não se conquista defensor de Bolsonaro por meio de xingamentos e deboche, devemos agregar as pessoas” é bizarramente o mesmo sujeito que trata até moderados de esquerda com xingamentos e deboche. Por que é preciso ser amoroso e compassivo com alguém que em 2021 ainda apoia um entusiasta da tortura, de ditadores sanguinários de direita, do golpe militar e do fechamento da imprensa, mas para um morno de centro-esquerda é reservada humilhação e estardalhaço de erros pontuais? “É com bolo e chá de especiarias que se humaniza o pobre homem que apoia a inserção de ratos na vagina de mulheres como método de tortura”, recomenda a fada insensata que toda semana está na internet ridicularizando apoiadores de Tábata Amaral ou Marcelo Freixo. É intrigante alguém achar que bolsonaristas são crianças que não sabem o que fazem – sendo <O AMOR> o método ideal para resgatá-las –, mas que qualquer esquerdista é um arquiteto da perversão afoito por fazer do Brasil uma Venezuela. Entendo que a abordagem grosseira pode não funcionar com quem só se expressa por meio da grosseria – há casos em que a única forma de desarmar um grosseiro é sendo sóbrio e delicado –, mas é importante observar qual é a motivação daqueles que suavizam os loucos de um lado e transformam suaves do outro lado em loucos. 


Em segundo lugar, não existe apenas um tom correto para o convencimento. Há quem se encante com argumentos bossa-nova e só mude de ideia quando rodeado por passarinhos persuasivos, e há quem prefira um enfoque belicoso que ponha pilares abaixo na base de explosões. Já mudei de opinião lendo quem dissertava como João Gilberto cantava – biri biri, boró boró, badá badá –, mas também já fui seduzida por exposições vertiginosas saídas da Escola Enéas de Entonação. O tom humorístico que funciona para fascinar Luís é rejeitado por Júlia e considerado bom, mas exagerado, por Doroteia. Não há fórmula universal.


É justo reclamar de tons incômodos e largar o cínico partidário de X para acompanhar os textos do moderado partidário de X. Uma mesma ideia costuma ser apoiada por uma miríade de tons passíveis de escolha. Ateus sisudos que repudiam sátira com religião dizem não gostar do tom zombeteiro do etólogo e divulgador científico Richard Dawkins, mas é com esse tom que Dawkins conquista muitas pessoas para o espírito científico e para o ateísmo. Também religiosos repudiam o tom de Dawkins, mas muitas vezes achando que essa crítica já basta como contraponto. Não basta. Usar pura ojeriza ao tom para disfarçar incapacidade de réplica é desonesto, ainda que funcione entre os distraídos. Estaríamos diante de uma “falácia do tom”?


São três as posições honradas nesse campo:


1. Concordo com o argumento, mas não com o tom.

2. Concordo com o tom, mas não com o argumento, porque [explicação].

3. Discordo do tom e do argumento, e discordo do argumento porque [explicação].


Essa posição número 2 é engraçada, mas existe. Quem já não leu pessoas com as quais discordava apenas porque sentia algum fascínio pelo tom que elas usavam para discorrer sobre as coisas? Um poeta pode fazer versos adoráveis só escrevendo asneiras revolucionárias pró-URSS, quem acha as ideias de Nietzsche muito extravagantes pode perfeitamente lê-lo como literatura.


Um tom errado para dada ocasião pode esconder uma proposição certa, assim como um tom certo pode esconder uma proposição errada. Mas também há casos de discursos errados feitos com tons errados que são repelidos apenas pela entonação. Nesse exemplo particular, desaprova-se o tom para se salvar o discurso. É isso que militantes envergonhados com a histeria de Lumena fizeram, e parece que com algum sucesso. 


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Vou supor que o leitor não saiba quem é Lumena, então apresentá-la-ei. Lumena é uma psicóloga baiana e ativista negra que foi selecionada para participar do Big Brother Brasil de 2021. É identitária e usou a edição com mais participantes negros do BBB para passar sua agenda militante ao país por meio de sermões embolados que irritaram grande parte dos espectadores. No dia 2 de março foi eliminada num paredão. Muita gente tirou sarro do fato de Lumena ter vindo de uma empresa de Felipe Neto, mas o que achei mais interessante foi saber que ela escrevia roteiros para o canal de Silvio Almeida no YouTube.


Eu não tinha nenhum plano de acompanhar este BBB. Nunca tive por hábito ver o programa e só me lembro de ter visto um pouco das edições em que Alemão e Max venceram. Vi tão pouco que até alguns dias atrás achava que eles eram da mesma edição. Quando anunciaram os participantes do BBB21, li comentários sobre a seleção ter sido feita com o intuito de consagrar a lacração, e, como sempre, deixei pra lá, achando que o buraco do fascismo de esquerda já poderia pleitear o nome de abismo. Fui descascar batatas para o jantar.


Até que começaram a surgir análises sobre como os identitários do BBB21 estavam dando tiros no próprio pé. Gente que falava tanto de empatia e sororidade fazia terrorismo psicológico com “irmãos pretos” e chamava outra mulher da casa de “vagabunda” porque supostamente ela estaria “dando em cima” de um homem visado. Palestras transtornadas sobre privilégio branco, lugar de fala e racismo estrutural apareceram, bem como brancos fazendo autoimolação com choradeira porque temiam oprimir pessoas “historicamente marginalizadas”. Aí me interessei pelo programa e passei a acompanhá-lo.


Lumena foi uma das maiores preciosidades da edição. Ela é como um tornado, ou seja, um daqueles fenômenos brutais que não desejamos que existam, mas que, se existem, ganham nossa dedicação e interesse. Fazia monólogos longos sobre privilégio branco, coagia pessoas brancas da casa a não querer se sobrepor aos negros, vinha do outro lado do pátio apontando o dedo para chamar a atenção de uma sister, determinava quem estava “se apropriando de pautas coletivas para fins egoicos”, disse que o primeiro beijo gay do BBB entre um negro que ela perseguia – talvez por considerá-lo fraco – e um pardo foi para chamar atenção e para “sequestrar a causa LGBT”, disse que uma mulher branca estava “toda cagada na merda da branquitude” e que ela tinha uma “jornada que não transcendia a mediocridade”, reclamou com um colega porque ele teria cogitado deixar que “duas pretas” estivessem no mesmo paredão, transformou uma agressora psicológica desvairada em vítima ao dizer que ela era criticada apenas por ser “fenotipicamente negra”, reclamou que os outros estavam “deslegitimando” e “ressignificando” coisas e causas variadas, incluindo a fofura.


Tudo isso vinha em tom seco, às vezes gritado, com os olhos arregalados ou a testa franzida em um labirinto. As caras e bocas, os termos de quem se embaraça para simular profundidade e o estilo de sua patrulha justiceira se tornaram uma fartura de memes. Mas muito mais do que aquilo que Lumena falava, foi seu tom que desestabilizou a militância “aqui fora”. Com uma postura arrogante que nunca deu certo num BBB que tende a dar o prêmio a bacanas ou coitados, a roteirista de Silvio Almeida não irritou apenas o cidadão comum ou os críticos dos excessos identitários – ela conseguiu irritar os próprios militantes que comungam do mesmo discurso que o seu. Nesta versão do mito, Narciso vê seu reflexo no rio e não se apaixona. Jogar pedras nessa imagem não muda nada se você não souber, antes de qualquer coisa, que a imagem é toda sua.


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Prefiro o risco de ser chamada de obcecada ao risco de me acusarem de não saber do que estou falando porque não li quem critico. Então leio alguns dos superestimados “intelectuais negros” que se dizem porta-vozes da boa negritude. Cedo descobri que essa ciência não contribui muito para que me estimem na ágora virtual, pois quando dizem “vá ler” e digo “já li”, treplicam que devo ter lido errado. Se indico o trecho que demonstra meu ponto, insistem que descontextualizo peças convenientes. Se me esforço para fazer pesquisa de graça para os outros e trago o pano maior e a repetição da bizarrice em outras plataformas, aí usam a bigorna que encerra o debate: “você está criticando porque você é racista”. Não existe discussão saudável com cínicos e devotos.


Ocorre que Lumena não foi novidade para ninguém que estava acordado ouvindo a arruaça identitária que acontece todos os dias na internet e nas universidades. Sua paranoia com uma coletividade branca supostamente racista, sua perseguição a brancos que a criticam, seu mau-caratismo de atribuir a racismo o repúdio ao comportamento abusivo de uma colega negra que sentia prazer em infernizar a vida alheia, suas análises anacrônicas sobre guerras raciais, sua compulsão em vexar os outros por pequenos erros, seu assédio a inimigos imaginários, sua fórmula de fingir autoconfiança para esconder baixa autoestima, suas sentenças herméticas que não admitem o contraponto – nada disso é original para quem acompanha aqueles tais “intelectuais do movimento negro”.


Tons débeis como o seu são corriqueiros entre identitários nas redes sociais, e discursos como o seu são recebidos com honra em programas de TV. Estrelas do movimento negro radical inventam que nada mudou para os negros desde a escravidão, exigem que ensaios opinativos de pessoas oprimidas sejam ratificados como “ciência” na academia, falam que todo branco é racista, atribuem a racismo atual qualquer situação negativa que aconteça a negros, impedem que brancos divirjam sobre assuntos da negritude porque isso seria desrespeito ao “lugar de fala”, acham que vivência tem mais valor científico do que biologia e história, demandam condecoração na marra – e isso está bom para professores, representantes institucionais, jornalistas e mídia em geral. Se Lumena é rechaçada não por apoiar todas essas coisas, mas por falta de traquejo social ao fazer militância, foi ilusão acreditar que este BBB poderia ajudar a colocar o trem do bom senso nos eixos.


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Reconheço que fui boba ao pensar, por duas semanas, que a explosão identitária no BBB pudesse ser o começo do fim. Crises ocorrem após acúmulo de acontecimentos negativos, mas nem sempre é possível prever onde e como elas vão estourar. Por mais que meia dúzia de corajosos estejam há anos se mantendo de pé contra o autoritarismo do delírio identitário – um delírio agora coletivo que nos é servido no café da manhã, nos livros didáticos e em eventos de Exatas –, isso não significa que a crise estouraria nos espaços onde eles estão resistindo. Crises podem aparecer no lugar inesperado e pelo motivo inimaginável: quem suporia que os protestos de 2013 iniciariam após a possibilidade de um aumento ínfimo no transporte público? 


Um balão há muito tempo insuflado por gigantes de repente estoura com o sopro de um anão. Num reality show que desejava promover uma seleção “diversa” com participantes empoderados dispostos a tombar continuamente, poderíamos ser surpreendidos ao assistir a outro tipo de tombo. Não aconteceu. Nós sequer tivemos tempo de explicar para a audiência comum que o motivo de ela ter detestado aqueles personagens que fez questão de eliminar tão cedo foi, em parte, porque eles espargiam soberba, hipocrisia e autoritarismo próprios do movimento identitário. Melhor seria, talvez, se tivéssemos deixado que eles passassem vergonha até abril.


Pessoas que fazem o mesmo discurso que Lumena tentaram se descolar da genitura dela e quiseram nos levar a crer que ali existia mais um defeito de tom e de oportunidade do que de discurso. Isso mostrou que um bode expiatório fora eleito para ser sacrificado na frente de todos a fim de que depois tudo continuasse como sempre foi. Esse ritual também não é novo. Quando escândalos surgem dentro de seitas e corporações, um membro tende a ser escolhido para ser linchado simbolicamente e expiar a vergonha pública de uma conduta que era admitida pela comunidade quando era prática comum, mas algo privada. Uma vez que o elemento indigno seja expurgado porque desonrou o grupo perante grupos rivais, baixa sobre os carrascos um sentimento hipócrita de “fizemos o que tínhamos que fazer”. O acordo tácito é o de manter o costume, mas cuidar para que a situação não se transforme em escândalo outra vez.


Sintonia com o infrator que se assemelha a nós não é para qualquer um. Durante execuções inquisitórias, quem cometeu erros iguais ou piores que os do condenado pode ser o incentivador mais febril a exigir que a fogueira seja acesa logo. Se militantes que são como Lumena disseram “ela está militando errado, tem que ser renegada” em vez de assumir “ela representa o que fazemos, e isso mostra que precisamos mudar”, está demonstrado que nenhuma lição foi aprendida. E se uma multidão de tolos sendo empurrados pelo espírito de seu tempo – gente que confunde “evolução moral” com “seguir qualquer moda virtuosa que apareça” – tem fé nessa explicação de que o problema de Lumena era pontual e “de tom”, esta edição do BBB servirá apenas para o que sempre serviu: entretenimento alienante de fim de noite. 


Pediram o sacrifício do tom público de Lumena para que pudessem continuar cultuando males discursivos maiores dentro do movimento negro. A militância bronca, ressentida, anacrônica, vaidosa e vitimista corta a unha do dragão para poder preservar o fogo que ele solta pelas ventas. Encastelados acham que agora tudo está sob controle. Logo verão melhor o custo disso.


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NOTAS


1. É preciso cuidar para não se encantar por um tom que é um tanque arrasando um piquenique. Esse tom se proclama “na ferida”, mas olhe melhor. Quem aparece com um facão para arrancar uma espinha não é “o corajoso que não teme o enfrentamento das moléstias”, é um doido. A doideira seduz quem precisa de <IMPACTO> para sentir que alguma coisa de impressionante está acontecendo na guerra ideológica que presencia, mas se deixar cooptar por um discurso descomedido porque ele é embalado num tom <MATADOR> é muito adolescente. Não é à toa que tantos adolescentes se enfeiticem pela picaretagem <MATADORA> de alguns professores de História defensores de regimes tirânicos.


1.1. Interessantemente o tom <MATADOR> algumas vezes está, mesmo, defendendo matanças. Existem tons que casam muito bem com certos discursos, por isso há determinado volume de decibéis que deve pôr nossas orelhas em pé de antemão. Às vezes ideias radicais já vêm embrulhadas em tom radical. Tem doido sofrendo crise nervosa no meio da rua – e em vez de levá-lo para o hospital, um grupo de passantes à procura de emoções fortes o arrasta para o palanque. Alguém que precisa de ajuda psiquiátrica, sopa e chinelos confortáveis se transforma no maioral que é escolhido para agitar multidões.


1.2. A antítese do doido talvez seja a mosca morta que quer tratar metástase com homeopatia. Algo grave está acontecendo e o fleumático publica um texto tão brocha que faz parecer que ele na verdade está satisfeito com a situação.


1.3. Verniz de ponderação também não deveria isentar ninguém de uma análise discursiva e argumentativa mais detida. Tem muito maluco falando manso que está aliciando incautos. Tem maluco que usa tom moderado permeado de citações e é chamado de “intelectual”. Roupagem acadêmica, docilidade e parcimônia emocional não deveriam sabotar nosso foco no conteúdo da arenga. 

1.4. O tom pode variar de acordo com a ocasião para que fique adequado a determinado público e sem que haja nisso oportunismo. Uma professora universitária de pintura que resolve fazer trabalho voluntário no clube de mães de uma favela certamente mudará de tom para conduzir os artesanatos das senhoras sob sua tutela. Na universidade a professora é seca com o erro técnico de uma aluna que pintou um quadro que passaria muito bem pelo crivo estético de tantos leigos, mas na favela ela é amável com a idosa que pintou uma galinha sorrindo num pano de prato. A idosa pergunta “Posso pintar a frase DEUS RECOMPENSA OS JUSTOS embaixo da galinha?”, e a professora diz “É claro, Dona Hermínia, é claro”.


2. Uma sugestão. Não observe tanto quem ainda está apoiando Bolsonaro. Observe quem está calado sobre Bolsonaro. Especialmente se o cínico costuma abrir a boca para opinar sobre tudo, mas sobre Bolsonaro – nojento, incompetente, pernicioso, coveiro, estúpido, baixo – não fala uma palavra sequer ou só solta murmúrios inofensivos. Também observe quem não critica quase nenhuma das idiotices que Bolsonaro diz todos os dias, mas é uma voz exaltada na tribuna se alguém fala alguma coisa que não procede contra Bolsonaro, como se esse sujeito vivesse para ser um advogado subalterno do absurdo. Que frustrante só ter utilidade ao catar as migalhas de um traste. 


“Quem não é visto não é lembrado.” Tente se lembrar dos espalhafatosos que têm opiniões e indignações para todas as coisas do mundo político, econômico, cultural, jornalístico, filosófico, biológico, circense, culinário, jurídico, medicinal, literário, tipográfico, farmacêutico – mas se abstêm de dar as caras para criticar um presidente que afeta a rotina de todos. Análise de discurso é importante. Análise de silêncio também. Alguns silêncios resistentes valem como conferências. 


2.1. Pode apostar. Quem sempre gostou de opinar sobre política e agora está calado sobre o mar de excremento que Bolsonaro fez jorrar sobre o país vai subir nas tamancas quando algum futuro presidente de esquerda causar a primeira poça d’água. Alguns colunistas da Gazeta do Povo devem estar até torcendo para que Bolsonaro não seja reeleito, pois assim eles podem voltar a ter assunto. Não está fácil para esses rasteiros fingir por tanto tempo que Bolsonaro é apenas “um tio do pavê”. Mas eles persistem. Não se deixam abalar pelo desafio. Cada resto de osso que cai da mesa de Bolsonaro continua sendo visto como uma grande oportunidade. 


2.2. O cinismo é um defeito subestimado. Em outro momento escreverei uma postagem apenas sobre ele.


3. Afinal, de onde vêm os escândalos? Nem sempre eles podem ser previstos e explicados. Sabemos pela experiência que condutas reprováveis ocorrem continuamente sob a cumplicidade da maioria. Quando por acaso uma dessas condutas se torna um escândalo, quase todos os cúmplices se mostram falsamente chocados, alegando “eu não sabia” e participando da exclusão daquele que por tanto tempo apoiaram porque agora “pega mal” continuar endossando o acusado. Com frequência vemos corruptos, abusadores morais e sexuais, terroristas psicológicos e canalhas sendo protegidos e elogiados por gente que se fará de surpreendida quando – e se – um escândalo estourar. É impossível que os amigos e aduladores de Harvey Weinstein não soubessem do comportamento predador dele – muitos deviam saber e até achar engraçado –, há espíritos de lixo que usam o poder hierárquico que têm para humilhar os outros, e são contemporizados com os termos “personalidade forte” e “jeitão”. É uma transigência que o zelador e a faxineira temperamentais não obtêm, e é óbvio por quê.


3.1. Conhecidos de Lumena foram às redes sociais manifestar “espanto” com seus modos dentro do BBB, como se ela tivesse se transformado em um personagem irreconhecível. Duvido da honestidade dessas alegações. Pode ser que no cotidiano Lumena não fosse tão autoritária quanto era nesse programa, mas ela já devia ser autoritária o suficiente para ser rechaçada em discurso e postura por aqueles que aceitavam usar o sentido da visão para enxergar. É muito conveniente fingir choque e “não tenho nada a ver com essa pessoa” quando um escândalo aparece. Se você precisa que uma atitude errada seja censurada por um coletivo para então incriminá-la, é porque você não se assombra com atitudes erradas, mas com escândalos.


3.2. O escândalo também pode aparecer de maneira injusta, e aqueles que não se preocupam com a avaliação de atitudes, mas com o estouro de escândalos, podem ser os mesmos que negaram apoio a Jesus quando ele foi condenado. Muita gente que hoje entope capelas e templos teria abandonado o autointitulado Filho de Deus quando ele atingiu o ápice do “escândalo” em Jerusalém. Afinal, quem deseja manchar a própria imagem apoiando um escandaloso? O melhor é negá-lo três vezes. Dois milênios depois é fácil repreender Pedro por um comportamento que quase todo mundo teria, mas os autoenganadores têm certeza de que liderariam uma insurreição contra Pôncio Pilatos ou teriam ao menos se oferecido para carregar a cruz no lugar de Cristo. Não têm coragem nem de recriminar pequenas injustiças cotidianas, lambem as botas de poderosos perversos, seguem a opinião da maioria, mas estão certos de que na Antiguidade sacrificariam suas reputações e vidas para ficar ao lado de um homem que era considerado lunático e perigoso, um homem que só foi reabilitado muito tempo depois de ter sido crucificado.


4. Acusaram Lumena de “academicismo”. Vai mal a academia quando está associada a um discurso desengonçado defensor de que o melhor caminho entre dois pontos é uma curva acentuada.

4.1. A melhor forma de disfarçar a falta de profundidade de conteúdo é adotando um discurso espiralado que nem poético é. O que esconde o palestrante que torna sinuoso um assunto simples e dá voltas surrealistas no ordinário?


4.2. Os objetivos do projeto que Lumena escreveu para sua atuação no BBB talvez fossem estes:


– Ressignificar os itinerários das instâncias medíocres da branquitude

– Desconstruir a opressão estruturada em jornadas não edificantes

– Deslegitimar causas egoicas que se apropriam do coletivo e não transcendem


Essa linguagem não é só embromada. É feia. E não deveria ser chamada de “academicismo” apenas porque é usada e incentivada dentro de alguns segmentos acadêmicos que só existem graças à imprecisão e à obscuridade. Se um grupo de teatro de uma grande universidade resolve fazer todo mês uma interpretação da centopeia humana no meio do Departamento de Artes, um entusiasta de pornografia escatológica que encontrasse algo parecido no submundo da internet poderia chamar aquilo de “academicismo”?


4.3. Mas talvez a academia mereça ser assim aviltada para perceber que tipo de absurdo tem nutrido.


4.4. Lumena diminuiu a tempestade quando começou a ver seus aliados sendo retirados em cada paredão, mas essa mudança não deveria nos interessar tanto. Interessante é ver como age aquele que conseguiu algum poder discursivo ou grupal. Na vida às vezes encontramos o filho do dono se mostrando um chefe humanitário e motivador – sendo filho do dono, poderia usurpar seu poder para ser tirânico e terrorista –, enquanto uma colega de trabalho calma e que foi recentemente promovida se revela abusiva e arrogante. Pouco me importa como uma identitária autoritária age quando está ilhada. Quero saber do que ela é capaz quando acha que está em posição superior e é sustentada por um grupo que apoia suas incontinências.


4.5. Uma reportagem da BBC tinha a seguinte manchete: “Por que não se pode falar que Lumena está sendo racista contra Carla Diaz”. Lumena disse que Carla era desbotada e tinha falta de melanina, e o jornalista da BBC resolveu nos instruir que o tal “racismo reverso” não existe. Para isso, buscou a opinião de “especialistas” identitários. É como fazer uma matéria “Por que Barbara é na verdade alto-astral e otimista” segundo a especialista Minha Mãe, ou “Por que não se pode dizer que o fascismo é ruim” com base na opinião do especialista Mussolini. Agora existem especialistas em identitarismo que são consultados a sério pelos jornais. 


4.6. Racismo reverso não existe porque o que existe é RACISMO. Identitários inventaram que o racismo depende de relações de poder, mas essa desvirtuação do conceito não deveria ser engolida. Um leitor com o qual me correspondo por e-mail escreveu há alguns meses um ótimo ponto: se o racismo só pode existir do opressor para o oprimido, Hitler não poderia ser chamado de racista ao escrever Mein Kampf. Afinal, ele ainda não era <O PODER> quando escreveu esse livro antissemita – ele era oprimido, ressentido pelo sucesso judeu e naquele momento estava preso. Então só poderíamos chamar Hitler de racista a partir da data em que ele ascendeu ao poder? Não faz sentido.


4.7. E de que escalas de poder estamos falando? Uma chefe negra que humilha uma subordinada branca com base na cor da pele tem <O PODER> para ser chamada de racista ou ainda não? Como é classificado o negro retinto que desdenha de um pardo por sua cor?


5. São engraçadas as pessoas que acham que a moral só melhora, como se o mundo peregrinasse rumo a um estado de perfeição em que se poderá dizer “bem, é isso: chegamos”. Engolir qualquer novidade que se anuncia como “a mais nobre” e começar a cuspir em personagens do passado que não estão alinhados com a nossa localização no fio do progresso é esquecer que nós somos o passado de alguém. Os identitários de hoje – e aqui coloco tanto os líderes dessa seita quanto seus cachorros servis – desdenham pensadores de outros tempos porque acreditam que agora estão muito próximos ao lendário estado de perfeição: um estado que eles, iluminados, nos permitiram alcançar. Seria nosso dever celebrá-los porque é um privilégio que possamos ser contemporâneos de líderes que atingiram uma posição moral nunca antes obtida.


5.1. A ilusão é um navio que vai longe antes que alguém perceba que está furado. Você que olha para o passado e o rejeita também rejeitaria o futuro se pudesse olhar para ele. Porque o futuro terá outras modas morais, outras cruzadas, outras inquisições que fogem à sua compreensão. E esse futuro assombroso, “imoral”, vai olhar para você de volta e menosprezar as suas escolhas. Torça para que ele pense que você era só um sujeito comum seguindo as tendências de seu tempo.


5.2. Seu sagrado identitário tal como é hoje não está garantido à mesa amanhã. Seu líder diz que sim? Era previsível: projetos de ditadores sempre acham que eles serão os responsáveis por finalmente matar a História.


5.3. O futuro pode tanto se livrar do identitarismo – que teria caído após uma crise – quanto ser tão extremamente identitário que os tais oprimidos plenos se tornarão opressores. Querer oprimir eles já querem, e algumas vezes conseguem graças à complacência de abobados que aceitaram a explicação de que “a opressão feita pelo oprimido é a mais correta justiça”. Esse possível futuro é tão tenebroso que você quereria arrancar os olhos se ele aparecesse à sua frente. Enquanto não tem essa visão, você fica aí dando água e adubo para uma planta que considera inocente e graciosa porque fica bem na sua sacada. Toda sequoia já foi uma sementinha que cabia na palma da mão.


5.4. O trágico parágrafo anterior pode ser harmonizado com a abertura da ópera O Guarani, de Carlos Gomes. A partir dos 3 minutos dela acho que é o mais recomendado. Experimente. Muitos professores universitários e cientistas norte-americanos já experimentaram esse tipo de trilha sonora ao perderem seus empregos por causa de ninharias identitárias. 


6. Texto escrito ao som de “Water of love”, do Dire Straits, e outras coisas. 


6.1. Minha formação musical na infância e na adolescência aconteceu por rádio (Rádio Atlântida e Antena 1), pelas músicas que tocavam nas casas dos vizinhos (meu morro em Blumenau sempre foi muito eclético) e por alguns LPs que meu pai punha para tocar (basicamente ABBA e Richard Clayderman). Dire Straits tocava muito no rádio e na casa de vizinhos, mas sempre as mesmas músicas. “Water of love” só vim a conhecer recentemente.


6.2. A Rádio Atlântida já foi um bom, digamos, colégio de formação musical. Na grande época tinha programas excelentes como Depósito (depois transformado em Discorama), As feras do rockPijama Show e Gasômetro (com o Gastão Moreira). Não consigo listar tudo que conheci por meio deles. E perdi as contas de todas as vezes em que fiquei na frente da caixa de som esperando que o radialista dissesse o nome da música e do artista que acabaram de tocar para que eu pudesse anotar no meu caderno, e tudo que dava para entender era que “acabamos de ouvir URWINGT GROHRY com PRISRLYNG SON TROUW”, e então essa informação não servia para nada, e eu sempre planejava escrever para a produção reclamando por que é que tinham que falar tão rapidamente. Hoje a Atlântida é outra rádio. Está imprestável.


6.3. A Antena 1 também decaiu muito. Tocam uma elogiável “Ventura highway”, do America, depois é uma dor de barriga, uma versão estragada Supermercado-Pão-de-Açúcar de algum clássico e Adele. Então finalmente aparece “Georgy Porgy”, do Toto, mas depois há mais três músicas que provocam sentimentos primitivos. Não vale a pena. Hoje minha formação musical continuada ocorre testando coisas no Spotify, no YouTube e no SoulSeek. Meu namorado também sai para desbravar a internet e volta para casa com músicas excelentes para ouvirmos no jantar. 


6.4. A música boa é um universo. Lamento a limitação de quem ouve sempre as mesmas coisas ou se atém apenas ao mainstream. Toda semana conheço o que são para mim novidades – dos anos 50 até hoje.


6.5. Pelas músicas sempre estrangeiras que coloco para encabeçar as postagens, pode parecer que não aprecio o que é feito no Brasil. Não é assim. Gosto desde os Engenheiros do Hawaii gaúchos até a Dona Onete paraense, mas músicas cantadas em português me atrapalham para escrever. Não consigo me desligar de versos que entendo perfeitamente e atravessam o raciocínio. “Essa conjuntura é própria para que apareçam grupos quEEE VACA DE DIVINAS TEETAAS encontram pretextos para empurrar uma agenda LEITE MAU PARA OS CARETAS” – é isso que acontece quando tento pensar uma sentença ouvindo músicas em português. Músicas com vocal em outras línguas às vezes também atrapalham, mas menos.


(Postagem publicada originalmente no blog antigo em 08/03/2021 e atualizada em 01/06/2021.)

Desinformação e viés nos jornais (Série “Radical do Movimento Negro”, texto nº 4)

A realidade é aquilo que, quando você para de acreditar, não desaparece

– Philip K. Dick


O texto vai longo. Se pretende ler tudo de uma vez, recomendo arranjar um lugar confortável para se sentar. 


No dia 19 de novembro de 2020, numa unidade do supermercado Carrefour de Porto Alegre, um homem negro foi morto por dois seguranças terceirizados. O caso abalou o país não apenas pela desproporcionalidade da reação – o soco dado por João Alberto Silveira Freitas num dos seguranças terminou com sua morte após espancamento e asfixia –, mas por causa da cor da vítima. A tragédia deveria motivar uma discussão generalizada sobre o despreparo emocional de alguns profissionais que trabalham pela proteção de pessoas e bens – seguranças, guardas e policiais –, mas foi aproveitada por militantes que desejavam ter um George Floyd brasileiro. Daí para a tese de que o crime aconteceu por discriminação de cor foi muito rápido. Jornais de todo o país compraram o argumento da guerra racial, a mídia passou a noticiar a morte de Beto Freitas como mais uma para a conta do racismo, o ministro do STF Gilmar Mendes se pronunciou no Twitter. 


O Twitter não tende a ser uma plataforma, digamos, “positiva”. Usado como instrumento para polêmica, soberba, provocação constante e xingamentos por bagatelas, parece incentivar a manifestação ligeira sobre tudo, o que acaba em muitos momentos desandando para a publicação de maus juízos. Não é um espaço apropriado para um ministro do STF utilizar a fim de expressar suas opiniões figadais sobre casos que depois podem, eles mesmos ou outros similares, parar em seu gabinete para julgamento. Sem evidência de que Beto Freitas foi morto por ser negro, um ministro da máxima instância do Judiciário já fez apreciação pública do ocorrido – sem processo, sem direito à defesa da outra parte e sem provas de causalidade. Para Gilmar Mendes, a tragédia do Carrefour foi por motivos raciais. Ele escreveu

“O Dia da Consciência Negra amanheceu com a escandalosa notícia do assassinato bárbaro de um homem negro espancado em um supermercado. O episódio só demonstra que a luta contra o racismo e contra a barbárie está longe de acabar. Racismo é crime!” 

Na sociedade do espetáculo, as desejadas qualidades da discrição, da paciência com o curso das coisas e da ponderação por parte do Judiciário são escanteadas por alguns magistrados. Se a lógica “homem negro foi morto por homem não-negro, logo racismo” é considerada correta para um juiz que não aguentou esperar a providência de mais informações sobre um caso que inflamava o país – e já pôs seus dedos para saltitar na tela do celular –, não sei por que não poderíamos começar a substituir seu trabalho por máquinas ou pessoas comuns menos onerosas ao Estado. Conheço taxistas que também opinam ligeiramente sobre notícias do cotidiano conforme elas lhes parecem, e dão sentenças amadoras e categóricas sobre quem é o moço e quem é o bandido da situação, sem muito meio-termo. Se um magistrado usa a mesma metodologia que um cidadão rude com ensino fundamental para compreender uma questão, a exigência de “notório saber jurídico” não terá muita utilidade – a menos que ela se refira a fazer um julgamento ruim por meio do mais prescindível juridiquês. Acho que a maioria da população, culta ou inculta, dispensaria essa parafernália. 


Quem aprecia ativismo judiciário deveria prever que magistrados que colocam suas convicções acima da legalidade não atenderão somente a uma agenda. Se o ativismo de um for permitido para agradar às ideias da esquerda, haverá outro que tomará liberdades para agradar às teses dos reacionários, dos neopentecostais, do “mulher que apanha deu motivo”, da combinação de estratégias com os acusadores de um réu. E quanto mais alto nas instâncias está essa presunção ativista, mais nos encaminhamos para uma rua sem saída. 


Se um membro do STF, o maior tribunal a que podemos recorrer, aplica suas vontades caprichosas acima das clarezas da lei e dos princípios do Direito que conduzem a interpretações mais acertadas das normas que são subjetivas ou lacunares, a quem se recorre? Ninguém no país está acima, em hierarquia jurídica, desses ministros apontados pelos presidentes da ocasião e que só sairão do cargo pelo cajado da morte ou pela velhice. Portanto, é nosso dever exigir que nos tragam rigor em vez de atuar como um Deus que no Velho Testamento manda pragas, incêndios e dilúvios para punir a humanidade, e depois, no Novo Testamento, vem falar de amor e “vinde a mim as criancinhas” – numa terra repleta de fariseus que em execuções anteriores seriam transformados em estátuas de sal. Inconstância e arbítrio da parte de deuses e de homens que às vezes se pensam deuses só nos trazem insegurança. Devemos obedecer à lei ou aos juízes? E o entendimento da lei varia conforme o humor dos juízes? 


Houve uma época em que eu me confortava com a ideia de que autoritários do identitarismo costumam ter asco aos estudos aprofundados, são afeitos à gritaria na praça em vez do silêncio nas bibliotecas, demonstram preguiça com livros que não são de bolso. Então pensava que essas pessoas dificilmente alcançariam cargos na magistratura, que demanda dedicação por anos para passar em todas as etapas do concurso. Continuo pensando isso, mas não tenho mais com o que me confortar. Ainda é baixa a probabilidade de um lacrador identitário conseguir se tornar juiz ou um advogado exemplar que receba indicação para o STF, mas ele consegue influenciar quem chega lá


Não é preciso esforço intelectual: você espera que outras pessoas se dediquem muito aos estudos, alcancem cargos de poder, e então age, forçando sua agenda pela histeria, pela falácia sentimentalista, pela pressão das redes sociais, pela imprensa cooptada. Já existem juízes dando sentenças alegando que injúria de negros contra brancos com base na cor da pele não representa crime contra a honra por não existir “racismo reverso”. No caso Heraldo Pereira versus Paulo Henrique Amorim, em que este chamou aquele de “negro de alma branca” e escreveu que Heraldo “não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde”, o STJ, por vontade própria mal fundamentada, reverteu a prescrição do tipo penal da injúria racial para colocá-la alinhada ao tipo penal do racismo, que é imprescritível. Sobre isso, recomendo o texto STJ faz interpretação extensiva em Direito Penal contra o réu, do jurista Lenio Luiz Streck, que contestou a decisão e fez o seguinte alerta: 

“Um pouco de ortodoxia no direito penal parece-me bom. Aliás, falta muita coisa nesse sentido no Brasil. Estamos ficando demasiadamente ‘avançados’. Moralizamos o direito. Acreditamos muito pouco no direito posto e queremos corrigir esse direito ‘insuficiente’ com nossas opiniões e teses. Talvez por isso o relator no STJ tenha dito ‘tenho para mim’. Sim. Ele ‘tem para ele’. Só que o direito é de todos. É uma linguagem pública. Não depende de uma posição pessoal. Eu também não gosto de atitudes preconceituosas. Mas nem por isso posso atropelar a legislação.” 

A legislação penal já é, em algumas partes, ruim e desproporcional, e agora juízes que desejam lavar as leis com moralidade identitária resolvem torná-la pior passando por cima da divisão dos poderes, e não para beneficiar o réu ou a aplicação mais ajustada de uma punição, mas para atender a uma demanda tribal que não foi recebida (ainda) pelos legisladores. O ativismo judicial não é mais inconsciente ou visando a um bem maior prático – não soltar André do Rap –, mas é uma bandeira que se levanta com orgulho e que é defendida como uma forma de combater “o mal” e “a imoralidade”, seja lá o que isso signifique na cabeça de cada juiz. Homicídio prescreve. Estupro prescreve. Racismo não prescreve, e para alguns justiceiros a injúria racial também não deveria prescrever. Um homem que hoje xinga com impropérios racistas uma mulher negra pode ter que pagar pela injúria 20 anos depois. Se ele tivesse estuprado a mesma mulher negra, o crime já teria prescrito e ele não precisaria mais pagar por ele. Tem cabimento isso? 


O ministro Gilmar Mendes vir a público manifestar julgamento precipitado sobre um caso que no futuro pode cair no colo dele não é sintoma isolado da doença que está contaminando as instituições. Quem vai deixando a coisa correr como se nada de grave estivesse acontecendo esquece que, como escreveu Machado de Assis, “com pingos d’água é que se alagam as ruas”. 



Imagino que algum leitor esteja revirando os olhos enquanto me chama mentalmente de “má” e “desonesta” porque acredita que o que aconteceu com Beto Freitas não teria acontecido, “jamais”, se ele fosse branco. Convido esse leitor a ter mais calma, e também menos fé na proporção que alguns assuntos ganham na mídia e nas redes sociais. Mesmo nos jornais que se proclamam plurais e imparciais há tendenciosidade, e essa tendenciosidade costuma ser favorável à esquerda porque a maioria dos jornalistas das grandes redações é de esquerda (pelo menos nos costumes). A ideologia de um jornalista pode levá-lo a se render aos apelos da militância, maximizar notícias convenientes, minimizar notícias que fujam à narrativa, usar seu trabalho dentro de um jornal em tese apartidário para passar sua opinião nas entrelinhas e na formulação das manchetes. Já voltarei a isso. 


Primeiro, quero dizer que no dia 8 de novembro de 2020, na cidade de Nova Prata (RS), um homem branco chamado Arlindo Elias Pagnoncelli foi linchado após suposta importunação sexual a uma mulher e a uma adolescente. A mulher, gravada em vídeo dizendo “não pode mexer com mulher casada”, conclamou pessoas ao redor a espancar Arlindo, que foi internado e morreu 10 dias depois. Cerca de 40 pessoas participaram do linchamento, entre agressores e testemunhas. Isso ocorreu poucos dias antes da morte de Beto Freitas, mas o caso não rendeu uma boa história para o identitarismo que se comove com crimes dependendo da estética das vítimas. Em 2017, em Belo Horizonte (MG), um homem branco de 25 anos foi espancado até a morte por quatro seguranças de uma boate porque se recusou a deixar que o revistassem à procura de drogas. Em 2017, em Uberlândia (MG), um turista estadunidense branco de 51 anos foi espancado até a morte por dois jovens, supostamente por causa de um esbarrão. Em 2018, em Santos (SP), um jovem branco de 21 anos foi espancado até a morte por um segurança porque contestou o valor de 15 reais na sua comanda. Em 2020, em Jaguaruana (CE), um homem branco de 29 anos foi espancado até a morte após comemorar a vitória de um candidato político. Em 2020, no Rio de Janeiro (RJ), um psicólogo branco de 58 anos foi espancado até a morte ao tentar defender uma mulher das agressões de seu namorado. Em 2020, numa praia da cidade de Cruz (CE), um turista argentino branco foi morto a pauladas após se envolver em uma briga. Em 2020, em Blumenau (SC), um homem branco de 32 anos foi espancado até a morte por causa de dívida de drogas. Em 2020, em Parauapebas (PA), um homem branco de 47 anos foi espancado até a morte após se envolver em uma briga em uma festa. Em 2020, em Novo Hamburgo (RS), um homem branco de 52 anos foi espancado até a morte por se recusar a dar carona para um conhecido que era foragido do presídio. Em 2021, em Guaraí (TO), um ex-vereador branco de 50 anos foi espancado até a morte dentro de casa – ainda não há informações da motivação do crime. 
Se homens brancos também são alvos de espancamento até a morte por motivos fúteis, quem é o magistrado das consciências que consegue garantir que a morte de um homem negro nas mãos de dois seguranças brancos – sem nenhum indício claro de motivação racial – ocorreu por racismo? 


Convido o leitor a fazer uma experiência. Vá ao Google, digite a expressão “espancado até a morte”, depois clique na aba “Notícias”. Já adiantarei o que encontrará ali, além das matérias sobre Beto Freitas: 


1. Há muitos espancamentos até a morte no Brasil. Apenas em 2020 há dezenas de casos. É difícil estabelecer uma proporção racial porque a maioria das notícias não mostra as fotos das vítimas e dos agressores. Quando mostram rostos, você vê negros/pardos espancando negros/pardos, brancos espancando brancos, brancos espancando negros/pardos e negros/pardos espancando brancos. Para começar a fazer uma leitura racial desses casos, seria necessário não só que soubéssemos a cor dos agredidos, mas dos agressores. 


2. Quase todos os espancados até a morte por estranhos são homens jovens. A maioria dos espancadores identificados são homens jovens também. 


3. Dentre os espancados estão muitos homens que cometiam crimes com frequência numa região. Há vários casos assim no Amazonas: a população se reúne para espancar determinado jovem conhecido por praticar furtos. Em 2020 há no mínimo seis casos com essas características só na região de Manaus. 


4. Dentre os espancados há casos de vingança por ciúme – Fulano “se envolveu” com a ex-mulher de Beltrano –, de vingança por causa de tráfico, de justiçamento porque a vítima era suspeita de abusar sexualmente de crianças, de briga por ninharia. Nos casos de vingança pelo tráfico, especulo que os números estão subestimados. Ao saber que um traficante matou seu filho, o medo pode te impedir de fazer uma denúncia que depois se transforme em manchete de jornal. Talvez você se conforme em deixar seu filho figurar na lista de “desaparecidos” para evitar que mais mortes aconteçam. 


5. A pesquisa também traz como resultado espancamento até a morte de cachorros e crianças. No caso das crianças, horror dos horrores, o espancamento tende a acontecer por parte de pai/mãe ou padrasto/madrasta. 


6. A pesquisa também traz como resultado espancamento até a morte de mulheres, apesar de elas serem mais alvo de esfaqueamento, estrangulamento e tiro. Horror dos horrores, os agressores são, na imensa maioria das vezes, namorados/maridos, ex-namorados/ex-maridos. 


Quando Beto Freitas foi morto no Carrefour, uma militante negra escreveu que “só a gente sabe o que é ver uma notícia dessas e imaginar que poderia ter acontecido com a gente”. Isso não procede. Se você desassociar as mortes violentas de mulheres de seus namorados/maridos ou ex-namorados/ex-maridos, é raro encontrar notícias de espancadas até a morte na rua. Quem tem que temer os espancamentos por estranhos são os homens de todas as cores. 


Identitários defendem que é necessário fazer uma separação de categorias oprimidas por identidades porque cada categoria tem suas particularidades reivindicatórias. Negros passam por situações negativas de uma forma, homossexuais passam por discriminação de outra forma, indígenas vivem questões específicas. Concordo com a premissa, mas não com o desdobramento prático que ela adquiriu: “lugar de fala” como carteirada para falar absurdos sem receber refutação do interlocutor, “vivência” como pretexto para dissertar com “autoridade” sobre temas que não se conhecem – um militante negro com vivência e que está fazendo supletivo pela terceira vez se acha mais habilitado a falar sobre a África do que um historiador branco africanista –, ressentimento anacrônico, vontade de vingança coletiva, competição de opressões em que umas identidades se sentem mais oprimidas que outras. Daniele Giglioli, professor de Literatura Comparada italiano, escreve, em seu livro Crítica da vítima

“A vítima é irresponsável, não responde por nada, não deve se justificar: é o sonho de qualquer poder. […] Não por acaso é objeto de guerras, na pretensão de estabelecer quem é mais vítima, quem foi primeiro, quem por mais tempo.” 

E ainda: 

“O dispositivo vitimário tem a seu lado a força da palavra sem mediação, presente a si mesma e sem a necessidade de verificação externa: diante de uma vítima real, sabemos imediatamente o que sentir e pensar. Desse status se apropria, transformando por transferência analógica uma desvantagem em vantagem, o líder vitimista (e com frequência também os líderes das vítimas): como se atrevem a discutir minha dor, minha inocência, minhas próprias prerrogativas? Eu sou inquestionável, acima de qualquer crítica, senhor e mestre de seu olhar e de suas palavras. Vocês não têm direito a todos os enunciados possíveis: somente aos que me são favoráveis, do contrário se degradarão a algozes.” 

E também: 

“[…] o sinistro fenômeno que Jean-Michel Chaumont denomina ‘a concorrência das vítimas’, a disputa pelo primado do sofrimento, as macabras disputas entre os humilhados. Nosso genocídio foi pior do que o de vocês; o nosso é o único verdadeiro, e vocês não têm o direito de se comparar a nós; o nosso começou antes; o nosso durou mais; vocês não têm legitimidade para falar do seu porque não condenaram suficientemente o nosso; o nosso foi perpetrado com gás; o nosso com facões; o nosso por motivos ideológicos; o nosso por exploração econômica.” 

A vitimização se transformou numa moeda forte no mercado das ideias. 


De um justo “grupos minoritários específicos têm demandas específicas” passamos para um delírio plangente – “sou oprimido por todos os lados” – que acaba se transformando em disputa de poder. Quem tenta colocar conjunções adversativas após os ditames autoritários desses militantes seria alguém que “sempre teve o poder e não quer abrir mão”, segundo a paranoia acalentada por fissurados como Foucault, que via domínio-domínio-DOMÍNIO nas relações mais vãs. Identitários vêm à cidade com sangue nos olhos, bradam a ameaça “alguns dos ancestrais de vocês maltrataram nossos ancestrais, e é chegada a hora da revanche”, destroem nossos valores de liberdade, legalidade e algum apreço pela ciência, dizem que se morrermos no processo “será mais do que merecido” – e se lamentamos um “ai” é porque nos recusamos a partilhar nossos “privilégios”. “Você vai apanhar, e não vai poder chorar.” Masoquistas cooptados pelo sentimento de culpa aprovam o ódio contra eles mesmos e redigem textos medonhos de autoimolação na internet. Esperam alcançar o direito de receber a hóstia, que neste caso é um biscoito. “Finja-se de morto, finja-se de morto! Bom garoto, bom garoto.”

  
De todo modo, se querem mesmo respeitar as “identidades tão particulares”, mulheres negras devem parar de dizer que sofrem de forma sistêmica nas mãos de linchadores e policiais truculentos “por causa do racismo”, já que elas são muito menos alvo de linchadores e policiais truculentos do que homens jovens. Um jovem branco e pobre é muito mais perseguido pela polícia do que uma jovem negra e pobre, e arrisco dizer que até um jovem branco de classe média é mais maltratado pela polícia em abordagens do que jovens negras pobres: ouvi e li inúmeros relatos de jovens brancos de classe média que foram recebidos por policiais a tapas, revistas humilhantes, xingamentos gratuitos e apontamento de arma. Não, a militante negra não sabe o que é ir a um mercado e sair de lá morta após espancamento. Esse tipo de opressão impera sobre a identidade masculina, geralmente jovem. Seria a sociedade misândrica e “efebofóbica”? 


Uma militante negra que se acha em igualdade de lugar de fala com um homem negro jovem para reclamar da truculência da polícia e de multidões linchadoras contra pessoas da sua identidade estaria “roubando protagonismo”? Segundo as regras da cartilha da seita que resolveu seguir, sim. Tratarei disso com mais detalhes numa postagem futura – ainda desta série “Radical do movimento negro” – sobre o estereótipo policial. 



Num país em que homens de várias tonalidades são espancados por outros homens de várias tonalidades, é difícil apontar um episódio de espancamento entre agressores brancos e vítima negra e dizer “foi por racismo”, como fez Gilmar Mendes, sem elementos comprobatórios dessa tese. Para os editorialistas da revista Época, entretanto, é fácil. Após o ocorrido, eles chamaram o caso de Beto Freitas de “racismo explícito”. Nenhuma pessoa razoável consegue ter certeza de que houve ali sequer racismo implícito, mas os editorialistas da Época estão certos de que Beto foi morto numa manifestação racista “explícita”. Como chegaram a essa conclusão tão antijornalística? Talvez assim: “negro morto por branco, portanto racismo, sem dúvida”. Sendo assinante da publicação, começo a duvidar do que vou ler daqui para a frente depois de conhecer o tipo de raciocínio que estão usando para estabelecer causalidades forçadas. 


Com o advento do identitarismo, que contaminou a mídia como uma obrigação moral, mudei minha forma de ler jornal. Antes eu lia com o seguinte pensamento: “que bom estar em casa e pagar somente trinta reais por mês para que uma miríade de jornalistas faça o trabalho de apurar notícias para mim, sem que eu precise me debater em uma porção de lugares para entender o que está acontecendo”. Saudade dessa época da inocência. Agora leio jornais com dúvidas aflitivas, saio de algumas matérias procurando outros ângulos, pesquiso além versões mais detalhadas do que acabei de ler. Pago por jornalismo que alega almejar a imparcialidade, recebo agenda identitária embutida em algumas notícias e aí tenho que eu mesma fazer um jornalismozinho amador em outros lugares com a ajuda de parcos instrumentos. Imagine que quando vai ao médico você sinta necessidade de consultar mais três médicos porque não confia no diagnóstico do primeiro. E também não confia muito nos diagnósticos que os outros três poderiam dar numa consulta única, mas sabe que juntando todos os quatro é possível entrar em alguma espécie de consenso sobre o diagnóstico mais próximo da verdade. Assim estão certos jornais sobre temas caros à esquerda identitária. 


Analisarei o caso da Folha de S.Paulo, que é o jornal pago que escolhi assinar em versão digital. É plural, dá espaço para inúmeras vertentes políticas, acredito que é o jornal mais completo do país e onde estão as questões mais importantes que rodeiam nosso cotidiano. Mas para um veículo de comunicação que se propagandeia como plural e imparcial a Folha está bastante confusa nas seções que pedem objetividade e nas seções que pedem opinião. Com isso, atraiçoa o leitor e desinforma. 


Um jornal como a Folha é separado mais ou menos assim: 


Notícias – Matérias que informam secamente o quê, quem, quando, onde, por quê, como 

Reportagens – Notícias com análise mais estilizada e pormenorizada dos casos 

Editoriais – Opinião de quem comanda o jornal sobre os assuntos do momento 

Colunas e blogs – Textos com liberdade quase total para opinar sobre o que quer que seja 


Folha publica editoriais diariamente e tem em seu quadro 186 colunistas e blogueiros. É um número altíssimo de gente livre para dar suas opiniões sobre política, modelos econômicos, venda de órgãos, religião, novelas, fatos engraçados, modismos, reformas sociais, literatura. Já não basta? Por que um jornal que se declara plural e imparcial permite que jornalistas coloquem opiniões infundadas em notícias e reportagens, e conduzam os fatos para atender a seus interesses ideológicos? Não sou contra manifestações pessoais, mas acho que delas a Folha já está cheia com seus 186 colunistas e blogueiros para todos os gostos somados aos editorialistas. Ora, se quisesse ler notícia enviesada eu assinaria a Gazeta do Povo – abertamente conservadora e religiosa – ou acompanharia o Granma – cabresto socialista. Não, quero pagar pelo que a Folha me ofereceu: tentativa de imparcialidade nas notícias, parcialidade nas colunas. 


A imparcialidade é difícil de existir em plenitude no ramo flexível do jornalismo. Escolher o que estampar na capa de um jornal e decidir a quais acontecimentos dar atenção num mundo repleto de notícias a todo momento já é ser parcial. Ainda assim, é nobre que o valor da imparcialidade seja colocado como norte numa redação, porque passa ao leitor credibilidade e modéstia. São os presunçosos que ao dispor de espaço para informar os fatos frios – não é sua coluna, não é seu blog, não é seu editorial – resolvem instruir os assinantes a refletir de determinada forma, acreditando que têm a missão de “ensinar a pensar” – eufemismo habitual para doutrinar – e fazendo o leitor concluir uma tese que não é corroborada pelos dados apresentados no texto. Nenhuma pessoa íntegra dirá que a impossibilidade de ter um caráter perfeito evidencia como é inútil a busca pela melhoria de caráter, assim como nenhum jornalista preocupado com a verdade pensaria que “a imparcialidade total é impossível, então vamos botar pra quebrar enfiando nossas ideologias e opiniões no meio das notícias!” 


Já a pluralidade da Folha estaria demonstrada no número de colunistas e blogueiros de vertentes diversas que escrevem para o jornal, o que é louvável. Antes de lê-los você sabe que provavelmente encontrará ali opiniões. Gostamos de ler textos pessoais e às vezes temos nossos colunistas prediletos, que visitamos com frequência e a quem buscamos para nos ajudar a destrinchar um assunto, para entender outro ponto de vista ou para entretenimento. Acho uma grande demonstração de não saber ler jornal quando um colunista comum é perseguido por leitores que ameaçam cancelar suas assinaturas “porque não é para ler o Gregorio Duvivier que eu pago jornal!”, como se não houvesse 185 outros colunistas e blogueiros para ler e como se uma mensalidade isolada fosse uma fortuna cuja perda funcionaria como forma de ameaçar a Folha. Até que resolvam pôr fim à sua cruzada de ameaças por causa de um colunista inofensivo, muitas vezes esses leitores batem ponto em todos os textos do odiado para avisar que cancelarão a assinatura do jornal. O ódio às vezes é mesmo mais fiel que o amor. Quem ama pode esquecer de ler, mas quem odeia está sempre lá. Quem ama se deita e meio minuto depois já está roncando, quem odeia fica com os olhos arregalados no quarto escuro perdendo tempo pensando em você. 


Outra forma de praticar o valor da pluralidade é buscando a apresentação do “outro lado”. Assim, a notícia que traz uma denúncia com poucas provas – ou sem prova alguma – e que pode prejudicar alguém dará oportunidade para que esse alguém manifeste sua versão da história. Só nas cabeças perturbadas a ideia de que a vítima tem sempre razão deveria ser um princípio penal e jornalístico, impedindo que acusados de crimes ou desconfortos não possam se defender. 


Muito bem, imparcialidade e pluralidade. No dia 3 de dezembro de 2020 a Folha publicou a seguinte notícia: “Morador pede na Justiça apagamento de mural com referências afro e indígenas em BH”. Em que categoria o jornal catalogou a matéria? Racismo. Está lá no topo, clicável; sempre que você quiser ler matérias sobre racismo, essa do morador e do mural vão aparecer na lista. Lendo a notícia, entretanto, não há nenhuma informação que prove nem de longe que o morador pediu o apagamento com referências afro e indígenas da empena de seu prédio por racismo. Não há injúria à artista de apelido Criola, não há xingamento racial à personagem negra retratada. O homem diz apenas que a arte é “decoração de gosto duvidoso” e que poderia causar danos irreversíveis ao prédio. 


Como é a arte repudiada pelo morador? Uma mulher negra e nua está usando uma máscara colorida, e tem um rasgo em seu ventre, de onde sai uma imensa cobra. Em cima de sua mão direita está pintado o aparelho reprodutor feminino. É esta: 

Não vejo nenhum problema nesse desenho, apesar de ter dúvidas se gostaria que o fizessem na lateral do meu prédio. Mas quem vê problema não é racista, a menos que dê motivos raciais para ser contra. Quem não quer em seu prédio a pintura de uma mulher nua com uma cobra saindo da barriga enquanto tem a seu lado um aparelho reprodutor feminino não está sendo “racista” porque a retratada é negra ou porque a artista Criola é parda/negra. Provavelmente inúmeras pessoas negras também não aceitariam receber essa pintura no prédio em que moram. Provavelmente inúmeras pessoas brancas não quereriam uma pintura dessas, em versão branca e feita por artista branca, marcando a um quilômetro de vista o prédio em que moram. 


– Onde a senhora mora, Dona Bertha Baumgarten Stahel? 

– Ô, meu filho, moro naquele prédio em que está pintada uma mulher enorme, branca e pelada, com uma fileira de javalis – animal típico da fauna alemã! – saindo de sua barriga. 


E ainda: se um indivíduo diz “essa arte é ruim” para uma pintura com referências africanas e “essa artista é horrível” para uma pintora negra – isso não configura racismo se ele não fizer menção ofensiva à cor/etnia dos personagens pintados e da artista. Não é racismo achar que uma artista negra é de baixa qualidade. Não é racismo olhar para a pintura de uma mulher negra e dizer “não gostei, prefiro Monet”. Sem elementos racistas na crítica não é correto nem que jornais, nem que juízes façam apreciação subjetiva do caso com base na denúncia de paranoicos. 


A matéria da Folha dá destaque à fala de uma das idealizadoras do festival Cura (Circuito Urbano de Arte de Belo Horizonte), do qual Criola participa: 

“A partir do momento que ele viu que a artista era negra e que seria desenhado o corpo de uma mulher negra com símbolos de matriz africana, acho que está explícito esse racismo. O poder Judiciário está com uma questão forte nas mãos.” 

Racismo “explícito” agora é racismo intuído, “se alguém achar que é, é”, “qualquer crítica a uma pessoa negra se deve a racismo explícito”. Matéria mal catalogada, enviesada, que contribui para difamar pessoas que não são públicas. Nem numa coluna estaria adequado esse texto sem contraponto à altura – o contraponto foi apenas “a Folha tentou contato com os advogados do morador, mas não obteve resposta”–, mas numa notícia o erro é pior. Lemos o jornal buscando informação e encontramos uma matéria em que missionários do racismo estrutural resolvem nos instruir que não gostar da pintura surrealista de uma mulher negra é racismo. Uma categoria que poderia ser “acusação de racismo” se transforma em “racismo” antes da manchete. 


Se você pensa que essa é uma mera catalogação de assunto que não contribui para o mau julgamento do leitor ao estar no topo da página em vez de estar no rodapé como uma etiqueta (tag), experimente ser falsamente acusado de um crime e a notícia sair assim: 


HOMOFOBIA 

Homem atropela ativista gay que dançava no meio da rua 

José da Silva aparece em vídeo atropelando o ativista gay Robson dos Santos; a família da vítima o acusa de homofobia 


Você é o José da Silva que aparece no vídeo. Você estava indo para casa de carro e pensando longe quando, de repente, percebe que acertou uma pessoa após fazer uma curva. Ao sair do carro para ajudar a vítima, amigos dela começam a dizer que você quis atropelá-la porque percebeu que se tratava de um jovem gay fazendo uma performance. Você se defende dizendo que não teve tempo nem de ver que havia uma pessoa no meio da rua, quanto mais que a pessoa era gay, pois estava a 60km por hora e tinha acabado de fazer uma curva. Ao tratar da acusação feita pela família da vítima, o jornal coloca antes da manchete a categoria “HOMOFOBIA”. Não se sente incomodado com isso? Não acha que faz diferença colocar uma tag fatalista antes da manchete ou colocá-la ao final, de forma mais sutil? Não parece que o jornal já está te sentenciando com base numa acusação falsa? 


Dentre os escolhidos para citações no texto do morador e do prédio pintado – só gente partidária da tese de racismo –, há também o advogado do síndico e do condomínio, que nos orienta: 

“Uma decisão do Poder Judiciário determinando o apagamento da obra agora vai corroborar o racismo estrutural.” 

É essa lógica abstrusa que faz intelectuais negros afirmarem que o Direito é racista? 


Doutrinadores sempre acham que têm a missão de espalhar as “boas causas” nas dobras do cotidiano ou como um vegetal picadinho que se esconde no feijão para a criança comer “melhor” sem saber que está engolindo algo que deprecia. Não é preciso um paladar muito apurado para perceber que andam pondo maços de coentro em algumas notícias dos nossos jornais. Tem quem goste. Mas se eu entrei no restaurante porque na porta estava escrito “não usamos coentro”, acho que tenho o direito de reclamar se minha comida vem com ele. 



Se a Folha permite que uma jornalista de seu quadro catalogue uma notícia como “racismo” não só porque ali no meio um terceiro fará essa acusação – mas porque a própria jornalista conduziria o texto como se acreditasse na tese –, não é de admirar que o caso de Beto Freitas também tenha sido catalogado como racismo pelo jornal. Se alguém pedir “prove”, o que os diretores da Folha nos dirão? Talvez “é só uma etiqueta que resolvemos colocar antes da matéria para antecipar uma acusação que virá da parte de terceiros no corpo do texto” –, sendo que esse design prejudica os suspeitos. Duvido que os donos do jornal, se acusados de crimes graves, gostariam de ler isto na capa: 


RACISMO 

Folha seleciona apenas candidatos brancos para três vagas disponíveis na Redação

Houve protesto antirracista em frente à sede da empresa


Que tal?


Talvez os diretores digam “ora, isso não aconteceria se Beto fosse branco” – sendo que a própria Folha noticiou quando brancos foram espancados até a morte. Talvez “é o que todo mundo está dizendo” – quando os jornais, como os juízes, não deveriam pautar decisões com base no delírio popular, que erra demais. Talvez “prove você que não foi racismo” – o que é totalmente sem sentido quanto a quem cabe o ônus da prova. 


Mas o problema de julgamento da Folha não parou só na catalogação improcedente posta num layout ruim. Numa das principais notícias sobre a morte de Beto Freitas, em novembro passado, o jornal publicou uma manchete chamando a vítima de “marido errático”. Ser “errático” é isto: 


“A segunda esposa de Beto, Marilene Santos Manuel, 40, com quem teve três filhos, rendeu-lhe o relacionamento mais duradouro. Foram quase 20 anos juntos. No fim, no entanto, as brigas do casal eram constantes e culminaram em violência doméstica. Beto foi preso duas vezes, enquadrado na Lei Maria da Penha, por agredir a companheira. Passou seis meses preso e, quando saiu, não podia mais se aproximar dela devido a uma medida restritiva.” 


Se Beto foi preso duas vezes por violência contra a mesma mulher, é duvidoso que a tenha agredido apenas duas vezes. Provavelmente nessas duas vezes em que foi preso a violência ultrapassou os limites que muitas mulheres acabam se impondo para aguentar agressões pequenas e médias, que um dia descambam para as grandes violências – e aí são finalmente denunciadas na delegacia. Seis meses preso. Não deve ter recebido essa punição somente por um tapa na cara. 


Afora esse trecho que talvez o jornalista tenha sofrido para escrever – “será que eu falo que ele batia na mulher e chegou a ser preso por isso?” –, a matéria sobre Beto Freitas é boníssima, e mesmo o título inicial do “marido errático” – alterado após críticas – tentou suavizar seu histórico de violência, que incluiria, ainda, uma longa ficha criminal. 


A pergunta: por que era preciso limpar o perfil de Beto Freitas? Era porque os leitores não se comoveriam devidamente com a sua morte se soubessem quem ele era? Acharam necessário conduzir o sentimento de quem lia a notícia? 


O advogado Thiago Amparo, que estica seus conhecimentos formais em Direito para se adaptarem a seus entendimentos identitários – as fábricas de arames e cordas devem estar enriquecendo com ele –, escreveu em sua coluna na Folha um perfil parcialíssimo e melado de Beto: amoroso, brincalhão, ganhara o apelido da madrinha “com um aninho de idade”, adotara um gato de quem não desgrudava. O homem branco linchado dias antes em Nova Prata receberia de Amparo um perfil angelical desses? Aposto que não. Se ele tivesse o histórico de Beto de violência doméstica, eu dobraria a minha aposta. Mesmo assim – mesmo com o duplo padrão de comoção e de compreensão com as contradições e defeitos humanos –, Amparo fazia sentimentalismo partidário numa coluna pessoal em que é livre para escrever a tolice que quiser para quem gosta de ler tolices. Uma notícia não funciona desse jeito. Quando decide assinar um jornal que se vende como imparcial, você quer que a notícia te diga o que aconteceu, e não quais são os sentimentos e as posições do jornalista que redige a matéria. Para isso existem as colunas, os blogs, as redes sociais, os jornais que têm orgulho de enfiar doutrina em tudo. Se ao ler uma notícia da Folha eu consigo saber a opinião do jornalista sobre ela – sem provas que sustentem essa opinião –, é porque provavelmente a notícia está mal escrita do ponto de vista da imparcialidade e da pluralidade. 



Uma terceira notícia da Folha, de 28 de novembro de 2020 – “Artista negro morre baleado em distribuidora de bebidas em SP, e policial suspeito é detido” –, também foi catalogada como “racismo” sem nenhuma evidência de discriminação racial. Aliás, falta até evidência de que o “artista negro” fosse negro – era um homem pardo que certamente muitos negros não reconheceriam como negro. E se não há evidência de discriminação racial na morte, por que o jornalista quis evidenciar a cor do assassinado? Eu gostaria muito de ler um estudo aprofundado sobre a construção enviesada das manchetes e das linhas finas dos jornais. 


Existem militantes que não se preocupam com pessoas mortas de maneira injusta, mas com identidades mortas sobre as quais possam montar palco para fazer militância. Na dúvida, o pardo que oprime é branco. Na dúvida, o pardo que é oprimido é negro. Depende da conveniência. Para jornais contaminados pela agenda identitária, tem sido conveniente que todo pardo que morre pela mão de um branco se torne negro, e também vítima de racismo. Negros mortos por negros, brancos mortos por brancos e brancos mortos por negros – esses têm mais dificuldade de ganhar matérias emocionadas, a menos que participem de alguma outra identidade oprimida.

 
A tese do racismo estrutural está se estruturando na Folha, pois não é sempre o mesmo jornalista que conduz notícias sobre pessoas negras pensando – e querendo que o leitor pense – que tudo de ruim que acontece a negros se deve a racismo. As três matérias que citei acima: cada uma foi redigida por um jornalista diferente. Há, portanto, no mínimo três jornalistas dentro daquela redação fazendo trabalho descuidado para ajudar a corroborar uma narrativa sem apresentar as provas de suas conclusões. E seus chefes aprovam o que escrevem, achando que estão num grande blog. 


Jornalista que põe a narrativa acima dos fatos é de fato jornalista? Essa discussão é improdutiva, porque há quem coloque um pacote de farinha no meio da sala de um museu e chame a si mesmo de “artista”, há quem escreva um livro de 200 páginas contendo apenas dez palavras perdidas entre várias folhas brancas e chame a si mesmo de “escritor”, há quem abrigue espírito mesquinho e chame a si mesmo de “cristão”. Não gosto muito do debate “o que define um artista/ escritor/ cristão/ jornalista?” porque ele tende a ir por um caminho viajante em que os debatedores parecem bêbados filosofando relativismos às 4 da manhã, então prefiro falar assim: mau artista, mau escritor, mau cristão/fariseu, mau jornalista. Querem usar essas denominações para se definir? Usem. Só não esperem que elas digam respeito à excelência e à segurança de merecer o paraíso. Um repolho não passa a cheirar bem se começarmos a chamá-lo de rosa. 



Pessoas com passado criminal violento, como Beto Freitas, merecem humanidade? É claro (ressalva a essa afirmação nas NOTAS). Não considero à toa que nosso sistema prisional seja chamado de “universidade do crime”, já que a tal tentativa de reabilitação do preso e seus direitos humanos estão tantas vezes só no papel, fazendo com que um criminoso de pequeno porte saia da cadeia habilitado a cometer crimes maiores. Mas espero que jornais ditos imparciais não escolham a quais deles dar humanidade e a quais deles dar repugnância, tratando um branco que reiteradamente batia em mulher como “agressor”, e um negro, que fazia o mesmo, como “errático”. Também espero que o jornal não chame de “racismo” casos em que faltam evidências para determinar uma acusação tão séria. Posso esperar isso de um jornal que não se responsabiliza em checar conclusões fatalistas de grupos provenientes da esquerda? Não posso. A Folha entra de maneira antijornalística no barco tanto de ideólogos das guerras raciais quanto de ideólogos das “guerras sexuais”. 



Um grupo de pesquisadores independentes fez uma revisão da maior estatística de morte por homofobia no Brasil, elaborada pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), e concluiu que os números veiculados sobre o ano de 2016 são falsos. O GGB, há muito tempo usado como referência pela mídia quando se trata da morte de LGBTs no país, contou como “morte violenta por homotransfobia” suicídios, casos duplicados, casos ocorridos no exterior, acidentes domésticos, overdose e casos em que não é possível afirmar que a motivação do agressor foi homofóbica. É essa estatística, utilizada por vários jornais, que dá base ao discurso de que o Brasil “é o campeão mundial de crimes contra minorias sexuais” – tornando mais humanitário o Irã que executa homossexuais pela força da lei. 


Talvez o leitor tenha torcido os lábios quando leu “pesquisadores independentes”, e entendo parte desse preconceito. Por uma questão de probabilidade de qualidade, optamos por conceder mais confiança a pesquisadores ligados a instituições de renome do que àqueles que trabalham sozinhos, e é difícil acreditar num autônomo estudo de revisão que rebaixa uma estatística divulgada amplamente por tantos veículos de comunicação. Entender o preconceito, entretanto, não é concordar com ele. 


O primeiro ponto é que a maior probabilidade de qualidade não é uma garantia de qualidade, ou seja, podem existir pesquisadores independentes que façam um trabalho mais metódico do que pesquisadores de instituições. Instituições são feitas por pessoas, pessoas têm interesses, instituições podem revelar os interesses das pessoas que trabalham nela. Você confia nas leituras econômicas dos professores da Unicamp ou da Escola de Chicago? Ambas as instituições são renomadas, mas expelem economistas com visões de desenvolvimento muito distintas. Se <A INSTITUIÇÃO> for colocada acima de tudo, ficaremos num embate eterno, porque há instituições de porte para todos os gostos produzindo informações que colidem entre elas. 


O segundo ponto é justamente este: de que instituição estamos falando? O GGB é uma ONG “voltada para a defesa dos direitos homossexuais no Brasil”, não uma empresa de estatísticas sem vínculo com nenhuma causa ideológica. Portanto, o GGB tem interesses – não só o de proteger minorias sexuais, mas de mostrar que sua causa é importante. 


Uma forma de inflar a importância da sua causa é aumentando o pânico. A estratégia é vezeira em movimentos sociais: ONGs feministas inventam que mulheres ganham 30% menos do que homens na mesma profissão, ONGs do movimento negro inventam que é o racismo atual – e não as condições socioeconômicas precárias advindas de um racismo passado – o fator primordial que emperra a vida dos negros no Brasil. Instituições, autoridades, diplomados, partidários, profissionais, estudiosos – qual é o interesse deles? Escreve Daniel J. Levitin em O guia contra mentiras: como pensar criticamente na era da pós-verdade

“Ao avaliar um especialista, lembre-se de que especialistas podem ter vieses sem que nem eles percebam. Ao tratar de um mesmo tumor, um cirurgião oncológico pode recomendar cirurgia, enquanto um radio-oncologista recomenda radioterapia e um oncologista clínico recomenda quimioterapia. Um psiquiatra pode sugerir medicamentos para depressão, enquanto um psicólogo sugere terapia pela fala. Como dizia o velho ditado, para quem só sabe usar martelo, todo problema é prego.” 

Ativistas de movimentos sociais concluem em pesquisas coisas que corroboram suas ideias. Marxistas também. Liberais também. Desenvolvimentistas também. Crudívoros também. Funcionários públicos também. Há uma gama de “pesquisadores” que interessantemente sempre encontram conclusões que corroboram suas hipóteses iniciais. Portanto, não apenas as autoridades não deveriam ser idolatradas – ainda que em muitos casos valha a pena confiar nelas por razões econômicas e probabilísticas –, como é bom conhecer de antemão quais são seus interesses. 


Todos temos interesses. Aquelas pessoas que gostam de exibir um rótulo – ideológico, militante, político, econômico, filosófico, alimentar, religioso, estético, corporativista – possivelmente contaminarão suas conclusões e suas “curadorias da informação” de modo a confirmar o viés que carregam. Deixar de ouvi-las é impossível, pois todos somos assim. O importante é saber de suas inclinações, analisar friamente o que concluem e, se viável, buscar o contraponto. Às vezes não há contraponto. Às vezes o contraponto é ruim ou reles, apegado a detalhes supérfluos – como fazem aqueles críticos que tentam desmerecer um livro inteiro por causa de uma nhaca de um parágrafo controverso. Mas muitas vezes o contraponto traz informações que aquelas pessoas não quiseram mostrar ou nem sabiam que existiam porque só gostam de ler o que ratifica sua visão das coisas. 


A revisão da estatística de mortes LGBT de 2016 do GGB não teve contraponto. Os pesquisadores independentes prevaleceram sobre a instituição, que não conseguiu refutar a revisão e retirou a edição de 2016 da página. 


Sugiro rebaixarmos o fetiche da “instituição de ouro” quando uma de suas teorias é contraditada e ela não consegue contraditar a contradição. Repito: acreditar em instituições por razões de economia de tempo é justo. Se tivéssemos que ser céticos quanto a t…u…d…o, seria difícil sair da cama, comer, andar na rua, tomar um remédio, votar, abrir um e-mail. Precisamos depositar confiança em alguma coisa porque é impossível revisar todas as informações que nos afetam. Mas as instituições não estão acima dos fatos. Se um fato rebaixa o glamour de uma instituição, fique com o fato, não com a instituição. E torça para que a instituição melhore com a crítica. Se a crítica faz a instituição melhorar, ela tem espírito científico. Se a crítica faz com que puramente desqualifique os críticos e mantenha sua convicção no erro, ela tem espírito de seita. 


Estatística não é arte plástica para ser questão de gosto. Pode ser tentador se encantar por aquelas que validem as teorias nas quais preferimos acreditar, mas essa conduta irresponsável mata, desencaminha políticas públicas, inventa a realidade que virará pauta de jornais, transforma algozes em vítimas e vítimas em algozes. Desconfie dos interesses dos estatísticos. Desconfie de agentes plenamente ideologizados que resolvem trabalhar com números. Desconfie dos novos significados que as palavras ganham nas mãos de pesquisadores empenhados em compor uma história. 


Às vezes uma estatística mostra que aumentou o número de ocorrências do crime X no último ano. Olhe melhor. Pode ser que a notificação do crime tenha aumentado por algum motivo – uma campanha de conscientização, por exemplo –, e também pode ser que os pesquisadores ampliaram os casos que se enquadram no crime X. Se em 2014 era falta de educação cuspir na rua e jogar lixo no chão, uma estatística de 2015 alertando que a falta de educação aumentou 600% pode ter chegado a esse dado espantoso porque os pesquisadores passaram a também considerar como “falta de educação” dizer palavrões, usar decote profundo na igreja, entrar sem camisa na lotérica. Aumentou a falta de educação? Não, aumentou o que os pesquisadores consideravam falta de educação. 



As estatísticas de mortes de LGBT do GGB dos anos seguintes a 2016 são fidedignas? Dei uma passada de olhos no que a instituição computou como “vítimas de homotransfobia” em 2019 e a resposta é não. O instituto mantém o padrão de enfiar impurezas no meio do produto para avolumar o pacote final. E essa técnica de adulteração é deliberada: na seção “Da proposta e metodologia” do relatório, o GGB atribui a necessidade de misturar casos certos com casos incertos à “homotransfobia estrutural” (!) e à falta de dinheiro, que impediria a “profissionalização da coleta dos dados”. Depois de assumir que não faz trabalho profissional, o autor do texto encerra a seção exaltando o voluntariado de quem trabalha pela coleta de dados do GGB – talvez pedindo que não se olhem os dentes de um cavalo oferecido de graça? 


Mesmo que se pense que os números da violência no Brasil estão subestimados, não é supondo motivação homofóbica em todo caso de LGTB morto que se conserta isso ao se produzir uma estatística. Com a possível exceção das pessoas assassinadas por traficantes, nós não temos um problema generalizado em notificar a morte. O maior problema é notificar violências que não terminam em óbito e descobrir quem são os agressores das violências que terminam. 


Vejamos uma amostra bizarra no relatório de 2019 do GGB, que apresenta o link para a matéria jornalística sobre cada morte no final do documento, numa tabela anexa. Como esse compilado é feito por clipagem de notícias, fica mais fácil analisar cada caso contabilizado na estatística. 


Nesta notícia, um casal formado por dois homens foi encontrado morto a facadas dentro de casa em Itupiranga (PA), e a hipótese principal com a qual a polícia trabalhava era de que eles se mataram – ou um matou o outro e então se matou – após discussão. Não encontrei matérias posteriores sobre o caso apresentando dados que contestassem a hipótese. Nesta outra notícia, em Barra Mansa (RJ), uma mulher matou sua companheira após discussão. Quando um gay mata seu parceiro gay esse crime deve entrar para estatísticas de morte por homofobia? Nesta terceira notícia, em São Carlos (SP), uma travesti que foi esfaqueada por seu namorado conseguiu tirar a faca da mão dele e o matou. Se a história procede, é um exemplo irrepreensível de legítima defesa, mas o namorado morto entrou para a conta de mortes por homofobia por quê? Nesta quarta notícia, de Palmas (TO), um homem que supostamente fazia programas sexuais matou seu cliente porque ele lhe devia 600 reais. Não há informação que faça o homicídio ser vinculado a motivação homofóbica. Nesta quinta notícia, em Jaraguá do Sul (SC), uma travesti morreu ao ser atropelada por um carro da polícia que supostamente estava com o giroflex ligado e seguia para atender uma ocorrência. Pode ser que o policial tenha desejado atropelar a travesti por ela ser uma travesti? Pode, mas é improvável. Jaraguá do Sul é uma das cidades menos violentas do país, e a notícia diz que a travesti foi atropelada ao atravessar a rua. Essa travessia de rua durou quanto tempo? Porque é em um segundo que um carro atinge uma pessoa que está atravessando a rua; não há como o policial da viatura ter aguardado e pensado “quando uma travesti começar a atravessar, vou arrancar o carro e atropelá-la” – não daria tempo de ele fazer isso, a menos que a travesti estivesse atravessando a rua com vagar. Provavelmente ele estava em média/alta velocidade, a travesti não olhou que um carro vinha pela rua antes de atravessar e então foi atropelada. Para o GGB, essa morte se deveu a homofobia. Com base em quê? Na suposição da intencionalidade do motorista. E nesta sexta notícia, em Rondonópolis (MT), um homem matou seu namorado a golpes de picareta após desentendimento durante relação sexual. O assassino parece ter algum transtorno mental, pois ao ser filmado na delegacia sorriu para a câmera. É seguro afirmar que um homem que mata seu namorado – não é um estranho que aliciou um gay numa festa fingindo ser gay também para depois matá-lo – tem motivação homofóbica? Negros mortos por negros entram na conta de “mortos por racismo”? Mulheres mortas por mulheres entram na conta de “feminicídio”? Aborto espontâneo entra na conta do “a cada X horas, uma em cada Y mulheres aborta no país”? Talvez, pois 

“[…] os últimos relatórios do Grupo Gay da Bahia têm recebido algumas críticas, seja da própria família Bolsonaro, seja de membros do segmento LGBT, especialmente em relação ao conceito de homotransfobia como rótulo inclusivo para todos os casos de mortes violentas de LGBT+. Temos adotado a mesma postura epistemológica e política do movimento feminista, negro, indígena, etc., que incluem em suas listas as vítimas do machismo estrutural e racismo estrutural. Consideramos portanto homotransfobia não somente as mortes violentas com indícios diretos de ódio, mas também os frequentes casos de homotransfobia estrutural, por isto [sic] não é tarefa fácil apontar uma causa única de tais mortes violentas, mesmo porque a condição de ser travesti em situação de rua/prostituição, do gay morar sozinho e ser alvo de bullying de vizinhos e parentes, tais constrangimentos podem conduzir a adoção de práticas de risco, a exemplo de levar desconhecidos para casa e terminar em latrocínio.” (grifo meu) 

Ou seja, o “estrutural”, na prática, quer dizer que tudo de ruim que acontecer a mulheres, negros e gays será atribuído a machismo/racismo/homotransfobia estrutural. Que me lembre eu nunca tinha encontrado uma confissão tão clara de que “sim, é assim mesmo que inflamos dados sobre minorias identitárias e causamos pânico”. Então é isso que chamam de “outras epistemologias” e reclamam que a universidade não chancela… Não se preocupem, militantes: parte da universidade, da mídia e das empresas já está aceitando a epistemologia de vocês que conclui que 2 gays mortos por seus namorados gays + 2 gays mortos após roubo = 4 gays mortos por homotransfobia. 


E não entendi o final do trecho citado acima. O constrangimento por morar sozinho e ser alvo de bullying dos vizinhos faz pessoas LGBT levarem desconhecidos para casa? Sugiro ao GGB rever o texto confuso, rever a metodologia do estudo e rever a disponibilização dos relatórios em DOC (por favor, documentos para consulta devem ser disponibilizados em formato PDF). 



Essas notícias que foram utilizadas pelo GGB para aumentar o número de mortes por homofobia de 2019 mostram não tanto que o Brasil é o inferno gay do mundo – não creio que os países do Oriente Médio que executam gays legalmente tenham estatísticas confiáveis de “mortes por homofobia” para apresentar –, mas que o Brasil é extremamente violento. Se você ler várias delas, perceberá que os casos tendem a acontecer entre vítimas e agressores pobres, o que volta a quebrar certa fantasia da pobreza virtuosa que uma ala da esquerda tenta vender, levando românticos a achar que nossas favelas renderiam milhares de inspirações para Charles Dickens. Na verdade, uma versão brasileira e periférica de Grandes esperanças estaria mais para isto: o menino Pip, negro, não vai à escola porque precisa entregar um pacote de cocaína para um traficante portando um fuzil. No meio do caminho, deixa o pacote cair num grande esgoto a céu aberto. Como represália, o traficante resolve espancar Pip até a morte e queimar seu corpo. Sua tia tem medo de denunciar o assassino porque sabe que ele tem amigos dentro da polícia. Ao descobrir que a família resolveu fazer um funeral umbandista para os restos mortais de Pip, um grupo de traficantes evangélicos e de milicianos invade o funeral e começa a destruir tudo ao redor. Depois disso a família é ameaçada de ser expulsa da comunidade se continuar seguindo religiões de matriz africana



A pobreza é o maior problema do Brasil, pois tantas vezes traz consigo baixa instrução, família desestruturada, falta de bons modelos próximos nos quais se pautar, mais facilidade para ser cooptado para o crime violento, mais facilidade de ser vítima de crime violento. Mas identitários tentam fazer hipnose coletiva para levar a sociedade a acreditar que o grande câncer do Brasil atual é o racismo, a homofobia, a discriminação de gênero. Despender tanta energia apenas em problemas secundários enquanto problemas muito maiores permanecem negligenciados favorece a quem? Às minorias – que sofrem muito mais quando são pobres – ou a uma presumida “elite intelectual” que diz falar em nome delas? Negros ricos, homossexuais ricos e mulheres ricas vivenciam uma parcela mínima do que negros pobres, homossexuais pobres e mulheres pobres passam todos os dias. 


No mercado das ideias, espírito empreendedor é notar que tipo de discurso já está saturado, mesmo que não resolvido – como a pobreza –, inventar um nicho para si e investir muito para que esse nicho se expanda, tornando-se produto de primeira necessidade. Quando uma criança for baleada numa favela, o consumidor não vai pensar tanto no produto da concorrência – a pobreza –, mas vai associar o fato ao seu produto – o racismo. Quando um gay favelado for assassinado a facadas por seu namorado ciumento, o consumidor não vai pensar tanto no produto da concorrência – a pobreza –, mas vai associar o fato ao seu produto – a homofobia –, sem pensar muito se ele atende à situação. Ter sucesso nesse mercado não depende de criar as melhores ideias, mas de saber vendê-las. Marketing é tudo. Assim como há quem deixe de pagar uma necessária consulta médica para comprar um tênis de marca, haverá quem deixe de adquirir discursos sobre a desgraça da pobreza porque a propaganda agora nos diz que discursos sobre guerras raciais e guerras sexuais são mais importantes. 


A identidade é um coringa – vale para explicar tudo que aconteça de negativo a quem a sustente – e também uma sintonia estranha: a burguesa que se casou com um homem que não divide a tarefa de cuidar do jardim acha que tem afinidade com a diarista que ao voltar para casa precisa fazer o jantar para um marido bêbado e violento. 


– Depois de lavar as calcinhas da minha patroa e esfregar seu teto, vou para casa fazer arroz com ovo e tomate para um marido fedendo a cachaça que começa a puxar meu cabelo se a comida demora a ficar pronta. 

– Entendo o que você vive. Meu marido fica postergando a poda do gramado para ver programas sobre futebol na TV. Precisamos de feminismo. Estamos juntas! 


O drama das identidades periféricas será bem aproveitado quando for preciso causar estardalhaço sobre a situação geral das minorias. No cotidiano, entretanto, o identitarismo servirá para atender aos ressentimentos de poucos e às demandas de quem tem vida fácil, mas gosta de procurar sarna para se coçar. Mulheres que posam seminuas em suas redes sociais com a legenda “macho, isto não é para você” – esperando fazer homens babar ao empoderar o culto à mulher difícil – e escritores negros buscando atalho para receber prêmios que não merecem: é por eles que os sinos identitários dobram. 



Depois das estatísticas feitas com má-fé pelo GGB, o que espanta em segundo lugar é a adesão da imprensa a elas. O trabalho que aqueles pesquisadores independentes fizeram com o relatório de 2016 e a amostra de erros que apresentei acima no relatório de 2019 não demandam graduação, experiência profissional, laboratórios, meses de revisão. Em poucos dias três empenhados estagiários de jornalismo das grandes redações poderiam rever essas estatísticas para averiguar se sua clipagem de notícias procede para afirmar que o Brasil é o campeão mundial de mortes por “homotransfobia”. Nenhum grande jornal dispôs desse serviço, contudo. FolhaEstadãoO Globo e BBC preferem correr o risco de desinformar a tirar esse tempo para revisar as conclusões de uma ONG que tem interesse na anunciação de catástrofes. Uma estatística que utiliza dados da imprensa para concluir uma farsa – ao menos em proporção – não é revisada pela própria imprensa. Uma instituição mais à direita nos costumes que publicasse conclusões bombásticas a seu favor receberia a mesma cortesia da confiança cega? 


Também não compreendo que o relatório sobre mortes por “homotransfobia” seja chancelado por Luiz Mott, criador do Grupo Gay da Bahia em 1980 e até hoje um de seus organizadores. Mott é referência em historiografia gay no Brasil; já li seus estudos e menções a seus estudos em compilados de História publicados por boas editoras. Posso confiar no que li? Se o organizador do GGB não controla as conclusões erradas que são tiradas de uma mera clipagem de notícias, posso confiar nas conclusões que ele tira de documentos históricos? Quem não exige rigor na coisa simples do grupo que coordena é capaz de oferecer rigor na coisa complexa dos estudos historiográficos que realiza? Confiança é difícil de adquirir e fácil de perder. Quando encontrar novamente o nome de Luiz Mott em livros de História, acordarei a pulga que dorme atrás da minha orelha. 



Se você chegou até aqui, não é hora de esticar os músculos e tomar uma água antes de continuar? 🙂 



Por último, a televisão. 


A construção das reportagens televisivas – apuração dos fatos, produção de texto, edição – também pode desinformar e manifestar um viés desonesto. Durante a semana tenho o hábito de ver o último episódio do programa Fantástico no aplicativo GloboPlay para a TV, que é gratuito para algumas atrações. Não me interessam todas as reportagens, e vendo o episódio após sua veiculação ao vivo posso pular aquilo com que não quero perder tempo. Gostaria de citar três exemplos recentes, todos de 2020, de matérias irresponsáveis. 


CASO 1 


Numa reportagem intitulada “Mulheres trans presas enfrentam preconceito, abandono e violência”, exibida em 1º de março de 2020, o médico Drauzio Varella conversa amigavelmente com uma trans chamada Susy. A parte mais conhecida do diálogo é esta: 


“Há quanto tempo você está sem receber nenhuma visita na cadeia?” 

“Oito anos, sete anos, bastante tempo.” [emociona-se

“Solidão, né, minha filha?” [Drauzio abraça Susy


Muitos de nós, sentimentais que não tinham atentado para o fato de Susy estar presa há muito tempo – o que tende a indicar crime grave –, ficamos emocionados com esse trecho da reportagem, acreditando que Susy não recebia visitas de parentes por causa de transfobia. A reportagem nos leva a pensar isso. Mas uma semana depois, no dia 08 de março, o site O Antagonista esclareceu a história: “Trans abraçada por Drauzio Varella no Fantástico estuprou e estrangulou menino de 9 anos”. Os detalhes são estes: 


“O Antagonista confirmou que a transexual Susy apresentada em reportagem de Drauzio Varella no Fantástico, no domingo passado, foi condenada por estuprar e estrangular um garoto de 9 anos. Ele deixou o corpo da criança apodrecer em sua sala por 48 horas. O pai foi avisado pelo próprio assassino que o corpo putrefato fora deixado à sua porta. […] “Segundo o processo ao qual este site teve acesso, ‘o revisionando praticou atos libidinosos consistentes em sexo oral e sexo anal com o menor Fábio dos Santos Lemos, que à época contava com apenas 9 anos de idade’.” 


Pode ser que Susy sinta solidão por causa de transfobia. Mas diante desse processo desencavado pel’O Antagonista acho mais confiável apostar que seu crime com ares de psicopatia é que afasta as visitas. 
Não só a reportagem nos induziu a erro como fez pessoas misericordiosas por todo o Brasil – inclusive crianças – começarem a escrever cartas para Susy e manifestar interesse em visitá-la na cadeia. O que passava pela cabeça de quem produziu a matéria? 


Se o produtor da matéria não sabia do motivo pelo qual Susy estava presa, deveria se informar antes de emocionar o país com aquele abraço não exatamente numa trans abandonada, mas em alguém que estuprou e matou uma criança. Não é muito jornalístico deduzir que uma trans que não é visitada por parentes só pode ser vítima de transfobia. 


Se o produtor da matéria sabia do crime asqueroso de Susy, teria pensado que valia a pena enganar a audiência porque “uau, essa cena está muito emotiva, será o clímax do vídeo”? A maioria das presidiárias trans está na cadeia por roubo e tráfico – não seria melhor ter escolhido uma delas para ilustrar como algumas trans são abandonadas pela família? Nessa hipótese, o diálogo poderia ter transcorrido mais ou menos assim: 


– Você recebe visitas na cadeia? 

– Não, nunca. 

– Você acha que é por causa do crime que você cometeu? 

– Não, eu acho que é mais por causa de transfobia. A sociedade e mesmo as nossas famílias não nos aceitam. 

– Os homens que cometeram o mesmo crime que você recebem visitas? 

– Sim, sempre recebem. 

– Solidão, né, minha filha? 


Drauzio Varella alegou que desconhecia os crimes que as entrevistadas tinham cometido, mas aos 11 minutos e 22 segundos de reportagem é ele que narra que outra trans retratada, Lolla, “veio parar na prisão por roubo”. Sabia do crime de Lolla, mas não sabia do crime de Susy? Drauzio já escreveu para a Folha uma coluna, em 2014, em que chamava o estupro de “o mais abjeto dos crimes” e parecia concordar com a ideia de que um estuprador é pior do que um assassino. Em 2019, ele escreveu outra coluna especificamente sobre violência sexual contra crianças, apresentando estes dados: 

“Violência sexual contra crianças existe em todas as classes sociais, mas na periferia de nossas cidades é epidemia. Segundo o Ipea, das 60 mil queixas de estupro apresentadas nas delegacias em 2016, cerca de 50% ocorreram com crianças abaixo de 13 anos, e 20% com adolescentes de 14 a 17 anos. Portanto, 70% das vítimas são menores de idade, estupradas dentro de casa, em sua maioria, pelo padrasto, pelo pai, tios, avós e vizinhos, tragédias encobertas pelos familiares e pelas próprias vítimas indefesas e mortas de vergonha.” (grifo meu) 

Lembre-se que esses são os dados notificados. Não me parece errado supor que a violência sexual infantil – como outras violências mais comuns em periferias – ocorrem em número muito maior do que as denúncias fazem crer. 


Quem considera o estupro de mulheres “o mais abjeto dos crimes” certamente teria adjetivos piores para qualificar o estupro de uma criança de 9 anos que depois foi estrangulada. Gostaria de acreditar na ingenuidade de Drauzio, supondo que ele não teria sido cooptado pelo identitarismo, politizador da misericórdia. Como seu canal no YouTube tem dado voz a autoritários dessa ideologia – diversidade talvez seja permitir que autoritários também “ocupem os espaços” –, abstenho-me de defendê-lo nessa situação. 


No Caso Susy, militantes de esquerda de repente se transformaram em pastores de ovelhas, descalços e pacíficos, pedindo aos outros que praticassem o perdão e entendessem que Susy já estava pagando por seu erro. Dr. Jekyll defende o direito ao esquecimento para estupradoras assassinas se elas tiverem a identidade correta. Mr. Hyde exige a demissão de jornalista que tropeça em terminologias, deseja a morte de pessoas famosas que fizeram um gracejo bairrista, acha que a piada “coisa de preto” de William Waack deveria tê-lo jogado no ostracismo, grita que injúria racial deveria dar cadeia. Não há valores mal balanceados aqui? 


CASO 2 


Há pessoas que confundem os exageros do politicamente correto com falta de educação. Pensam que ser respeitoso com mulheres, negros, homossexuais, gordos e pessoas com deficiência é aderir ao politicamente correto. Então não aderem. Acham que é seu direito humilhar os outros por causa de características físicas ou orientações sexuais historicamente marginalizadas, e fazem disso um comportamento reiterado, debochado e até orgulhoso. Se a ocorrência é leve, podemos avaliar se é uma coisa inofensiva e deixar pra lá – sem transformar qualquer piada inocente com minorias em caso de polícia – ou repudiar a manifestação isolada para que o perpetrador perceba que aquilo é inadequado. Se a ocorrência é grave, tendemos a repudiar o perpetrador inteiro. Mas essa separação está perdida numa época de sinalização extrema de virtudes. Tem quem pense que um xingamento politicamente incorreto deva terminar em cadeia. 


Parece que alguns dos produtores do Fantástico pensam isso. No dia 31 de maio foi ao ar a reportagem “Não se cale: especialistas e vítimas falam da importância de denunciar o racismo”, dando exemplos de pessoas negras que sofreram injúria racial. A matéria começa com o caso da médica Thelma, vencedora do BBB de 2020, que teria sofrido “ataques racistas” durante uma live. O exemplo que o Fantástico deu de ataque racista sofrido por Thelma foi: “essas negras são tão frescas”. O autor do comentário foi chamado de “agressor”. Depois mostraram comentários realmente racistas: num grupo de Whatsapp, uma adolescente negra que estudava numa escola particular do Rio de Janeiro foi referida, por colegas, como escrava que deveria ser vendida, além de outros comentários humilhantes à sua cor. Outro episódio relevante foi o da atriz Cacau Protásio, que fez uma esquete humorística no Corpo de Bombeiros e depois foi chamada por um bombeiro, em tom claramente ofensivo, de “gorda, preta, filha da puta, bucha de canhão”. 


Então o narrador da matéria diz: 

“Casos como esses apresentados até agora costumam ser enquadrados pela Justiça Brasileira como crime de injúria racial, e não como crime de racismo, que é mais grave. Para este advogado [mostra o advogado Fabiano Machado da Rosa], isso dificulta punições mais efetivas.” 

O advogado se posiciona: 

“O crime de injúria racial tem uma pena mais branda, normalmente uma pena de reclusão de 1 a 3 anos, que nunca acontece porque tem menor potencial ofensivo e acaba virando um acordo… quando isso acontece.” 

Volta para o narrador: 

“Foi o que aconteceu no caso dos quatro torcedores do Grêmio que xingaram o goleiro Aranha de ‘macaco’ durante um jogo da Copa do Brasil há 6 anos. Eles foram obrigados a se apresentar numa delegacia em dias de jogos do Grêmio durante 10 meses, e se livraram dos processos por injúria racial.” 

Se livraram dos processos.” Quem criou o texto da matéria parece não fazer ideia do que é ser processado, especialmente se você não for rico. Primeiro que, como dizia o jurista italiano Francesco Carnelutti em O problema da pena, passar pelo processo penal já é parte da pena. Há desgaste individual, com familiares e conhecidos, com as situações desagradáveis que se enfrenta no decorrer do processo. É por isso que o Direito Penal deveria ser o último ramo do Direito a se buscar, tendo como objeto ocorrências realmente graves que mereceriam o estatuto de crime. Segundo que, no caso dos torcedores do Grêmio, a punição social extrapolou a punição legal pela injúria racial que cometeram. A mulher que apareceu na TV, durante o jogo, chamando o goleiro Aranha de “macaco”, está até hoje, seis anos depois do caso, tendo seu rosto exposto na mídia quando se comenta o racismo no futebol – essa matéria do Fantástico mostrou seu rosto novamente –, perdeu o emprego, já mudou de casa, já mudou a aparência para não ser reconhecida na rua. Achar que um xingamento – ainda que abominável, até porque coralizado dentro de um estádio – deva desencadear tudo isso me lembra a desproporcionalidade da Inquisição, que está de volta remodelada, mas cheia de viço e vontade de trabalhar. Alguém que mata pessoas no trânsito por dirigir em alta velocidade não passa por tanto. 


Essa diferença de avaliação não diz respeito apenas ao dolo ou à falta dele, mas à sanha identitária, que gosta de punições duras para delitos praticados contra minorias. Como não existe jogo de futebol em que o árbitro não seja chamado de “veado” – até em jogos da Copinha vi bestializados gritando “boiola filho da puta, por que não fica de quatro em campo?” –, estou tentando prever quando a missão inquisitorial da esquerda purificadora chegará nessa gente e dirá que ela deve ir para o presídio. É a mesma esquerda que repudia a superlotação das cadeias e diz que se prende demais no Brasil? 


Mesmo que a punição social não tivesse acontecido nessa dimensão, ser obrigado a comparecer à delegacia toda vez que houvesse jogos do Grêmio durante 10 meses é, em si, uma punição desproporcional para a injúria. Quem deveria ter punido os torcedores era o próprio Grêmio, suspendendo sua possibilidade de frequentar os jogos por dado período. Estou com Francesco Carnelutti também nisso: injúria deveria ser contravenção, não crime. Seu potencial ofensivo é menor, a Justiça deveria se ocupar de delitos graves e é possível resolver a maior parte do problema da injúria pelo espírito social. 


Você deve se lembrar. Até meados da década de 2000 era muito difícil uma mulher mediana sair bem trajada na rua, no verão, e não receber assovios e cantadas. Era muito difícil uma mulher mediana ir a uma balada e não receber galanteios com o cara já se sentindo livre para alisamentos indevidos. Era muito difícil ser adolescente do sexo feminino sem perceber que mesmo alguns de seus professores demoravam os olhares onde não deviam e às vezes faziam comentários sobre seu corpo. Era muito difícil ser gordo, ter deficiência física ou mental e ser anão sem ser lembrado disso a todo instante: pessoas na escola, no trabalho e na rua se sentiam à vontade para fazer piadas, apontar, gargalhar, gritar xingamentos. Era muito difícil tratar de bullying nas escolas, porque mesmo os professores participavam do bullying ou fingiam que não viam o que estava acontecendo, parecendo achar que “tem que ser humilhado mesmo e apanhar, esse veadinho” ou “a magricela está sendo chamada de feia e dentuça, mas é feia e dentuça mesmo, os colegas não estão errados”. Era muito difícil ser uma chefe mulher sem receber, com facilidade e pelos cantos, comentários de “puta”, “mal amada” ou “sapatão”. Era muito difícil ser gay sem ouvir comentários como “nojento” ou ser tratado pelos vizinhos como se fosse um leproso na Antiguidade. Era muito difícil ser negro retinto e não ouvir piadas animalizantes ou associações da sua cor à falta de inteligência ou à preguiça. Era muito difícil ser negro claro, ouvir aquelas mesmas piadas e depois receber do piadista o paliativo “é claro que não estou falando de você, você nem é negro, você é moreno”. Era muito difícil ser transsexual ou travesti e conseguir respeito dos outros – quando se era convidada para programas de TV, não era por inclusão, mas para ser alvo de escárnio. Nada disso se extinguiu, mas diminuiu tanto que é cativante pensar do que a mudança no espírito social é capaz. 


É verdade que temos um problema com a fúria da internet – pessoas despejam aqui o ódio descabido que ao vivo não é externado –, mas, desculpe o otimismo, se o auge da internet fosse nos anos 90 tudo seria muito pior para negros, mulheres, gordos, pessoas com deficiência, homossexuais, travestis. 


Essas coisas todas se transformaram por uma vontade coletiva de mudança dos valores morais, não por leis criminalizando a estupidez, a falta de educação e a trollagem. A injúria pode ser crime há muito tempo, mas também por muito tempo quem fez uso dela foram os ricos e os famosos. Em geral, pessoas pobres e de classe média que eram injuriadas não recorriam à Justiça para “reparar os danos da injúria”, e mesmo assim os ares mudaram para elas. Não é obrigatório criminalizar um comportamento para corrigi-lo. Muitos dos comportamentos do passado que estão hoje corrigidos não foram criminalizados. Se foram criminalizados, como no caso da injúria, não foi isso que mudou posturas. 


Para alguns redatores do Fantástico a injúria racial deveria ser melhor punida. Pelas entrelinhas da matéria citada neste tópico, parece que desejam que o injuriador vá para a cadeia. De um lado cresce o discurso pueril do abolicionismo penal, de outro pulula esse movimento “cadeia para quem xinga minorias”. 


Máxima justiça, máxima injustiça”, escreveu Cícero. Quem pede detenção para um xingamento não raciocina sobre a jornada que leva à prisão e tudo que ela arranca sem anestésico ou vodca: liberdade de locomoção, emprego, reputação, direito de escolha do que comer e vestir, amigos, convivência familiar, direito à intimidade, direito à fruição estética, direito à humanidade, direito de dispor do próprio corpo e não ser estuprado ou violentado. Se alguém raciocina sobre tudo isso e mantém o desejo inquisidor – “sim, quem comete injúria racial merece todas essas punições” –, aí o negócio é fazer um pacto com Satanás para poder ao menos aproveitar alguma compensação terrena (“beleza estonteante”, “saber enciclopédico”) pelo Inferno no qual será jogado pela eternidade. Isso se o Deus que estiver valendo for o do Novo Testamento, é claro. O do Velho aprovava vinganças desproporcionais envolvendo matanças de comunidades inteiras ao não se sentir devidamente amado. Mas, pensando bem, é sensato lembrar que o tirano aprova apenas a própria tirania, e não gosta muito de ver seus súditos tentando ser como ele é. De qualquer forma, justiceiros sociais, se acreditam em céu, inferno e purgatório, preparem-se. O infinito fogo vos contempla. 


Os produtores do Fantástico que apresentam aos telespectadores a avaliação de que os torcedores do Grêmio não foram severamente punidos – tinham que ter sido mais punidos – são os mesmos que acham que uma trans que estupra e mata uma criança merece banho cosmético de vítima para representar bem uma narrativa dentro de uma reportagem? É possível. 



Apesar de manifestar minha opinião pela descriminalização da injúria – de qualquer tipo de injúria –, sou favorável à punição dentro das instituições se a injúria ocorrer em seu quadro e sou favorável à possibilidade de pedido de danos morais se a injúria grave for contra pessoas em posição inferior na hierarquia trabalhista que não têm condições de se defender em pé de igualdade. Como escrevia La Rochefoucauld, “os fracos não podem ser sinceros”. Um funcionário não pode ser chamado de “burro” por uma chefia incompetente sem que nada aconteça dentro dessa relação de poder desigual, humilhações repetitivas em empresas devem ensejar causa por danos morais, coordenadores escolares que percebam que alunos negros são vítimas de injúria racial devem suspender ou expulsar os infratores, dependendo da gravidade e da repercussão do que disseram, e deixar claro para todos por que tomaram aquela medida. Empresas e escolas também são responsáveis por ceifar os ramos que tentam renascer no túmulo da indecência. 


No caso do jogo Grêmio X Santos, o time que viu um de seus jogadores receber ofensas racistas em coro está em seu direito de se recusar a continuar a partida até que os injuriadores sejam retirados do estádio. Com algumas ações desse tipo, logo a prática estaria quase totalmente coibida – afinal, quem quer pagar ingresso para ser retirado da arquibancada no meio do jogo? Aqueles que se considerassem espertos deixando os xingamentos racistas para o final do segundo tempo ainda poderiam sofrer sanções do clube pelo qual torcem. 


Não precisamos invocar o Estado ou o presídio toda vez que uma ofensa ocorre na sociedade. A própria sociedade pode se organizar para restringir comportamentos que não considere mais adequados. E se essa sociedade, tão variada e às vezes animalizada nos seus gritos de guerra, tomar decisões que extrapolem suas funções moderadoras, aí podemos voltar ao Estado para freá-la. Estabelecemos um contrato social em que sempre deve haver quem vigie os vigilantes. É com erros e acertos que vamos regulando os personagens dessa teia complexa que nenhuma utopia política consegue alinhar. 



Agora, vão me desculpar, mas o famoso Rubi processar, civil ou criminalmente, o famoso Esmeralda que o xingou de “vagabundo”… meu deus. Acionar a Justiça pra isso? Em um país em que 31% da massa carcerária é de presos provisórios, juízes e servidores públicos têm que perder tempo analisando os casos de quem está chateado por ter sido chamado de “idiota”? 


E sou uma admiradora de longa data de Laerte, a cartunista. Tenho todos os livros que publicou, tenho todas as edições das revistas Striptiras e Piratas do Tietê, eu só comprava no sebo a revista Geraldão, do Glauco, porque às vezes ali no meio havia alguma história da Laerte (Geraldão era muito ruim). Mas processar o jornalista Reinaldo Azevedo por causa dos xingamentos “fraude moral”, “baranga moral”, “fraude de gênero” e “fraude lógica”… Que bobagem. Seria muito melhor ter feito uma excelente história em quadrinhos tirando sarro dos chiliques e das convicções de Reinaldo. Poderia até tê-lo desenhado numa versão trans, tentando imaginar que tipo de trans ele seria. Laerte processar Reinaldo por expressões grosseiras é como dizer que ele não deveria ter o direito de detestá-la em público. Mesmo repudiando o que Reinaldo escreveu, na minha opinião ele deveria ter o direito de detestar alguém na internet sem ser processado por isso. Se meu xingamento não envolve ameaça ou incitação à violência, não me agrada a ideia de o Estado decidir quem posso xingar.


Em qualquer rede social que você visite, basta menos de um minuto para acessar comentários injuriosos. Se a internet está passando por um momento de campanha moralista – quase todos os dias temos alguém para ser perseguido a fim de que os perseguidores se sintam superiores a quem erra em público –, aí é que a tempestade de injúrias cai como se fosse um sinal do apocalipse. Não acho que isso deva ser resolvido processando todo mundo. E lembro que alguns dos que ficam animados com as condenações por injúria de seus inimigos eleitos – inimigos que às vezes nem os conhecem – são pessoas que, “sem perceber”, cometem injúrias com frequência na internet. 


Atente: é por existir uma tipificação da injúria no Direito Penal que você não consegue garantir que sairá ileso ao usar caixas de comentários para espinafrar políticos, ministros do STF que tomam decisões estranhas, artistas. É possível que nenhuma grave punição aconteça ao final, mas só de ser processado você entenderá o que Carnelutti queria dizer com a ideia de que passar pelo processo penal já é parte da pena – se for inocente, então, é uma pena que você paga sem merecer e sem compensação retroativa. Mas também é possível que você tenha que fazer como a atriz Monica Iozzi, obrigada pela Justiça a pagar 30 mil reais ao ministro Gilmar Mendes porque usou o Twitter para criticar uma decisão sua que favorecia o médico Roger Abdelmassih, processado por estupro de pacientes. 


Vem a pergunta: Iozzi passou a ser uma defensora da descriminalização da injúria após o episódio, pois essa tipificação reprime a liberdade de xingamento e permite punições desproporcionais? Não. Ao ser questionada sobre a condenação, no programa Conversa com Bial, ela fez a seguinte conjectura

“A palavra ‘liberdade’ já não deixa claro que você pode se expressar como quiser, a menos que esteja sendo preconceituoso, cometendo crime como racismo?” 

A menos que esteja sendo preconceituoso.” Quem tem esse pensamento quer que um mesmo Estado viva sob duas legislações: a legislação para “os opressores” e a legislação para as minorias, totais ou eventuais. Às minorias tudo seria permitido – injuriar, difamar, caluniar, acusar de estupro sem provar. Já sobre opressores – homens, brancos, heterossexuais, ricos, pessoas em posição de poder ou prestígio – cairia um código draconiano moderno, em que eles não poderiam processar ninguém, mas poderiam ser processados pela mais banal piada. Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei. Iozzi não queria pagar penalmente por ter escrito “cúmplice?” embaixo da foto de um ministro que acabava de tomar decisão favorável a um acusado de estupro, mas acha que “para quem é preconceituoso” o Direito Penal deve valer. A experiência não lhe ensinou muita coisa. Que pena. 


*


Talvez alguém diga “OK, a criminalização de toda injúria parece mesmo uma coisa descabida, mas injúria racial é grave e deveria ser punida de alguma forma pelo Estado”. Entendo o pensamento. Nós costumamos considerar algumas injúrias piores do que outras, e a injúria racial é perversa, dolorida, traz lembranças históricas. Mas como fica uma pessoa que é humilhada por ser gay? “Bem, talvez a injúria homofóbica também deva ser punida.” E como ficam as mulheres que são associadas a putas ou dragões por homens machistas que acham que a primeira função da mulher é decorar as ruas e as casas? “Bem, acho que a injúria de gênero deve ser punida também, então.” E as pessoas gordas? Você faz ideia de todos os xingamentos que as pessoas gordas recebem no decorrer da vida? Uma pessoa gorda que incomoda receberá como primeiro xingamento alguma palavra relacionada ao seu corpo. “Bem, acho que injúria gordofóbica deve ser punida também.” E que tal a loira chamada de “burra”, o governador branco chamado de “lixo, merda, fascista”, a rica chamada de “aborto humano”? “Ah, mas essas pessoas não são historicamente marginalizadas.” Então apenas as pessoas historicamente marginalizadas têm sentimentos? Um homem rico não tem o direito de se ofender ao ser xingado? Uma mulher loira não tem o direito de se ofender ao ser chamada de burra? Supremacistas negros são livres para dizer a um branco que ele “deveria ter vergonha da própria cor asquerosa” e esse branco não teria o direito de se ofender?


Não cabe à legislação escolher a quem é permitido se ofender e qual é a justa punição para um dano subjetivo como a ofensa. Injuriar deveria ser um direito de todos. Ofender-se também. Tratar tudo isso como caso de Estado é desvario.


CASO 3 


Você está assistindo ao jornal. Uma matéria está abordando a temperatura em São Paulo e mostra, em flashes, as opiniões de transeuntes sobre a recente onda de calor. Uma senhora aparece por dois segundos, com o microfone apontado para ela, apenas para dizer: 


– Menina, parece que a gente está no deserto. 


Dificilmente isso foi tudo o que a senhora disse para a repórter que a interpelou, mas os editores do jornal não têm motivo para colocar o diálogo inteiro no ar. Queriam apenas mostrar a opinião de uma senhora comum sobre o assunto da reportagem, queriam provar um ponto, queriam dar dinâmica à matéria. A edição dos jornais é estudada, trabalhosa e, claro, pode mostrar proselitismo mal embasado. 


Em matéria veiculada pelo Fantástico em 18 de outubro de 2020 – “Polícia brasileira nunca matou tanto quanto em 2019; quase 80% eram negros” –, tivemos alguns desses flashes com a historiadora Ynaê Lopes dos Santos, da Universidade Federal Fluminense (UFF). A matéria tem 18 minutos. Os flashes de Ynaê não chegam a somar um minuto, mas esta fala foi uma das escolhidas para aparecer na edição final da reportagem: 

“Quando a gente, por exemplo, abre um livro didático e só vê negro no lugar de escravizado, isso já está informando a gente de que não tem problema esse homem negro, do nosso imaginário e do nosso passado, aqui no presente também sofrer as mesmas coisas que aquele escravizado sofria.” 

Essa análise não tem nenhum sentido. O livro didático informa sobre o passado brasileiro e o passado brasileiro é racista e escravista. Se algum aluno tirar da história escravocrata do Brasil a conclusão de que pessoas negras deveriam ser tratadas como mercadoria ainda hoje, o problema não está no livro didático, está no aluno. Por toda a minha vida escolar, em instituições particulares e públicas, a escravidão registrada em livros didáticos era abordada pelos professores como uma monstruosidade, uma coisa difícil de imaginar em sua naturalidade passada, e somente alunos muito pontuais – provenientes de famílias ausentes na educação de valores ou presentes na educação de baixezas – é que achavam alguma graça naquilo. 


Se o jornal está entrevistando um especialista ao vivo, não há como ter responsabilidade pelo que esse especialista diz, já que não se pode escolher quais partes de sua exposição irão ao ar – tudo vai ao ar. Se o jornal entrevistou um político e fará uma reportagem prejudicial a ele, faz sentido apresentar flashes que mostrem os absurdos que disse, porque é ao redor desses absurdos que a própria reportagem será desenvolvida. Mas uma matéria instrutiva sobre os abusos da polícia – matéria que é editada de forma a compor uma explicação profissional – não deveria ter uma associação relapsa entre livros didáticos e violência policial, como se policiais fossem mais brutais com homens negros porque viram na escola que, no passado, homens negros eram geralmente escravos tratados como mercadoria. 


Para as intenções da reportagem do Fantástico, a historiadora Ynaê não era uma política escorregando em opiniões equivocadas: estava ali com fins pedagógicos, para passar ao telespectador uma análise especializada sobre os suplícios da negritude. Então por que mantiveram aquela sua fala sem sentido? Concordaram com ela? Pensaram que havia algum brilhantismo ali? Desculpe, mas erraram. E acho que sabemos por que erraram. 


*** 


Esse tipo de jornalismo ainda vai piorar muito, mas depois de uma crise talvez volte à sua razão de ser, pois a História tem desses ciclos de trevas e de luz. Enquanto isso não acontece, não podemos estar passivos diante da TV ou da Folha de S.Paulo, acreditando que o trabalho está pronto e que estamos vendo ou lendo a melhor apuração possível dos acontecimentos. 


Jornalistas deveriam se comprometer com a verdade, e a verdade não consegue satisfazer plenamente nenhuma agenda. Se a verdade de um jornal consegue chancelar uma agenda inteira, deve ser porque ela é tão verdadeira quanto o artista que põe um saco de arroz no meio do museu ou o cristão que não faz caridade. 
Em tempos de jornalismo dito isento na propaganda comercial, mas cooptado nas redações pela propaganda ideológica, é bom deixar as botas preparadas na porta caso você mesmo precise sair para coletar outras informações. Se um dia perceber que passa mais tempo fora de casa fazendo isso do que relaxando com seu cachorro no sofá, sinta a miséria do mundo baixar em suas costas, mas lembre-se que depois de muita desgraça as coisas começam a melhorar. 


Encerro com uma citação de William Zinsser, do livro Como escrever bem: o clássico manual americano da escrita jornalísticae de não ficção, que eu gostaria que os jornalistas responsáveis pelas matérias citadas nesta postagem lessem: 

“A credibilidade é algo tão frágil para um escritor quanto para um presidente. Não infle um incidente para torná-lo mais extraordinário do que ele realmente é. Se o leitor o flagra, nem que seja em uma única afirmação falsa que você está fazendo passar por verdadeira, tudo o que escrever depois se tornará suspeito. É um risco grande demais, não vale a pena.” 

Talvez a recomendação valha também para magistrados ao escrever sentenças, nos tribunais e no Twitter. 

*** 


NOTAS

1. Num país miscigenado como o Brasil, apenas os tribunais raciais das universidades têm a certeza de fazer uma segura separação entre quem é branco, pardo ou negro. Minha tendência em denominação é chamar negros retintos de negros, brancos e morenos de brancos, e pardos… depende. Há pardos que parecem mais brancos, há pardos que parecem mais negros. Se um pardo claro quer se chamar de branco, não vejo problema nisso: ele tem ancestrais brancos, olha para o próprio fenótipo e percebe que é mais assemelhado a brancos. Se um pardo quer se chamar de negro, também não vejo problema se nele se destacarem mais características de seus ancestrais negros do que de seus ancestrais brancos. O que não me agrada muito é afroconveniência – um pardo claro que começa a se denominar negro porque percebe que isso tem contado pontos em alguns meios –, negação de ancestralidade branca – como têm feito alguns ativistas pardos que desejam nos convencer de que acabaram de chegar da África subsaariana – e negação da autodeclaração alheia – quando, visando a inflar o número de pessoas que se consideram negras no país, grupos apagam a declaração daqueles que se disseram pardos ao IBGE e põem essas pessoas na categoria de negros. 


Beto Freitas era pardo, resultado de miscigenação de brancos com negros. Como parecia mais negro do que branco, optei chamá-lo de negro, como fizeram os jornais. Mas não haveria nenhum problema se eu o chamasse de pardo, pois, a rigor, é essa mistura que seu fenótipo refletia. 


2. Para provar que um crime ocorreu por motivos raciais, é preciso que se evidencie a discriminação. Não é possível deduzir, sem evidências e sem contexto, que um homem negro vitimado por um homem branco foi morto porque foi discriminado racialmente. Mas componente discriminatório manifestado durante uma violência não necessariamente significa que a violência tenha acontecido por causa da discriminação em primeiro lugar. 


Imagine uma mulher obesa que tem alguns cachorros em casa. Esses cachorros estão sempre fugindo para o terreno de sua vizinha, uma jovem muito magra que detesta cachorros. A jovem magra faz reclamações à mulher obesa, que não providencia uma forma de seus cachorros não mais invadirem o terreno da vizinha. Um dia, quando os cachorros escapam pela enésima vez e enchem o gramado da vizinha de cocô, ela surta, vai à casa da mulher obesa e começa a espancá-la. Enquanto espanca, grita: “já falei para você respeitar meu jardim e manter esses cachorros presos, sua [xingamentos gordofóbicos]”. A mulher obesa não morre, mas fica com muitos hematomas do espancamento. Faz sentido dizer que ela foi espancada porque sua vizinha tinha preconceito contra pessoas gordas? O fato de a mulher obesa ser obesa pode ter aumentado o ódio de sua vizinha, mas não dá para dizer que a violência começou por causa de gordofobia. 


2.1. O genocídio de Ruanda é um exemplo em que o amplo contexto explica os casos particulares. Você não precisa dizer “não sabemos se todos os casos de assassinatos se deveram a discriminação étnica” para assim querer relativizar o massacre que foi abertamente por motivos étnicos. Casos pontuais de um vizinho que matou o outro não por execrar sua etnia, mas para aproveitar a situação de caos e assassinar quem lhe devia dinheiro são exceções que confirmam a regra. O mesmo se pode dizer do Holocausto. 


2.2. Casos particulares sem evidência de discriminação racial agora são usados para explicar um contexto amplo de guerra racial moderna. Sociedade, História e até a psicologia do estereótipo são simplificados – quando não esquecidos – para selar uma narrativa que parece ter sido criada por moleques. A polícia que persegue muito mais jovens negros do que mulheres negras e idosos negros de ambos os gêneros é chamada de “genocida” enquanto corporação. É análise simplória, barata e irresponsável. 


3. Chegará um momento em que jovens identitários do ramo jurídico conseguirão cargos na magistratura. Já estamos acompanhando boas cabeças se perdendo nos delírios da seita, que converte como as seitas convertem: arrebatando


4. Gosto de citar críticos da esquerda, mas gosto especialmente de fazer isso quando o crítico se considera de esquerda. Daniele Giglioli, autor de Crítica da vítima, é um exemplo. Em 2018 presenciei um bate-papo com ele na Livraria da Vila. Um dos mediadores quis integrá-lo a uma crítica à esquerda como um todo – talvez achando que sua vitimologia fosse aplicável somente a esse lado, o que não confere –, mas Giglioli fez questão de ressaltar que ele mesmo era de esquerda e valorizava muitos dos valores esquerdistas. Ele ter esse posicionamento e conseguir repudiar com objetividade a competição das vítimas é corajoso. Certamente alguns radicais de esquerda gostariam de poder defenestrá-lo para a direita por isso. Como escreve o conservador canadense Mathieu Bock-Côté, em O império do politicamente correto

“Basta que uma esquerda não queira seguir o ritmo indicado pela vanguarda progressista para que seja deportada para a direita, na maior parte do tempo a contragosto.” 

Todas as seitas abrigam radicais com mania de pureza que querem expulsar aqueles que destoam um pouco das regras d’O LIVRO DOS GENUÍNOS MEMBROS DA SEITA. Esses fanáticos sentem prazer em procurar pequenas falhas em outras pessoas de seu grupo, e têm a ambição de montar um reino perfeito em que todos têm que pensar exatamente como eles – ou “não prestam para participar do nosso culto”. Não é suficiente concordar com 95% dos ditames da seita: quem não concorda com tudo deve ser expulso para que o grupo seja depurado. Alguns esquerdistas se encaixam nessa descrição, mas não só eles. Escreverei melhor sobre isso no futuro, numa postagem sobre como tudo pode se transformar em religião. 


5. Acredito que alguns jornalistas se ressentem pela incumbência de redigir notícias em vez de escrever colunas. Então tentam remediar essa amargura imprimindo uma forte pegada pessoal em matérias que deveriam nos informar a apuração dos fatos. Sentem-se mais-um-entre-anônimos se não puderem colocar no texto um tanto de emoção – “Dona Neide sempre faceira, balançante, com um sorriso sincero que seria capaz de converter a todos para suas causas, naquele dia chorava como um bebê faminto” –, de firula – “o frasquinho onde carregava o loló que lhe permitia a fuga da realidade tinha uma mancha embaixo, e essa mancha parecia uma cruz que derretia” – e de opinião – “dizem que o racismo é o crime perfeito, e talvez seja esse o caso aqui, pois o carpinteiro José, negro, foi atingido na calçada pelo piano que caiu de uma cobertura onde moram milionários de sobrenome italiano”. Textos hipotéticos, mas que representam algumas matérias que tenho lido. 


Esses jornalistas acham que estão “apagando seu eu” se não fizerem artesanatos chamativos para pedir ao leitor “ei, não esqueça de mim, estou aqui!”, como se eles tivessem que aparecer mais que a notícia. 


É possível escrever um texto que se atenha aos fatos puros e seja bem construído no estilo, diferenciando a estética de um jornalista quando comparado ao trabalho de seus colegas. É possível fazer fatos frios se tornarem vivos no meio de um artigo rico que não abre mão da perseguição à verdade. Carregar uma melancia na cabeça para ser notado é a redução ao absurdo dessa ideia. 


A noção de sutileza na arquitetura da notícia virou tédio na mente de quem quer <BRILHAR> e planeja fazer uma releitura kitsch do rococó. Logo vão convidar Bráulio Bessa para trabalhar na redação dos grandes jornais. Acho que alguns discípulos dele já estão trabalhando. 


5.1. O mote é “não queremos que saia daqui informado, mas encantado”. Uma mulher que quebrou o pé numa enchente se transforma, no editor de textos do adepto da reportagem-poético-jeca, em alguém que precisa nos levar a abrir uma caixinha de lenços para conter as lágrimas. É o jornalismo que quer “fazer o mundo melhor”. Legal, mas o mundo melhor só é alcançado pelo recurso do patético e do açucarado? Pra mim pode ser sem açúcar, por gentileza. 


6. Critiquei Folha de S.PauloÉpocaFantástico. Mas continuarei utilizando os serviços de todos. Do que escolho ler/ver deles, ainda tiro mais coisas boas do que ruins. E visitar portais de notícias alternativos em retaliação ao erro dos grandes jornais é como querer curar dor de cabeça decepando a própria cabeça. 


7. O portal de notícias UOL, do Grupo Folha, publicou há poucos dias a manchete “Jornalista faz ataque xenófobo contra time do Bahia em vídeo”. O “ataque” foi essa fala: 

“’Tomara que [as jogadoras do Bahia] estejam bem baianas. Pensando assim: “ah, vamos deixar o jogo para depois de amanhã”. Enquanto isso, a gente já está no 220V’, disse Aline, aos risos.” 

Depois a manchete foi alterada para “Jornalista faz vídeo xenófobo contra Bahia e cogita encerrar canal: ‘errei’”. 
O redator da matéria do UOL começa dizendo que a jornalista “se envolveu em uma enorme polêmica”. Atenção: “enorme”. Parece chamada da Sessão da Tarde


O tédio produz monstros. A vida fácil, longe da guerra e da fome, faz com que algumas pessoas criem problemas para ter com que se ocupar. Fazer piada inofensiva com baianos – piada que muitos baianos fazem com eles mesmos, inclusive em camisetas vendidas em pontos turísticos – é “ataque xenófobo” para alguém que talvez sinta falta de viver num lugar com uma genuína xenofobia para denunciar. 


A jornalista “xenófoba” já se desculpou, já chorou, já foi humilhada nas redes sociais, já recebeu sermão das jogadoras do Bahia. O técnico do time feminino do Botafogo, que participava da live, disse que não repeliu o comentário dela porque “foi induzido a erro” (?). É um mau-caratismo pior que o outro. 


Aguardo o dia em que esses carolas da ninharia, auditores do ínfimo deslize alheio, sejam repudiados em seu exibicionismo moral constante. Será o dia em que “quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado”. Na sociedade do espetáculo, a virtude é algo que se anuncia aos ventos. O “não julgueis” foi lido como “julgue o tempo todo, qualquer bobagem, para assim mostrar que você é superior àqueles que está julgando”. A virtude exibida ainda é virtude? E haveria, de fato, virtude no comportamento de transformar um pecadilho num erro gravíssimo? O farisaísmo é tendência outra vez. 


Tudo isso seria muito humano, mais-do-mesmo na História e hobbesiano se ficasse nas massas das redes sociais. Mas os jornais estão aderindo ao espírito. Aderem e ainda assim pensam que se diferenciam das redes sociais pelo “profissionalismo”, quando o fato é que os jornais estão se transformando em algo muito parecido com as redes sociais – e não estou me referindo às caixas de comentários desses jornais. Talvez Bari Weiss esteja certa ao dizer que é o Twitter que tem editado o The New York Times


7.1. Ao mesmo tempo, basta um jornal escrever sobre alguma cidade no Sul cuja maioria da população apoia Bolsonaro para surgirem comentários do tipo “não esperava outra coisa desses nazistas”. Parece que isso é permitido. Baiano não pode ser chamado de descansado em piada, mas a sério toda uma região do país pode ser chamada de NAZISTA. E sempre aparecerá alguém para digitar no computador, com a coluna de quem está dirigindo um Fusca, que “não existe injúria reversa num Brasil de injúria estrutural”. 


7.2. O caso da jornalista que fez piada com o time do Bahia me lembrou outro que ocorreu em 2014. O comentarista esportivo Raiam Santos, da ESPN, foi perguntado pelo colega Ari Aguiar: “O termômetro hoje bateu 39ºC aqui [em São Paulo]. No Rio está assim também?” Raiam, carioca, respondeu, em tom de brincadeira: 

“Lá é a mesma coisa, a diferença é que nós temos a praia de Ipanema e vocês têm o rio Tietê”. 

Apenas isso. Mas telespectadores pediram sua demissão por esse gracejo e semanas depois ele estava fora da ESPN. Tenho pena do sujeito vazio e frustrado que ouve uma piada dessas e resolve usar o pequeno poder que a internet lhe deu para arruinar o emprego de alguém. 


7.3. Em 2020, o jornalista Leandro Narloch foi demitido da CNN ao comentar a decisão do STF de permitir que homossexuais masculinos doem sangue. De acordo com o novo entendimento, bancos de sangue passariam a se pautar em conduta de risco e não mais no estereótipo promíscuo dos homens gays. Homens que tiveram um mesmo parceiro nos últimos anos poderiam participar do quadro de doadores sem serem discriminados apenas por sua orientação sexual. 


Narloch foi favorável à decisão. O que agitou a internet ignara foi o fato de o jornalista ter usado a expressão “opção sexual” e ter informado que “homens gays têm uma chance muito maior de ter AIDS”. 


“Opção sexual” é erro terminológico, já que a maioria dos homossexuais sente atração por pessoas do mesmo sexo por natureza. Falando dessa maioria, o melhor seria Narloch ter usado o termo “orientação sexual”, que não conota escolha, mas destino. Ainda assim, o faniquito nos sofás aconteceu mais por espírito linchador do que pelo senso de justiça a uma categoria minoritária, pois, sim, há pessoas que se relacionam com outras do mesmo sexo por opção. Geralmente são mulheres, e às vezes tomam a decisão porque “se cansaram” dos homens. Acho justo e penso que mais mulheres deveriam fazer isso. Quem sabe tal medida resolvesse o problema das que são obcecadas por limpeza e ficam deprimidas ao ver que seus maridos não têm a mesma obsessão, e aí acham que o feminismo tem que gastar energia com esse oh-céus-oh-vida enquanto o Brasil tem quase 2,5 mil pontos vulneráveis à exploração sexual de crianças e adolescentes em rodovias e estradas federais, e o Ligue 800 (Central de Atendimento à Mulher) recebeu 1,3 milhão de ligações em 2019 para relatar violência doméstica. Vá morar com outra mulher que também gosta de ficar de cócoras esfregando rodapé com escovinha e deixe o feminismo se ocupar de coisas mais importantes. 


Quanto à fala de que homens gays têm chance maior de ter AIDS, onde está o problema? O fato não compõe uma boa narrativa? Em 2018 a Folha de S.Paulo publicou: “Em SP, 1 a cada 4 homens que transam com homens tem HIV, revela estudo”. No UOL, o blogueiro Fefito comentou a demissão de Narloch da CNN e nos trouxe esses dados

“A título de informação, de acordo com o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, entre 2007 e 2019, 248.520 pessoas (homens e mulheres) se infectaram no país pelo vírus HIV a partir de relações sexuais. Destas, 105.014 eram LGBT+. Isso representa 42% do total. Ou seja: 58% dos infectados, a maioria, era heterossexual.” 

Ou seja.”


Acho engraçado quando alguém apresenta dados para tentar confirmar um argumento, mas acaba confirmando o oposto. Qual é a prevalência de homossexuais na população brasileira se comparados com os heterossexuais? Não chega a 10%. Dos infectados por HIV entre 2007 e 2019, pouco menos da metade era homossexual. Ou seja: o número de homossexuais infectados por HIV no período é alarmante. Por que é proibido dizer isso? Por que dizer isso faz um jornalista ser demitido? 


CNN foi tão desarrazoada em sua medida que pouco tempo depois de demitir Narloch por esse farelo – que logo seria esquecido pelas redes sociais, ocupadas em outras cruzadas expurgatórias –, contratou Alexandre Garcia para compor o quadro de comentaristas do canal. 


No Brasil atual, o negócio não é ser controverso, meio polemista ou um pouco enganado, é preciso ser uma tragédia total, um desafio à inteligência e ao bipedalismo, uma carniça exposta na mesa de jantar. Então o sujeito já desafiou tanto o bom senso e está tão enlameado de absurdo que isso se torna uma característica positiva, um diferencial, um trunfo. Está aí a Aberração da República para provar o ponto. 


7.4. Quando escrevo que um time de futebol pode parar o jogo ao perceber que pessoas da arquibancada estão fazendo xingamentos racistas contra seus jogadores, estou falando de xingamentos racistas, não de meramente apontar uma pessoa negra em campo usando sua cor como referência. Numa partida no final de 2020 entre o Paris Saint-Germain e o Istanbul Basaksehir, os jogadores pararam o jogo em protesto a uma fala do quarto árbitro, o romeno Sebastien Coltescu. O que aconteceu: 

“De acordo com os relatos do dia, Coltescu queria chamar a atenção do árbitro do jogo, perto de 15 minutos do primeiro tempo, para punir ou expulsar um membro da comissão técnica do Istanbul, o camaronês Pierre Webó. O juiz Ovidiu Hategan não entendeu. Então, o quarto árbitro disse o seguinte para indicar quem era: ‘O negro está ali. Vai ver quem é. Aquele negro não pode continuar a agir desta forma, retire-o’.” 

A matéria do UOL de onde o trecho acima foi tirado tinha este título: “Por que fala do 4º árbitro no jogo entre PSG e Istanbul foi racista”. Se uma manchete opinativa fosse “Por que Paris é a cidade mais linda do mundo”, eu apenas discordaria e deixaria pra lá, mas sentença de racismo dessa forma costumo levar mais a sério. Para escrever a matéria e chegar a essa conclusão, o jornalista conversou apenas com dois “especialistas” que chancelaram a tese de que o árbitro cometeu racismo – um jornalista e doutor do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas, e um doutor em Letras, líder do Grupo de Pesquisa em Linguagem e Racismo da UFSB. A matéria não trouxe o outro lado de ninguém: nem a fala do árbitro alegando que não tinha cometido racismo, nem um especialista para dizer “que frescura, se ele fosse ruivo o árbitro ia dizer O RUIVO”. 


Contextos podem mudar tudo. Para um árbitro romeno, uma pessoa negra no meio de brancas pode ter uma característica diferencial que faça valer a pena indicá-la como negra para facilitar que seu interlocutor entenda de quem ele trata. Perdi as contas de quantas vezes fui indicada como “a loira”, “a gordinha”, “a baixinha” – e sem tom pejorativo. Se eu estivesse jogando futebol em Moçambique, como vocês acham que os outros me indicariam ao não saber meu nome ou esquecer dele? 


8. É mais difícil desejar humanidade para criminosos quando a coisa errada acontece com as pessoas certas. Se é desproporcional querer que alguém que cometeu furto vá para a cadeia, nós muitas vezes pensamos “bem-feito” quando um estuprador em série que vai preso acaba assassinado por outros presidiários. Em prol da humanidade de uma mulher que apanhava com frequência do marido, sentimos menos humanidade pelo marido quando ele é esfaqueado por ela. Meu cérebro não produziu sentimento de compaixão quando policiais mataram 10 criminosos que invadiram residências no bairro do Morumbi, em São Paulo, portando fuzis. A palavra-chave FUZIL prejudica meus sentimentos quando está associada a bandidos. 


Mas não é porque o desejo de vingança é uma característica tão humana e comum que não devemos tomar cuidado com ele. Há pessoas presas preventivamente que são inocentes ou que cometeram crimes leves. Há serviçal de traficante que vai preso como se fosse o dono do morro. Há pessoas que furtaram itens em supermercados e vão para a prisão, onde são violentadas, ficam cegas, morrem. O feminismo identitário burguês está tentando ampliar o que pode ser considerado estupro, e, se as coisas continuarem nesse ritmo, um dia vão prender homem que foi autorizado a se despir, a beijar e a penetrar, mas que no meio do sexo não foi autorizado a gozar – e gozou. “Cinco segundos antes de ele gozar eu disse que não queria mais e mesmo assim ele insistiu em terminar: fui estuprada.” Há pessoas presas por engano, como este homem que ficou preso durante 5 anos por estupro no Ceará e foi libertado em 2019 após atestarem sua inocência. (Neste caso é até difícil entender a magnitude da incompetência da Justiça Criminal, pois um vídeo do estuprador mostra um sujeito muito mais alto do que o homem que foi preso.) 


Então quando alguém diz que “bandido bom é bandido morto”, talvez devamos perguntar: que tipo de bandido? Quando alguém diz que o sistema prisional não precisa melhorar “porque quem vai preso tem mesmo é que sofrer”, talvez devamos perguntar: qualquer preso deve sofrer? E se a selvageria prisional faz com que o preso saia pior da prisão, que tipo de planejamento estamos fazendo para a sociedade quando esse preso terminar de cumprir sua pena? 


9. Pela nossa legislação, injúria é crime. Perseguição é mera contravenção penal. Alguém que te xinga de “idiota” é considerado mais perigoso e merecedor de punição do que alguém que te persegue. Isso está mal balanceado. 


9.1. Sou favorável que injúria deixe de ser crime e que perseguição passe a ser. E se alguém te persegue com injúrias – por exemplo, todos os dias envia e-mails com xingamentos para você –, acredito que isso deveria ser enquadrado como perseguição. 


9.2. Nossa Constituição de 88 não é perfeita. Em alguns pontos é francamente justiceira, colocando o racismo como crime inafiançável e imprescritível – enquanto homicídio e estupro prescrevem. A obsessão com a guerra às drogas me parece inadequada – e pelo visto não surtiu efeito. Mas ela certamente é melhor do que a “nova Constituição” que alguns reacionários do Congresso gostariam de pôr no lugar. O ruim é inimigo do pior. Vamos ficar com o ruim por enquanto. O pior tende a ser muito ruim. 


10. Diálogos insanos em tempos insanos: 


– Não gosto de Van Gogh, Salvador Dalí, Basquiat, Picasso e Tarsila do Amaral. 

– Você não gosta do Basquiat porque você é racista. 



– Na placa ali fora vocês diziam que não punham coentro nos pratos. E meu prato veio cheio de coentro. 

– Senhora, por favor, um pouco de coentro não faz mal a ninguém. 

– Então tirem aquela placa ali na entrada que diz “não colocamos coentro na comida”. 

– A senhora está sendo muito radical. Não é porque colocamos coentro deliberadamente em alguns pratos que não podemos deixar a placa. 

– A placa diz “não colocamos coentro na comida”. Vocês colocam. Se alguém reclama, vocês não fazem nada. Não quero banir o coentro, apenas gostaria de comer em restaurantes onde esse ingrediente não é colocado na comida. E foi por isso que entrei aqui. 

– Mas são poucos os pratos em que colocamos coentro… 

– Certo, mas pelo visto eu só saberei disso enquanto já estiver saboreando o prato. 

– Senhora, coentro é muito bom, deveria reconhecer isso. Vários clientes aprovam. 



A Lei – É proibido fazer X. 

O Juiz – Não é tão proibido. Sei que você não quis dizer isso, então vou liberar nos casos que correspondem aos meus entendimentos, mesmo que o crime seja de menor potencial ofensivo e mesmo que minha decisão prejudique o réu. 

A Lei – Se eu separei a tipificação de racismo da tipificação de injúria racial é porque são crimes diferentes que merecem atenção diferente. 

O Juiz – Ora, só quem nunca sofreu racismo acha que injúria racial e racismo não estão conectados. 

A Lei – Você está confundindo as coisas com esse palavrório sentimentalista. Não dá para comparar uma piada racista com o fato de alguém impedir que negros frequentem uma escola ou entrem em um ônibus. 

O Juiz – Sua antiquada, você está precisando de uma renovação, não está acompanhando os debates nas redes sociais… 

A Lei – Que venham os legisladores. 

O Juiz – As redes sociais… digo, a sociedade não pode esperar pelos legisladores. Vou aplicar entendimentos mais joviais nas coisas que você diz e mudar o sistema por dentro, vou salvar a modernidade! 

A Lei – Sua função típica é julgar, não legislar. Eu já sou cheia de lacunas e coisas mal esmiuçadas onde você pode pintar o sete: essa liberdade não é suficiente? 

O Juiz – “Liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome.” Clarice Lispector. 


11. Texto escrito ao som de “Hush”, do Deep Purple, e outras coisas. 


11.1Essa música do Deep Purple que escolhi para encabeçar a postagem é um cover de uma música de Joe South. Descobri recentemente. 


11.2. Também descobri recentemente que a música “Crying in the rain”, do A-ha, é um cover dos Everly Brothers. As duas versões são bonitas. 


11.3. Outra música que embalou muito a escrita desta postagem: “Everything will turn out fine”, do Stealers Wheel. A música é toda linda, mas o finalzinho se esvaindo é minha parte favorita. 

(Postagem publicada originalmente no blog antigo em 24/01/2021 e atualizada em 28/05/2021.)

O Roda Viva sob Vera Magalhães e o jornalismo bajulador (Série “Radical do Movimento Negro”, texto nº 3)

Li alguns excelentes livros em 2020, mas se tivesse que selecionar apenas um para recomendar ao leitor indicaria, sem pensar duas vezes, Sobre a verdade, de George Orwell, lançado recentemente pela Companhia das Letras. Esse livro é uma compilação de textos de Orwell sobre a manipulação dos fatos, a debilidade jornalística, a polarização (pois é) e a intocabilidade dos assuntos “proibidos”. Os textos são dos anos 30 e 40, mas parecem escritos para a nossa época. Ali está Bolsonaro, a Carta Capital, a Folha de S.Paulo, o esquerdismo, os lacaios da extrema-direita, as querelas sobre liberdade de expressão. Veja esse trecho de 1946: 


“Considere, por exemplo, um confortável professor inglês que defende o totalitarismo russo. Ele não pode dizer explicitamente que ‘aprovo a eliminação física dos oponentes sempre que isso der bons resultados’. O mais provável, portanto, é que diga algo assim: ‘Embora reconheça de bom grado que o regime soviético tem certas características que o indivíduo humanitário talvez tenda a considerar deploráveis, creio que temos de concordar que certa restrição do direito à oposição política é uma consequência inevitável dos períodos de transição, e que os rigores a que o povo russo foi conclamado a suportar vão terminar sendo amplamente justificados na esfera das realizações concretas.’ O próprio empolamento do estilo é uma espécie de eufemismo.” 


Defensores de regimes totalitários continuam os mesmos, rebolando para dar conta de justificar tiranias e brincando com a maleabilidade das palavras para ludibriar o interlocutor. Adiante o escritor diz: 

“Tal fraseologia é necessária quando se quer nomear as coisas sem, ao mesmo tempo, evocar imagens mentais delas.” 

Que esse problema tenha existido em 1946 – notável a ponto de Orwell achar importante escrever sobre ele – e ainda exista em nosso tempo só mostra como a História não ensina nada a quem não quer aprender coisa alguma. 


Em outro texto, Orwell critica a impostura intelectual de não considerar que diferenças de grau são diferenças fundamentais. É comum: você rechaça determinada política e um relativista diz que alguma outra “também faz isso”. Está bem, mas na mesma proporção? Sabrina Fernandes, youtuber comunista, viajou pela falida Venezuela para apontar que os problemas que existem lá – pobreza, lixo nas ruas – “também existem no Brasil”, querendo dizer com isso que não há sentido em repudiar as condições de vida naquele país se nós passamos pelo mesmo. Mas nossos problemas ocorrem em igual medida? É correto querer equalizar, para fins ideológicos, um país que em 2020 tinha 80% da população vivendo em extrema pobreza e outro onde, de acordo com dados de 2019, a extrema pobreza não chegava a 10%


Num texto de 1944 para o jornal Tribune, Orwell critica a desonestidade “do debate político em nossa época”: 

“[…] quase ninguém parece convencido de que um oponente merece ser ouvido com isenção ou que a verdade objetiva importa, a menos que seja para marcar pontos na discussão. Quando repasso a minha coleção de panfletos – conservadores, comunistas, trotskistas, pacifistas, anarquistas ou o que for –, o que chama a atenção é que quase todos partilham da mesma atmosfera mental, ainda que com ênfase variada. Ninguém busca a verdade, todos estão defendendo uma ‘causa’, com total desconsideração pela imparcialidade ou pela veracidade, e os fatos mais patentemente óbvios acabam ignorados por quem não quer saber deles.” 

Também não estamos diferentes nisso. Tenho acompanhado a radicalização de comentadores públicos que se recusam a ouvir e tentar entender opiniões que escolheram desprezar sem conhecer. O que conhecem delas são espantalhos e é contra esses espantalhos oportunos que se contrapõem. Operam como se a verdade fosse prerrogativa de uma corrente sagrada e às vezes até parecem ter por princípio marcar posição oposta a qualquer ideia que o “outro lado” expresse. Se uma popular pessoa de esquerda declarar que bolinhos de chuva são gostosos, algumas pessoas de direita passarão a detestar bolinhos de chuva e defenderão que comer esses bolinhos é beneficiar a esquerda. 


Orwell repelia a ideia comum de que não se podia criticar a União Soviética porque isso seria “favorecer Hitler”, o que conduzia a outro pensamento que considerava ridículo: “trotskismo é fascismo”. 


Mais dele, agora em 1945: 

“Não só o nacionalista deixa de condenar as atrocidades cometidas por seu próprio lado, como também adquire a notável capacidade de nem mesmo tomar conhecimento delas. Durante uns bons seis anos, os admiradores ingleses de Hitler conseguiram não ouvir nada acerca de Dachau e Buchenwald. E aqueles mais veementes na denúncia dos campos de concentração alemães muitas vezes se mostram bastante inconscientes, ou apenas muito pouco conscientes, de que também existem campos de concentração na Rússia. Eventos tremendos como a fome na Ucrânia em 1933, causando a morte de milhões de pessoas, na realidade escaparam à atenção da maioria dos ingleses russófilos. Muita gente na Inglaterra não soube quase nada sobre o extermínio dos judeus alemães e poloneses durante a atual guerra. O seu próprio antissemitismo fez com que esse crime incomensurável mal lhe tocasse a consciência. No pensamento nacionalista, existem fatos que são ao mesmo tempo verdadeiros e falsos, conhecidos e desconhecidos. Um fato conhecido pode ser de tal modo insuportável que ele costuma ser colocado de lado e impedido de ser levado em conta em reflexões lógicas […]” 

Somente fatos que confirmam o próprio viés são considerados, há orgulho na desinformação voluntária – mas opinante – e tudo é feito para manter a integridade da narrativa. Se os fatos não reforçam a narrativa, que se danem os fatos. 


A revolução dos bichos (ou A fazenda dos animais, na nova tradução da Companhia das Letras), um clássico a denunciar o totalitarismo russo e que por analogia acaba denunciando características de outros totalitarismos, foi recusado por quatro editores antes de ser publicado. Numa das cartas de recusa, o editor diz a Orwell que 

“[…] a publicação do livro no momento atual pode ser considerada de extrema inconveniência.” 

O editor que dispensou A revolução dos bichos com essa carta achava inconveniente criticar a União Soviética num instante em que ela era uma aliada contra os nazistas. É no texto em que trata dessa recusa que Orwell aproveita para condenar a ideia de que existam “assuntos proibidos” – termos dele – e de que haveria momentos inadequados para falar a verdade sobre problemas de interesse geral por medo de beneficiar alguém. 


A crítica ao Antirracismo enquanto movimento catastrofista, sectário e anticientífico é um dos assuntos proibidos da nossa época. Somos censurados ao tratar dele negativamente? Não de forma direta, na maioria dos casos, mas parece que as reclamações de Orwell sobre a censura ao tratar do totalitarismo russo cabem aqui: 

“[…] devido a um acordo tácito generalizado segundo o qual ‘não convinha’ mencionar aquele fato em particular.” 

E ainda, perfeitamente: 

“Em qualquer momento dado, existe uma ortodoxia, um corpo de ideias que, supostamente, todas as pessoas bem-pensantes aceitarão sem questionar. Não é exatamente proibido dizer isto ou aquilo, mas dizê-lo é uma coisa que ‘não se faz’, assim como na era vitoriana falar de roupas de baixo na presença de uma senhora era coisa que ‘não se fazia’. Qualquer um que desafie a ortodoxia predominante se vê silenciado com uma eficácia surpreendente. Uma opinião genuinamente destoante quase nunca recebe a atenção devida, nem na imprensa popular, nem nos periódicos mais intelectualizados.” 

O Antirracismo se tornou essa coisa que os bons meninos não criticam – “que maldade criticar, isso não se faz” –, o corpo de ideias que as pessoas “bem-pensantes” aceitam sem questionar. Como o movimento alega que aqueles que não o toleram são pecadores – “racistas” –, parece que todo mundo está entrando na onda, trajando a nova tendência – “Viram a última? É ser antirracista, está super in, é a calça saruel da vez” – e evitando colocar em dúvida seus dogmas. Censura tácita se transforma em autocensura. 


Esse delírio coletivo poderia ter alguma graça se se mantivesse fervente apenas dentro de grupos desorganizados que tentam crescer em relevância na base do grito e da convulsão, mas quando você olha para a adesão acrítica dos jornais e da mídia em geral parece que o negócio é mesmo grave. Tratarei disso nesta postagem e na próxima. 



Acompanho a maioria das edições do programa Roda Viva. Quando passo roupas, coloco um episódio recente; se nenhum episódio recente me interessa, coloco um antigo. Episódios antigos servem para informação, entretenimento e percepção das mudanças de ares no comportamento social. Uma edição de 1995 com Paulo Maluf mostra uma bancada de jornalistas defensores do direito de fumar em restaurantes e chamando de “protecionismo” a obrigatoriedade do uso de cinto de segurança que o então prefeito impôs. Na entrevista que deu em 1990, Chico Anysio é perguntado: “qual é a coisa mais sem graça do Brasil?” Uma das coisas que ele elege é “a ministra Zélia”. Na entrevista de 1993, quando voltou ao programa… ele estava havia um ano casado com ela. Numa edição de 1987 com Dercy Gonçalves, a bancada dá gargalhadas quando a atriz está narrando um estupro que sofrera. Em vários episódios dos anos 80 e do começo dos anos 90 os entrevistadores da bancada fumam um cigarro atrás do outro, e há alguma edição – não me lembro qual – em que Cacá Rosset está na bancada aparentemente apenas para fumar, porque não faz pergunta nenhuma. 


Tenho meus episódios favoritos. Apesar de não acompanhar Fórmula 1, gosto muito da entrevista do Piquet (1994) em que ele é franco ao explicar por que não foi ao velório de Ayrton Senna. Gostei muito da entrevista do José Wilker (1996), do Antônio Houaiss (1992), do Jô Soares (1990), do João Ubaldo Ribeiro (2012), do Marcelo Adnet (2020), do Ruy Castro (2016). A própria entrevista de 1990 com o Chico Anysio é muito boa (apesar de discordar de sua opinião sobre o TV Pirata). Acho que a estrutura do programa é ótima e que ele merece o valor que tem no debate público. 


Todavia, parece que alguma coisa mudou neste ano, sob o comando da jornalista Vera Magalhães. Existe um tipo de entrevistado que não está ali para expor sua visão de mundo e ser confrontado nas opiniões polêmicas ou bizarras que defende. Existe um tipo de entrevistado que está indo ao Roda Viva tendo certeza de que estará num espaço seguro que servirá de relações-públicas para ele, pois sua participação no programa será para dar aula e fazer propaganda de si mesmo, e não para ser desdobrado pela bancada provocadora. 
Enxergo um Roda Viva que é um Coliseu quando recebe um político, mas é frouxo quando recebe esse tipo de entrevistado especial. O Roda Viva que recebe pessoas da política é, pesadas as caricaturas hiperbólicas, assim: 

Já o Roda Viva para “convidados especiais”, que são entrevistados de maneira também muito especial, é assim: 

Em um de seus livros Djamila Ribeiro defende que mulheres negras deveriam receber a regalia de poder escrever ensaios com opiniões pessoais na universidade e que esta universidade deveria chamar esses ensaios de “ciência”. Ela diz que mulheres negras “são as pioneiras nas práticas feministas”, citando outra autora, sem provar historicamente o pioneirismo das mulheres negras no feminismo. Ela também afirma que não existe “competição de opressões” dentro dos movimentos identitários, mas algumas vezes ela mesma já desdenhou outras mulheres autodeclaradas negras porque não eram negras retintas – voltarei a isso em outro texto –, e já mandou, em redes sociais, que mulheres brancas soubessem seu lugar de fala devendo apenas ouvir o que negras tinham a dizer sobre negritude e racismo.

Ela diz, ainda, que universidades desprezam “epistemologias negras”, mas não dá nenhum exemplo prático do que seria isso. Para encerrar por aqui nos exemplos, tudo de ruim que acontece a Djamila é atribuído, por ela, ao racismo: quando não era chamada à TV, quando não ganhava prêmios, quando foi criticada por escrever uma dissertação ruim. Mas o que o Roda Viva fez em novembro, quando recebeu Djamila em seu centro? Tratou-a como guru. Artistas, comediantes e cientistas que vão ao programa são mais cutucados e vasculhados do que essa convidada de honra, recebida como a papisa da negritude. 


Seguem resumidas as perguntas feitas à filósofa naquela edição mamão com açúcar: 


1. O que a levou a escrever um livro didático sobre antirracismo? Como ele está sendo recebido? 


2. É possível ser antirracista e logo depois ter um comportamento racista? 


3. A coleção “Feminismos plurais” que você coordena é bem-sucedida. Ao mesmo tempo, você é best-seller, mostrando que havia demanda pelas questões raciais no público brasileiro. Quais os próximos passos do debate racial? 


4. As pessoas estão polarizando em vez de construir pontes. Quais são as grandes estratégias para a construção de pontes? 


5. No mês da Consciência Negra, como é que a gente faz para estourar as bolhas das redes sociais e começar a falar para as periferias, os porteiros, as domésticas? 


6. Poderia falar sobre a importância do feminismo negro no Brasil? 


7. Como você vê o papel do ativismo negro nas eleições? 


8. Você acha que há um caráter de vira-lata no Brasil quando só se passa a valorizar as questões raciais depois do que aconteceu nos EUA? 


9. Há mais candidatos negros nestas eleições municipais. Quais os desafios, oportunidades e estratégias neste momento? Como avançar a pauta negra na política? 


10. A branquitude sempre se viu como muito intelectual, etc. Com a pandemia, as questões raciais ficaram em alta entre a branquitude. Como pode essa branquitude não entender nada sobre seu país? Quando a pandemia passar, os temas raciais deixarão de ser moda para eles da branquitude? 


11. A língua portuguesa se desenvolve na configuração social do racismo. Como lidar com essa língua que reproduz racismo estrutural? 


12. O presidente faz piadas racistas. Isso suscitou debate na sociedade branca e negra? Devemos apontar e expor o racismo para avançar para outro lugar? 


13. Em qual projeto político você acredita para o Brasil? E quando você vai se candidatar a um cargo político? 


14. Queremos votar em candidatas mulheres. Como avaliar se uma candidata está alinhada às pautas sociais? 


15. Como você define o seu “ser liberal”? 


16. Como você enxerga a branquitude brasileira progressista? 


17. Numa live você se referiu a uma militante negra como “clarinha de turbante”. Como você entende o colorismo? 


18. Numa sociedade que exige tanto da mulher negra, há espaço para que essa mulher possa apenas ser humana? 


19. Como você vê o recente interesse das marcas na representatividade negra? 


20. Como agir para que não se crie luta de classes dentro da própria comunidade negra? 


21. Quais são os sonhos que você tem para si mesma e para a sociedade? 


A única pergunta um pouco desconfortável foi a pergunta 17, feita por Vera Magalhães. Se você não viu o episódio, contudo, não pense que ela ceifou a celebração à mentora da questão racial brasileira. A única pergunta aborrecedora de Vera a Djamila foi envolta em folhas secas outonais e plástico-bolha. Se Djamila pareceu algo desgostosa com o tópico – tergiversou um pouco, mas disse, no meio da confusão argumentativa, que pessoas que se descobriram negras apenas recentemente têm que respeitar aquelas que sempre se souberam negras (?) – é apenas porque é insegura e teme mesmo o leve desconforto que pode abalar um reino assentado sobre a areia. 


O programa bem poderia ter adaptado o cenário hospitalar para combinar com o clima do que vimos transcorrer ali: Djamila poderia estar sentada em almofadas coloridas no chão, alguns palitos de incenso estariam sobre a bancada, uma indiana tocaria, baixinho, uma cítara. Os mais animados poderiam acender um bagulho para compartilhar com os colegas naquela edição de grande bajulação. 


Talvez você esteja se perguntando – ou me perguntando – se o Roda Viva é obrigado a ficar apertando seus convidados contra o canto da parede para mostrar que faz um jornalismo vigoroso e crítico. Não, não é obrigado quando está recebendo quem não oferece nada para espremer. Imagine um poeta apolítico conhecido por composições românticas e por levar uma vida muito discreta e até um tanto desinteressante. Não acho que a bancada tem que agitar a entrevista perguntando a ele, de maneira forçada, se é a favor da pílula do dia seguinte, se pensa correta a descriminalização das drogas e se prefere escolher morrer queimado ou deixar que três bebês morram queimados – só para que na mesma noite ou no dia seguinte jornais apresentem manchetes impressionantes como “Em rompante egoísta, poeta Armindo Sabiá diz que sua vida vale mais do que a vida de três bebês”, arruinando quem nunca se envolveu em polêmica. O mesmo não se pode dizer de uma convidada como Djamila Ribeiro, que, além de escrever e palestrar absurdos, ainda disse coisas mal embasadas no programa, para refutação de ninguém. Quando convidados especiais vão ao Roda Viva – ativistas –, o objetivo deixa de ser “vamos debater” e passa a ser “vamos aprender”. 


Vou me ater a somente três pontos que poderiam ter sido questionados nas falas que Djamila fez durante o programa, pois foi isso que restou para uma bancada que parecia se dividir entre a) ela é minha amiga e estou aqui para ajudá-la no seu ativismo, b) vou entrevistá-la, mas não li direito seus livros nem conheço outra reação a seu respeito que não seja de louvor. 


1. Ela disse que sua coleção de livros de bolso – “Feminismos plurais” – é um sucesso também por causa do “preço acessível”, mas qualquer um que tenha familiaridade com o valor dos livros sabe que títulos mais volumosos da editora L&PM Pocket custam menos do que os livros de Djamila. 


Aqui em casa temos uma fórmula para averiguar se o preço de um livro sem muita excentricidade estética está adequado para figurar como “promoção”: se a editora está cobrando de 10 a 15 centavos por página, o preço é bom. Um livro da Companhia das Letras que não é de bolso, tem 200 páginas e está custando de 20 a 30 reais está num bom preço. Já o Lugar de fala de Djamila tem 89 páginas e paguei 16 reais por ele. Isso não é barato. Isso é um preço mais ou menos normal, talvez até um pouquinho caro. O livro parece barato somente porque é pequeno. Como Djamila só escreve livrinhos, quem não enxerga bem acha que suas publicações são “mais baratas, acessíveis para o bolso da periferia”. Não são. Isso é como dizer que é mais barato voar de São Paulo a Araçatuba do que de São Paulo a Montevidéu – “mais barato”, OK, mas quantos quilômetros o avião tem que rodar para ir a cada um desses lugares? Paguei 52 reais por Doutor Fausto, de Thomas Mann, que tem 624 páginas de tamanho grande, capa dura e tradutor. Este foi de fato um livro barato. Custou menos de 10 centavos por página. Para alguém que mora na periferia, pode ser um livro caro, mesmo que seu preço seja justo? É possível. Mas recomendaria à periferia que vá se abastecer de conhecimento nos sebos – que por muitos anos foram os únicos lugares de venda de livros que eu podia frequentar –, onde ótimos livros custam 5, 10, 15 reais, em vez de recorrer aos livros de Djamila Ribeiro por achar que eles têm valor mais acessível.


2. Esta deveria aparecer na postagem dedicada ao politicamente correto, mas quero falar dela aqui porque é pertinente. Ao responder à pergunta sobre o reforço que a língua portuguesa daria ao racismo estrutural, Djamila volta à reclamação sobre o uso do termo “escravo” em vez do termo “escravizado”, pois a palavra “escravo” denotaria uma “condição natural”. 


Não entendo a origem desse quiproquó e se um dia descobrir que há uma boa explicação para a substituição de “escravo” por “escravizado” para além das alucinações lacradoras, farei questão de me corrigir. Enquanto isso, a Revista Aventuras na História explica rapidamente que no tempo dos césares o termo usado para o que hoje chamamos de “escravos” era servo, mas, como esses servos se tornaram semi-livres na Idade Média, outro grupo ocupou o lugar e seu nome virou termo para designar aqueles que foram tornados cativos: eslavos. Eslavos eram os povos do Leste Europeu que foram escravizados em massa na Alta Idade Média após serem derrotados em guerras contra os germânicos. Assim, “eslavo” virou sinônimo de escravo. 


Quem deseja purgar a língua de todas as palavras cujas origens etimológicas e históricas possam ser negativas talvez se sinta compelido a rejeitar também a palavra “eslavo”, já que eslavos foram povos que viraram sinônimo de escravidão e, assim, deram para nós a palavra “escravo”. Não conheço os limites do politicamente correto – se é que há algum limite –, mas talvez seus adeptos se sintam incomodados com o uso contemporâneo de uma palavra que no passado esteve associada a algo ruim: “eslavos” e também “escravos”. Afinal, não há nenhuma informação segura de que a origem da palavra denegrir tenha querido dizer “rebaixar alguém aos negros de pele” e mesmo assim está todo mundo fora de si achando que associar a cor preta a algo ruim é obrigatoriamente racismo. 


A militância alega que a palavra “escravo” estaria associada a uma condição natural e que devemos usar, em vez dela, “escravizado”. Essa variação serviria para nos lembrar que negros não foram traficados da África para o restante do mundo de maneira legítima. Mas alguma pessoa decente lê a palavra “escravos” em livros de História e pensa que aquelas pessoas estavam ali por uma condição natural? Não penso isso, suponho que o leitor não pense isso. 


O purismo desnecessário dos ativistas serve para vender palestras e ter mais controle sobre setores da sociedade. Não parece que certas problematizações nada mais são do que criação de demanda por elucubração sobre problemas que não existem?

E ainda: vamos trocar “servo” por “servilizado”, “vítima” por “vitimizado”, “o militar” por “o militarizado” – ninguém “nasce” para as Forças Armadas –, “pobre” por “empobrecido”, “rico” por “enriquecido”? Nesse ritmo, teremos que criar também alguns neologismos para substituir os supostamente inaturais “mãe”, “pai” e “órfão”? Estou até me divertindo embarcando nesse delírio para encontrar palavras que militantes poderiam achar “problemáticas” porque estariam associadas a uma “condição natural, mas que é social”, só que o diabinho no meu ombro sussurra “você está dando ideia, você está dando ideia…”, então vou parar. 


3. Djamila disse que se o Brasil fosse justo ela seria rica. Como a filósofa não é uma pessoa dada à piada intencional – todas as suas piadas são involuntárias –, parece que a fala foi pra valer. A bancada riu, e ninguém pensou em perguntar por que e como ela teria se tornado rica num Brasil justo. É por que ela se considera empreendedora? Para o entendimento de Djamila, como seria um Brasil justo? Seria um lugar sem racismo estrutural? Nesse caso, ela não conseguiria vender os livros que vende, pois em tese seriam desnecessários. Então em que se basearia a riqueza de Djamila? Um país justo seria um país que enriquecesse seus filósofos? Mas é justo que pessoas sejam ricas enquanto outras não são? Afinal, Djamila gosta ou não gosta da desigualdade? Não entendo e, a depender das próximas edições do Roda Viva entrevistando Djamila, nunca entenderei. 


Políticos que aceitam ir ao programa têm que torcer para que o mote de que “não existe má publicidade” seja verdadeiro, mas ativistas do movimento negro radical podem escrever livros rasos, forjar estatísticas, criar narrativas mentirosas, tratar a língua como argila, inventar momentos históricos e incentivar a ideia de que negros estão vivendo sob os mesmos problemas do tempo escravagista (“açoitados”, como Djamila expressa dramaticamente falando da situação dos negros no Brasil atual): o Roda Viva sob Vera Magalhães não investigará e nem questionará nada disso. “Ser antirracista” é não se indispor com pessoas negras de esquerda (Sérgio Camargo está meio liberado para o achincalhe) mesmo quando elas promovem desastres. 



Junho de 2020. Silvio Almeida, advogado, filósofo, professor universitário e ativista negro, esteve no Roda Viva como convidado remoto por causa da pandemia e porque naquele momento estava nos Estados Unidos, onde leciona. Registrarei aqui, resumidamente, as perguntas feitas a ele no programa porque acho informativo compilá-las para analisarmos como funciona o Roda Viva quando recebe convidados especiais. Pule essa parte, se preferir, porque são muitas perguntas. 


1. Segundo você diz no seu livro, o racismo é sempre estrutural. Vimos agora a urgência da questão racial após a morte de George Floyd. Poderia falar um pouco do momento que o mundo vive e como ele se relaciona com a sua obra? 


2. A agenda econômica que prega o Estado cada vez menor reforça o racismo estrutural? 


3. É possível convencer os brancos a diminuir seus privilégios, que eles nem percebem que têm? 


4. Você afirma que jornalistas, economistas, juristas desprezaram a pauta racial. O racismo é um projeto? Como podemos pensá-lo em relação ao poder? 


5. Qual seu entendimento da necropolítica? Somos governados pela necropolítica? 


6. Parece-me que o problema do sistema excludente é de ordem socioeconômica. Como diferenciar a questão racial da questão socioeconômica? O que diferencia um pobre branco de um pobre negro? 


7. Temos um governo que nega o racismo e colocou na Fundação Palmares um negro que nega o racismo. Como o senhor encara esse governo e como vê o retrocesso desse governo para a questão racial? 


8. Quais razões trouxeram as mulheres negras para esse lugar de destaque e liderança das questões raciais no Brasil? 


9. Sabemos que há evidências do sucesso das cotas raciais. Como se explica a disparidade entre o entendimento institucionalizado das questões raciais e o debate público, que muitas vezes usa os termos “mimimi” e “coitadismo” para essa discussão? 


10. É possível, no nosso contexto, falar em meritocracia no Brasil? 


11. Nos jornais americanos há uma demanda por diversidade nas redações. Como a imprensa pode ser antirracista e como a imprensa tem reforçado o imaginário do negro? E como isso tudo é tratado comparando Brasil e EUA? 


12. Eu queria voltar à questão dos “jovens negros brilhantes” que o senhor comentou. Sou professor em escola. Percebo que a discussão do racismo no Brasil está muito conceitual, muito abstrata. Eu li seu livro, mas percebo que meus alunos do ensino médio e básico têm dificuldade de entender o seu livro. O jovem negro, que em outras épocas era incentivado pelo movimento que lhe dizia “vai lá, você consegue, vamos te dar suporte” não está, hoje, com a tese do racismo estrutural, achando que o racismo o impede de dar o primeiro passo, sem conseguir se mover? 


13. Poderia desmistificar a diferença entre racismo individual e racismo estrutural? 


14. Por que no Brasil não surgem lideranças de massa capazes de tratar da questão negra? 


15. Como combater o mito da democracia racial brasileira? 


16. Nosso país tem 56% de negros que consomem muito. Por que os ganhos econômicos associados à diversidade não são capazes de reverter a postura racista do ambiente corporativo? O racismo é maior do que a vontade de ganhar dinheiro por parte das instituições? 


17. A esquerda foi capaz de criar uma agenda em que a questão racial é tema central? Foi capaz de criar espaços de protagonismo para pessoas negras? 


18. Como você responde às críticas de que as pautas identitárias dividem a esquerda? 


19. Você é a favor de cotas para negros em candidaturas eletivas? 


20. Como fica a situação do movimento negro que não faz mais o trabalho de tirar o negro de uma certa condição de suspeição – até para que ele tenha mais facilidade de conseguir emprego – ao mesmo tempo em que se preocupa tanto em criticar o sistema e o Estado? Como compatibilizar isso? 


21. Como se contrapor à extrema-direita que usa as redes sociais para propagar racismo? Como usar as mesmas redes para o antirracismo? 


22. Há um movimento feito por várias instituições de, em nome da diversidade, oferecer espaços a mulheres antifeministas e negros racistas. Qual é a sua avaliação disso? A briga é política? 


23. Você é filho de um goleiro famoso do Corinthians. Você vê o futebol como superação ou reprodução do racismo? 


24. Qual é o papel dos brancos no combate ao racismo? 


25. Sobre derrubada de monumentos, como você vê a questão do uso dos espaços públicos e de memória histórica? 


26. Como as crianças de hoje podem se preparar de uma maneira mais estratégica para viver numa sociedade destruída pelo racismo? 


Inúmeras dessas perguntas são um espanto, mas já estou na página 9 do meu LibreOffice Writer e não pretendo comentá-las mais detidamente. Só quero destacar que a pergunta nº 2 é respondida com “sem dúvida” – portanto, liberais econômicos, na opinião de Silvio Almeida vocês são racistas –, respondendo à pergunta nº 11 ele diz que jornais que mostram negros cometendo crimes “reforçam o imaginário do negro como violento e bandido”, na pergunta nº 16 a jornalista Joyce Ribeiro dá a entender que o ambiente corporativo não tem tantos negros porque é racista hoje, e na pergunta 22 deveriam ter explicado o que consideram ser “antifeminista” e “racista”, dado o abuso dos significados reais desses xingamentos. Quando recusar o feminismo da quarta onda se torna “antifeminismo” e quando criticar a baixíssima qualidade de alguns escritores negros se torna “racismo”, em nome da honestidade é bom sempre definir esses termos antes de usá-los. 


Nesse Roda Viva havia um “token do contraponto”: Paulo Cruz, filósofo negro que escreve para a Gazeta do Povo. Se você leu todas as perguntas acima, fica fácil descobrir quais foram as três perguntas feitas pelo Paulo. Não percebeu? Eu espero um pouco. 

Encontrou? 


Sim, as perguntas feitas pelo Paulo foram as de número 6, 12 e 20. Boas perguntas, mas numa roupagem muito constrangida, muito amedrontada, muito estou-deslocado-vamos-com-calma-rs. Antes de fazer uma delas Paulo elogia o livro Racismo estrutural de Silvio Almeida – acredito que mais por educação do que por achar, de fato, que é uma boa leitura –, e em alguns instantes ele ganha ironia de Almeida – “Ironia de Almeida”, um bom nome próprio – ao responder suas perguntas. Paulo era, ali, visivelmente um “negro incômodo” que fugiu do ciclo de puro louvor dos outros entrevistadores. Dá para ler a expressão facial de Silvio – “puta merda, lá vem esse cara agitar minha aula” – quando Paulo ganha a vez na roda. 


Ocorre que Silvio Almeida não é nosso hipotético poeta Armindo Sabiá, monótono e com gosto de biscoito de polvilho. Se os entrevistadores tivessem lido o livro inteiro dele – não duvido que só tenham encarado as primeiras páginas ou feito aquelas leituras dinâmicas que para os homens comuns resultam em apreensão de apenas uma pequena parte do conteúdo –, haveria uma edição do programa só para questionar todas as improcedências que estão lá. 


Com base em quê ele diz que empresas que têm poucos negros estão praticando “racismo institucional”? Com base em quê ele diz que o Direito atual reproduz racismo? Com base em quê ele afirma que “o Brasil não experimentou desenvolvimento ao longo de sua história, mas somente o crescimento econômico” se não existe nenhum dado que corrobore isso? Ele acha que estamos em 1800 nos direitos para os negros brasileiros?

 
Silvio passa dezenas de páginas de seu livro demonizando o capitalismo, associando-o à escravidão e ao racismo – como se tal sistema fosse responsável direto por essas coisas – e não nos diz claramente que modelo econômico ele gostaria de implementar no lugar. Comunismo? Por que nenhum entrevistado perguntou isso? Por que nenhum entrevistado questionou a visão de Silvio sobre o Brasil atual – uma espécie de assíduo Mississípi em chamas (Mississippi burning, 1988) – e sua tese de que “a modernização é racista”?

Durante o programa ele diz que “existem camadas da economia em que o racismo é um grande negócio” – por que ninguém pergunta que camadas são essas e como elas estão se beneficiando do racismo? Quando ele diz que jornais “reforçam o imaginário do negro como violento e bandido”, o que ele de fato quer dizer? Que os jornais não deveriam mostrar as fotos de bandidos quando eles forem negros? Mas já não está suficiente que em casos de negros assassinados por brancos os jornais avisem a cor da vítima, fazendo o público pensar que sempre que um negro morre nas mãos de um branco isso se deve a racismo? (Como se negros não matassem brancos e negros não matassem, principalmente, negros.)


Sintonizando Orwell, parece que questionar Silvio Almeida é algo que “não convém fazer” e que desafia certa ortodoxia e corpo de ideias de nossa época: de que um intelectual negro está sempre certo sobre questão da negritude. Almeida é ideólogo do catastrofismo, do anacronismo oportunista, da falsa guerra racial brasileira e do pânico racial. Confunde questão socioeconômica com racismo e finge que não sabe que negros pobres são as maiores vítimas de outros negros pobres. Mas jornalistas que deveriam abordá-lo com veemência sobre os despropósitos que escreve resolvem niná-lo e protegê-lo de qualquer dissabor e desconforto discursivo. 


“Intelectual”, que palavra vazia. Silvio é “intelectual” que inventa a realidade – ambições literárias transpostas para o cotidiano? – e não prova com dado nenhum muitas das coisas que afirma. Por que não aproveitam para chamá-lo de “cientista” também? E que tal “especialista do mundo todo”? E quem sabe “pós-doutor do universo”? 



O Antirracismo é o assunto sagrado do nosso tempo, a nova “verdade” que tantos engolem sem avaliar. Quando o jornalismo larga o espírito questionador que é a função primordial de sua existência para tratar o Antirracismo como um fato dado – como já foi fato dado, incontestável, que o Sol giraria ao redor da Terra –, fica impossível não pensar que o país se transformou num manicômio cheio de dopados. Se uma classe que deveria desembaraçar as coisas para nós está mais preocupada em posar de humanista do futuro e propagadora de uma suposta virtude, fica difícil cobrar das pessoas comuns que desafiem tendências ideológicas que contaminam programas de TV, universidades, artes, empresas e tribunais. É ilusão pensar que não teremos novos Copérnicos e Galileus a pagar pelo apontamento de uma realidade que ninguém quer ver. 
Não acho que em terra de cegos quem tem olho é rei. Acho que em terra de cegos quem tem olho é rechaçado. 

*** 


NOTAS


1. Numa página vegana foi colada uma matéria sobre exploração animal na Coreia do Norte. Uma minoria conspiratória disse que a matéria era mentirosa e que a mídia estava tentando destruir a reputação daquele país “só porque é de esquerda”. Perguntei a uma jovem: “se você acha que a Coreia do Norte é um bom país para se viver, por que ainda está aqui no Brasil?” Ela respondeu: “você acha que eu já não teria me mudado se pudesse?” 


Há não tantos anos assim muitos otimistas pensaram que o desenvolvimento da internet traria informação e conhecimento fácil para todo mundo, criando oportunidades para que o ser humano atingisse “o seu melhor”. Mas num momento em que a internet está na mão o tempo todo, quase 22 mil pessoas escolheram se informar pela página O outro lado da Coreia do Norte. Às vezes dá pena olhar para isso. Às vezes dá vontade de iniciar uma vaquinha virtual para comprar passagem apenas de ida para que todas essas pessoas possam ir para o país de seus sonhos conhecer esse tal “outro lado”. 


2. Quando João Ubaldo Ribeiro morreu, em 2014, eu nunca tinha lido nada do que ele escrevera. Não dei atenção ao fato. Comecei a lê-lo somente em 2019 com o maravilhoso e divertido Noites lebloninas, e há pouco terminei de ler Viva o povo brasileiro, uma obra que parece ter sido escrita por alguém que superou o homem – que é sobre-humano e troca figurinhas com os deuses num patamar que a imensa maioria de nós não consegue alcançar. Aí comecei a viver um luto atrasado, agoniada porque não tínhamos mais esse gênio erudito, de camisa entreaberta e chinelos, chamado João Ubaldo Ribeiro, que morreu sem terminar um livro e tinha dito a um amigo que deixaria suas memórias para a alta velhice. Se tivesse que escrever seu obituário – algum dia gostaria de escrever os obituários de todos os mortos que admiro –, intitularia assim o texto: “Morre um universo”. Vi Ubaldo no caixão, em fotos, e não pude deixar de pensar que o universo que era tinha sido encerrado quando um pedaço de carne ia começar o processo de putrefação pelo qual passam tantas outras pessoas menos nobres. 


2.1. A morte é danada e absurda. Apesar de me conformar com ela, às vezes me pego pensando em como nos deixa numa situação de perguntar “é isso mesmo?” e ter que responder “sim, é isso mesmo”. Ocorre quando me lembro que meu pai está morto, quando me lembro que Albert Camus está morto e tem acontecido quando lembro que Ubaldo está morto. Uma coisa tão natural que é, ao mesmo tempo, tão absurda e tão estranha. 


2.2. Sempre que paro para olhar essa manchete do Combat de 1960 que escolhi para estampar o título do blog – “Albert Camus est mort” –, vem esse pensamento: “é mesmo, que absurdo, Camus está morto”. 


3. Comentei com meu namorado que ia fazer um desenho comparando duas versões do Roda Viva. Uma versão incisiva e uma versão frouxa, celebrativa. Falei que a versão celebrativa se chamaria “Roda Morta”, e aí ele disse que também poderia se chamar apenas “Viva!”. Gostei mais dessa sugestão e por isso usei no desenho. Fica aqui o crédito da ideia 🙂 


4Um fenômeno das eleições municipais de 2020. Lembra daquele sujeito que contemporizou a ascensão de Bolsonaro ao poder dizendo que “ele não conseguirá fazer as coisas que defende, pois nosso sistema político impede medidas aberrantes”? É o mesmo sujeito que fez pouco-caso do fato de Bolsonaro defender torturadores como Ustra, Pinochet e Stroessner (e agora também Mohammad bin Salman). É o mesmo sujeito que, chamando todo mundo de “não pragmático”, pronunciou nas redes sociais que “não importa o que Bolsonaro fala, importa o que ele faz, seus tontos”. 


Pois esse jactancioso, esse patife moral estava na esquina alertando a todos, com seu megafone, que em Porto Alegre uma comunista era candidata à prefeitura. Por que o duplo padrão de indignação? Alguém sinceramente acha que Manuela D’Ávila fecharia a câmara de vereadores, governaria sozinha e imporia a leitura de Marx nas escolas? Alguém sinceramente acha que Manuela D’Ávila faria uma revolução socialista em Porto Alegre e que seus opositores seriam fuzilados? Alguém sinceramente acha que ela implantaria uma ditadura do proletariado nos moldes dos ditadores que ela suaviza, como Stálin? Ora, “é só o jeitão dela, ela não vai conseguir implantar aquilo que defende”. “Vamos nos preocupar com o que ela faz, não com o que ela fala”. “O que o elogio a ditadores influencia num governo democrático? Preocupem-se com coisas mais relevantes!”


Faça esse balanço nos discursos de supostos “isentões” e verá que o genuíno “isentão” quase não existe. Ele urra e range dentes diante dos erros de um lado, mas faz apenas uns murmúrios diante de erros igualmente tenebrosos do outro lado. 


Nós somos o que somos e nossas contradições. Num mundo complexo em que não conseguimos perceber todos os ângulos de uma questão e onde somos governados por forças inconscientes que nem enxergamos direito, é difícil manter um discurso coerente e impecável o tempo todo. Mas há certos contraditórios que são apenas canalhas. Não confunda “erros humanos comuns e compreensíveis” com canalhice calculada, repetida e vergonhosa. 


4.1. Isso não é uma defesa de Manuela D’Ávila, que é autoritária, cínica, oportunista e tem ditadores no bolso. Para coroar a desestima, posso dizer que ela frequentemente tem na cara uma das expressões que considero mais desagradáveis, que é esta: 

Sem tempo de avaliar tudo que nos cerca, criamos atalhos (preconceitos, estereótipos, cálculo de probabilidades) para encurtar a conclusão e a ação. E digo, de acordo com a minha experiência, que pessoas que vivem com essa cara 

não costumam ser pessoas legais. Tendem a ser pessoas vaidosas, pedantes, indispostas ao diálogo com divergentes, “régias”, vangloriosas, sensíveis à crítica (critique uma unha delas e receba como réplica a crítica a seu bairro inteiro e o envenenamento do seu poço artesiano). Algumas apresentam momentos de brilho que são aproveitáveis – boas análises, atinadas críticas que fogem da mediocridade –, mas é melhor olhar de longe e com óculos escuros. Às vezes nem isso. 


4.2Outro fenômeno das eleições municipais de 2020Num texto recente sobre bolsonaristas, escrevi que o povo cria conexões com políticos por bobagem. Há quem pense que “Bolsonaro é um de nós” ao vê-lo comendo pão com leite condensado no café da manhã e miojo no Japão. É trágico que tantas pessoas valorizem políticos por causa disso, mas, ei, “se Bolsonaro faz, será que não deveríamos fazer também”? Foi assim que Guilherme Boulos transformou certas simplicidades de sua vida em estratégia de ligação com o eleitor. Não sei se isso veio de sua cabeça, da cabeça de sua mulher ou de alguém de seu partido com visão para essa tática – que funciona –, mas Boulos andou aparecendo por aí passando café na pia de uma casa modesta e associando seu caráter a seu Celtinha prateado. 


4.3E um terceiro fenômeno das eleições municipais de 2020. Boulos, que já participou de live usando camiseta com a cara do ditador Fidel Castro, fez uma campanha falando de “amor” e dizendo que “o amor vai vencer o ódio”. Eu, talvez você e quem sabe um terceiro leitor torcemos o nariz para essa palhaçada publicitária, para esse crochê dourado em capa de botijão de gás, mas sabemos que a narrativa virtuosa arco-íris-todas-as-tardes-para-todos-ao-som-de-Carpenters angaria voto. 


4.4. Jean Wyllys, do PSOL, que já se fantasiou de Che Guevara para sessão de fotos, fez um exílio voluntário em Berlim. Por que não foi para Cuba? Por que os defensores de Cuba não têm interesse em ir para lá definitivamente? Quando fazem um passeio rápido, por que só visitam Havana – suficientemente ruim, mas bastante melhorada para encantar turistas? Será que é porque a internet lá é lenta, cara e controlada? Como tagarelar diariamente contra o capitalismo num país assim? 


Anticapitalistas querem reclamar do capitalismo morando em países de intenso capitalismo; criticam o capitalismo enquanto se beneficiam dos privilégios dele. Existem países onde o capitalismo é menos pronunciado – por que quem o abomina não busca se mudar para esses países? É uma pergunta séria, não é mera provocação. 


4.5Um site escreveu, em tons elogiosos, que Cuba é um ótimo lugar para turistas aproveitarem para fazer “detox” de redes sociais, e que a internet ruim, cara e limitada “faz parte da magia de estar em Cuba” (grifo meu). Achei muito bonito quando o personagem de Roberto Benigni, em A vida é bela (La vita è bella, 1997), tentava transformar as desgraças de um campo de concentração em algo mágico e corriqueiro para apresentar ao seu filhinho. Isso que fazem com Cuba – “ah, as delícias e maravilhas de um país atrasado!” – é apenas vexatório. 


4.6A vida é bela foi o primeiro filme que vi no cinema. No Brasil, ele passou em 1999 e meus pais me levaram ao cinema para comemorar meu aniversário de 9 anos. 


5. Quase não acompanho o Oscar e acho que não vi metade dos filmes que foram indicados ao prêmio nos últimos anos. Gosto de filmes, mas não vejo com muita frequência e ainda tenho o hábito de velha de gostar de rever várias vezes os filmes cuja qualidade já garanto. 


Então foi somente esses tempos que vi o documentário Ícaro (Icarus, 2017), que venceu o Oscar em 2018 e está na Netflix. Para quem ainda não viu, recomendo. Trama: um documentarista que é também ciclista está investigando a diferença de resistência física ao passar a usar drogas para participar de competições. Sem querer, envolve-se com um cientista russo e acaba participando do maior escândalo de doping da história da Rússia.


6. Obrigada pela leitura e até a próxima!

7. Texto escrito ao som de Slum Village, “We do it (Jazz Spastiks Remix)”, e outras coisas.


(Postagem publicada originalmente no blog antigo em 10/12/2020 e atualizada em 27/05/2021.)

Os 10 mandamentos da seita antirracista (Série “Radical do Movimento Negro”, texto nº 2)

Na postagem anterior diferenciei o não ser racista do ser antirracista. Gostaria de retomar rapidamente o ponto. A primeira posição é positiva, pois é como “ser honesto”, “não ser rude”, “ser caridoso” – valores que podem ser assumidos por todos sem que haja nisso uma vontade objetiva de agregação. Quem não se deixa corromper trabalhando no balcão de uma prefeitura não costuma se mobilizar para encontrar outros escrupulosos a fim de montar uma organização – Os Probos das Prefeituras – que não só diferenciaria as pessoas louváveis das condenáveis como criaria uma régua de graduações próprias sobre o que seria, de fato, a probidade. A honestidade, a cortesia e a caridade são predicados geralmente professados de modo individual e que não precisam de filiação, congressos ou fóruns para reunir quem a eles adere. Também não obrigam ninguém a seguir uma cartilha. 


A segunda posição é ideológica – não é apenas um valor que orienta juízos e comportamentos, mas uma atitude política que tem muito mais rigor do que a simples “não discriminação de pessoas por critérios raciais”. Ser antirracista é aderir a um movimento que tem líderes, regras e rituais. 


Nascido de uma mistura de revanchismo anacrônico, desejo de intocabilidade e aplicação de paranoia como método, o Antirracismo se desenvolveu rapidamente e foi da mera política à seita política. Tal como está, envolvido com negativos ismos – irracionalismo, anti-intelectualismo, dogmatismo –, só serve à danação dos adeptos e dos que, recusando o convite para a conversão, não conseguem mais viver sem receber acusações infundadas. 


“Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista” é o novo “não basta ser contra a pobreza, é preciso ser esquerdista”. É possível ser contra a pobreza sem ser esquerdista – o combate à pobreza é muito anterior ao surgimento da esquerda – e é possível ser contra o racismo sem ser antirracista, não há dúvida. Mas fanáticos sempre querem nos fazer crer que não existe salvação moral fora do seu credo e que não adianta ser honesto, cortês e caridoso se você não for ao culto subscrever uma doutrina inteira que alega monopolizar os melhores valores. Fariseus continuam, desde tempos antigos, considerando que são superiores aos bons samaritanos porque observam uma formalidade severa e se reúnem no templo para dançar. Os contos do Novo Testamento deixam muito claro quem tem mais chances de ganhar o céu. 


Os mandamentos da seita antirracista estão dispersos, mas podem ser encontrados nos escritos de seus teóricos e nos costumes recentes. Determinar, por exemplo, que tudo de negativo que ocorre a uma pessoa negra se deve a racismo não é algo que está evidente num manual ou numa palestra, mas sabemos, observando a construção das notícias nos jornais, a produção identitária acadêmica e as denúncias na internet, que esse é um comando sacramental que guia a análise dos discípulos do movimento. Ideias que não são ditas com clareza, mas que querem dizer muita coisa, podem viajar o mundo e afetar a todos. Quem propaga tudo isso sabe muito bem o que está fazendo. Num possível futuro de acerto de contas, os vigaristas de agora, satisfeitos com a incitação à guerra racial e à mania de perseguição, tentarão se safar da própria responsabilidade dizendo: “fomos deturpados”. Registrar o que está acontecendo neste momento contribui para que a notável falta de memória do brasileiro não permita a impunidade moral desse projeto de destruição. 


Compilo nesta postagem os 10 mandamentos do Antirracismo para facilitar o reconhecimento desses comandos. Eles poderiam estar em menor ou maior número, a depender do nível de detalhamento, mas o número 10 combina com seu espírito religioso. 

Primeiro mandamento: Nós vamos perseguir todos os brancos do presente pelo que os ancestrais de alguns desses brancos fizeram aos nossos ancestrais no passado


O primeiro mandamento é anacronismo explícito. Marc Bloch, historiador medievalista francês que é um dos maiores nomes do entendimento contemporâneo da historiografia, escreveu, em Apologia da história: ou o ofício de historiador, que o anacronismo é o pecado mais imperdoável da “ciência do tempo”, ou seja, da História. Erra a História? Na verdade quem erra é o historiador. 


Apesar de Apologia da história ser leitura básica das graduações da área, temos visto inúmeros historiadores identitários cometerem o pecado imperdoável do anacronismo, a saber: julgam o passado com as lentes presunçosas do presente. E não fazem isso como um pecadilho, uma nota de rodapé equivocada, uma análise rápida num parágrafo mal formulado. Cometem o pecado mais imperdoável de sua profissão de propósito. Da posição de “historiadores” – e não de comentaristas afoitos do G1 –, não só julgam o passado com as lentes de seu próprio tempo como fazem herdeiros sanguíneos de homens que viveram há séculos serem de alguma forma culpados pelos preceitos morais de seus antepassados. 


As pessoas lá sabem o que fizeram seus 64 pentavós, 128 hexavós e 256 heptavós, mas o fato de elas serem brancas “prova” que seus ancestrais escravizaram negros – mesmo que esses ancestrais tenham chegado ao Brasil no final do século 19 com uma comitiva alemã ou italiana. E a cor branca, que denunciaria um passado “de escravizadores”, passa a ser a nova marca pela qual Caim é reconhecido como assassino em qualquer lugar pelo qual perambule. 


Não tenho responsabilidade nem pelos erros que meus pais possam ter cometido. Se meu pai cometeu um crime punível com detenção, a Justiça não pode me prender para pagar por esse crime, já que meu pai está morto. Mas segundo o Direito Penal Antirracista tenho que responder inclusive pelo que fizeram meus 256 heptavós, que são: 


Os pais 

dos pais

dos pais

dos pais 

dos pais 

dos pais 

dos pais 

dos meus pais. 


Imagine o cansaço existencial que sentiríamos ao carregar culpa ou responsabilidade pelo que nossos milhares de ancestrais desconhecidos fizeram de “errado” – sendo este “errado” julgado de acordo com pretensiosos de hoje a crer que se vivessem naquela época certamente não fariam parte de nenhuma opressão naturalizada. Não conseguiríamos sair da cama com essa carga ancestral pesando sobre as nossas costas. 


Na internet – lugar aberto e plural em que as pessoas se sentem à vontade para “ser o que são”, seguindo de maneira fatalista e tonta a sugestão de alguns filósofos clássicos – já alcancei com facilidade submundos onde pessoas negras comemoravam o assassinato de brancos e diziam que “os Panteras Negras mataram pouco, tinham que ter matado mais”. E esses comentários não se referiam a “supremacistas brancos da Ku Klux Klan”, referiam-se a quaisquer pessoas brancas. A justificativa é a da “reparação histórica” (vingança histórica?), que faria brancos de hoje sofrerem alguma coisa do que negros sofreram no passado. É uma máquina do tempo perversa. 


Como muitos brasileiros brancos têm ancestrais negros, não sei qual é o cálculo que radicais fazem para cobrar o aluguel da dívida histórica. E parece que não sabem fazer contas quando humilham como “opressor de passado escravocrata” um branco cujos bisavós vieram da Itália ou da Alemanha no final de 1800. 

Segundo mandamento: Qualquer coisa de ruim que aconteça a uma pessoa negra se deve ao racismo. 


Um alienígena inteligente que acaba de aterrissar no Brasil saberá, em poucos dias, quais características são consideradas ruins em nossa cultura. Ele verá que muitas pessoas chamam negros negríssimos com os quais simpatizam de “morenos” como forma de “ajudá-los”, evitando usar o termo mais adequado, que consideram desnobre. Ele verá que em jogos de futebol muitos homens xingam o árbitro da partida com termos como “veado” e “bicha”. Ele também verá que quando um gay assume um emprego ou chega numa nova vizinhança as pessoas fazem questão de comentar sobre essa singularidade do novato.

Ele verá que quase ninguém quer ser gordo – muito mais por razões estéticas do que de saúde –, que existe um mercado bilionário de dietas, que “gordo” é xingamento. Ele verá que sujeitos que fogem de certo padrão estético tendem a ser considerados menos bonitos que os outros: baixo demais, alto demais, esquelético, obeso, narigudo, com orelhas de abano, estrábico, pele de textura irregular, corpo desproporcional, deficiência física, etc. Ele verá que ser jovem é uma qualidade enorme, porque quase ninguém quer envelhecer. Ele verá que envelhecer é pior para a mulher, porque um ator bonito de 50 anos ainda é um galã desejado, mas uma atriz bonita de 50 anos tende a ser considerada velha demais para ser cobiçada sexualmente.

E ele verá que, dependendo do contexto, todas essas características “pejorativas” serão usadas para que seus possuidores sejam tratados diferentemente, de forma clara ou sutil. Uma pessoa bonita tem mais chances de conseguir certos empregos, uma mulher jovem tem mais oportunidades de escolher parceiros, uma pessoa branca de trajes medianos recebe menos olhares do guarda do shopping do que uma pessoa negra de trajes medianos. Ninguém precisará ensinar ao alienígena quais características tendem a aumentar o capital social e quais diminuem: em alguns dias de observação ele perceberá tudo isso. 


Mas ele também perceberá que situações desfavoráveis atingem pessoas que não têm nenhuma das características consideradas desnobres. Ele verá que um homem jovem, branco e bonito deixou de ser contratado porque uma mulher mais velha meramente apresentável tinha um currículo melhor que o dele. Ele verá que jovens lindas são abandonadas por seus namorados. Ele verá que pessoas brancas deixam de ganhar prêmios literários aos quais concorrem. Ele verá que o mal-educado que interrompe mulheres também interrompe homens. Ele verá que uma pessoa com deficiência física que estudou em escola particular tem mais chances de ir bem no vestibular do que uma pessoa sem deficiência que estudou em escola pública. Ele verá que um homicida pobre e branco irá para a mesma cadeia que um homicida pobre e negro. Situações desagradáveis podem acontecer a todas as pessoas. 


Radicais do movimento negro não veem as coisas dessa forma. Eles acham que fatos ruins acontecem a negros necessariamente por causa da sua cor. Um negro já está em sua terceira seleção empregatícia e não consegue a vaga? “Racismo”. Seria possível racismo se os radicais conseguissem provar que esse pleiteador negro tinha um currículo melhor – e uma desenvoltura melhor – do que os outros candidatos e mesmo assim não foi contratado. Sem essa prova, não se consegue garantir que um candidato negro foi preterido por racismo.

Geralmente candidatos negros são preteridos porque não têm o melhor currículo. Neste caso, podemos argumentar que a dificuldade de pessoas negras conseguirem um bom currículo se deve à condição social desfavorável de onde vêm, que dificulta sua ascensão estudantil e profissional. Note que afirmar isso é muito diferente de afirmar que “empresas não contratam negros porque são racistas”. Radicais não ponderam isso: preferem fazer o discurso impostor de que as empresas têm poucos negros porque os discriminam racialmente na seleção. 


Com esse catastrófico mantra “tudo de ruim que acontece a um negro se deve ao racismo”, radicais falsamente “empoderam” negros. Na verdade fazem com que negros se tornem paranoicos e ressentidos, acreditando que vivem sob opressão constante e que todos os seus infortúnios ocorrem devido a uma perseguição dos brancos à sua cor. 


Quando temos alguma característica considerada socialmente desvantajosa, podemos passar por situações negativas que outras pessoas presenciam em menor proporção. Há casos em que temos certeza de que somos discriminados por essa característica, mas há casos que geram dúvida – nestes, não temos como assegurar que fomos tratados diferentemente por causa da nossa desvantagem social. Sendo possível – nem sempre é –, devemos levar em conta outros fatores para tirar a prova se somos mesmo alvo de discriminação. Façamos isso antes de proclamar aos ventos que somos vítimas de um preconceito renitente. 


“Aquele cara vive me interrompendo e fazendo longos monólogos explicativos sobre coisas que eu já sei. Machista, sem dúvida.” Sem dúvida? Para não ter dúvida é preciso observar um pouco mais: 


1. Ele faz isso só com mulheres ou faz isso com homens também? Se ele faz isso com todo mundo, é mais honesto chamá-lo de mal-educado e autocentrado do que de “machista”. Reclame dos pais dele que o criaram de maneira errada, não do patriarcado. 


2. Ele faz isso com a maioria das mulheres ou só com você? Às vezes a implicância pode acontecer não porque você é mulher, mas porque você é… você. Pessoas resolvem implicar conosco por razão consciente nenhuma, e às vezes a principal razão inconsciente não é o nosso sexo. 


Existem inúmeros brancos que têm dificuldade de arranjar parceiros amorosos/sexuais. Existem inúmeros brancos que têm dificuldade de arranjar emprego. Existem inúmeros brancos que são tratados mal quando buscam atendimento. Existem inúmeros brancos que são desgostados por outras pessoas sem que consigam visualizar o motivo. Existem inúmeros brancos que são perseguidos por chefes, professores e outros indivíduos em situação de poder. 


Ao contrário do que o movimento negro radical prega, um mundo não-racista não é um mundo em que tudo dará certo para as pessoas negras. Pois no mundo das pessoas não-negras inúmeras coisas dão errado também. Em sociedades predominantemente brancas há dor, rejeição, perda de emprego, atentados à honra, perseguição. Se na vida das pessoas não-negras acontecem coisas ruins, por que tudo de ruim que acontece na vida de um negro se deveria ao racismo? Não digo que nada se deva ao racismo – que ainda existe em nossa sociedade, manifestado especialmente na inferiorização da estética negra, no abuso de estereótipos negativos por policiais e na intolerância com religiões de matriz africana –, mas achar que ele explica tudo de ruim que ocorre com uma pessoa negra nestes tempos é muito equivocado e algo insano. 


Tenho dúvidas se quem defende esse tipo de pensamento é ignorante ou na verdade muito esperto: quando você é um radical que alega que o racismo está em tudo, você está garantindo que exista relevância vitalícia para si mesmo na problematização de qualquer coisa na sociedade. Nossos teóricos radicais querem perder o prestígio que ganharam inventando problemas raciais no ar que respiramos e no rio em que nos lavamos? Não querem. Para garantir que possam se perpetuar até o infinito, criar problemas e aumentar a gravidade dos que já existem é uma jogada astuta.

Pense num cenário fantástico em que a maior parte das doenças foi curada e os médicos só têm doenças menores para tratar. Então alguns desses médicos, vendo que sua profissão está em risco de extinção, criam novas doenças, mas não só: eles criam doenças que são difíceis de mensurar e eles associam às doenças que criaram outros problemas não correlatos à saúde. Se ninguém os questiona, eles seguirão necessários para sempre tratando doenças que eles mesmos inventaram. E chamarão os pontuais questionadores de “malvados que desejam morar em uma sociedade doente”. A sociedade, acreditando que está doente, ficará ao lado deles. 

*

Terceiro mandamento: Uma pessoa branca discordar de uma pessoa negra em assunto que diga respeito à negritude é racismo e abuso de privilégio discursivo. 


É tendência mal descascada acreditar que “vivências” estão acima de todas as coisas. Se uma filósofa negra defende uma ideia que não procede – dados, estudos, bom senso não corroboram –, deveríamos nos calar em respeito à sua “vivência”, dizem. Já comentei sobre isso em outro momento e gostaria de repetir: considerar as experiências que as pessoas têm na vida é importante para que possamos compreendê-las. Não posso abrir uma fábrica de sapatos num país descalço sem considerar como são os pés de seus habitantes, o que os incomoda ao caminhar e como pensam que seria um bom calçado. Precisamos ouvir os outros, fazer o esforço de nos colocar em seu lugar e entender por que pensam como pensam. 


Mas a importância da vivência cessa mais ou menos por aí. Quando dados mostram que brancos matam mais brancos e negros matam mais negros nos EUA, a “vivência” que diz que brancos são os maiores responsáveis pelo assassinato de negros norte-americanos é inútil e deve ser contestada. Sua “vivência” não lhe dá o direito de mentir estatísticas. Quando relatos históricos mostram que reis africanos se beneficiaram do tráfico de escravos e por meio dele enriqueceram seus reinados, a “vivência” que diz que “africanos foram totalmente coagidos pelos europeus a mandar escravos para o Ocidente” é mentirosa. Sua “vivência” não lhe dá o direito de ser um revisionista histórico maniqueísta. Quando uma enfermeira pede a um negro expansivo que faça silêncio no corredor da UTI, a “vivência” que diz que a chamada de atenção se deveu a racismo é incorreta. Sua “vivência” não lhe dá o direito de chamar de racistas quaisquer pessoas que o interpelam com razão. 


As contestações ao movimento negro radical que alguns brancos fazem são também feitas por outros negros. Como esse movimento diz que “um negro não pode ser chamado de racista”, note o paradoxo: um branco que contesta uma estatística racial feita por militantes é racista, mas um negro que contesta a mesma estatística é… um traidor? 

– Essa sua opinião sobre a negritude é bem coisa de gente branca privilegiada. 

– Pesquisei muito para chegar a essa conclusão que você chama de “opinião”, mas se minha posição não serve por causa da minha cor, vou chamar para falar em meu lugar um colega negro que concorda comigo. 

– Um negro que concorda com a sua opinião é um traidor. 


Talvez devamos pensar na descrição de uma nova falácia: a falácia colorista. Retruca-se um negro no que ele disse de errado, e ele parte para a falácia de apontar a branquitude do retrucante em vez se ater ao conteúdo da contestação. Essa falácia pode ainda não ter sido nomeada e esmiuçada nos manuais argumentativos, mas já grassa na internet. Quem a utiliza pensa, em seu autoritarismo e ignorância, que encerrou a contenda. 


Se o leitor não percebe a gravidade desse expediente, tente fazer o exercício com outras características: 


– Os eixos desse gráfico sobre São Paulo estão arranjados de uma forma que induz a erro de análise… 

– Não vou discutir isso com uma pessoa que nasceu em Petrópolis. 


– Olha, na verdade dentro da África há alguns racismos entre os próprios negros… 

– Você tem o cabelo liso e ruivo, não tem? Então fique quieto. 


– Mulheres holandesas são comumente mais altas do que você escreveu em seu livro… 

– O que uma anã entende de mulheres altas? Quando houver um estudo sobre mulheres anãs, aí você opina, certo? 


A vivência é mais útil do que pensam os reacionários e mais inútil do que pensam os identitários. 

Quarto mandamento: Quando pessoas brancas fazem críticas ao trabalho de pessoas negras – escritores, jornalistas, cantores, artistas plásticos –, isto é racismo. 


Não me estenderei aqui porque logo publicarei um texto sobre a recomendação de “ler um escritor negro para se mostrar antirracista”. 


Harold Bloom ficou conhecido como “bardófilo” (por sua devoção a Shakespeare), como competente analista do cânone da literatura mundial e como um dos primeiros grandes nomes da crítica literária a rejeitar a saga Harry Potter pelo que considerava miséria estética. Mas é sempre bom lembrá-lo como o teorizador da “Escola do Ressentimento”. Numa entrevista de 2005 para a Folha de S.Paulo, em que reclama do fascismo de esquerda e de direita, Bloom explica no que consiste essa escola que contaminou a academia: 

“No mundo de língua inglesa, desde o final dos anos de 1960, os estudos literários ficaram mais politizados. O que ocorre nas universidades, hoje em dia, da Austrália aos Estados Unidos, da Grã-Bretanha à Nova Zelândia, é que as obras literárias utilizadas para o estudo são escolhidas não porque são esteticamente mais poderosas ou porque são mais sábias. O intelecto, a sabedoria e a beleza são substituídos por considerações acerca da orientação sexual, gênero, pigmentação da pele, etnicidade e assim por diante. É isso que quero dizer quando me refiro a Ressentimento, com R maiúsculo. Obviamente, estou jogando com o uso que Nietzsche fez do termo francês ressentiment, as instâncias do ressentiment.” 

Em entrevista de 1994, também para a Folha, Bloom explica a motivação de seu livro A angústia da influência


“Escrevi meu livro contra essa ideia de que o cânone morreu, de que Shakespeare não interessa mais porque é um europeu macho, branco e morto. Esse barbarismo tomou conta da imprensa cultural. […] “Apenas quis fazer uma elegia, minha elegia, à cultura ocidental, que esses submarxistas, subfeministas, submulticulturalistas e subcríticos de toda espécie acham que não é necessária à educação. Essas pessoas não sabem mais ler, desconfio que nem gostem de ler. Ler livros complexos dá trabalho, e essa gente é contra o esforço. Está dominada pela TV, pelo pop.” 


E ainda, numa entrevista de 2014:


“É bobagem acreditar que você pode beneficiar grupos insultados, explorados ou desfavorecidos lendo e ensinando a ler obras menores só por causa da pigmentação da pele, orientação sexual, gênero ou origem étnica. Os departamentos de língua e literatura inglesa têm só 20% do número de alunos que tinham há 30 anos. Ocasionalmente vejo a lista dos cursos e sinto um calafrio. Vejo pessoas que não passam de vendedores de lixo sendo contratadas. Mas no máximo em cinco anos estarei morto ou incapacitado. E muita gente respirará aliviada.”


O único ponto bom de Bloom ter morrido em 2019 é não ter acompanhado a radicalização posterior da Escola do Ressentimento, que só lhe traria desgosto. A explosão que estamos vendo de autores negros na literatura não parece se dever à qualidade – Conceição Evaristo é muito ruim, Geovani Martins é apenas razoável –, mas à militância identitária. Se querem publicar e tem quem financie, que publiquem, certo? Certo. O incômodo não é esse. O incômodo é que esses novos autores identitários, que pegam atalhos por serem mulheres ou negros, são ruins e, ao mesmo tempo, intocáveis para a crítica


Pesquisei demais para tentar encontrar críticas ao livro Olhos d’água, de Conceição Evaristo, e não encontrei. Só encontrei celebração. Somemos esses elementos: escritora negra que tentaram alçar à Academia Brasileira de Letras por meio de abaixo-assinado pedindo “diversidade” + livro de baixíssima qualidade + livro presente em lista de literatura para o vestibular da UFSC + autora-sensação da FLIP. Por que um combo como esse não gerou a merecida crítica à falta de dotes de Conceição? Porque criticá-la se tornou “racismo”, crueldade e ofensa à ascensão dos negros. Na literatura atual, autores incompetentes são recomendados e louvados por suas características de oprimidos, mesmo que não entreguem bons textos. E ler os bons textos do cânone em vez de autores negros atuais se tornou “não ser suficientemente antirracista”. 


Se continuarmos nessa toada, logo valerá a pena ler somente autores velhos, e será bem calculado em matéria de probabilidade achar que livros novos provavelmente são ruins. 

Quinto mandamento: Se uma pessoa negra acusa uma pessoa branca de racismo, não há o que se discutir: houve racismo. É desrespeito à vivência e sensibilidade do negro essa pessoa branca tentar se defender e negar sua motivação racista. 


No dia 7 ou 8 de setembro de 2020, a jornalista Amanda Audi, até então do The Intercept Brasil, criticou em seu Twitter os pedidos de milhares de fãs do historiador negro Jones Manoel para que ele fosse entrevistado no Roda Viva. Ela disse que Jones era “treteiro de Twitter” e que ele não teria capacidade de responder perguntas no programa. Algum desses comentários é necessariamente racista? Não, mas os discípulos de Jones começaram a achincalhar Amanda, chamando-a desse xingamento que virou “bom dia” nas bocas e dedos lépidos dos inquisidores contemporâneos. Ela tentou se defender, mas não adiantou. Depois pediu desculpas, fez-se de tapete, mas também não adiantou. Jones disse que ela era “candidata à juventude da Ku Klux Klan” e que fazia “suco de bizarrice estilo colonizador belga”


A autoimolação de Amanda na praça e ajoelhada no milho seco foi em quatro tweets, no dia 9 de setembro, que seguem na sequência em que foram publicados: 


“Teve um texto muito legal na Piauí esses dias sobre a cultura do cancelamento – como é uma arma adequada aos nossos tempos e geralmente criticada por quem é branco. Concordei muito com o texto. Então não vou ‘pedir desculpas a quem se ofendeu’, mas repensar o meu posicionamento.” 


“Entendo que, hoje em dia, não é suficiente discordar de ideias, é preciso levar em consideração recortes de raça, classe e gênero. E quem sou eu pra me afirmar certa? Estou nessa vida para aprender e ouvir as críticas que recebo.” 


“Queria pedir desculpas. Tenho consciência que errei e em nenhum momento vou tentar me justificar. Tenho muito respeito por todes [sic] e não agi de maneira condizente com a luta antirracista, a qual entendo ser primordial.” 


“Garanto que estou aprendendo com meu erro e farei o possível para que não se repita. Não era a minha intenção (mas sei que isso não é desculpa). Não quero vencer nenhuma discussão, apenas me desculpar.” 


Linchadores virtuais conseguiram fazer Amanda ver racismo onde não havia, além de incentivá-la a bater o recorde de texto mais curto com menção mais numerosa à palavra “desculpa” e suas variantes. A jornalista, que é entusiasta do trabalho de tantos outros jornalistas negros, ao criticar um “treteiro” negro passa a ser racista – mesmo que em nenhum momento tenha feito qualquer alusão à cor de Jones. Criticar negros agora é racismo – pessoas negras são incriticáveis – e defender-se da acusação de racismo é “insistir no racismo”. Andamos em círculos dentro de uma seita que aponta racismo onde há apenas vida comum. 


Um dia depois, o assunto “Jones vítima de racismo por jovem Ku Klux Klan do The Intercept” era enterrado. Num timing equivocado, Amanda Audi começou a falar sobre um suposto estupro que sofrera havia um ano. Entendo se o leitor achar que “não existe hora para não se falar de estupro”. Neste caso específico, discordo. 

Sexto mandamento: Se uma pessoa negra acusa uma pessoa branca de racismo e outra pessoa branca diz que não houve racismo, isso se deve ao pacto narcísico da branquitude. Racistas defendem uns aos outros. 


A tese do “pacto narcísico da branquitude” é realmente uma tese. Foi apresentada por Cida Bento, para obtenção do título de doutora, ao Departamento de Psicologia da USP. Pretendo lê-la um dia, mas no momento me contentarei com as sínteses de terceiros. Djamila Ribeiro explica

“[…] um acordo silencioso entre pessoas brancas que se contratam, se premiam, se aplaudem, se protegem. Narciso era um jovem caçador e se achava tão belo que só conseguiu se apaixonar pela própria imagem. A sacada de Cida Bento em trazer Narciso para pensar a branquitude nos oferece um horizonte de possibilidades.” 

Djamila usou esse pacto para explicar o racismo que ela sofreu (?) ao não ganhar o Jabuti quando concorreu ao prêmio pela primeira vez – quem ganhou foi Gabeira com um livro sobre democracia –, mas não quero me aprofundar nisso agora porque Djamila merece “ocupar os espaços” deste blog de forma mais ampla. 


O ponto deste sexto mandamento é que, de acordo com o pacto narcísico, pessoas brancas “se protegem”. Isso significa que se meu amigo branco é acusado de racismo inconsciente, eu analiso o caso, não vejo nenhuma lasca de racismo e profiro “pessoal, não tem nenhum racismo no que o Mariano falou”, posso ser acusada de lançar mão do pacto narcísico da branquitude. Defender uma pessoa acusada injustamente de racismo já é racismo e ainda é um “racismo assinado num pacto”. 


Não existe devido processo legal nem direito de defesa na jurisdição identitária. Josef K. não imaginava que sua agonia poderia ser ainda pior. 

Sétimo mandamento: Se pessoas negras não estão representadas em profissões na mesma proporção em que estão representadas na sociedade, isso se deve ao racismo institucional presente até hoje entre nós. 


Racismo institucional é racismo apoiado por empresas, por leis, por governos. É racismo geralmente vertical e foi comum no Brasil escravocrata e além. A Constituição de 1934 dizia que era incumbência da União, dos Estados e Municípios “estimular a educação eugênica”. Naquela época, intelectuais apoiadores da eugenia lançavam revistas sobre o tema, faziam reuniões e influenciavam políticas públicas que afetariam principalmente negros. Um decreto de 1945 assinado por Getúlio Vargas condicionava a imigração “à necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia”, como bem lembrou esta matéria da revista Superinteressante. Até meados dos anos 60 ou 70, alguns locais ainda praticavam racismo institucional: existiam clubes que não permitiam a entrada de negros. Um clube, assim pensado, pode ser visto como uma instituição. 


O movimento negro alega que ainda existe racismo institucional no Brasil. Como faz isso se leis racistas não existem mais, se nossa Constituição rechaça severamente o racismo e se estabelecer que negros não podem frequentar dadas empresas, escolas e clubes pode ensejar processo, além de justa indignação midiática? Em seu livro Racismo estrutural, Silvio Almeida alarga o conceito de racismo institucional: passam a ser racistas as empresas que não tenham negros em seu quadro, são racistas os governos que não criam políticas públicas para melhorar a situação das periferias (mesmo que esses governos não estejam trabalhando para resgatar os brancos que moram nelas), são racistas as universidades que não ofereçam cotas raciais no vestibular. Tal alargamento do conceito de racismo institucional ajuda a vender o pânico de que o racismo está em tudo e é engendrado. 

Esses dias uma professora universitária, socióloga especialista em gênero e raça, escreveu no Twitter que a exigência de conhecimento de um segundo idioma para concorrer a vagas na pós-graduação é uma forma de racismo institucional porque impede que pessoas negras que não puderam pagar cursos de línguas progridam na carreira acadêmica. Disse também que uma das suas melhores alunas do semestre não passou na seleção de mestrado por causa da prova de inglês. Desconheço mestrados que exijam nível de idioma que vá além do intermediário e acredito que com a ascensão da internet e da pirataria de livros não há mais desculpa para uma pessoa inteligente culpar “o sistema” por não saber o básico de inglês. A professora em questão, entretanto, prefere tirar a responsabilidade da aluna pelo seu fracasso – minorias não são mais estimuladas ao fortalecimento, mas à fraqueza e à culpabilização dos outros por essas fraquezas – e joga uma exigência elementar da pós-graduação no colo do alargado conceito de racismo institucional, para aprovação das quase 11 mil pessoas que curtiram o comentário. “Racismo institucional não existe mais no Brasil? Vamos arranjar que exista. Vamos aplicar esse nome tão forte a novas situações. Não vamos deixar que ele se perca.”


Como comentei na postagem anterior, quem aceita ser chamado de “racista” é o supremacista branco. As outras pessoas, as normais, têm pavor de receber essa pecha e podem querer fazer qualquer coisa para se livrar dela. É uma forma de coação dizer que o racismo institucional está entranhado nas empresas, e a tática tem dado certo: quem quer provar que seu negócio é antirracista tem obrigado os recursos humanos a fazer seleções artificiais para contratar negros. Afinal, ativistas não demandam testes cegos na contratação – ou seja, análise de currículo e entrevista remota sem acesso à imagem do candidato, o que impediria o contratante de manifestar qualquer viés implícito contra negros –, mas admissão de negros em seleção especial


A análise socioeconômica feita pelo movimento negro tem um sério erro temporal. Alega-se que pessoas negras tendem a ser pobres HOJE por causa de racismo intenso e generalizado praticado HOJE. Tentarei corrigir o erro temporal desse pensamento e acho que isso merece destaque em parágrafo separado, portanto: 


Com histórico de opressão que durou séculos, pessoas negras ainda hoje sofrem os efeitos de um racismo praticado abertamente no passado. Sua condição socioeconômica desfavorável é resquício de uma época em que o negro médio tinha pouquíssimos direitos, era discriminado, foi liberto de mãos vazias. Apesar de não termos mais racismo institucional, de o racismo manifesto ser execrado pela maioria da sociedade e de negros viverem em seu melhor momento histórico para prosperar no Ocidente contemporâneo, a herança maldita da escravidão ainda se faz presente na dificuldade que tantas pessoas negras têm de superar suas mazelas econômicas e sociais. 


O que essa correção temporal muda na abordagem da causa negra? Muitas coisas. Quando se diz que negros são maioria nas periferias por causa de um racismo praticado hoje, somos pouco eficazes. Inventamos racismo para combater o racismo inventado com medidas que, socialmente, não alteram “as estruturas”. Mas quando colocamos a culpa no racismo passado e reconhecemos que aquele racismo escorre efeitos socioeconômicos ainda hoje, damos atenção ao problema que deveria ser priorizado: a pobreza. A pobreza traz consigo má estrutura familiar, mais filhos do que se pode criar, educação pública de má qualidade, poucas referências para estudar e prosperar. É a pobreza que hoje impede o negro médio de ascender na vida, não o racismo. O racismo pode explicar as causas à margem dos insucessos negros. A maior causa desses insucessos, todavia, é a pobreza. A pobreza dos negros de hoje não é apenas o sintoma de um racismo passado. A pobreza de hoje é a própria doença que deveria ser combatida. 


Não temos máquina do tempo para corrigir o racismo de outras épocas. Mas podemos corrigir seus efeitos percebidos ainda hoje focando no combate à pobreza. Inventar que nossa sociedade atual é racista como em outros séculos não tem nenhum cabimento. A quem serve maquiar perversamente a realidade?


Não é à toa que alguns marxistas mais apegados à luta de classes como grande motor rejeitem o identitarismo. Quando se fala pelos pobres acima de tudo, faz-se um discurso unido que busca enriquecer quem está na base da pirâmide. Quando se fala pelos negros retintos aqui, pelas mulheres negras com deficiência ali, pelos gays indígenas acolá, o foco se perde. A estratificação identitária é danosa no combate à pobreza, que é a pior situação brasileira há muito tempo: impede nosso desenvolvimento, emperra a produção de riquezas, incentiva a proliferação de bandidos, inutiliza cérebros que tinham alto potencial, cria dramas familiares. A tara com identidades viajou do necessário entendimento de certas especificidades – a questão indígena é diferente da questão negra, a pauta das mulheres é diferente da pauta dos operários – para alcançar competição de opressões, exaltação das vaidades de meia dúzia e personalização instagramável das causas. São tantas as coisas que começam justas e desandam. 


Por que pessoas negras não estão representadas nas empresas e universidades na mesma proporção em que se encontram na sociedade? Não é porque empresas têm um pacto da branquitude de não contratar negros ou porque professores universitários dão notas mais baixas a alunos negros, via de regra. É porque a questão socioeconômica dos negros está longe de ser resolvida. Que chance tem alguém de origem pobre de conseguir vaga de coordenador numa empresa quando está competindo com jovens que fizeram intercâmbio, falam duas línguas e participaram de cursos nos Estados Unidos? Que chance um pobre tem de estudar Medicina numa universidade pública quando seu ensino básico público foi uma droga? 


No caso dos negros, muitos acham que a solução está nas cotas raciais. Mas isso é assunto para outro texto. 

Oitavo mandamento: É impossível que uma pessoa branca não seja racista. Todo branco é de alguma forma racista e usufrui dos privilégios da branquitude. 


Desconfio de livros que tentam se vender com a palavra “verdade”. Geralmente está no título ou no subtítulo algo assim: “a verdade sobre X”. Mas no último ano li excelentes livros estampados com a palavra “verdade” na capa – livros que não tratam da verdade sobre algo, mas tratam da própria verdade. São eles: O guia contra mentiras: como pensar criticamente na era da pós-verdade, do psicólogo e neurocientista Daniel J. Levitin, Sobre a verdade, do filósofo Harry G. Frankfurt (livro para uma sentada), Sobre a verdade, do jornalista e literato George Orwell (livro atualíssimo) e Verdade: 13 motivos para duvidar de tudo que te dizem, do consultor de comunicação estratégica Hector Macdonald. Recomendo todos. 


No capítulo intitulado “Definições” do livro de Macdonald, o autor elabora a ideia de que mudar a definição de uma coisa muda o poder que ela alcança. No caso do feminismo, por exemplo, é comum que ao serem perguntadas se são feministas algumas pessoas primeiro queiram – com toda razão – estabelecer o que consideram feminismo para então decidir se se consideram feministas. Os mesmos sujeitos que não titubeiam quando são perguntados sobre igualdade de gênero sentem receio quando a palavra “feminismo” vem à tona. 
Seriam sujeitos machistas? Geralmente não. Ocorre que o termo “feminismo” é positivo para alguns, mas negativo para outros, porque o movimento não se atém à igualdade de gênero nas oportunidades e no combate à violência contra a mulher. O pacote é inchado, às vezes injusto, em alguns momentos marcantes francamente anticientífico e histérico.

Se eu me responsabilizo em me nomear feminista sem oferecer uma explicação do que considero o feminismo, meu interlocutor pode sair acreditando que sou misândrica, que sou favorável a cotas para mulheres na política, que acho que o aborto deve ser permitido a qualquer tempo, que perco tempo com astrologia e participo de danças circulares. Então, por precaução, ou tentamos redefinir certos termos, ou preferimos prontamente rejeitá-los. Muitas mulheres modernas que se destacaram em mundos masculinos – Mary McCarthy, Dorothy Parker, Agatha Christie, Susan Sarandon – não queriam se declarar feministas. Certas ou erradas – acho que um pouco de ambos –, deviam ter seus motivos. 


Um trecho de Macdonald explica bem o peso que a definição de um termo pode carregar perante a opinião pública e como melhorá-lo: 

“Podemos alterar a definição de palavras através da associação com ações específicas, e talvez esse seja o caso de ‘Mulheres Contra o Feminismo’: se você testemunhar várias mulheres se identificando como feministas enquanto destilam ódio contra os homens, poderá realmente concluir que a definição de feminismo tem algo tóxico. Uma definição muito mais positiva apareceu em 2014, quando líderes políticos britânicos – homens e mulheres – posaram em camisetas produzidas pela organização Fawcett Society que traziam a mensagem ‘Esta é a aparência de uma feminista’. O líder do partido trabalhista e o vice-primeiro-ministro, ambos homens, foram fotografados vestindo as camisetas para a edição especial sobre feminismo da revista Elle. O primeiro-ministro David Cameron recusou o convite da Elle, mas declarou: ‘Se isso significa igualdade de direitos para as mulheres, então sim. Se é isso o que você quer dizer com feminista, então, sim, sou feminista’.” 

Se é isso o que você quer dizer…


Tenho essa dubiedade com a expressão “racismo estrutural”. Existe ou não existe? Se com ela se quer dizer que o racismo está na estrutura da sociedade brasileira, pois passamos mais tempo com racismo do que sem racismo, existe. Se com ela se quer dizer que as pessoas podem, de forma não intencional, reproduzir práticas racistas que acabam inferiorizando negros, existe. Mas se com ela se quer dizer que o racismo contamina tudo na sociedade e que todas as mazelas que acometem negros hoje são explicadas por um racismo moderno tão presente quanto o ar, a expressão perde o sentido e se transforma em teoria da conspiração. 


Recentemente o psicólogo norte-americano Bo Winegard propôs em seu Twitter uma enquete rápida: se o racismo sistêmico/estrutural a) existe, b) não existe, ou c) existe, mas não na proporção que os identitários alegam. Fiquei feliz em ver que a maioria marcou a terceira opção, ou seja, a maioria dos votantes não nega que o racismo ainda seja um problema da nossa sociedade, mas acredita que o movimento negro se excede ao defender que ele faça parte de tudo. 


Dependendo de como se define o racismo estrutural, o conceito faz sentido. Tragicamente, nas mãos de teóricos radicais, passou a significar coisas levianas: que tudo de ruim que acontece a negros se deve a racismo, e que brancos são sempre racistas, em maior ou menor grau. 


Na introdução ao Pequeno manual antirracista, Djamila Ribeiro demonstra o que o racismo estrutural se tornou na prática: 

“[…] nunca entre numa discussão sobre racismo dizendo “mas eu não sou racista”. O que está em questão não é um posicionamento moral, individual, mas um problema estrutural. A questão é: o que você está fazendo ativamente para combater o racismo? Mesmo que uma pessoa pudesse se afirmar como não racista (o que é difícil, ou mesmo impossível, já que se trata de uma estrutura social enraizada), isso não seria suficiente – a inação contribui para perpetuar a opressão.” (grifos meus)

Se você garante que sua crítica a um escritor negro de baixa qualidade não se deve a racismo, você está sendo racista. Se não percebe o racismo, “é porque ele é estrutural”. Se Amanda Audi menospreza um contemporizador de Stálin que move fãs no YouTube – e por acaso é negro –, ela está sendo racista. Se é impossível perceber onde estaria o racismo nas críticas que ela fez, “é porque o racismo é tão estrutural que as pessoas não enxergam quando o reproduzem”. No fim das contas o racismo estrutural tem sido usado para que radicais do movimento negro e seus aparvalhados discípulos possam chamar os outros de racistas sem precisar provar como chegaram a essa fatídica conclusão. Graças à “estrutura do racismo”, qualquer coisa e qualquer pessoa podem ser racistas, basta querer. Não há nenhuma lógica nisso, mas universitários hipnotizados aplaudem e jornalistas afastados do sentido questionador de sua profissão agradecem “pela conscientização”. Há mais loucos fora dos hospícios do que dentro deles. 

Nono mandamento: Pessoas brancas são bem-vindas no Movimento Antirracista, desde que reconheçam sua participação no racismo sistêmico, reconheçam seus privilégios e aceitem se dobrar aos ditames de teóricos negros. 


Humilhe-se e concorde. Se obedecer, você será bem-vindo. Mas não muito, pois vivemos um duplo conflito: se repudiamos quem não concorda conosco, temos menos respeito ainda por quem concorda com quase tudo. Por isso caçamos com tanta cólera quem está mais perto de nós e deixamos pra lá os grandes inimigos. Sabemos que temos poder sobre Lilia Schwarcz. Sabemos que não temos poder nenhum sobre Bolsonaro. Sabemos que podemos coagir as empresas a não usar palavras das quais não gostamos. Sabemos que não temos competência para perseguir neonazistas. 

Décimo mandamento: Questionar qualquer um destes mandamentos é racismo. 


Este mandamento tem outra versão similar: “Radicais do movimento negro nunca estão errados”. Assim se fecha a dúvida, o questionamento e o desvio. Com uma regra dessas, não há como não chamar o Antirracismo de seita. Pobres dos lúcidos do movimento negro que serão, cada vez mais, confundidos com os autoritários. Cederão a eles? Passarão a louvá-los? Vamos acompanhando. Até este momento, a maioria parece no mínimo cúmplice. 

*** 


NOTAS


1. Está difícil escrever textos curtos. Temas complicados pedem postagens um pouco mais aprofundadas, então paciência. É o que tenho para oferecer. Sei que blogs deixaram de ser veículos para alcançar grande número de leitores, sei que o modelo das redes sociais em voga pede concisão porque poucas pessoas têm tempo e vontade de ler longos textos, mas não sei fazer muito diferente disso. 


1.1. Muitos jornais deixaram de ter reportagens aprofundadas. Nos anos 90, Paulo Francis já reclamava no Roda Viva da morte das longas reportagens no Brasil. Se vivesse hoje, ficaria atônito e teria que se contentar com alguns jornais e revistas norte-americanos, como a New Yorker, que mantêm o modelo. Acho que no final da vida ele já não lia quase mais nada dos jornais nacionais, mesmo. 


1.2. Não culpo os jornais, que se adaptaram ao novo leitor que a concorrência das redes sociais criou. O jornal pensa em custos e retorno. Se ele pagar jornalistas para escrever longas reportagens sobre determinados assuntos e tiver poucos leitores, faz sentido investir nisso?

Parece que os jornais brasileiros deixaram na conta dos livros a leitura de matérias compridas. Quem no passado lia extensas explicações sobre momentos históricos, crises econômicas e eventos culturais nos jornais, hoje tem que buscar esse tipo de material em livros. A troca não foi ruim, afinal. 


1.3. A troca não foi ruim, mas a leitura fragmentada dos jornais – e das redes sociais – cansa. Cansa e parece alterar o modo como lemos os textos dos livros. Quando passo uma ou duas horas lendo jornal, depois paro e decido ler um livro, não chego ao livro com a cabeça de quem lê um livro. Chego ali com os olhos, o ritmo e a ansiedade de quem estava fazendo uma leitura de jornal. Vou lendo, vou lendo… e em algum momento, finalmente, encontro o tom correto para ler o livro. Ler jornal depois de ler um livro é bom. Ler um livro depois de ter habituado o cérebro a ficar uma ou duas horas lendo um jornal não é bom. 


1.4. Não tenho nenhum estudo para embasar essa tese. Falo por experiência. Mas não duvido que haja algum estudo nesse sentido. 


1.5. Também percebo que o tempo lendo livros parece passar mais lentamente do que lendo jornais e redes sociais. O tempo em redes sociais voa. O tempo nos jornais corre. O tempo nos livros passeia. 


1.6. Leio muito jornal e coisas selecionadas em redes sociais especialmente para me informar. Não é a tarefa mais gratificante. Depois de passar duas horas na internet lendo coisas fragmentadas, não saio dela tão grata quanto saio após duas horas lendo um livro. 


1.7. OK, OK. Aprecio memes também. Gasto tempo na internet vendo memes.


2. A dívida histórica é paga em forma de aluguel porque nunca terminamos de pagar os aluguéis. 

– Eu gostaria de pagar à vista a quitação da minha suposta dívida histórica. 

– Nada disso. Aqui é só aluguel. Você deixará de pagar só quando morrer. 


3. Linchadores virtuais – que são bastante reais – se alvoroçam com ou sem pedido de desculpas daqueles que perseguem. Não pediu desculpas? “Ô, racista, não vai nem pedir desculpas e reconhecer sua nojeira?” Pediu desculpas? “Ô, racista, está achando que um pedido de desculpas é suficiente? Você só está se desculpando porque viemos aqui te linchar.” Não tem escapatória. Em algumas ditaduras, quando um artista faz um poema comparando suavemente o ditador a uma barata ele é preso ou executado. O outro artista que fez outro poema comparando o ditador a um rato e depois resolveu consertar a provocação com um poema comparando o ditador a um jardim primaveril – ele também é preso ou executado. 


4. O livre arbítrio puro é uma ilusão, por isso acredito que exista racismo inconsciente, que Silvio Almeida prefere chamar de “não intencional”. Mas essa liberdade de uso do flexível inconsciente pelos agentes errados é temerosa. Existem psicanalistas que se agarram a suas teorias com tanto fanatismo que aquilo que foge das explicações cimentadas recebe a carta-coringa do inconsciente: 


– Você odeia sua avó, é isso que vejo. 

– Não odeio minha avó. Adoro minha avó e sou capaz de morrer por minha avó. Toda semana escrevo cartas para ela e já lhe doei um rim.

– Inconscientemente você odeia. 


Se por um lado há presunçosos que negam as forças do inconsciente – tratadas não apenas pela psicanálise, mas pela psicologia social, gerando estudos interessantíssimos –, por outro há quem abuse do recurso. Acredito em racismo inconsciente. No entanto, não acredito que uma pessoa como Silvio Almeida – de fala mansa, rostinho simpático, mas radical – faça bom uso desse conceito. Boas ideias nas mãos erradas podem se transformar em más ideias. 


5. Gosto do humor do Sacha Baron Coen. Gostei de Borat (2006), apesar do estresse desnecessário causado a inúmeros animais não-humanos, e coloquei Borat: fita de cinema seguinte (Borat, subsequent moviefilm…, 2020) na lista da Amazon para ver em algum momento. Vi esses tempos, após ouvir certo bafafá e elogios. E achei o filme novo muito ruim. Absurdamente inferior ao primeiro (piadas, ritmo, a inserção de uma filha que é constrangedora de tão sem graça, Coen em várias cenas parece cansado, etc.). Mas o que destaco dessa sequência foi a má-fé de querer forçar uma situação escandalosa em cima de Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York e aliado de Trump. 


Na cena mais polêmica – que é uma polêmica vazia –, a filha de Borat se disfarça de jornalista e vai a um hotel fazer uma entrevista com Giuliani. Os dois estão extremamente à vontade. Não é preciso ser nenhum mestre em leitura corporal para ver que Tutar (filha de Borat no filme) está dando em cima de Giuliani. Em vários momentos da editada entrevista, entre gargalhadas sapecas, ela coloca a mão no joelho de Giuliani e deixa a mão passear ali por um tempo. Ao final da entrevista, ele a convida para beber algo no quarto e parece que já vai começar a tirar as calças quando Borat aparece para “salvar” a filha daquilo. Daquilo o quê? A atriz de 24 anos propositalmente seduziu Giuliani, deu a entender que estava a fim dele e não foi forçada a nada. De repente isso se transforma num escândalo “vejam o que Giuliani estava prestes a fazer com a jornalista!” A única coisa obrigatoriamente errada nessa situação é que Giuliani, ao que parece, tinha uma namorada. Se eles não viviam num relacionamento aberto, traí-la é imoral. Lamento por Sacha Baron Coen embarcar na busca por esse tipo de polêmica. Muitos políticos americanos associados a Trump tinham uma porção de problemas a ser explorados. Querer fazer sexo com uma mulher livre que lhes dá mole e não é forçada a nada não é um problema – e não deveria ser uma polêmica. 


5.1. Para destacar uma rara ideia boa do filme de 2020 estão as cenas de Borat com um casal trumpista que acredita em conspirações de toda sorte. Quando Borat vem com conspirações ainda piores, o casal lhe aponta os equívocos. 


Coen já utilizou essa manobra em outros programas – testar o limite dos absurdos que as pessoas defendem – e ela quase sempre funciona bem. No Borat de 2006 um homem numa van de festeiros trogloditas disse que “as pessoas ainda deveriam poder ter escravos”.


6. Um documentário que recomendo e que está disponível na Netflix é Sour grapes (2016). Apesar de tratar de golpes no mundo enófilo, ele não apresenta uma trama instigante apenas para quem é apreciador de vinhos, pois a força da história está na construção detalhada de um golpista e na incrível existência de trouxas mesmo num ambiente elitizado que pareceria menos suscetível a tapeações. 


O cinismo do advogado do golpista que aparece em poucos momentos também é aquele velho e recreativo cinismo tão típico dos advogados norte-americanos. Alguém deveria fazer uma série documental sobre os mais famosos desses advogados e as teses estrambólicas que eles inventam para vencer processos. Não quero parecer mórbida, mas para mim isso é entretenimento de alto valor. 


7. Escrito ao som de Beastie Boys, “Root down (Free Zone Mix)”, e outras coisas. 

(Postagem publicada originalmente no blog antigo em 16/11/2020 e atualizada em 24/05/2021.)

A seita antirracista (Série “Radical do Movimento Negro”, texto nº 1)

Esta é a primeira postagem da série “Radical do movimento negro”. Na série falarei sobre termos politicamente incorretos, paranoia, cotas raciais, negros “incômodos” para o movimento, blackface, colorismo, derrubada de estátuas, jornalismo frouxo que serve como relações-públicas de teóricos radicais, aliciamento da mídia, sistema carcerário, estereótipo policial, a recomendação de “ler escritores negros”, dentre outros assuntos. Tentarei fazer uma análise justa e realista das pautas caras a esse movimento e ao identitarismo em geral, o que significa que precisarei jogar luz sobre questões embaraçosas à manutenção do discurso militante. A realidade, afinal, não corrobora boa parte dessas narrativas.

 
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Acompanhamos um novo acirramento da futebolização da vida. Se o futebol e outros esportes competitivos foram bons substitutos do impulso de guerrear, o mesmo não se pode dizer quando seus procedimentos são assumidos no debate público, destruindo a vontade de compreensão e a postura conciliadora para dar lugar a fanatismo de torcida e afronta desnecessária a discordantes suaves, que passam a ser vistos como inimigos. A internet funcionou como uma plataforma eficaz para esse processo de radicalização porque em muitos casos extremou os extremistas em vez de abrandá-los pelo acesso ao cosmopolitismo ideológico. Aliás, esse conhecimento do mundo parece ter contribuído para que alguns passassem a combater coisas que anteriormente ignoravam, mostrando que não adianta muito ampliar o território de um indivíduo se ele não tem as ferramentas adequadas para explorá-lo. Um analfabeto dentro de uma grande biblioteca não serve para nada. Ele pode até começar a sentir raiva dos livros, que não compreende.


Embora facilitando pluralidade e informação, a internet criou pontes entre fanáticos espalhados pelo globo. Em grupo, eles se tornam mais fortes e organizados, além de melhor habilitados a tentar converter outras pessoas até então razoáveis para sua causa. Não faz sentido demonizar as redes de computadores pelas trevas nela veiculadas – seria como culpar as companhias telefônicas pela corrupção política que é negociada nas suas linhas –, mas é interessante constatar como quem é destinado à destruição (figura de linguagem) vai achar meios de canalizar esse desejo num ambiente aberto, pouco controlado e criado com boas intenções. Falo de “ambiente pouco controlado” mais como constatação do que como crítica, pois sei que não é difícil vislumbrar um cenário em que serão os fanáticos a determinar alguma parte essencial dos limites sobre a liberdade, visando a satisfazer seu lado. Isso já não está acontecendo de certa forma? 


Esse desastre civilizatório que não é novidade, senão um déjà vu histórico, atinge inúmeros grupos, mas nesta série me dedicarei a tratar da ala radical do movimento negro que o adota. 


Especifico como “radicais” os sujeitos a que me referirei porque sei que muitas pessoas envolvidas no combate ao racismo não pactuam com a tática de exército apropriada por membros do movimento negro que trocaram o sentido de justiça pela ardência por vingança. O movimento negro é útil e essencial num país de longa tradição escravocrata que sente até hoje os efeitos da inferiorização de pessoas negras. Já o movimento negro radical é danoso, odioso e afoito por abraçar condutas racistas para supostamente “acabar com o racismo”. Não quer harmonia, mas caos, humilhação dos sutilmente desviantes, revanche anacrônica e privilégios de intocabilidade, irrefutabilidade e sacralidade. E está sendo muito bem-sucedido nisso graças à estratégia discursiva que adotou, à amplitude que alcançou e ao medo que tantas pessoas têm de refletir sobre as novidades que as afetam – ainda mais quando há essa ameaça de “se você não concorda conosco e não se rende a todos os nossos dogmas, você é racista”. 


As únicas pessoas que aceitam ser chamadas de racistas são aquelas que se orgulham de seu racismo, como os supremacistas brancos. Para parecer relevante e angariar discípulos imbuídos de culpa, o movimento negro radical precisou ampliar muito o rol de racistas, e tem chamado de racistas justamente tantas pessoas íntegras que têm pavor da pecha e podem querer fazer qualquer coisa para se livrar dela logo – inclusive aderir a uma seita da qual não participariam em outro momento menos desesperante. Tal como está colocado o Antirracismo, uma pessoa que não reze conforme a cartilha e não dê as tais “demonstrações antirracistas” frequentes – que dizem respeito a uma conversão aos mandamentos da seita, inquestionáveis – torna-se racista


Como nosso impulso religioso aparentemente calcado na biologia não se manifesta apenas no louvor a deuses, quase tudo na sociedade pode sofrer um desenvolvimento de devoção e se transformar em seita delirante. Essa característica tão humana da qual a maioria não consegue se desvencilhar – mesmo tantos ateus que substituíram Deus por religiões seculares como o marxismo e o partidarismo político – impede o primado da razão e promove embates por crendices. Sistemas de ideias que começam bons podem degringolar para agrupamentos religiosos que operam de maneira autoritária, dogmática e ritualística. Com o movimento negro não foi diferente. Olho para a histeria da religião antirracista e olho para outros cultos – estão postas inúmeras similaridades. 

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Aqui é necessário fazer uma graduação. Lavadores cerebrais tendem a ser muito mais pérfidos do que lavados cerebrais. Teóricos do Movimento Antirracista têm conseguido converter muitas pessoas: algumas se tornam gêmeas desses teóricos, outras apenas seguem a corrente de forma alienada e apaixonada. Das últimas conseguimos sentir pena porque percebemos que são vítimas de um sistema que pensam ser íntegro de ponta a ponta, mas que foi desenvolvido justamente para ser indubitável (como uma seita) e foi gerado a partir de ódio e paranoia alimentados por alguém num quarto mofado às três da manhã.

Há moções que nascem de uma vontade coletiva natural, e há moções que nascem da conspiração de um ressentido isolado e se tornam, por eficiente persuasão dele, problema coletivo. O ressentimento isolado nem sempre é negativo – existem avanços sociais que nasceram de justa amargura elaborada na cabeça de um iluminado que percebeu o que ninguém percebera antes –, mas mesmo na hipótese de ser positivo ele pode facilmente abusar do alcance dos seus efeitos. Ao recordar de personagens históricos que provocaram mudanças amplas, para o bem e para o mal, é interessante especular como estaríamos hoje se eles não tivessem existido. Um indivíduo sozinho tramando mobilizações que afetarão a todos pode ser valioso ou muito perigoso.

Quando vejo pessoas que eu considerava algo sensatas aderindo aos ditames do Movimento Antirracista e reproduzindo suas sentenças como se professassem uma fé, sinto como se tivesse perdido alguém para a Cracolândia ou para alguma igreja neopentecostal. Espero que um dia possam sair de lá, mas sei que não é simples. Não tenho a mesma benevolência simpática com os mal-intencionados.



Diferenciemos duas coisas: 


a) Não ser racista; 

b) Ser antirracista. 


Parecem iguais, mas são diferentes. A diferença é que “ser antirracista” não é apenas uma posição moral e atitudinal, mas de adesão a um movimento político liderado por radicais a quem não basta não discriminar negros. O antirracismo aspira a que as pessoas pensem que negros devem ter privilégio discursivo – para compensar os séculos sem privilégio –, que negros estão vivendo em condições semelhantes às do período escravocrata, que negros passam por opressão o tempo todo no Ocidente, que negros são massacrados por uma certa supremacia branca que contaminaria as instituições, que tudo de ruim que acontece a negros se deve a racismo. “Ser antirracista” se tornou um selo que abarca muito mais conteúdo do que o “não ser racista”, cuja simplicidade de “não discriminar pessoas pela cor da pele” já deixou de ser suficiente dentro de um movimento que sempre demanda mais e mais sacrifício dos seus adeptos. Um movimento que tem franca ambição de ser necessário para sempre criando problemas onde eles não existem e atribuindo a problemas que existem uma causalidade que não procede.


O Antirracismo partiu de uma premissa inescapável. Sempre comento isto, e repito: os grandes movimentos que se declaram virtuosos têm um discurso simples no instante de cooptar os ingênuos. Eles te perguntam, buscando sua conversão: 


– Você acha que homens e mulheres deveriam ter direitos iguais? 


Existe apenas uma resposta aceitável para essa pergunta. Você diz “sim”. Eles dizem: 


– Está vendo, você é feminista. 


Só que a evangelização não para por aí. Se você assume “bem, parece que sou mesmo feminista, então”, haverá um livro de regras severas para adotar. Chamam de “feminismo” quando afirmam que é preciso apoiar uma alpinista social que mentiu que foi estuprada por Neymar. Chamam de “feminismo” quando uma universitária de Belo Horizonte monta um esquema de abortos clandestinos em que ela mata, com medicamentos veterinários, fetos de até 7 meses, pois “o corpo é da mulher e ela faz o que quiser com ele”. Chamam de feminismo dizer que “todos os homens são potenciais estupradores”. Chamam de feminismo colocar em redes sociais e em banheiros públicos nomes de homens que são “mulherengos” ou não ligaram no dia seguinte. Chamam de feminismo quando mulheres frustradas expõem seus maridos em páginas da internet para reclamar que eles não dividem as tarefas domésticas, não têm a performance sexual desejada e são bananas. Chamam de feminismo ser contra a revista Playboy e, ao mesmo tempo, postar inúmeras fotos de si mesma seminua e sensual no Instagram. 


No livro As armas da persuasão, o psicólogo social Robert Cialdini explica como funciona esse mecanismo de começar assumindo um leve compromisso e terminar adotando uma corrente de ideias aparentemente similares para manter a coerência: 

Depois que fazemos uma opção ou tomamos uma posição, deparamos com pressões pessoais e interpessoais exigindo que nos comportemos de acordo com esse compromisso.”

Ou seja, é preciso tomar cuidado com qualquer compromisso inicial que você possa vir a assumir com um movimento (político, social, religioso), porque muitas vezes, de forma automática, seu cérebro quererá assumir outros compromissos desvantajosos apenas para manter a coerência: 

“Ao ser coerente com as decisões anteriores, a pessoa reduz a necessidade de processar todas as informações pertinentes em situações semelhantes futuras. Em vez disso, basta que recorde as decisões anteriores e reaja em consonância com elas.” 

O mecanismo de compromisso e coerência, portanto, inibe a reflexão (não é errado dizer que ele economiza o raciocínio) e tende a fazer com que embarquemos cada vez mais fundo num conjunto ideológico pelo temor de parecermos incoerentes. 


No mesmo capítulo em que trata disso o autor mostra como rituais de iniciação severos aumentam a coesão do grupo e o engajamento daqueles que se sentem maravilhados por vencer exigências difíceis antes de ter o direito de fazer parte do grupo: 

“Está provado que, quanto maior o esforço envolvido num compromisso, maior será sua capacidade de influenciar as atitudes da pessoa que o assumiu.” 

O compromisso é perigoso porque, se simples, pode levá-lo a assumir outros mais elaborados que venham depois, com vistas a manter a coerência. Mas se o compromisso for rigoroso e você depender dele para participar de algum grupo almejado, ao vencê-lo você se sentirá orgulhoso e gratificado, e tenderá a ser mais fiel ao grupo. 

“Enquanto as pessoas gostarem daquilo que lutam por conseguir, esses grupos continuarão promovendo ritos de iniciação desagradáveis. A fidelidade e a dedicação dos novos membros aumentarão muito as chances de coesão e sobrevivência do grupo. De fato, um estudo de 54 culturas tribais descobriu que aquelas com as cerimônias de iniciação mais dramáticas e rigorosas exibiam a maior solidariedade grupal […]. Dada a demonstração de Aronson e Mills de que a severidade de uma cerimônia de iniciação aumenta substancialmente o comprometimento do novo membro com o grupo, não surpreende que os grupos venham a se opor a todas as tentativas de eliminar esse vínculo crucial para sua força futura.” 

Cialdini trabalha principalmente sobre exemplos de iniciação universitária aplicada contra calouros, provas de treinamento militar e rituais de passagem sofridos que transformam meninos em homens numa tribo do sul da África. Ele não faz comparações desses rituais com movimentos ideológicos, mas eu farei. Todos os rigores que determinados grupos têm promovido para melhor controlar seus membros fazem parte dessa operação de tornar mais valioso aquilo que é mais difícil de ser alcançado e formar futuros radicais intransigentes, fiéis aos ditames do grupo. 


Momento 1 – Cooptação; ou abordagem para um programa vespertino no canal GNT 


– Você é a favor de direitos iguais para brancos e negros? – Sim. – Então você é contra o racismo. 


Momento 2 – Controle, coerência com o compromisso assumido, coesão 


– Bem, como sou a favor de direitos iguais para brancos e negros, sou antirracista. – Isso não é ser antirracista. Assim é muito fácil ser antirracista. – O que tenho que fazer para ser antirracista? – Leia esses livros. – [enquanto folheia e lê trechos] Mas são muitas regras, são muitos detalhes… – Ora, se você prefere continuar sendo um racista… – Não sou racista. – É o que muitos racistas falam. Se você se beneficia de uma sociedade racista (e vivemos em uma, sem dúvida) e não tem demonstrações antirracistas nessa sociedade, você é racista de alguma forma. Não basta dizer que não é racista, é preciso ser antirracista. – E para ser antirracista preciso fazer o que está escrito nesses livros? – Sim. – Lutarei para conseguir esse selo, então. 


Momento 3 – Transição que ainda permite o aparecimento de dúvidas 


– No geral, concordei com esses livros, mas esses trechos aqui não procedem… – Por que não procedem? – Porque não é dessa forma que negros são tratados na sociedade atual. – E você é negro, por acaso, para saber como negros são tratados? – Desculpe, não sou, mas observo com atenção o que acontece ao meu redor. – Você discorda desses trechos porque você é racista. – Como assim? – O racismo cria essa condição em que brancos sentem que teóricos negros falam coisas que não os agradam, não os beneficiam. Com isso, sentem medo de perder seus privilégios. Discordar do que teóricos negros falam sobre racismo é racismo. – Não posso discordar, então? – É prepotência racista discordar dos ensinamentos de teóricos negros. Tudo isso faz parte do plano racista generalizado de manter privilégios brancos. – Sem perceber, estou sendo racista? – Obviamente. – Nossa, parece que o plano racista da supremacia branca é mesmo poderoso. Sou racista sem perceber. Perdoe-me. – É disso que estamos falando, também, quando falamos de racismo estrutural. Procure melhorar. 


Momento 4 – Radicalização plena 


– Estão dizendo que as estatísticas sobre assassinato de negros estão erradas nas conclusões a que chegam. – Racismo. – Sem dúvida. É preciso ser um sujeito muito opressor e malvado para questionar estatísticas sobre morte de negros feitas por membros do movimento negro. E agora uma historiadora branca está escrevendo um livro sobre a escravidão brasileira. – Quem tem que escrever sobre a história da escravidão são os historiadores negros. Até na escrita da história dos antepassados de negros os brancos querem ter protagonismo? – É, essa racista ainda não quer abrir mão de todos os seus privilégios. – E o político branco de esquerda que fez uma piada de sentido duplo com o termo “Casa Grande”? – Racista. Tem que se desculpar. – Já se desculpou. – Não basta. É fácil ser racista e depois vir se desculpar por medo de perder privilégio branco. – Concordo. Falam coisas que violentam negros e impedem sua existência, e depois acham que um pedido de desculpas é suficiente. A punição tem que ser maior. (…) Que livro é esse que você está lendo? – Um livro do Raduan Nassar. – Um bom escritor, de esquerda e tudo, mas no momento que estamos vivendo não seria melhor priorizar a leitura de autores negros? Com a opressão que negros viveram e ainda estão vivendo, não acha que é melhor apoiá-los como uma forma de ação afirmativa cultural e pessoal? – Faz sentido. Lerei Chimamanda Adichie. Homens brancos já foram contemplados com leitores por séculos. 


Outra função do rigor é fazer com que sempre exista algo que necessite de conserto na sua conduta. A exigência despótica de conformidade estabelece o comando das mentes. Participar de grupos pode ter alguns benefícios para animais sociais como os seres humanos, mas o controle que eles têm sobre nós faz com que nos obriguemos a abrir mão da liberdade, em maior ou menor grau. 


E acrescento ainda mais uma função ao rigor: cria a ilusão de que o arcabouço teórico do grupo é complexo, sério, acadêmico. Nos últimos anos o mercado editorial foi inundado por livros abordando o problema da negritude. Ideólogos do movimento negro têm dito que é preciso ler esses materiais antes de dar opinião sobre aquilo de que tratam. Ao seguir a recomendação e lê-los, é possível perceber que eles se empenham numa problematização profunda da questão negra moderna, parecendo mesmo, num primeiro momento, discorrer com detalhe sobre o que não poderia se encerrar num folheto. Mas ao analisar o texto com mais ceticismo e atenção, palavra por palavra, alusão por alusão, é possível verificar que parte do que está ali é retórica vazia e parte é conclusão improcedente. O que sobra de útil e verídico não é muita coisa. Neste caso, a problematização profunda serve apenas a ela mesma e a um engodo. 

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Você assume um compromisso aparentemente fácil. Você quer manter a coerência. Você tem pavor da possibilidade de ser chamado de “racista”, esse adjetivo tenebroso, e aceita assumir novos compromissos. Para ser um antirracista de verdade, você precisa passar por todo um ritual de humilhação, autoimolação, negação do seu eu pecador anterior, assunção de culpa pelo que fizeram seus ancestrais, culpa por ter uma vida razoável enquanto pessoas negras nas periferias estão sem emprego, culpa por ter usado palavras “violentas” contra a negritude, culpa por ter nascido branco (pecado original), admissão de privilégios, delação de pessoas que ainda são pecadoras, adoção de terminologia adequada, adoração de líderes negros que determinam como você deve pensar e o que deve pensar, apagamento de um passado em que você lia mais pessoas brancas do que pessoas negras, aprendizagem diária de dogmas que não devem ser contestados, pedidos constantes de desculpas que não são facilmente aceitos, ameaças de ser expulso do grupo se não se adequar, exaltação dos eleitos contra os que irão para o inferno. Se você está disposto a passar por esse ritual de iniciação antirracista – que é um ritual de conversão religiosa, e não de “conscientização”, como eufemistas têm floreado –, quando sentir que está pronto para ser condecorado será quase impossível tirar você de lá. O ritual terá cumprido seu papel, e receber o direito de participar desse grupo tão difícil tornará você um fanático radicalizado. Agora você não é apenas contra o racismo. Você é um antirracista


Depois de suas relações sociais girarem ao redor desse clube, depois de suas escolhas profissionais serem feitas pensando em se aprofundar nele, depois de sua reputação como “grande companheiro do clube” ficar consolidada, depois de todos os seus textos longos mostrarem fidelidade ao clube – você não terá cara, honra e coragem para abandoná-lo com facilidade se um dia acordar e perceber que “ei, estamos defendendo coisas extremas e vigilância policialesca até do que os outros sussurram nas alcovas”. Colocar todas as suas fichas de vida num grupo radical é uma receita para a agonia se você um dia “mudar de ideia”: será difícil abandonar algo conquistado e construído com tanto espetáculo e fanatismo. Ao conseguir abandonar o grupo, aqueles que ficaram te chamarão de “traidor” e farão questão de considerá-lo ainda pior do que quem nunca esteve no grupo; e do “lado de fora” do grupo você precisará não só criar relacionamentos novos como terá que aguentar alguns depositários da memória a lembrar constantemente quem você já foi


Tenha consideração pelo seu eu futuro. Pense duzentas vezes antes de mergulhar apaixonadamente num clube exigente. Concorda com algumas ideias de determinados clubes? Defenda-as isoladamente, evitando se comprometer em ser rotulado como membro deles. E se um dia precisar entrar em algum – porque há momentos em que precisamos nos unir para atingir um objetivo maior de interesse coletivo –, já deixe claro, no formulário de inscrição, que manterá seu direito de pensar sobre certos assuntos caso a caso e que seu comprometimento com o grupo não é nem cego, nem vitalício. 


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Quem não percebe o que o Antirracismo está se tornando está mal informado ou talvez já um tanto dominado pela propaganda de que ele é uma virtude e está em busca de um “bem maior”. Tem sido comum que absurdos defendidos por radicais negros sejam aceitos como verdade irrefutável – mesmo que se apresentem dados honestos para contestá-los. Nesse caso, os dados passam a ser racistas também. Seitas são assim. Contra dogmas, não há fatos, e apresentar fatos que desmentem os dogmas da seita é heresia. Sejamos mais hereges ante essa nova inquisição. 

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NOTAS


1. O impulso religioso calcado na biologia humana – que ganha proporções perversas graças ao desenvolvimento cultural – é tão forte que mesmo muitos ateus e agnósticos procuram teorias irracionais às quais se agarrar. A quantidade de mulheres ateias que creem em astrologia é alta, e algumas delas se sentem muito à vontade para criticar a “guerra à razão” do brucutu Bolsonaro como se tivessem envergadura para ser guardiãs da ciência. A conduta religiosa pode ser aplicada a tantas coisas – há até quem se apegue a defender a panaceia de um alimento como se ele fosse uma deidade –, e uma parte considerável da sua atuação se explica pela vontade de pertencimento do indivíduo. Em síntese, carência. A mulher ateia que fica bailando com a descrição do seu signo, do seu ascendente e da sua Lua quer alento dos astros, quer sentir que o espaço sideral lhe dá importância e que há uma força maior enigmática que a rege. Dependendo do nível de maluquice e egocentrismo fracassado, é muito mais proveitoso travar diálogo com um religioso do que com uma adepta da astrologia. 


1.1. De uma perspectiva histórica e folclórica, a mitologia por detrás dos signos é muito interessante. Gosto especialmente das histórias que envolvem meu alegado signo, Áries, e os outros signos de Fogo. Mas quem se encanta pelas histórias de Zeus tende a não acreditar que ele fez tudo que humanos imaginativos disseram que ele fez, certo? Isso não acontece com a Astrologia. Ela está em voga, não é tratada como curiosidade antiga ou brincadeira, pessoas que se pensam inteligentes acreditam de fato que suas imundícies, presunções, tendências ao barraco e rancores são explicados pelas energias astrais que (uau) alteraram seus cérebros de acordo com o dia e a hora em que saíram das vaginas maternas. 


Porque, afinal, acreditar que sua personalidade é influenciada pelos astros é isso: o corpo recebeu alguma energia (um gás?) astral que o alterou dependendo do momento em que foi colocado para fora da barriga da sua mãe. Se o médico demorou para tirar seu pé lá de dentro – a hora considerada do seu nascimento é quando seu corpo inteiro está para fora –, isso pode mudar o seu ascendente (!), então uma mãe astróloga poderia pedir para o obstetra esperar mais um pouco para tirar o último pé do bebê de dentro dela a fim de controlar a tal energia que determinará a personalidade mais vistosa, externa, que é regida pelo signo ascendente. 


Perguntas: 


a) As tais astrólogas ateias não devem acreditar em alma, suponho. Então o gás astral que atua na hora do nascimento gruda sobre o cérebro, não sobre a alma, também suponho. Neste caso, bebês anencéfalos não têm signo? 


b) O horário de nascimento do bebê é marcado pelo momento em que ele sai por inteiro do corpo da mãe. Como é o raciocínio do gás astral que se impede de atuar na personalidade do bebê quando somente sua cabeça está para fora da vagina da mãe, mas vem com tudo quando o último pé é retirado lá de dentro? O gás astral senta no ombro do obstetra e fica aguardando que o último dedinho do bebê venha ao mundo para então agir sobre a personalidade dele? 


c) Existem exemplos estudados de pessoas que mudaram de personalidade após sofrerem lesões cerebrais. As lesões alteraram o gás astral também, já que alteraram a personalidade dessas pessoas? E será que a mudança de personalidade se deu mais por causa do dano cerebral ou por causa do vazamento de gás astral? O ovo ou a galinha da teoria da personalidade astral? 


d) Ainda no caso de pessoas com lesões cerebrais que mudaram de personalidade: podemos dizer que mudaram de signo ao observar seus novos comportamentos ou isso é uma blasfêmia à astrologia? “Nossa, ele era tão Virgem, mas depois do acidente está totalmente Leão.” 


e) Por que gêmeos univitelinos são tão parecidos em personalidade, mas gêmeos bivitelinos tendem a ser diferentes se todos nasceram praticamente juntos? Cientistas falam de genética, mas como os astros explicam isso? 


f) Bebês que morrem durante o parto: eles têm signo? E é possível determinar seu ascendente, já que seus corpos saíram mortos da barriga da mãe? 


1.2Fazendo uma pesquisa, descobri que há mães que fazem seus filhos nascerem prematuramente porque não querem que eles nasçam sob certos signos. 


1.3Fazendo uma pesquisa, descobri que “animais têm signos”. Uma astróloga disse que cachorros que trabalham farejando drogas para a polícia provavelmente têm em seus mapas astrais (!) alguma tendência ao sucesso para isso demonstrada na casa do mapa que trata de profissões (!). Cachorros. Com mapas astrais. Determinados astrologicamente para o sucesso em certas profissões. 


1.4. Não descobri se insetos também têm signos. 


1.5. Mulheres que estão querendo reconhecimento discursivo na sociedade precisam rever o delírio astrológico. Parem de envergonhar nosso gênero com esse atestado de falência da razão, com esse terraplanismo que tem muito mais adeptos entre as mulheres. “Mas é só por diversão.” A partir do momento em que você gasta várias horas do seu mês para ler/falar sobre isso, a partir do momento em que você muda a forma como se relaciona com os outros com base em seus signos e a partir do momento em que você paga para alguém fazer seu mapa astral – acabou há muito tempo a “mera diversão”. Busque tratamento. 


2. É sabido que sou favorável ao aborto até por volta de 10 semanas de gestação porque até esse ponto o feto não é muito melhor do que as pessoas que são legalmente desligadas de máquinas nos hospitais por causa de morte cerebral. E o argumento da “potencialidade” é muito fraco – quanta “potencialidade” está congelada em forma de embriões em clínicas de reprodução assistida sem que ninguém proteste seriamente contra essa suposta imoralidade. Quando vi a chamada do Fantástico sobre uma estudante de Belo Horizonte que fazia abortos clandestinos, achei que fosse uma mulher auxiliando outras a fazer abortos nas primeiras semanas de gestação. Pensei “ih, não sabia que o Fantástico aderia à onda antiaborto”. Até que vi do que a matéria realmente tratava, e fiquei enojada. A aborteira aceitava fazer o procedimento veterinário (com medicamentos usados por veterinários para otimizar a ordenha de vacas) em mulheres com 7 meses de gestação. 


Algumas feministas (não todas, talvez nem a maioria) aprovam esse tipo de conduta com base na ideia do “meu corpo, minhas regras”. O raciocínio é manco. Lamentamos se a sua negação da natureza faz com que você desaprove o fato de ser a mulher a responsável por gerar uma nova vida dentro de si, mas os fatos biológicos são o que são, não o que você quer que eles sejam. A partir do momento em que um feto está tão desenvolvido que ele já tem intensa atividade nervosa e já está pronto para nascer – mesmo que prematuramente –, aquele corpo não é mais “seu”: é outro corpo. Sendo outro corpo, você não deveria ter o direito de fazer o que quiser com ele. Uma mulher que se arrepende de sua gravidez tardiamente, quando o aborto se torna imoral, não deve matar o feto: deve fazer o esforço de esperar mais alguns meses para conceber a criança e então entregá-la para adoção. Há longas filas de pessoas ansiosas por adotar bebês recém-nascidos. Seu desejo de não ter um bebê quase plenamente formado não lhe dá o direito de matá-lo – mas deveria lhe dar o direito de entregá-lo para adoção sem ser julgada por isso. 


2.1. Pessoas que são contrárias ao aborto a qualquer tempo possivelmente são as primeiras a julgar – com comentários reprovadores e olhos arregalados – aquelas mulheres que colocam seus recém-nascidos para adoção. Não deveria ser assim. Para diminuir o número de abortos no Brasil, os ativistas antiaborto deveriam fazer grandes campanhas de conscientização do tipo “tudo bem você não querer ficar com o bebê, não tem problema algum colocá-lo para adoção depois do parto”. Hoje uma mulher que se vê com um filho indesejado fica num dilema: abortá-lo e mentir que foi espontâneo, ou ter o bebê e colocá-lo para adoção, tolerando ser julgada por seus parentes, vizinhos e empregadores pela escolha “desnaturada” que fez. 


2.2. Fiz um esforço de memória e não consegui resgatar quase nenhum ativista de esquerda que eu conheça (incluindo políticos) que tenha adotado crianças. Certamente existem, mas são poucos. Então parece que mesmo grande parte deles gosta é de ter filhos sanguíneos que não tragam um possível passado de miséria e trauma atrás de si. Não seria muito melhor – pensando em poupança de recursos do meio ambiente, desigualdade social, distribuição de riqueza, resgate de crianças em situação de pobreza, oferta de oportunidades – que esquerdistas fossem mais adotantes? Seria. Mas a maioria das pessoas prefere nos aporrinhar com discursos a nos arrastar pelo exemplo. Ativistas de esquerda vivem a falar em nome dos pobres e marginalizados, mas não querem dentro de suas casas as crianças que alguns desses pobres e marginalizados não puderam amparar. 


2.3. Como já comentei algumas vezes, muitos ativistas de esquerda querem jogar todas as responsabilidades para o colo do Estado porque não querem ter responsabilidade individual em melhorar a sociedade para além do papo furado. “Distribuir meu dinheiro aos mais pobres? O Estado que resolva! Recolher mais impostos de mim para financiar as políticas públicas que defendo? O Estado que resolva taxando apenas as grandes fortunas! Adotar crianças abandonadas em orfanatos? O Estado que faça alguma coisa! Eu quero um filho novinho em folha saído da barriga da minha mulher!”


2.4. Só consegui me lembrar de um ativista de esquerda que adotou crianças: David Miranda, deputado pelo PSOL, adotante de dois meninos com seu marido Glenn Greenwald. 


2.5. A esquerda que quer nos convencer que criminosos hediondos podem ser reeducados e ressocializados é a mesma que pouco adota. Ela aposta que um adulto torturador e homicida pode ser renovado numa penitenciária humanizada, mas parece ter medo de dar oportunidades a uma criança de dez anos de passado difícil que está esperando por uma família no orfanato. 


3. A total desconsideração ao princípio da presunção de inocência no caso do inventado estupro de Neymar não foi apanágio das feministas febris. Jornais e revistas compraram a história e já estavam condenando o jogador previamente sem muitas concessões. Alguns aproveitaram outros erros seus para dizer que surgia “mais um vacilo de Neymar” – como se já tivessem certeza de que alguma culpa ele tinha pelo ocorrido. Qual foi o vacilo daquela vez? Querer fazer sexo casual com uma mulher que parecia interessada sexualmente nele? (E que achou que ele ia se apaixonar por ela, pedi-la em casamento e levá-la a eventos cheios de fotógrafos que causariam inveja em outras alpinistas?) Os tais jornalistas achavam vacilo escolher mal parceiras para sexo casual ou o possível estupro? Se consideraram que houve estupro, a palavra adequada na ocasião não seria vacilo


Uma reportagem da Revista Época no tempo do escândalo assumiu posição na história a começar pelo título – A bagunçada vida extracampo de Neymar –, dando a entender que o caso do estupro seria mais uma trapalhada para colocar na sua lista de defeitos. A advogada que aceitou participar da equipe de defesa do jogador depois de ver o embuste no qual ele tinha sido enredado foi expulsa de uma entidade feminista da qual participava. Achar que um homem pode ser vítima de uma falsa acusação de estupro após análise dos autos fez a advogada ser indigna de pertencer a um grupo feminista. 


3.1. Não simpatizo com Neymar, como tantos que o criticaram na época do falso estupro. Mas disso não posso concluir que ele deve ser um estuprador. Pelo que sei, aqueles que concluíram isso – “sonegador de impostos, mimado e dramático nas quedas em campo: certamente é estuprador também” – não pediram desculpas por suas análises apressadas que não foram corroboradas pelas provas. As provas, aliás, corroboraram a hipótese de que uma mulher ambiciosa rejeitada em seu plano de conquista amorosa pode ser tomada por um ressentimento tão pernicioso que ela é capaz de inventar que o homem que a tratou como mero sexo casual cometeu um crime hediondo. Feministas não têm que apoiar essa mulher. Têm que rejeitá-la. Ela debocha das reais vítimas de estupro, ela usa o discurso de vítima de modo oportunista e ela contribui para desacreditar outras mulheres que vêm a público para denunciar estupros. Infelizmente não é possível esperar racionalidade, senso de justiça e ponderação de uma quarta onda feminista que age de maneira corporativista e desonesta ao tratar de assuntos sérios. Vão lá fazer pole dance, mapas astrais e bordado empoderado das trompas de Falópio. 


4. Após o ex-jogador de futebol e comentarista esportivo Walter Casagrande criticar em programa de TV a leniência de clubes brasileiros com jogadores que cometeram crimes graves, Fernando Haddad escreveu o seguinte tweet: “Tem Casa Grande que vale a pena”. Uma piada. Possivelmente sem graça, como a imensa maioria das piadas de Haddad no Twitter, mas uma piada inofensiva. Inofensiva? Um advogado criminalista (alô, princípio da proporcionalidade da pena!) negro escreveu: “Na moral? Se eu fosse do PT pedia a expulsão do Haddad hoje. Racista filho da puta.” Esse xingamento ganhou quase 6 mil curtidas. O autor se nomeia no Twitter como “João, O Justo” (grifo meu). O também advogado negro Thiago Amparo, colunista da Folha de S.Paulo, achou que era obrigação de Haddad se desculpar pelo “racismo” que cometeu. Imagine você derrubar um garfo na casa de alguém e a pessoa achar que para se vingar de você é preciso ir com um porrete à sua casa para detonar sua cozinha inteira. É o que o movimento negro faz hoje. E ele chama isso de “bem”, de “justiça”, de “reação justificada do oprimido”. O olho por olho de Hamurábi parece muito civilizado e razoável perto desses ataques colossais de projetos de ditadores intocáveis dentro do movimento negro radical. Falarei mais sobre isso em outras partes desta série. 


5. O livro As armas da persuasão, de Robert B. Cialdini, é um dos melhores que li neste ano. A Editora Sextante, que já critiquei duramente, tem ampliado muito seu rol de publicações e aberto espaço para livros comumente alinhados com a Editora Objetiva (que se tornou melhor após ser adquirida pela Companhia das Letras), saindo do estereótipo de publicar apenas livros sobre espiritualidade e liderança, seus temas-chave no início da carreira. Tenho lido alguns livros da Sextante e gostado muito. 


5.1. As armas da persuasão parece, num primeiro momento, tratar “apenas” de influência, mas acaba relacionando uma porção de estudos de psicologia social que mostram como a alteração de pequenos elementos nas situações que nos afetam pode transformar nossas decisões sem que notemos conscientemente. No campo do compromisso e da coerência, por exemplo, vejam este pequeno estudo feito numa praia em Nova York. Uma pessoa aliada a pesquisadores abria uma toalha na areia perto de outras, colocava seu rádio para tocar por um tempo e depois se levantava para caminhar, deixando seus pertences ali. Um pesquisador, fingindo ser um ladrão, pegava o rádio e tentava fugir. Nas 20 primeiras vezes em que esse furto foi encenado, somente 4 pessoas ao redor foram atrás do “ladrão”. Nas 20 vezes seguintes, 19 pessoas foram atrás do ladrão. O que motivou uma diferença tão grande de atitude? Nas 20 vezes seguintes o dono do rádio pediu para que o estranho ao seu lado desse uma olhada nas suas coisas enquanto ele ia caminhar. Ao assumir o compromisso de olhar as coisas de alguém, as pessoas sentiam certa obrigação de manter a coerência com o que foi estabelecido e aceitavam correr o risco de desafiar o ladrão para resgatar o objeto que se propuseram a tomar conta. 


Como grande parte das nossas decisões, isso aconteceu de modo automático e inconsciente, sem que as cobaias do estudo teorizassem todos os componentes envolvidos na situação antes de agir. Quem deseja influenciar os outros acaba utilizando essas armas sutis de persuasão para criar vínculos, brincar com a previsível psicologia alheia e conseguir o que deseja. E mesmo aqueles que fazem uso dessas armas podem em muitos casos “manipular sem teorizar”, ou seja, a tática manipulatória também aparece de forma inconsciente, automática. Manipuladores cotidianos geralmente não fazem planos rabiscados no papel, não esfregam as mãos antes de cativar um trouxa, não pensam com todas as letras “agora agirei assim para obter isto que é do meu interesse”. Manipulamos e somos manipulados algumas vezes por dia sem que percebamos. 


6. O conceito de pecado original dentro do movimento negro radical é algo como isto: 

7. Santa Catarina, meu estado natal e pelo qual nutro um misto de amor e asco, afastou o governador eleito Carlos Moisés da Silva por causa de um processo de impeachment. Dado o nosso histórico de governadores sacripantas, Moisés, apesar de ser do PSL, fazia um bom governo até então, mas parece que a Câmara não gostou de seu estilo e encontrou uma forma de tentar tirá-lo do poder. Quem assumiu o cargo enquanto ele estava afastado foi sua vice Daniela Reinehr, filha de um conhecido simpatizante do nazismo, ex-professor de História. Até aqui muitos leitores sensatos poderiam pensar que as pessoas não têm culpa pelas opiniões de seus pais, e concordo. Devemos responder por nós, e não pelos erros daqueles aos quais somos aparentados por acaso. Mas jornalistas questionaram as opiniões de Daniela a respeito do nazismo enaltecido por seu pai e ela desconversou. Como o desconversar pegou muito mal, dias depois a atual governadora interina disse que não compactua com o nazismo. Espero que seja verdade, e que essa nova declaração não a faça ter que se explicar em casa. Já é um defeito bastante grave a senhora Daniela apoiar a desgraça do Governo Bolsonaro. Sua cota de aberrações já passou do limite. 


7.1. A ascensão do nazismo na Alemanha não tem nem 100 anos. Os pais e os avós de alguns de nós já tinham nascido quando milhões de judeus, ciganos, pessoas com deficiência, homossexuais e presos políticos eram assassinados por nazistas. (Meu pai nasceu em 1936.) É um acontecimento absurdamente recente. Qualquer manifestação nazista que ressurja na sociedade precisa ser repudiada. Pelo duelo de ideias, não deixemos que a “liberdade para ser nazista” se torne o que é hoje a “liberdade para ser stalinista”. 


8. Manuela D’Ávila também desconversou quando perguntaram para ela sobre Stálin no programa Roda Viva de 2018. Aliás, não desconversou. Relativizou. Disse que os crimes do ditador tinham explicação porque “era um período de guerras” quando ele estava no poder. Ou é uma ignorante que nunca leu sobre as execuções de Stálin (de amigos, de ex-aliados, de artistas, de opositores grandes e pequenos), ou age com má-fé. Aposto na má-fé. Pelo que pesquisei, Manuela nunca escreveu para se corrigir e afirmar que não defende o stalinismo. Mesmo assim, segue bem cotada por muita gente e não é mais cobrada pela mídia pretensamente plural por isso. 


8.1. Quem precisa de Manuela quando se tem Jones Manoel a dizer que o que Stálin fez foi uma “guerra justa”? Vladimir Safatle, filósofo da USP, disse que criticar Jones “é muito barulho por nada”. É o mesmo Safatle que se empertiga em colunas enfadonhas quando pessoas da direita dizem coisas muito menores. Sobre isso, recomendo a leitura da matéria A esquerda radical brasileira desenterra o debate sobre o socialismo real e ganha adeptos nas redes, publicada ontem pelo jornal El País. 


8.2. “João, O Justo” – aquele que queria a expulsão de Haddad pelo PT por ser um “racista filho da puta” – publicou este meme em resposta à matéria do El País: 

8.3. Haddad tem problema em ser confundido com pessoas desse naipe que contemporizam ditaduras? Não. Já alterou falas razoáveis suas para atender aos chamados de radicalismo do seu partido, e disse que uma “diferença” precisa ser registrada entre as execuções de Hitler e as execuções de Stálin: “Stálin [pelo menos] lia os livros dos perseguidos antes de executá-los”. 

No céu:

– Bem, quer dizer então que existe um céu. – Pois é, eu não esperava. – Nem eu. Por que você está aqui? – Fui executado a mando de Hitler. E você? – Fui executado a mando de Stálin. – Que coincidência. – É verdade, mas me diga uma coisa: Hitler leu seus livros antes de executá-lo? – Acho que não. – Não é que eu queira me gabar, amigo, mas Stálin leu meus livros antes de mandar me executar


9. Texto escrito ao som de 16 Horsepower, “Black soul choir”, e outras coisas. 


(Postagem publicada originalmente no blog antigo em 01/11/2020 e atualizada em 20/05/2021.)

A paranoia de Djamila Ribeiro e seu clube – uma resenha longa

A mestre em filosofia e militante do movimento feminista negro Djamila Ribeiro publicou pela editora Pólen, em 2019, o livro de bolso Lugar de fala, visando popularizar a expressão e explicar esse conceito que lhe é tão caro e que ela usa como distintivo policial onde quer que seja contrariada. Antonio Risério, antropólogo baiano, definiu bem o que “lugar de fala” significa na prática da vida: é o “você sabe com quem está falando?” das minorias politizadas no identitarismo. Portanto, uma forma de abuso de pretensa autoridade, um cala-boca. Djamila diz que não é nada disso, e seu livro é de uma calma e ponderação que fazem calouros nas interpretações de textos e mundos crerem que a autora é uma militante também da paz, nos moldes de Martin Luther King. 

“Quando falamos de direito à existência digna, à voz, estamos falando de locus social, de como esse lugar imposto dificulta a possibilidade de transcendência. Absolutamente não tem a ver com uma visão essencialista de que somente o negro pode falar sobre racismo, por exemplo.” 

Isso é o que Djamila fala – em seu livro, na Globo, em saias nada justas no GNT, entrevistada por brancos aflitos por posar de evoluídos sociais. Outra coisa é o que ela é, o que ela faz e o que estimula que os outros façam. Se Fernando Henrique Cardoso disse mesmo “esqueçam o que escrevi” ou versões similares – ele nega –, é porque sabia que entre abordagens acadêmicas e realidade há um mar de imbróglios. Não queria, afinal, ser cobrado por agir fora do que teorizara. Há coisas que não se faz, mas há muito mais coisas que não se escreve no ainda um pouco sagrado papel. 


Djamila é uma nas mídias – que eram veículos opressores até que ela passasse a ser convidada de honra deles, e quem critica a incoerência é “invejoso” –, outra quando está agitando os seus. Não somos todos assim, cheios de facetas? Somos, mas é inteligente saber que existem inúmeros graus na escala de danos, e que nossos avós, fomentadores da matança de punguistas na frente da TV e plácidos jogadores de damas nas praças mornas, não atingem um raio muito grande de pessoas e não são, nem de longe, “influenciadores”. Talvez achemos correto repudiar em textos o comportamento de nossos avós sem nomeá-los. Quem galga posições de relevância palavrosa na vida pública usando como ferramentas ignorância, farsa virtuosa e ódio anacrônico provavelmente merece um combate mais personalizado. 


Stephanie Ribeiro, militante negra que criou uma espécie de Programa do Ratinho para afrodescendentes e simpatizantes quando tinha uma conta no Facebook, costumava dizer aos que discordavam de suas teses: “leiam o livro!” Não disse, todavia, que livro era esse – nunca escreveu livro nenhum –, então nunca ficou claro para nós que obra deveria ser consultada para adquirir saberes que nos aproximariam de sua iluminação geralmente exclamativa. Tardiamente publicaram este Lugar de fala, da mestre em Filosofia (ressalto porque ela gosta que ressaltem) Djamila Ribeiro, que talvez pudesse suprir algum conhecimento que estava naquele “o livro”. Não é uma leitura que me agrada, pois é possível antecipar muito do que se vai encontrar em livros engajados, mas sem dever racionalizar tudo e fazendo algumas concessões, encarei Lugar de fala para não ser acusada de não ter gostado do que não li. Quando criticam os usos e abusos do lugar de fala, Djamila diz que seus detratores não entendem do assunto porque não leram seu livro. Fiz essa parte do dever de casa.


Ao livro. 


Djamila cita Giovana Xavier, professora da UFRJ, que defende que mulheres negras são “as grandes pioneiras na autoria de práticas feministas” e posiciona isto vagamente “desde antes da travessia do Atlântico”. É feminismo avant la lettre, mas não está bem situado para o leitor, pelo menos não no livro Lugar de fala e nem no texto original de Giovana, que é apenas uma postagem pouco profunda no blog #Agoraéquesãoelas da Folha de S.Paulo. “Mulheres negras pioneiras.” Que mulheres? Quando? Em relação a quem? O que configuraria uma prática feminista na época estudada?  


Ao estabelecermos que um grupo – neste caso, mulheres negras – foi pioneiro em algo, precisamos apresentar dois elementos: primeiro, o período ou ocasião em que o pioneirismo foi documentado, pois não podemos supô-lo sem apontar “ali, ali naquele lugar, naquela época, estavam mudando práticas e sendo pioneiras”; depois, caso estejamos contrapondo “quem foi pioneiro e quem não foi”, já que o pioneirismo sempre se dá em relação a outros que não são pioneiros, temos que fazer uma varredura histórica para averiguar se realmente o outro grupo, o das mulheres brancas, “não foi pioneiro primeiro”. 


Talvez Giovana Xavier tenha dados históricos para dizer que mulheres negras foram pioneiras em práticas feministas, mas ela não nos conta isso no artigo para a Folha de S.Paulo de onde Djamila pinçou o trecho. A mim parece estranho um julgamento desses sem mostrar onde, quando e como mulheres negras estavam sendo pioneiras em práticas feministas. Na Bahia? No mundo? No século 16? Antes de Cristo? Se Giovana erra, Djamila erra junto ao não procurar o fundamento da coisa frouxa que cita. É exigir demais pedir um trabalho tão investigativo? Se a autora quer que a Universidade e os membros de uma enevoada intelectualidade carimbem seus trabalhos como sérios – e até como “ciência descolonizada”, mas esse absurdo descosturaremos daqui a pouco –, é preciso entregar mais do que um livro com trechos de blogs que não apresentam a procedência histórica de uma afirmação como: “mulheres negras foram as pioneiras nas práticas feministas desde antes da travessia do Atlântico”. A citação está no capítulo chamado “Um pouco de História”, o que não significa que seremos cegados por História de fato. Há opiniões que não precisam de fundamento – “Luís acha que azul é a cor mais bonita” –, há opiniões que precisam. Ainda mais quando você as coloca em um livro que alegadamente vai quebrar paradigmas e estabelecer uma nova era pós-colonial do saber. 


Nosso sistema jurídico diz que a lei só retroage se for para beneficiar o réu. No sistema justiceiro dos identitários, toda lei que se deseja retroage para punir imoralidades e crimes de personagens passados que viviam conforme as liberalidades de seu tempo, sem pensar em agir conforme supunham que apreciariam alguns grupos do futuro. Identitários não se importam com o pecado do anacronismo conveniente – mesmo que sejam historiadores, classe para a qual a comparação anacrônica é muito mais grave. Então Djamila cita um poema de Sojourner Truth, abolicionista afro-americana, que caçoa do elitismo de mulheres sufragistas subindo em palanques para defender suas causas por volta de 1850: 

“Quando vi mulheres no palco
na Convenção Pelo Sufrágio da Mulher,
no outro dia,
Eu pensei,
Que tipo de reformistas são vocês?,
com asas de ganso em vossas cabeças,
como se estivessem indo voar,
e vestida [sic] de forma tão ridícula,
falando de reforma e dos direitos das mulheres?
É melhor vocês mesmas reformarem a si
mesmas em primeiro lugar.” 

Realmente bastante pioneira Sojourner Truth, apontando o que via como incongruente: mulheres brancas lutando pelo direito ao voto não enxergavam como dignas de subir ao palco com elas as mulheres negras que ficavam às margens. Uma causa pelas mulheres de uma classe, e não por todas as mulheres; portanto, um feminismo manco de acordo com o nosso olhar. Mas Djamila faz disso uma causa para se indignar – em tom ameno, é verdade –, e talvez devamos lembrá-la que não há como fazer uma severa cobrança nesse sentido a mulheres brancas que estavam vivendo nos Estados Unidos de 1850 – um país que só permitiu direito civil e direito ao voto pleno à população negra na década de 60 do século seguinte; um país fortemente marcado pela divisão racial. 


Posso falar numa mesa de bar que um filósofo que escreveu em 1870 que “mulheres são tolas, não servem para quase nada” está errado, e contrapô-lo a John Stuart Mill, defensor, na mesma época, de que mulheres pudessem votar e participar da vida pública. Mas Mill é que é o bom excêntrico nessa seara. O outro filósofo talvez não teve oportunidade de refletir melhor sobre o assunto num momento em que lhe parecia que as mulheres eram todas infantis, preocupadas com fofocas e ninharias. O que, aliás, a maioria provavelmente era (e ainda é). Esse filósofo podia ser preciso em outras análises, mas não foi nessa. Nessa, era ainda o resultado de um meio que não queria dar nem chance para que mulheres mostrassem seu potencial, reprimido numa vida que as preparava para um comportamento pelo qual seriam desprezadas na maturidade – eram criadas desde a infância para a tolice, e quando se transformavam, era de se esperar, em adultas tolas, recebiam críticas por serem apenas o que lhes permitiram ser. É difícil cobrar pensamento modernizante de todos os pensadores de uma época e lugar só porque temos três míseros exemplos de pessoas inseridas no mesmo espírito cultural que tinham o cérebro mais arejado para questões que nos são hoje caras. É incrível que nos Estados Unidos de 1850 uma Sojourner Truth se levantasse para inquirir “e eu não sou uma mulher?”, mas sejamos justos: sufragistas brancas falando em nome da sua cor e da sua classe já eram bastante vanguardistas, diante do contexto que enfrentavam, quando subiam em palcos para lutar pelo seu direito ao voto. Tiveram um juízo muito inovador para seu tempo – é difícil cobrar que também tivessem que entender as reivindicações do poema de Truth, que não parecia lhes dizer razoável respeito. 


*


Compreendo certas vivências. Quem caminha com um sapato apertado traz uma visão sobre sapatos apertados que deve ser considerada. Mas o que a vivência de um homem negro representa é algo para entendermos sua vida particular e, cruzando com as vivências similares de outros homens negros, sua inserção num coletivo oprimido. A História da África não mudará porque um homem negro com “vivência” não estima partes dela que demolem sua construção simplista de bandidos brancos contra moços negros. Vivência não é passe livre para que se pense, presunçosamente, que se possa opinar sem estudo sobre aquilo que aparente lhe dizer respeito. Se um homem branco se propõe, com honestidade e método, a estudar o percurso das mulheres negras no Brasil, não deverá nenhum tipo de desculpa a uma ativista negra quando apresentar em seu livro situações que fogem do pensamento único e engessado que essa ativista traçara, da própria cabeça e de fontes enviesadas, para explicar a história daquelas mulheres. 


Na recorrência ao coringa “vivência” para valer como trunfo em qualquer debate, extrapola-se: não se fala somente em nome de si, mas em nome de outros e de antepassados. Djamila diz que um negro reacionário dizer não sentir racismo não minimiza o impacto negativo da opressão, e o exemplo faz sentido. Há quem ignore o lugar em que mergulha e não aceite quem indique, com propriedade, “isto não é água, é esgoto”. A questão é: quem elegeu Djamila Ribeiro como embaixadora de todos os negros? Por que ela deteria a verdade sobre as formas de emancipação da negritude brasileira?


Não vamos reduzir o quiproquó ao absurdo chamando como antípoda o negro reacionário que alienadamente diz não existir racismo nestas terras. Vamos chamar à cena o negro que entende, mesmo sem concordar, os argumentos de quem não aprova política de cotas para pretos, pardos e indígenas no Brasil; vamos chamar o negro que discorda da reprodução brasileira da repulsa ao blackface estadunidense, porque lá o blackface era para zombar de traços negroides enquanto aqui a intenção de quem pinta o rosto de preto raramente é de inferiorização racial; vamos chamar a negra que rejeita ser chamada de “solitária” quando homens negros não lhe fazem galanteios e também rejeita ser chamada de “palmiteira” quando cogita relacionamento com um homem branco que se interessou por ela; vamos chamar a socióloga negra que não vê como correto falar taxativamente “é racismo!” quando se apresenta o dado de que há mais negros nos presídios, como se a maior parte dos negros presidiários estivesse ali apenas por julgamento racial; vamos chamar a cientista negra que discorda da conspiração de uma “ciência branca contra epistemologias negras”. Djamila não apenas trabalha ideias que não são corroboradas por inúmeros outros estudiosos, brancos e negros, acerca de tantas coisas – ela incendeia os membros de seu clube para que calem os que dele discordam, prontos a chamar quem diverge de seu pensamento de “racistas privilegiados”, “fora do lugar de fala” ou “capachos da Casa-Grande”. E a tática funciona. Estudiosos capazes de retrucar impropriedades na salada identitária costumam se recolher aos seus aposentos porque a autocensura permite que não sejam linchados, estigmatizados e rebaixados de suas funções.

Quando um fato não ratifica uma narrativa, trazê-lo à luz pode chamar atenção da inquisição ideológica, que gosta de mostrar serviço e fazer valer suas atribuições. A maioria das pessoas não quer essa exposição. Assim fica parecendo que todo mundo está de joelhos e que a crítica a esse movimento só parte de reacionários, o que propicia, aliás, a adoção de uma eficaz estratégia: forçar a fórmula de que criticar o identitarismo é “coisa de reacionários” para causar uma debandada dos que se opunham ao movimento produz efeito entre os inseguros porque ninguém com o juízo no lugar quer ser confundido com a caravana do retrocesso. Mas quem se põe a ouvir os sussurros nos cantos dos corredores e atrás das portas das casas sabe que não é assim. Deixar de falar não é deixar de pensar, e alguns, embora com medo, não deixaram que aquela polícia tivesse gerência sobre seus pensamentos.


No livro Sobre o relativismo pós-moderno e a fantasia fascista da esquerda identitária, Antonio Risério relembra o cala-boca imposto a Demétrio Magnoli por se atrever a não dobrar sua avaliação a respeito das cotas ao que impõem esses grupos: 

“No Brasil, já em 2013, presenciamos o caso do violento ataque esquerdista-identitário ao geógrafo e analista político Demétrio Magnoli e ao filósofo Luís [sic] Pondé, numa feira literária realizada em Cachoeira do Paraguaçu, na Bahia. Impediram Demétrio de falar, jogando, inclusive, uma cabeça de porco ensanguentada no meio do palco de onde ele iria expor seu pensamento. E isto pelo simples fato dele ser um crítico lúcido de nossas atuais fraudes estatísticas, que metamorfoseiam até índios em pretos, e principalmente das políticas públicas compensatórias (cotas raciais, etc.), quando, de Sarney a Lula, nossos governantes foram incorporando acriticamente o discurso sempre norte-americanoide e as reclamações do racialismo negro.” 

Que se discorde de Magnoli é normal, seja nesse tema ou em outros. Impedi-lo de falar e ameaçá-lo se ousar falar ultrapassa a mera discordância e avança para o terreno da censura. 


No apêndice de seu clássico Ética prática, o filósofo utilitarista australiano Peter Singer nos apresenta o texto Sobre ter sido silenciado na Alemanha. Países que sentem culpa pelo seu passado, como a Alemanha, ou por suas condições privilegiadas, como a Suécia, são fortes candidatos a permitir que a liberdade de expressão sobre temas bastante naturais seja contida em nome dos desejos de hegemonia discursiva por parte de grupos minoritários constantemente ofendidos. Existe certa “sensibilidade” sobre determinados temas quando postos a bailar no debate público, sem que se dê ao comunicador a oportunidade de expor sua opinião detalhada sobre tal assunto porque o mero levantamento da questão ativa “gatilhos”. Quem lê Peter Singer – e recomendo que leiam – sabe que ele defende inúmeras pautas esquerdistas práticas como cotas raciais e sociais, aborto com certas condições, formas de diminuir a desigualdade de classes, direitos animais e ambientalismo. Mas Singer também defende que os pais tenham o direito de escolher se seu filho, ao nascer com uma deficiência grave, deve continuar vivendo. Se um bebê nasce de tal forma prejudicado por uma deficiência que lhe vai proporcionar apenas uma vida miserável ou privada dos mínimos prazeres, é preciso que os pais, junto ao médico, possam escolher se não é melhor ele ter uma morte rápida e indolor. O filósofo sabe que o tema é delicado: 

“É evidente que tal posição entra em choque com a doutrina convencional da santidade da vida humana, mas são bem conhecidas as dificuldades em defender essa doutrina em termos seculares, sem o seu tradicional suporte religioso.” 

Propondo uma série de palestras sobre o assunto, logo Singer foi “desconvidado” para algumas porque certos grupos disseram que ele atentava contra os direitos humanos e se atrevia e falar em público sobre suas ideias “eugenistas”. Organizações de pessoas com deficiência que não se deram ao trabalho de ler a íntegra da opinião de Singer sobre deficiência grave e eutanásia planejaram manifestações barulhentas nos locais onde ele falaria. Manifestantes foram à imprensa popular e fizeram violentos ataques contra o filósofo, inclusive apelando à mostra de fotos de “vítimas da eutanásia” no Terceiro Reich e da “Ordem da Eutanásia” de Hitler. Simplificando, o argumento seria mais ou menos isto: 


– Você disse “bom dia”. 

– Sim, eu disse. 

– Sabe quem mais dizia “bom dia”? Hitler. 

Na opinião dos rudimentares, se Hitler usou a eutanásia para fins escusos, a eutanásia deveria ser tópico abolido para sempre.

Movidos pelo espantalho de que Peter Singer era um neonazista que desejava matar todos os bebês com quaisquer deficiências já na sala de parto, os manifestantes tentavam impedir que ele tivesse direito à fala: 

“Esclarecer uma coisa tão óbvia foi muito mais difícil do que eu poderia esperar. Quando me levantei para falar em Saarbrücken, fui saudado por um coro de assobios e vaias de uma minoria do público que não queria permitir que eu falasse. O professor Meggle ofereceu aos manifestantes a oportunidade de dizerem por que motivo achavam que eu não devia falar. Esse fato mostrou como era total o seu desconhecimento das minhas ideias. Muitos, sem dúvida, acreditavam que eu me situava na extrema direita do espectro político. Outro me sugeriu que me faltava a experiência com o nazismo que tinham tido os alemães; junto com outras pessoas do público, ele ficou estarrecido quando me ouviu dizer que eu era filho de refugiados austríacos judeus e que três dos meus avós haviam morrido em campos de concentração.” (grifo meu) 

Este grifo que fiz não é para desmerecer minorias numéricas. A razão não depende do volume dos ajuntamentos – quem está em maior número não está com a razão necessariamente –, mas aqui é interessante observar que havia um grande público disposto a ouvir e entender as propostas de Peter Singer, e uma minoria, ao fazer barulho para impedi-lo de falar, conseguia impor sua vontade. 


Em artigo para a revista Época de 13 de janeiro de 2020 intitulado Patrulha ideológica 2.0: como as redes sociais se tornaram tribunais capazes de “cancelar” uma figura pública em razão de declarações ou comportamentos considerados “politicamente comprometedores”, o jornalista Jerônimo Teixeira dá dois exemplos de repressão à liberdade de expressão retirados do livro The coddling of the american mind (ainda sem tradução), escrito pelo psicólogo Jonathan Haidt e pelo advogado Greg Lukianoff: 

“1. Um professor da Universidade de Northern Colorado pediu a leitura de um artigo que se opunha ao direito de transgêneros usarem o banheiro que desejam. Ele explicou que não esperava que os alunos concordassem com o texto, mas que era necessário conhecer e discutir pontos de vista diversos. Um estudante o denunciou à administração da universidade por preconceito; o professor foi repreendido, aconselhado a não falar mais sobre transexualidade, e seu contrato não foi renovado no semestre seguinte.
2. Na Universidade Yale, uma professora escreveu à administração sugerindo que não se instaurassem regras ditando que fantasias seriam apropriadas ou inapropriadas no Halloween, pois não era preciso tratar os alunos como criaturas vulneráveis, incapazes de negociar entre si o que é ou não aceitável. Esse e-mail tão razoável sobre tema tão trivial foi fatalmente interpretado como uma defesa de fantasias racistas. Protestos de estudantes intimidaram a professora e seu marido, que também tinha um posto em Yale; a administração da universidade não lhes prestou apoio, e eles acabaram renunciando aos cargos que ocupavam.” 

Na mesma matéria Jerônimo traz outro exemplo mais fisicamente violento: 

“Especialmente brutal foi o protesto que impediu o inglês Milo Yiannopoulos, jovem agitador da direita, de falar na Universidade da Califórnia em Berkeley, em 2017. Manifestantes mascarados do Antifa, grupo que diz combater o fascismo, espancaram dezenas de pessoas, e a destruição na universidade e nos arredores foi estimada em US$ 0,5 milhão. Na lógica tribal dos manifestantes, violência ainda maior seria o que Yiannopoulos teria a dizer. Outros protestos violentos se seguiram naquele ano, exacerbando a polarização da política americana. A radicalização é, aliás, uma consequência do ambiente de intimidação física e verbal que se estabeleceu em muitos campi: os moderados, avessos à beligerância gratuita, tendem a se calar, e só as vozes mais extremas têm vez.” 

O silêncio dos moderados serve para catalisar esses movimentos e perpetuar sua prática. Na introdução a seu livro supracitado, Antonio Risério faz um chamado provocativo aos que se calam diante da barbárie por medo de serem alvos dela: 

“[…] aqui está um livro que destoa radicalmente do atual clima de complacência e medo que tomou conta do ambiente intelectual da esquerda e, em especial, do meio universitário, acadêmico, onde tantos professores, quando não apoiam o identitarismo, escudam-se covardemente no silêncio, temerosos de sofrerem linchamentos verbais e agressões físicas, elementos hoje centrais desta estranha ‘práxis’ esquerdista que colocou os campi sob seu rigoroso controle, na base do chicote e da rédea curta.” 

Capítulos depois, citando a socióloga Lúcia Lippi, Risério nos mostra que esse clima, longe de ser ameno e lidar com detalhes irrelevantes, acaba por moldar as próprias universidades, agora imbuídas em fazer pesquisas e concluir “fatos históricos” que corroborem as narrativas identitárias. Também é possível contar umas verdades e omitir outras, parecendo realizar um trabalho honesto que, bem avaliado, é cheio de furos e intencionalmente mentiroso.


Numa universidade capturada por essas políticas, provavelmente um africanista como Alberto da Costa e Silva, se bem lido e bem compreendido, não teria oportunidade de desenvolver um cenário completo e complexo do que sabe, apesar da erudição, do rigor documental e da paixão pela história da África. Enquanto grupos identitários querem colocar a grande força que levou à abolição da escravidão na conta dos movimentos negros abolicionistas, que reclamavam, à época, a humanidade e o direito à liberdade dos sujeitos negros que ainda eram escravizados, Alberto da Costa e Silva nos mostra, em seu Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África, que a Grã-Bretanha passara a militar pela abolição do tráfico de escravos porque ela contrariava seus objetivos políticos e econômicos. Um novo tipo de domínio surgia, e o combate ao trabalho escravo, pretextado pelo humanitarismo, minou o poder dos reis africanos: 

“Pouco a pouco, mas sem recuos duradouros, o combate humanitarista ao tráfico de escravos, o sentimento da missão civilizadora europeia e as teorias do livre comércio foram fazendo prevalecer na Grã-Bretanha, como no resto da Europa, as teses da efetiva ocupação colonial da África sobre o pensamento daqueles que defendiam uma presença restrita a entrepostos comerciais. A luta contra os traficantes de escravos tornou-se o grande instrumento da derrubada sistemática das estruturas políticas africanas.
Destroem-se, numa velocidade crescente, à medida que caminha o século, quase todos os mecanismos de poder africano. Sob pretexto de erradicar o tráfico de escravos e de favorecer a liberdade de trocas, elimina-se o comey [nota ao final do capítulo: “imposto cobrado pelos chefes da costa da Nigéria aos comerciantes europeus, para que pudessem ali negociar”], arrasam-se a rede de comunicações e os entrepostos dos intermediários nativos do comércio de óleos vegetais, de resinas, de borracha, de marfim e de madeiras, privam-se os chefes africanos dos recursos que lhes permitiam adquirir armas e mobilizar tropas para manter a independência.” 

Trocando em miúdos, não só não foi “a resistência negra” a principal causa do fim legal do tráfico de escravos – que ilegalmente continuava acontecendo, inclusive pela vontade de africanos comerciantes de gente africana –, como isso levou a uma decadência da autonomia africana, agora enfraquecida e refém de um violento programa colonizador. 

“Tudo dentro da melhor lógica política, pois afinal foi em nome da luta contra o tráfico negreiro e a escravidão que a Europa começou a ocupar a África.” 

O que pesquisadores identitários negros podem fazer com esses fatos apresentados por um estudioso branco como Alberto da Costa e Silva? Provavelmente passarão por cima deles, fatiando a História e selecionando o que é oportuno, ou culparão o mensageiro por trazer notícias que não reforçam a mitologia negra. A historiografia tinha problemas quando se dedicava apenas aos vencedores, mas parece que em alguns casos a historiografia dos vencidos não se sai muito melhor.



Mas voltemos ao livro de Djamila, que apesar do tamanho econômico dá pano ruim para muitas mangas. Ao falar sobre “modelo dominante”, “disputas de narrativas”, “novas premissas” e desestabilização de verdades, ela cita outra autora com a qual converge: 

“A pensadora e feminista negra Lélia Gonzalez nos dá uma perspectiva muito interessante sobre esse tema, porque criticava a hierarquização de saberes como produto da classificação racial da população. Ou seja, reconhecendo a equação: quem possuiu o privilégio social, possui o privilégio epistêmico, uma vez que o modelo valorizado e universal de ciência é branco. A consequência dessa hierarquização legitimou como superior a explicação epistemológica eurocêntrica, conferindo ao pensamento moderno ocidental a exclusividade do que seria conhecimento válido, estruturando-o como dominante e assim inviabilizando outras experiências do conhecimento. Segundo a autora, o racismo se constituiu ‘como a “ciência” da superioridade eurocristã (branca e patriarcal)’. Essa reflexão de Lélia Gonzalez nos dá uma pista sobre quem pode falar ou não, quais vozes são legitimadas e quais não são.” 

E depois: 

“Os trabalhos e obras de Gonzalez também têm como proposta a descolonização do conhecimento e a refutação de uma neutralidade epistemológica.” 

Apesar de a citação estar no capítulo “Um pouco de História”, Djamila transfere, no decorrer do livro, a ideia de uma “ciência branca” para o presente, como se as universidades ainda privilegiassem saberes criados por brancos e rejeitassem saberes criados por negros. Apegada à ciência nazista e à frenologia, pseudociência que se popularizou no meio científico no passado e que defendia que o formato da cabeça revelava o caráter e a aptidão das pessoas, Djamila diz que ainda estamos vivendo num ambiente universitário e intelectual que despreza conhecimentos e epistemologias de povos africanos como inferiores. Um ambiente, portanto, abertamente racista.


Não sei bem de que ciências Djamila está falando. Engenharia? Medicina? Ciências Sociais? Psicologia? Mesmo assim, é difícil entender a que ela se refere quando diz que a universidade privilegia “ciência branca”, “coloniza o conhecimento” e “não permite o desenvolvimento de outras epistemologias”. As ciências mais puras e menos refutáveis são uma em qualquer lugar e tempo – dois mais dois resulta em quatro seja na Dinamarca, seja no Congo – e as ciências oscilantes, como a Nutrição, bem, ainda estamos esperando que encontrem seu caminho e falem uma coisa só. Em regra, se um pesquisador branco faz um experimento correto utilizando métodos adequados e variáveis controladas, um pesquisador negro, nos mesmos moldes, chegará a resultado praticamente idêntico na Namíbia. Isso é ciência. Podem passar bem por esse filtro conhecimentos negros testados e podem passar mal, sendo reprovados, conhecimentos brancos duvidosos que sempre desejaram ratificação como ciência. 


A tal “ciência branca” de Djamila destrona há muito tempo saberes criados ou grandemente desenvolvidos por brancos que se provaram pseudociência, como a Astrologia, a Homeopatia e a Psicanálise. Djamila acha que existe uma conspiração contra negros, quando há na verdade uma batalha para combater aquilo que não é ciência e que mesmo assim se traja como tal. Que coisas como a Homeopatia e a Psicanálise estejam na academia e queiram o selo de ciência sem passar em testes científicos significativos – talvez devessem estar fora dela, como estão os cursos de Astrologia – é vexatório para a seriedade das áreas ditas científicas, mas isso não é porque há leniência com pseudociência branca. Infelizmente há leniência com qualquer pseudociência já estabelecida. O que Djamila quer? Que as pseudociências negras também tenham espaço na universidade? Devemos dar dois passos para trás antes de dar um passo para a frente? Primeiro devemos permitir que pseudociências negras sejam inseridas na universidade para depois tratar do problema das pseudociências acadêmicas em geral? Não faz sentido. E uma vez que uma pseudociência negra, indígena ou feminista adentre a universidade por meio de abaixo-assinado ou manifesto gutural, aí é que a militância não vai permitir que esse “direito adquirido” lhe seja retirado no futuro.


Comecei esta resenha reclamando de migalhas de bolacha que estavam em cima da cama na hora de dormir; agora estou em terreno de farpas, mesmo, e que aliás é o pior do livro de Djamila. Continuando a fazer a fina em análises desvairadas – que tantos olham e não veem, e aí obviamente não entendem, e por corolário aplaudem –, a mestre em Filosofia cita Grada Kilomba, psicanalista negra lisboeta, doutora, que ganhou o mundo com seu ativismo. As citações são de Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano, livro que trata de casos de sentimento racista e falas racistas como pequenas histórias psicanalíticas. Parte do trecho escolhido por Djamila diz: 

“Algo passível de se tornar conhecimento torna-se então toda epistemologia que reflete os interesses políticos específicos de uma sociedade branca e patriarcal.
[…]
É comum ouvirmos o quão interessante nosso trabalho é, mas também ouvimos o quão específico ele é:
‘Isso não é nada objetivo!’
‘Você tem que ser neutra…’
‘Se você quiser se tornar uma acadêmica, não pode ser pessoal’
‘A ciência é universal, não subjetiva’
‘Seu problema é que você superinterpreta a realidade, você deve se achar a rainha da interpretação!’
Tais comentários ilustram uma hierarquia colonial, pela qual pessoas negras e racializadas são demarcadas. Assim que começamos a falar e a proferir conhecimento, nossas vozes são silenciadas por tais comentários, que, na verdade, funcionam como máscaras metafóricas. Tais observações posicionam nossos discursos de volta para as margens como conhecimento ‘des-viado’ e desviante enquanto discursos brancos permanecem no centro, como norma. Quando eles falam, é científico, quando nós falamos, não é científico.
[…]
Nós não estamos lidando aqui com uma ‘coexistência pacífica de palavras’, e sim com uma hierarquia violenta que determina quem pode falar.” (grifos meus) 

É chocante alguém que está na universidade pegar esses livros, da Djamila ou da Kilomba, passar por esse trecho e sair dele incólume como se nenhum contrassenso preocupante tivesse sido defendido. No meu primeiro semestre da graduação em Ciências Sociais (inconclusa) aprendemos que a objetividade não só é esperada como muitas vezes exigida na academia; que a neutralidade plena não existe, mas deve ser buscada a todo custo; que não devemos supor coisas sem prová-las ou embasá-las; que o bom pesquisador não confunde suas opiniões pessoais com os resultados conflitantes que a pesquisa pode lhe trazer; que devemos ter cautela ao interpretar fatos. Se isto era esperado numa graduação em Ciências Sociais – área que acaba produzindo trabalhos chamados “acadêmicos” visivelmente autorais e parciais –, nas outras ciências a severidade dessas regras é ainda mais forte. E é uma severidade cobrada de todos. Na paranoia de Grada Kilomba e Djamila Ribeiro, contudo, se a universidade lhes exige objetividade, neutralidade e cautela é porque está tentando colonizá-las e lhes entuchar “ciência branca”. Os princípios da pesquisa honesta não devem valer para universitárias negras, sensíveis a qualquer chamada de atenção e prontas a erguer o cartão vermelho de “racismo!” para quem lhes contesta, ficando Kilomba e Djamila livres para passear pelo ensino superior pesquisando sob os moldes de “regras especiais” que elas mesmas inventaram para impedir a divergência. Quando decidem escrever um texto opinativo, exigem que a instituição se renda a esse mero ensaio, avalie como excelente de antemão e carimbe: “isto é ciência”. Ou irão para seus blogs, espaços seguros e livros pretensiosos reclamar que são vítimas de “hierarquia colonial”. Birrentas, não aceitam se moldar às leis da academia: a academia é que tem que se moldar a elas e a suas “epistemologias”, seja lá o que isso signifique. 


Antonio Risério diz que toda vez que pergunta aos identitários “que outras epistemologias são essas?” ninguém lhe responde diretamente. Como são essas “epistemologias negras” que a universidade deveria corroborar? O negócio é vago, e de propósito. Para esses autores a vagueza não é um problema, é uma solução, porque evita passar pela explicação pragmática e por evidenciar que o que estão querendo, de fato, é poder acadêmico sem mérito acadêmico. Imagino professores universitários razoáveis temendo ter qualquer tipo de envolvimento com mulheres assim, que têm sua possível má condição psiquiátrica transformada em “empoderamento”. Esses dias, numa rua de comércio, vi um guri pequeno se jogando no chão e gritando porque a mãe não queria comprar para ele o brinquedo demandado. Parecia bastante empoderado: sem razão, exigindo coisas que não merecia e humilhando em público aquela que não o obedecia. 



Acredito que poderíamos escrever um material no mínimo cinco vezes maior que o livro de Djamila Ribeiro – mestre em Filosofia – só para refutar as incorreções de seu Lugar de fala. Mas vou me ater a apenas mais um trecho impróprio, porque tenho roupas para passar e um livro do simpático Alain de Botton para terminar. Segue: 

“Quando existe algum espaço para falar, por exemplo, para uma travesti negra, é permitido que ela fale sobre economia, astrofísica, ou só é permitido que ela fale sobre temas referentes ao fato de ser uma travesti negra? Saberes construídos fora do espaço acadêmico são considerados saberes?” 

Minha resposta vai em tópicos: 


1. Quanto à primeira pergunta, devolvo: a hipotética travesti negra quer falar sobre outro assunto? Infelizmente o que vemos quando militantes de minorias são convidados a participar de rodas de conversa e programas de entrevistas é que eles quase só falam sobre os assuntos referentes às minorias que representam. Quando Rosane Borges, professora negra da USP e articulista da Carta Capital, foi convidada a participar da bancada do Roda Viva para entrevistar o então candidato João Amoêdo, ela utilizou três das suas quatro perguntas para falar sobre minorias raciais e de gênero. Quando Mariléa de Almeida, historiadora negra, foi convidada a participar da bancada que entrevistaria o então candidato Guilherme Boulos, suas três chances de pergunta foram sobre racismo estrutural e sexismo, quilombolas e candidaturas de minorias na política. Entendo que um militante de minorias queira perguntar a um candidato político sobre minorias, mas que tal esse convite de Djamila para falarem por aí também sobre economia e astrofísica? Por que ser um militante limitante?


2. Obviamente estou supondo que a hipotética travesti negra de Djamila entenda algo de economia e astrofísica, pois o selo de oprimido não dá – não deveria dar – permissão para falar de qualquer assunto que mal se conheça esperando não ser retrucado em sua sensibilidade de minoria. Sendo estudiosa do assunto, a travesti negra saberá manter o debate em terreno polido e igual, ou acusará o interlocutor de “transfóbico racista” se ele lhe disser, de modo cortês, que num tópico específico ela estava errada? Agora mulheres que participam da quarta onda feminista reviram os olhos e dizem “mansplaining” quando um homem lhes ensina algo que elas julgavam que sabiam e “manterrupting” quando um homem, já conhecido por interromper todo mundo por ser mal-educado, interrompe uma fala delas. Numa discussão sobre outros assuntos – economia, astrofísica –, não vale lá no meio, ao ver que os outros sabem mais porque estudaram mais, dizer que está se sentindo discriminada por racistas, homofóbicos e elitistas acadêmicos. 


3. Representantes de minorias costumam querer falar mais sobre assuntos concernentes ao que representam justamente porque determinaram que são os donos desses assuntos. É uma forma de poder, e parece que a luta de Djamila para ser chamada de cientista na universidade ao escrever ensaios é só mais uma forma de aumentar seu poder. Ela rejeita a “ciência branca” universitária quando esta lhe diz: “espera aí, isso aqui é só uma opinião sua, faça algo nos moldes científicos”. Mas ela não pensa em criar uma instituição externa à universidade que ofereça cursos e referende suas opiniões, naquele contexto de valorização de outras epistemologias, como “melhor que a própria ciência, portanto pós-ciência”. Ela quer a chancela da universidade. Se não vai por bem – mérito e adaptação –, vai pela maculação e pelo sentimento de culpa inculcado em quem não está querendo aceitá-la nos quadros do crème de la crème universitário. É como criacionista querer ser chamado de “científico”. 



No início do texto O que é verdade?, do compilado ensaístico O capelão do Diabo, o biólogo Richard Dawkins faz este alerta: 

“Um pouco de conhecimento é uma coisa perigosa. Essa observação nunca me pareceu particularmente sábia ou profunda, mas ela se mostra muito apropriada no caso específico de um pouco de conhecimento em filosofia.” 

O ensaio é para criticar a “filosofia delirante”, nas palavras dele, do relativismo cultural. Esse relativismo foi bastante longe no caso dos grupos identitários, defensores de que a ciência é apenas uma narrativa entre tantas – simplesmente porque muito do que defendem não pode ser corroborado pela ciência. Não só a raposa esnoba as uvas porque não pode comê-las, como questiona quem é que determinou que uvas são boas frutas e em que contexto um grupo supremacista do conhecimento definiu que uvas são frutas. “Um pouco de conhecimento em filosofia” permite a Djamila Ribeiro, mestr… – tudo bem, todos já sabem –, acreditar que é capaz de subverter o saber acumulado para apresentar no lugar uma ideologia desenvolvida a partir de suas más experiências de vida, do que ela pensa entender do universo do conhecimento e de um modismo cultural que parece não se dissipar tão cedo. As novidades alimentam as massas e o consumo (de produtos e ideias), e nossa sociedade acha que precisamos viver em constante renovação. Aqueles que exigem mais, unem-se a grupos barulhentos e se esforçam para ter seu palavreado recebendo atenção acabam adquirindo uma relevância que jamais mereciam. E passam a usar lugar de fala para ceifar qualquer um que se pronuncie para refutar. 


Quem critica grupos identitários dentro da esquerda costuma dizer que eles substituíram a luta de classes por lutas menores, sendo nessa “personalização das lutas” inclusive sugados por segmentos de mercado atentos em captar os anseios de determinados nichos. Acredito nisso, mas ainda penso que existiria espaço para a militância negra num cenário que retornasse ao grande dualismo marxista – justamente porque acho que a militância não é em vão num país em que o racismo ainda é presente na ojeriza a cabelos, narizes, peles e costumes de origem africana. Mas assumir a realidade do racismo não faz com que sejamos obrigados a engolir teorias abstrusas formuladas por meia dúzia de radicais ávidos por poder e febris de ódio que querem reviver o apartheid, combater a miscigenação, transferir o problema histórico mundial da escravidão para brancos da atualidade, conseguir privilégios, alterar a linguagem na marra, censurar atrações artísticas e acabar com a democracia das ideias. Não concordo, não aceito e não compro combos. Como sei que o efeito manada tem muito mais potência que o efeito do pensamento racional – universitários aplaudindo que Grada Kilomba queira tratamento especial ao fazer pesquisa acadêmica mostra o estado da nossa esquizofrenia intelectual e da nossa infeliz carência de líderes para cultuar –, é possível que o que defendo seja vencido pela numerosidade dos que seguem delírios. Isso me assusta porque a ignorância me assusta, mas não me demove das minhas convicções contra o fascismo de esquerda. 


O lugar de fala talvez tenha começado como uma boa intenção: permitir que pessoas viventes de dada questão social pudessem ter voz quando estava em alta um tema que lhes tocava. No passado, o homem que se levantou, numa primitiva explanação do lugar de fala a uma plateia curiosa, para dizer “mas desse jeito logo um escritor branco será desautorizado a criar uma personagem negra na literatura!”, deve ter sido alvo de gargalhadas e do safanão de sua esposa: “querido, isso é ladeira escorregadia”. Acontece que o lugar de fala viajou tanto que de fato se tornou essa ladeira escorregadia sem fim: uma escritora branca não pode dar vida a personagens mexicanos, Lena Dunham se junta a japoneses que reclamam que mudar a receita de sushis nos EUA e continuar a chamá-los de sushis é apropriação cultural, Fabiana Cozza é considerada insuficientemente negra para interpretar sua falecida amiga Dona Ivone Lara, o turbante de provável origem árabe é raptado como acessório desde sempre africano que não pode ser usado por brancas. 


Não venham copiar e colar o que os identitários dizem que são quando se pintam de ponderados para cooptar trouxas, miseráveis e lerdos. Interessa-me o que eles são de fato. No papel mal lido o comunismo também é muito bonito, mas a aplicação gerou mais perversidade e morte do que qualquer bem defensável. Não há limites para o que ativistas despóticos estão fazendo em nome de uma salvação das minorias – muitas vezes um pretexto oportunista para que alcancem desejos humanos baixos como domínio ilimitado à 1984, aparelhamento de instituições e aparência de virtude. Já passamos do tempo de torcer o pepino desses obcecados por revanche intempestiva. Estamos todos atrasados. 


Existem livros enormes em número de páginas que passam pelas mãos dos leitores sem lhes provocar nada. O pequeno livro de Djamila não só provoca o leitor como muda o mundo. Thulane, a quem o livro é belamente dedicado, viverá num Brasil que foi severamente mudado, por sua mãe, para pior. A militância não precisava ser assim. Mas é. 


*** 


NOTAS


1. Lugar de fala sendo usado por Djamila Ribeiro como distintivo policial: me cobrem telepaticamente esta caricatura. 


2. O feminismo é dividido em “ondas”. Hoje esse termo peculiar faz muito sentido com o que vemos. O feminismo é “uma onda” que faz muitas de suas adeptas “irem na onda”. Ir na onda pressupõe dar certas férias ao pensamento porque o grupo já está pensando por você e tudo que vem de fora contestando as leis do grupo é repelido como opressão. Os homens são opressivos, mas também a matemática e a natureza. 


3. Um número considerável de mulheres envolvidas no feminismo atual trocou o psicanalista pelo ativismo coletivo. Em vez de se dedicarem aos estudos ou se reunirem com amigas para praticar esportes, mulheres infelizes, desesperadas por uma causa para dar sentido à vida, se juntam para vibrar diante de pautas algumas vezes nocivas contra um grande inimigo declarado sobre o qual jogar a culpa por qualquer fracasso pessoal: o homem. Com as boas conquistas – considero que ser uma mulher hoje é melhor do que ser uma mulher quando eu era adolescente – vem histeria e charlatanismo no pacote. Se nos fizeram muito bem, também nos fizeram muito mal, e não é permitido que separemos as partes sem criar confusão entre quem só compreende os outros por rótulos geralmente dicotômicos. Essa parcela de feministas repele ciência, jogos sexuais e contraponto para abraçar coitadismo, astrologia e táticas de torcida de futebol em discussões. Não é um movimento racional. Não me agrada quando me declaro feminista e sou confundida com isso.


A série Explicando da Netflix tem alguns episódios bons, outros nem tanto, tratando rapidamente de temas variados. O episódio chamado Cultos, sobre multidões que seguiram Jim Jones, Osho e outros líderes, tem uma descrição que se aplica a parte dessa quarta onda: “Como atrair e controlar pessoas? Aprenda como identificar uma seita e descubra como a solidão e a vida on-line facilitam a doutrinação”. Esse feminismo hermético, mimado, birrento e anticientífico é um culto. A série Explicando não trataria dele, pois é “politicamente correta” demais para isso. 


4. Colonizados também têm seus colonizados. Ativistas de minorias dos Estados Unidos criam pautas de acordo com a realidade americana, e ativistas brasileiros as adotam mesmo que não se apliquem ao contexto brasileiro. Se Michel Teló pinta de preto metade do rosto pedindo para o racismo acabar, é alvo de identitários negros a grudar em seu ato a marca de “blackface” mesmo que sua intenção tenha sido bondosa. A ideia de combate ao blackface foi importada com tanto bitolamento que o movimento negro brasileiro não sabe analisar circunstâncias caso a caso: pintou o rosto de preto, não importa a intenção, “é blackface que nos faz lembrar dos brancos do passado que se fantasiavam de negros para debochar deles”. É uma sensibilidade burra e cega. 


5. Ensaios bons são os de Richard Dawkins: são ensaios, o que é esteticamente agradável, divulgando ciência. Já ensaios majoritariamente opinativos que requerem o carimbo de ciência por causa do fenótipo de seus autores são apenas fruto, no meio científico, do que Harold Bloom chamou, nas artes, de “Escola do Ressentimento”.


6. Tratada como pseudociência, a Psicanálise tem seu valor quando não está pedindo para ser chamada de científica. Estou longe dos que rejeitam Freud por inteiro porque a ciência não verificou a plausibilidade de seu método e de suas teorias. Para quem discorda de tudo que ele escreveu referente à psicanálise aplicada, recomendo leituras que são primores de ideias e beleza estilística como O futuro de uma ilusão e O mal-estar na civilização


7Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África, de Alberto da Costa e Silva e citado nesta postagem, está esgotado, mas vale a pena procurar em sebos virtuais porque é excelente. 


8. Não sou contrária ao politicamente correto por inteiro, só quando considero que é estúpido. O ofensivo de chamar negros de “moreninhos” é que está subentendido nisso que ser negro é ruim e desnobre, portanto as pessoas pensam internamente que ofendem alguém ao chamá-lo de negro e preferem o que consideram de padrão superior: moreno. Apressam-se em corrigir alguém com quem conversam: 


– De quem o senhor está falando? – Daquele cara lá, aquele moreno, o Rafael. – Ah, o Rafael… ele é negro. – Não, não! Não chega a ser negro, é moreninho


Já pregar a abolição dos termos “denegrir” e “mulato” é estúpido. Quem pensa em cor de pele preta quando usa o termo “denegrir”? Quem pensa em mulas ao falar de “mulatos”? As palavras adquirem tons e significados que se afastam de suas origens etimológicas, não sendo útil que expurguemos muitas delas. Quanto ao termo “denegrir”, mesmo em sociedades de população inteiramente preta a escuridão e seus mistérios é vista como algo negativo. Que paranoia leva alguém a imaginar que quando alguém diz “ele denegriu a imagem do Afonso” se está dizendo que o Afonso foi “rebaixado” a preto de pele? Por acaso uma pessoa branca de olhos pretos ouve o termo “denegrir” e se ofende porque supõe que estão falando mal da cor de seus olhos? Francamente. Vamos superar esses complexos.

9. Resenha escrita ao som de “Show you the way to go”, The Jacksons, e outras coisas.


(Postagem publicada originalmente no blog antigo em 03/02/2020 e atualizada em 15/05/2021.)

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