Ondas que arrastam têm uma função iconoclasta: pessoas tidas como a inteligência se deixam levar por elas sem fazer meia hora de diálogo interno antes do mergulho, e nisso a sua aura se arrebenta. Lá vão os partidários da enchente da ocasião, sorrindo satisfeitos no meio d’água mijada e pensando que são carregados prum lugar melhor, pro futuro, pra modernidade. Balançando os chinelos na beira da laje ficamos, apáticos, vendo que nos apontam o dedo — ¡múmias!, ¡tradicionais! — enquanto correm lá embaixo com telhas, sacolas, seus fregueses (os influenciados).
Parece mais um lamento sorumbático sobre a peste identitária que adula a paranoia e a burrice com a ajuda de ditos intelectuais, mas desta vez a queixa é contra as modas que atacam o livro físico. Também ele é empesteado por ferrenhas febres, também ele mostra que especialistas às vezes parecem não saber o que estão fazendo, como quando nos empurraram a capa emborrachada, a capa sem revestimento e o papel nublado — três tendências que prejudicam a leitura e a preservação dos livros.
A capa emborrachada, ou soft touch, está nas prateleiras há no mínimo dez anos e tem como intenção dar um toque aveludado à casca do livro. A sensação vige nos primeiros contatos entre o leitor e a capa, mas ela logo se perde e dá lugar à meleca: a gordura dos dedos põe manchas nesse melancólico aspirante a veludo — blues velvet —; as regiões mais expostas à luz e ao ar ganham um brilho literal, ruim, criando um gradiente de texturas que só um marqueteiro alucinado chamaria de riqueza sensorial; o grude vai conquistando territórios; o material é um aspirador de pó tão forte que você pode distribuir livros feitos com ele pela casa a fim de concentrar a sujeira em blocos. As características negativas são tantas que a persistência dessa capa nos projetos é um mistério. Se ela tivesse humanidade, suspeitaríamos que é muito bem relacionada, parente dalgum poderoso, chantagista ou enaltecida por dó.
Já a capa sem revestimento plástico transforma o livro num alimento perecível. Esbarrões ou o movimento repetitivo das mãos sobre o papel cru o esfolam, e se o leitor isolado sai dum exemplar desses deixando involuntários e antipáticos vestígios da sua presença, em bibliotecas públicas a situação piora: bastam poucos empréstimos pra que a capa esteja com as arestas quase todas raspadas, como se o livro de regata e bermuda tivesse se ralado no asfalto ao cair duma moto. Anarquismo apologético da paixão destruidora, fantasia de que deformações físicas registram o roteiro de viagens do livro ou apenas economia: pra quem não tem contatos no ramo editorial fica difícil cogitar o que move as equipes que mantêm o tipo. A Todavia faz a versão mais dramática desse produto que não aguenta o balanço dos ventos e as gotículas de vinho ou de sangue — uma capa com história; Mural da Vida; evidência de jantares solitários e crimes —, mas outras editoras também trabalham com ela em variantes menos drásticas, embora ainda desagradáveis. É o caso da Elefante, da Fósforo e duma fração da parceria Penguin & Companhia das Letras.
Passou-se tempo suficiente pra perceber que o modelo é aliado das traças ao fazer do livro um objeto roído, mas ele vence os anos e continua no mercado. O futuro será de livros usados nojentos que as pessoas vão te oferecer e — não, obrigada, acabei de almoçar, ou de fartura pras gráficas que trabalham com restauração.

Meu exemplar de Outras mentes: o polvo e a origem da consciência,
de Peter Godfrey-Smith, editora Todavia, foi manuseado com delicadeza
— mesmo assim, alguns trechos das arestas do livro ficaram esfolados depois da leitura
*
Outra hipótese pra guerra contra o plástico é o ambientalismo, de valor intrínseco ou como pretexto pra poupar custos. A fixação antiplástico já é realidade em capas não laminadas, mas o risco é que atinja livros transportados sem esse ambíguo fardo. Meu exemplar de Em defesa do tempo: descobrindo uma vida além do relógio, de Jenny Odell, editora Fontanar, veio com uma carta intitulada “Iniciativa histórica”. Transcrevo:
Este exemplar […] faz parte de uma iniciativa conjunta da Companhia das Letras e da Amazon que visa colaborar com o meio ambiente e trilhar caminhos mais sustentáveis no mercado editorial. Como uma maneira de contribuirmos para a formação de um consumo mais consciente em nosso país, o shrink — plástico que normalmente envolve os livros para protegê-los, durante seu transporte — não foi utilizado. Caso seu exemplar chegue danificado, não se preocupe! Entre em contato conosco pelo e-mail […] que nós vamos repô-lo para você. Seja você também um leitor consciente!
Estou consciente. Estou consciente de que cada uma dessas cartas gastou uma folha inteira de papel A4; estou consciente de que o meu exemplar veio sujo, com marcas de dedo empoeirado na goteira/canelura do livro; e estou consciente de que a troca dele demandaria gastos de recursos poluentes. Minha revolta foi precedida pela minha consciência.
Em defesa do tempo não só veio sem o shrink como tem a capa sem revestimento plástico que serve a interesses funerários: precisando enterrar o livro, os vermes decomporão suas carnes peladas com mais rapidez. Se a causa ambientalista depende de logo esfarrapar objetos que deveriam ser longevos, vou colocar uma casca de banana na lixeira onde se lê “metal”, um vidro de azeite onde se lê “orgânico”, e depois sair rindo sorrateiramente hehe dentro do meu casaco, debaixo dum chapéu preto, sobre silenciosos sapatos de vilã. A conservação do meio ambiente pede pragmatismo e bom senso. Não faz sentido tornar livros menos duráveis pra que a curto prazo nos sintamos heróis da floresta. E ainda que tudo isso não afetasse a sua durabilidade: a laminação fosca costuma ser sensorial e esteticamente superior à capa seca que em país tropical, cheio de mãos suadas, vai colando nos dedos e chupando seus diversos caldos.
Esses sólidos que se desmancham no ar estão em consonância com o fast-fashion, os stories, os quinze minutos virais, o meme político, o artista de singles pra quem não é vantajoso compor álbuns, o ultraje do dia sobre o qual angariar curtidas dopaminérgicas, os velhos aflitos por embarcar nas referências e gírias dos adolescentes mais abobalhados, o bairro paulistano fervilhante que em poucos anos estará morto debaixo de espigões. As memórias do livro físico contemporâneo podem participar da historiografia duma época que embandeira a rapidez, a imaturidade e a impermanência.
Talvez as editoras estejam publicando tantos títulos efêmeros que é lícito e nobre pensar alguns deles como facilmente recicláveis ou candidatos à composteira: desoneradores dos aterros sanitários, passageiros que morrerão junto às pessoas que os festejaram — mero papel. Mas a hipótese sedutora no pessimismo não explicaria tudo, pois obras ordinárias específicas ganham edições de luxo enquanto clássicos são republicados com roupas que não aguentam uma corrida curta na garoa. Quem espirrar na capa do seu Machado de Assis da Penguin micropermanecerá com você pra sempre. As digitais da mão do inimigo que tamborila sobre Salvar o fogo — de capa dura e revestimento plástico na versão especial, limitada — serão higienizadas, sem prejuízos pro livro, com um pano úmido. Ficará mais fácil revendê-lo ali adiante.
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A verdade é que Em defesa do tempo veio com duas cartas. A segunda, mais extensa, explica que o exemplar que o leitor tem em mãos é carbono zero:
A Suzano [indústria brasileira de papel], com apoio de uma consultoria especializada, mapeou minuciosamente todo o processo, desde o plantio do eucalipto, matéria-prima para a produção do papel, o transporte até a gráfica, os insumos de impressão, até o fim da vida do livro. Além disso, cada característica da obra foi analisada para calcular a emissão de gases de efeito estufa, já que formato, capa, número de páginas e outros elementos influenciam diretamente na sua pegada de carbono.
É ótima a iniciativa de reduzir a pegada de carbono dum produto — desde que ele não se torne consideravelmente piorado pro consumidor.
Na mesma missiva há menções textuais e em selo ao Pólen® Natural, “um produto Suzano”, papel escuro que já chegou à maioria das editoras: Ateliê, 34, Companhia das Letras, Todavia, Autêntica. Na página Papel Pólen, dedicada especialmente à divulgação da espécie, são explicadas as vantagens da sua recente versão natural: além da redução de 19% do efeito estufa no processo de feitura, ele não leva OBA (Optical Brighteners Agent) na composição, o que reduz a quantidade de aditivos químicos. A Suzano também alega que:
O papel Pólen Natural foi criado especialmente para livros, com tratamento diferenciado que resulta em tonalidade off white, menos reflexo de luz e uma leitura mais agradável e prolongada. Ele oferece uma experiência sensorial confortável, macio ao toque, proporcionando um belo acabamento ao produto final.
Não sei se há algo de científico ou estatístico na alegação de que a leitura é “mais agradável e prolongada”, mas o baixo contraste das palavras escuras nesse papel escuro me incomoda um pouco. Quando esse um pouco de incômodo acontece a cada página, há um acúmulo de coceiras. Além disso, algumas editoras têm mantido as tipografias magras usadas em livros com Pólen Soft — o ancestral suavemente bege do Pólen Natural — quando o novo nublado pede letras mais robustas. A fonte Electra, por exemplo, habitual nos títulos literários da Companhia das Letras — vide Angosta, de Héctor Abad, Dia da libertação, de George Saunders, Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon —, perde força no Pólen Natural. Pra que essa fragilização não acontecesse, a Electra precisaria dalgumas pratadas de macarrão com molho e lentilha, tudo acompanhado por canecos de cerveja encorpada, mas o que vemos é uma letra em pele e osso usando trajes negros sobre um fundo que prenuncia tempestades. Uma paisagem turva servindo a um ensaio frio da Harper’s Bazaar.
A Companhia das Letras nem é o pior dos casos: pelo menos a sua parceria com a Penguin vem em fonte da família Sabon, e alguns títulos de desenho mais personalizado — como a Obra completa, de Raduan Nassar, e a Odisseia traduzida por Frederico Lourenço — têm fontes melhores pra leitura que a Electra. Já a Record, que indica seu papel apenas como off-white no colofão, sem referência à marca Pólen Natural ou à empresa Suzano, usa uma tipografia parruda, mas nalguns títulos trabalha com letras de contornos irregulares que parecem nascidas dum carimbo artesanal, feito com batatas. Olhe bem de perto qualquer página d’O mito de Sísifo publicado por ela e perceba que as bordas das letras são mordiscadas ou borradas. A fonte rechonchuda e retinta nos indeniza pelo cenário escuro daqui e desfila linhas desastradas de lá, puxando o cobertor da nossa barriga pra tampar as nossas pernas. Quem decidiu manter as coisas assim possivelmente pensou na maioria dos leitores, desligados, mas isso não invalida a crítica de quem procura harmonia nos livros e encontrou relaxo num dos endereços de Deus e do Diabo: o detalhe.

A impressão do título d’O mito de Sísifo, da Record,
parece feita à mão (no mau sentido) em duas etapas

As letras do texto são irregulares em formas,
e ainda parecem mordiscadas

Há lugares onde o carimbo das letras parece ter sido batido duas vezes no papel,
mesmo não sendo o caso de negritá-las
Mas já estou me perdendo noutro assunto — a tipografia em si — que exige uma postagem própria.
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As coisas mudam, e a tendência é que nos acostumemos às mudanças. Essa constatação me leva a cogitar que este texto possa ser julgado como registro de aversão ao novo — uma convicção que às vezes acomete quem não é um fiapo viajando nessas torrentes sensacionais, assassinas do tédio daqueles que não encontram alegrias nenhumas dentro de si e chispam pr’onde a festa mais animada está. Mas em muitas situações a tentação de achar que novidades trazem o progresso é pior do que a cautela conservadora. Houve uma época em que o papel preponderante nos livros das grandes editoras era o branco, que punha um meio-dia teimoso nas folhas. A massificação do Pólen Soft fez com que ele fosse adotado por muitos livros “não técnicos”, daqueles pra ler do cabo ao rabo — literatura, ciências sociais, filosofia. Dos casarões que publicam ficção, a L&PM, a Estação Liberdade, a Global e a seção infantil da Editora 34 é que ainda aderem ao papel branco; quase todas as outras migraram pro Pólen Soft. Aquela novidade foi um avanço. Agora retrocedemos. O baixo contraste da tipografia no Pólen Natural põe o início da noite diante dos nossos olhos, e parece trabalhar pra que caiamos mais rápido no sono.

O livro do topo foi publicado recentemente pela Estação Liberdade, que mantém o papel branco como umas das suas opções; o segundo, da Objetiva, é em Pólen Soft; os três de baixo são em Pólen Natural (e as edições da José Olympio e da Record não têm cadernos costurados — as folhas são apenas coladas)
Quem saiu mais charmoso dessa história foi o e-book. Sua desvantagem é não ser físico — sem cheiro pra inebriar, lombada pra admirar na estante, papel pra apalpar —, mas a personalização de tudo fá-lo prático e flexível: escolhem-se as medidas das margens, o espaço entrelinhas, a tipografia, o tamanho das letras, o brilho e os tons da tela. Não estamos reféns dum mau designer. Ele passava despercebido ainda que já viesse com atrativos: um livro de 800 páginas pesa o mesmo que um de 200 sobre o seu abdômen na cama; poupança de espaço; comprar e receber imediatamente, com destaque pra títulos estrangeiros; sustentabilidade; acessibilidade. Foi o repentino desformosear do rival que nos ajudou a ver que sua fisionomia era até que bonita e que seus movimentos não eram tão desajeitados. “Eu estava aqui o tempo todo”, diz ele contrastando o preto e o branco, em fonte Georgia e com estatura ideal pra leitores cuja visão tem mais de trinta anos. Um candidato tão cheio de atributos… mas que não tira o livro físico da nossa cabeça. Amar é assim: o primado da afeição sobre o cálculo, as borboletas estomacais sobre o dote.
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No final de 2023 a Alfaguara — editora de origem espanhola que no Brasil é um selo do Grupo Companhia das Letras — lançou Stalingrado, de Vassili Grossman. Comprei pra ler um dia. E a primeira coisa que tenho feito quando livros novos comprados on-line chegam à minha casa é olhar se o miolo veio em papel Pólen Soft ou Natural. Quando é Soft, comemoro. Quando é Natural, resmungo, e não estou sozinha nisso. Não sei se somos muitos, mas nas avaliações da Amazon apareceu este usuário comentando o papel escuro sob o título “Atenção”:
Tive que devolver mais este livro. Devolvi vários outros livros pelo mesmo problema. Tudo porque agora as editoras estão utilizando um tal de papel Pólen Natural. Um papel muito escuro para o ato da leitura, acarretando uma leitura desagradável, difícil de se realizar sem estressar excessivamente os olhos. No Pólen Natural, os olhos precisam fazer um esforço enorme para focar nas letras, em geral mal impressas. Se para os olhos o esforço de leitura já era exigente, com o Pólen Natural isso aumenta muito, e quem perde é nossa saúde ocular. Eu simplesmente não consigo ler nesse papel escuro. A ideia do Pólen Natural é linda em si: emissão de carbono zero. Ótimo! Creio que a maioria da sociedade quer menos poluição. No entanto, esse papel precisa ser urgentemente melhorado para uma leitura agradável e sadia. Se a indústria se preocupar com a natureza é importante, a editora também tem a obrigação de se preocupar com o leitor; propiciar uma leitura agradável e sadia é o básico. Bem, livro impresso com esse papel eu não compro mais.
Ratifico a maior parte da reclamação, embora não vá mandar de volta meus livros em Pólen Natural: teria que devolver vários deles e parar de comprar outros títulos, pois quase tudo de literatura que está sendo impresso nos últimos meses vem com o papel nebuloso. E ainda há amarguras maiores a exarar: em 2011, a Ateliê e a Editora da Unicamp lançaram o primeiro tomo de Orlando furioso, de Ludovico Ariosto, em Pólen Soft. O segundo tomo só saiu em 2023 — em Pólen Natural. Um livro, dois tomos, cada tomo com um papel, pra que transtornados obsessivos compulsivos pisquem mais forte enquanto batem quatro palmas em cima do ombro esquerdo. Recusar não é uma opção, pois o título não está disponível em versão e-book: o leitor terá que se submeter ao que parece um daqueles trabalhos feitos em grupo onde cada membro faz apenas o pedaço que lhe foi designado.
Blasés e ultrapragmáticos que “nem perceberam” a mudança dirão que parecemos à beira dum ataque de nervos lamuriando pequenezes enquanto o rádio toca Soy infeliz, de Lola Beltrán. Em benefício desses brutos, admito que dá pra ler sem rompantes no Pólen Natural, desde que o ambiente esteja bem iluminado. Recentemente li Foco roubado: os ladrões de atenção da vida moderna, de Johann Hari, editora Vestígio, em off-white. No meio da sala acinzentada, num dia chuvoso, a leitura era desconfortável, mas foi só me estabelecer com uma janela aberta às minhas costas durante o dia e embaixo duma boa luminária à noite que as coisas melhoraram bastante a ponto de esquecer do papel. “Livros pra sintetizar vitamina D: leia-os sob o Sol”, deveriam anunciar num painel a fim de valorizar as recentes condições que nos impuseram, com o D maiúsculo e os dois pontos formando ali um emoji old school que é a cara da tragédia.
Ainda que todas estas alegações percam suporte pelo hábito, pela assunção ¿e não é que a leitura fica mesmo mais prolongada?, pelo ecoempoderamento e pela soberania da vontade das editoras junto à Suzano, restará uma justificativa final dura pra manter ao menos um pé deste protesto milípede: o papel em questão enfeia o livro. E a causa da beleza muitas vezes é o bastante pra dar trela a quem, civilizado, não se conforma com a constante vitória do feiume. Especialmente quando já se teve contato com um rosto bonito.
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NOTAS
1. Minha biblioteca particular está quase toda formada. Pontualmente compro livros novos — edições e traduções melhores, títulos inéditos —, mas o que está aqui já gastará mais do que uma possível longa vida de leituras. Terão problemas com o Pólen Natural — caso se importem com ele — aqueles que estão começando agora a montar a própria biblioteca. Eu recomendaria dar uma boa olhada em sebos, físicos ou virtuais, pra achar exemplares mais agradáveis.
2. Livros jurídicos de muitas páginas, administrativos, gramáticas e outros tipos a grosso modo técnicos seguem sendo impressos, geralmente, em papel branco. É difícil encontrar quem os tenha lido do início ao fim — são lidos os capítulos e excertos de interesse momentâneo, pra tirar uma dúvida ou estofar um trabalho de curso —, e talvez isso ajude a explicar a dispensa dum papel mais confortável pra leitura.
3. Desci o sarrafo muito mais na capa sem revestimento do que na capa emborrachada, mas acho, colocando todos os fatores negativos na ponta do lápis, que o segundo modelo é pior. Seu efeito de gosma suja deprime os sentidos.
4. Sacolas ecológicas distribuídas em eventos ou como brindes por empresas participam do grande show da sustentabilidade performática. Uma matéria publicada pelo The New York Times em 2021, “The cotton tote crisis”, da jornalista Grace Cook, trata do acúmulo desse acessório que pode ser conseguido em qualquer lugar. A imagem de capa mostra um varal repleto de sacolas arrecadadas por uma só pessoa em poucos anos, e a linha fina pergunta: ¿como uma solução ambiental se tornou parte do problema? O trecho inicial do artigo já nos afunda na tristeza que são as montanhas de tralha:
Recently, Venetia Berry, an artist in London, counted up the free cotton tote bags that she had accumulated in her closet. There were at least 25. There were totes from the eco-fashion brand Reformation and totes from vintage stores, totes from Soho House, boutique countryside hotels and independent art shops. She had two totes from Cubitts, the millennial-friendly opticians, and even one from a garlic farm. “You get them without choosing,” Ms. Berry, 28, said.
Uma das chaves aqui é “you get them without choosing”, você ganha o que não requisitou. É verdade que pessoas de perfil acumulador, viciadas em bugigangas, se sentem mesmo ganhadoras ao receber mais uma dessas sacolas pra entupir os armários de casa, mas marcas realmente preocupadas com a sustentabilidade jamais se pautariam nelas pra justificar uma escolha de tanto impacto.
Um estudo citado na matéria estima que uma sacola de algodão orgânico precisa ser usada 20.000 vezes pra compensar o efeito da sua produção: 54 anos de uso diário pr’uma sacola. Ainda que o estudo não revisado por pares venha a se provar exagerado, o dado já seria assustador se alguém concluísse que uma sacola de algodão só se pagaria ecologicamente após 10 anos, porque muitas pessoas não têm uma delas — têm várias — e antes de dez anos as jogarão no lixo por mau estado.
Em suma, sacolas ecológicas podem se tornar parte do problema ecológico; a cultura do brinde, além de promover o acúmulo de quinquilharia, vai de encontro à conservação do meio ambiente; dinheiro e recursos desnecessários são gastos pra manter a sustentabilidade performática funcionando.
4.1. Há poucas semanas recebi uma compra feita on-line e veio de brinde uma “sacola ecológica”. Eu já não teria gostado — a loja nem me deu a possibilidade de dizer, ao fechar o pedido, que não queria brindes-surpresa —, mas o pior é que ela estampa um manifesto com uma das formas da linguagem neutra, usando termos como junt@s. Não porei isso no ombro. Vou ver se o tecido dá um bom paninho de limpeza.
5. A partir de agora usarei imagens de fundo no topo das postagens. A manchete que noticiava a morte de Albert Camus continuará aparecendo na página principal do blog, mas cada texto trará uma imagem diferente na sua tela particular. Muitas dessas ilustrações serão coletadas do livro Die Fläche: design and lettering of the Vienna Secession (1902-1911). A imagem de capa desta postagem é dele.

Já seguia no Twitter o perfil do Letterform Archive, uma instituição sem fins lucrativos dedicada ao design gráfico. Um dia divulgaram a venda dum calendário de 2024 desenhado por Tezzo Suzuki — cada número nele é único e todo mês é de encher os olhos —, e aproveitei a importação pra comprar também dois livros: Die Fläche e W. A. Dwiggins: a life in design. Quem se interessa pelo ramo e tem condições de importar títulos de valores elevados pra nossa moeda encontrará uma recomendação valiosa aqui.

O mês de março no calendário de 2024 desenhado por Tezzo Suzuki

O mês de setembro no mesmo calendário
(Atualização em 10/08/2024: não deu pra usar imagens de capa em cada postagem porque elas ficam desconfiguradas na página principal, onde estão todas as postagens. Então imagem de capa será só a principal, mesmo, do Combat anunciando a morte de Camus em 1960.)
6. Algumas das músicas que embalaram esta postagem:
Jazz Spastiks, People Without Shoes, Bathtubbs — Bombs over beats / Talib Kweli, Madlib, Wildchild, Q-Tip — One for biz / Camper Van Beethoven — Still wishing to course / Paralisis Permanente — Bacanal / Cima Muta — The invader