Caderno de exercícios nº 3

SOLIDÃO (I)

Ele só é quando não está.

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SOLIDÃO (II)

De domingo a quinta, madrugada é quando todo mundo morre.

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AS MOSCAS (I)

Publicava panegíricos aos textos medíocres de uma mulher. Quando acusado, defendeu-se: “todo mundo precisa comer”.

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AS MOSCAS (II)

Debateu com um troll, diminuindo a si mesmo e promovendo o troll.

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PERFORMANCES (I)

Conta com a barulhenta gabação do populacho pra ver se chama atenção do verdadeiro visado – o rei.

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PERFORMANCES (II)

Depois de revelar o que come, bebe e veste; como dança, dorme e transa; aonde está indo, já foi e irá; quem admira, despreza e deseja; por que faz o que faz, não fez outra coisa, faria de novo; quando chora, se excita e gargalha – escreveu sobre o valor da vida discreta, do “experimente e não conte pra ninguém”, e terminou assegurando que só da intimidade dos chatos sabemos demais. Sua audiência não percebeu o contrassenso – e lhe deu parabéns pela filosofia.

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PERFORMANCES (III)

Diz que sofre da síndrome do impostor porque percebeu que isso o faz parecer não impostor.

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PERFORMANCES (IV)

Flagrando as reais intenções de um falso modesto que se deprecia: concorde com ele.

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PERFORMANCES (V)

Como não consegue produzir nada que valha a pena, declarou: “a literatura está morta”. Assim tenta desincentivar os adversários a escrever.

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PERFORMANCES (VI)

Faz piada dos seus fracassos pra que os inimigos tenham menos material com que trabalhar.

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PERFORMANCES (VII)

Zombava da própria aparência pra se antecipar aos zombeteiros. “Eu sei, eu sei, não precisam apontar, eu sei.”

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PERFORMANCES (VIII)

Finalmente foi ao teatro. E agora lamenta que ninguém dê valor ao teatro neste país.

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PERFORMANCES (IX)

Finalmente leu um clássico. E agora lamenta que ninguém leia os clássicos neste país.

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PERFORMANCES (X)

Finalmente aprendeu a usar a crase. E agora considera de uma ignorância vergonhosa quando encontra alguém que não sabe usar.

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PERFORMANCES (XI)

Anunciava misantropia pra que viessem lhe socorrer com afagos.

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PERFORMANCES (XII)

O dito antissocial viciado em redes sociais.

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PERFORMANCES (XIII)

Como ninguém o queria, decidiu: tornou-se misantropo.

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PERFORMANCES (XIV)

Rebate críticas com gargalhadas em maiúsculas. Quatro testemunhas, as paredes, veem que está arrasado.

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PERFORMANCES (XV)

“Não sou como esses que.”

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PERFORMANCES (XVI)

“É como eu sempre digo:”

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PERFORMANCES (XVII)

“Errei, e confesso isso porque sei assumir meus erros, diferentemente de.”

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ÍMPAR (I)

Evita fazer autoelogios pra não dar na cara que é inseguro.

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PAR (I)

Achando que não era glorificado como merecia, passou a se vangloriar. “¿Percebem agora?

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NUMA DITADURA (IV)

O partido – Enviem a produção excedente ao governo.

O campesinato – Não há produção excedente.

O partido – Agentes do governo encontraram em vosso campo: a) Pessoas gordas; b) Venda de alimentos. Portanto, há produção excedente.

O campesinato – Duas pessoas gordas entre centenas de esguios não formam uma estatística sobre fartura. O que adquirimos com a venda de alimentos serve apenas à nossa subsistência. Se enviarmos uma fictícia “produção excedente” ao governo, voltaremos a passar fome. ¿Se é pra voltar a passar fome como passávamos em épocas anteriores, de que serviu a revolução?

O partido – ¡Que insolência questionar os resultados da revolução! Uma gente assim ingrata merecia mesmo continuar vivendo sob o regime anterior, numa imensa campânula transparente instalada no meio desta sociedade. E, é claro, lamentando não estar do lado de fora, onde vê e admite, por fim, que a vida revolucionada é muito melhor.

O campesinato – Ainda estamos aguardando as dádivas da revolução. Já se passaram sete meses e houve dias em que tivemos que entreter o apetite das nossas crianças à hora do jantar.

O partido – Uma visita de agentes instruídos na descortesia domará essa palavrosidade camponesa. Quem vos escreve quis ser gentil, e o que recebeu foram réplicas hostis. Tenta-se conversar de forma agradável, mas isso é tomado como sinal de inferioridade. Deem adeus à diplomacia. E separem a produção excedente.

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NUMA DITADURA (V)

Minha vizinha está criticando o governo no ponto de ônibus. Se eu concordo e ela é uma informante — sem dúvida vão me prender. Se eu discordo e ela é uma informante — podem pensar que só estou discordando por saber que ela é uma informante, e talvez me prendam por precaução. Se eu concordo e ela não é uma informante — ela pode contar às pessoas erradas sobre a minha concordância (um inimigo meu, alguém a quem não emprestei dinheiro anos atrás, etc.), e existe a chance de eu ser denunciada e presa. Se eu discordo e ela não é uma informante — ela pode achar que eu sou uma informante e me delatar a outros vizinhos, e corro o risco de ser linchada no bairro. Diante de tudo isso, me farei de surda — o que também não garante que eu não seja presa devido a algum porquê que agora falho cogitar.

(Exercício inspirado na leitura de O xá dos xás, de Ryszard Kapuściński, Companhia das Letras.)

Na página da USP é possível baixar o esgotado O xá dos xás na íntegra

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NUMA DITADURA (VI)

Nosso pai foi espancado e preso porque desenhamos um bigode no retrato do Presidente Eterno da República que ficava na parede da sala de estar. A denunciante foi sua irmã, nossa tia, após ele se recusar a lhe passar o segredo de uma receita de kimchi.

Kim Il-sung, o “Presidente Eterno da República” da Coreia do Norte

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FÚTEIS (I)

Uma mulher muito bonita está chorando por um homem muito feio. Ele tem muito dinheiro.

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FÚTEIS (II)

“Minha esposa não está mais à altura dos meus bens materiais e da minha repentina fama.”

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FÚTEIS (III)

XXXIV ENCONTRO DAS PESSOAS FEIAS. Pauta vitalícia: pessoas bonitas.

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PRÉ-HISTÓRIA (I)

Sepultou seu filho com um punhado de miçangas e uma flauta de osso pra que ele tivesse com que se ocupar no outro mundo.

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PRÉ-HISTÓRIA (II)

O adolescente pintava seus sonhos nas cavernas da região. No futuro, arqueólogos tomarão o registro como indicação da estrutura hierárquica e cultural daquele povo.

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PRÉ-HISTÓRIA (III)

Sua tribo não existirá, pois não deixou vestígios.

(Segmento de exercícios inspirado na leitura de O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país, de André Prous, Zahar.)

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SEÇÃO DE COMENTÁRIOS (I)

Deu uma aula sobre ossos ao ortopedista.

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SEÇÃO DE COMENTÁRIOS (II)

Só leu o título do artigo, mas já tem uma longa opinião a manifestar.

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SEÇÃO DE COMENTÁRIOS (III)

Sente que participa do debate público ao postar uma contrariedade.

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SEÇÃO DE COMENTÁRIOS (IV)

Nota-se que falta leitura ao leitor.

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SEÇÃO DE COMENTÁRIOS (V)

Deixou de assinar o jornal que aboliu a seção de comentários. “¿Pra que serve um jornal se não podemos comentar as notícias?”

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CRÍTICA (I)

Não se salva nenhuma linha. Mesmo as vírgulas e os espaços estão comprometidos com este crime.

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CRÍTICA (II)

Toda vez que escreve, toma a língua portuguesa como refém.

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CRÍTICA (III)

Raspe a juba, veja o rato.

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CRÍTICA (IV)

Tem burrice que é mais burra que as outras.

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CRÍTICA (V)

Cresceu pelas boas relações. Isolado, não saberia ferver uma água na literatura.

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CRÍTICA (VI)

Mais um romance, dentre milhares, com prazo de validade.

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CRÍTICA (VII)

Nenhum amigo tem coragem de dar um toque.

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CRÍTICA (VIII)

¿O medíocre às vezes se sai com boas expressões e ideias? É cópia.

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CRÍTICA (IX)

Não se começa com maiúscula um texto minúsculo.

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CRÍTICA (X)

Ali o café é sempre frio.

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CRÍTICA (XI)

“Me passe o saleiro, e pode ser aquele maiorzinho.”

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CRÍTICA (XII)

Texto pra desenvolver diabetes.

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CRÍTICA (XIII)

Só vistas embaçadas acham que essa gordura é músculo.

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CRÍTICA (XIV)

Uma trama argumentativa tão aberta que não segura nenhuma das pedras que são jogadas contra ela.

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CRÍTICA (XV)

É muito ruim porque está copiando o estilo de outro autor muito ruim.

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CRÍTICA (XVI)

Copia, e copia mal.

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CRÍTICA (XVII)

Parece original, mas é só porque traduz as ideias de pensadores internacionais. E no seu país pouca gente sabe inglês.

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CRÍTICA (XVIII)

Ai, ai. Credo.

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CRÍTICA (XIX)

Deus não existe: a fome, as guerras, e agora isto.

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CRÍTICA (XX)

Ao ler uma ótima ficção: “concordo com tudo”.

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CRÍTICA (XXI)

Ao ler uma não ficção imprestável: “o protagonista narra muito mal”.

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O INCONSCIENTE (I)

Uma coincidência, duas, três, vinte. Não adianta se esconder pra ler [insira o nome] se depois seus textos imitam o vocabulário e os trejeitos de [insira novamente o nome].

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O INCONSCIENTE (II)

Minha mulher começou a me tratar mal logo depois de saber que o marido da irmã estava ganhando muito mais do que eu.

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PROFECIAS (I)

Ele não sabe, mas quando morrer todos os elogios vão acabar, e seus livros entupirão os sebos.

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PROFECIAS (II)

Ele não sabe, mas quando morrer passará a receber elogios, e vasculharão sua casa à procura de qualquer poema num guardanapo.

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PROFECIAS (III)

Ele não sabe, mas nem quando morrer será descoberto.

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NOTAS

1. Parece que tenho uma questão com copiadores, e tenho mesmo. Acredito no plágio involuntário, mas o que já vi de gente plagiando de propósito pra ganhar prestígio com as ideias alheias é de fazer do vaso sanitário um travesseiro.

Há os impudicos que copiam do horizonte, mas creditam apenas quem está no vértice do conhecimento universal. No Caderno de exercícios nº 1 esses bandidos elegantes foram abreviados:

ESTILÍSTICA (VIII)
Só dá crédito a gente morta ou inacessível. Rouba ideias do vizinho, mas só avisa quando assaltou Heidegger.

E há o pessoal que vai catar itens no estrangeiro pra vender como criação própria no país de origem. “Uma ideia inovadora de minha autoria”, mas que já é velha no país onde foi recolhida.

1.1. Se você “se inspira” muito em alguém, a ponto de inspirar quase todo o pó expansor da mente que esse outro produziu, dê o crédito. Não seja canalha.

1.2. Na Sodoma do plágio, ainda há aqueles que copiam porcaria. Não somos Deus pra destruir cidades tomadas pelo pecado e pela farra, mas podemos abalá-las com a força do verbo. “Seus olhos brilham, José.” “É que estou admirando a fuleiragem na qual acabei de tacar fogo.”

1.3. Alguns dizem que “o plágio é uma forma de homenagem”. Deve ser a homenagem mais imunda já feita – alguém deliberadamente tentar passar como suas as formulações de outra pessoa.

1.4. Isso, claro, vale pra ideias mais elaboradas, não pra arrozes como “a democracia é o melhor regime”, “pessoas desse espectro político se assemelham a nazistas”, “pão quentinho é tão gostoso”.

1.5. Tenho impressão de que o exercício abaixo, do Caderno de exercícios nº 1, me foi fortemente inspirado por alguém. Desconfio de Max Nunes.

O ACUMULADOR
Morreu rico, dando oportunidade à família de brigar durante décadas pelo seu dinheiro.

Essa dúvida me mordeu semanas depois de ter publicado o primeiro número da série, mas revendo por alto os livros de Nunes não encontrei passagem similar. Como foi um desses exercícios básicos, fáceis de serem pensados por muitos, pode ter vindo de qualquer lugar – inclusive da minha própria cabeça. Deixo a suspeita noir.

2. Falando em Max Nunes (1922-2014), aproveito pra mostrar aqui uma seleção dos exercícios dele. Os dois livros que li seus – Uma pulga na camisola e O pescoço da girafa, ambos da Companhia das Letras – são compilações montadas pelo jornalista Ruy Castro. Há ali piadas – como as da famosa dupla O primo rico e o primo pobre –, tiradas, crônicas e pequenos contos. Apesar de Max Nunes ser muito dado àquele ciclo de humor limitante esposa megera/ pobre/ políticos corruptos/ sogra, consegui garimpar construções espirituosas. Segue uma amostra:

A prova de que a natureza é sábia é que ela nem sabia que iríamos usar óculos e notem como colocou nossas orelhas.

Patriota otimista é aquele que se vira para o outro e diz, cheio de convicção: “Você vai ver o Brasil daqui a cem anos”.

Em Brasília, quem não é da panelinha é da marmita.

Quem pede a palavra nem sempre a devolve em condições.

Qualquer burrice que você escreva, haverá sempre um clássico para te apoiar.

Quando o vigia percebeu que a fábrica de picolé estava pegando fogo, discou para os bombeiros e disse muito acertadamente: “Depressa! Incêndio na fábrica de picolé! O fogo está lambendo tudo!”

Tendo de escrever uma composição no colégio sobre uma família pobre, a filha de um milionário assim se expressou: “Era uma vez uma família pobre. A mãe era pobre. O pai era pobre. Os filhos eram pobres. O mordomo era pobre. O chofer era pobre. A criada era pobre. O jardineiro era pobre. Todos eram pobres.”

Mesmo que tivessem toda a inteligência que lhes falta, algumas pessoas ainda seriam burríssimas.

Sim, os ladrões roubam para comer. O diabo é que comem de tudo: relógios, carteiras e até automóveis.

No comunismo você também pode dizer o que pensa. Mas só uma vez.

Nada mais irritante do que funcionário do correio jogando baralho. Como leva tempo para entregar uma carta!

O rei, a cavalo, surpreendeu a rainha atrás da torre com um peão e foi queixar-se ao bispo.

Diálogo no hospício: Guarda: Que é que você está fazendo aí? Doido: Escrevendo uma carta. Guarda: Pra quem? Doido: Pra mim mesmo. Guarda: E o que é que diz a carta? Doido: Não sei, ainda não recebi!

Ainda que sendo esse tipo de humorista – o tiozão do tempo do rádio, o babão de mulher e detrator das sogras –, Max Nunes também escreveu textos que não eram pra fazer rir, mas pra encantar. O mais bonito, uma crônica intitulada Paredes de mim mesmo, divulgarei qualquer hora dessas na categoria “Textos dos outros”, pois merece uma postagem particular.

2.1. Na página Memória Globo há um bom perfil informativo da carreira de Max Nunes, inclusive com um vídeo do quadro Primo rico, Primo pobre, interpretados por Paulo Gracindo e Brandão Filho no programa Balança Mas Não Cai, que era do rádio e foi pra TV.

3. Algumas das músicas que embalaram esta postagem:

Gong – Oily way / Gong – Fohat digs holes in space / Emerson, Lake & Palmer – The endless enigma, pt. 2 / Then Comes Silence – Spirits flow / La Bellini – Satan in love

3.1. Só recentemente fui dar atenção ao Gong, quando uma faixa deles apareceu numa dessas “rádios da música” do Spotify (Frank Zappa encabeçava a lista). Agora a banda sempre toca aqui, e dias atrás descobri que Fabio Golfetti, guitarrista do Violeta de Outono, está tocando nela.

3.2. Gosto de músicas pontuais do Emerson, Lake & Palmer, como essa The endless enigma, pt. 2. O início é uma joia que poderia ser enxertada num piano-jazz; e na hora em que entra a voz às vezes me parece que estou numa dessas catedrais que mantêm tradições de beleza pra nos absorver – quando o catolicismo ainda aliciava muito pela estética robusta e não tanto só pela promessa de solucionar o baixo-astral. E às vezes me parece que estou ouvindo algum hino nacional pré-jogo. Enfim, música poderosa.

3.3. Pelo tamanho da população, é incrível a quantidade de bandas que surgiram na Suécia. Then Comes Silence é de lá. Muita gente talvez só pense em ABBA, Europe e Ace of Base quando se fala do país, mas dá pra fazer com facilidade uma longa playlist de boas músicas provenientes daquela usina.

3.4. Satan in love, de La Bellini, eu conheci em abril, quando almocei com o André em um restaurante israelense em Varsóvia. Dois brasileiros, na Polônia, comendo num restaurante israelense, descobrindo uma música italiana de 1978. Como estava sem internet, recorri ao habitual em viagens: chamei a garçonete e perguntei o que era aquilo que tinha tocado. Conheci coisas excelentes assim; não dá pra deixar uma música boa passar.

¡Até a próxima!