Das 6 às 8, as coisas se precipitam. Ninguém se controla, das 6 às 8. Há comprovadamente mais suicídios e menos caráter, das 6 às 8. O sol se retira como um velho patriarca com o seu xale cinzento, para uma noite de tosse e urinóis, e as coisas se precipitam. Uma sugestão de encontros serpenteia pelo Calçadão como um fio despencando, enxotando as crianças. Só para adultos, das 6 às 8. Alta tensão, das 6 às 8. Um mendigo vira príncipe, na esquina da Uruguai. Tudo pode acontecer e acontece. Eu não me responsabilizo, das 6 às 8.
Às 6:02, Werner Brecker pensa no primeiro uísque e explode um luminoso. Às 6:10 há uma crise passional na Duque. Às 6:15 um jovem executivo se decide pelo desfalque e telefona para a família com a boa nova. Às 6:32 há uma virgem em apuros na frente do Krahe. Às 6:40 um táxi cai no riacho e lidera um lento cortejo de dejetos até o rio. O patrão e a secretária, no banco de trás, só se darão conta quando chegarem a São Lourenço. Há uma revoada de datilógrafas na Praça do Portão. Mário Quintana chega atrasado para a sessão das 6 no Vitória. Um fiscal da Prefeitura cai num buraco da Borges. Às 6:55 há um começo de incêndio num aluno do IPV e se avistam as luzes de Guaíba. Porto Alegre é uma cidade suspensa entre as 6 e as 8, como uma miragem.
Entre o trabalho e a volta para casa, há um mundo das 6 às 8. O adultério não é pecado, das 6 às 8. Há um furo no tempo, das 6 às 8. Os hotéis rodopiam, há uma certa urgência das 6 às 8. Em quatro entre dez apartamentos do centro o silêncio só é rompido pelo leve ranger de consciências culpadas e as buzinas da rua. Todas as mulheres legítimas estão no cabeleireiro, ou dizem que estão. As falsas bebem pouco e mastigam o gelo. O flagrante não é admitido como prova, das 6 às 8.
Às 7:14 o Gasparotto chega na sauna. Às 7:20 uma comerciária desmaia no ônibus. Às 7:29, no bar do City, uma multinacional paga a rodada. No mesmo instante, num bar da Salgado Filho, alguém bate no balcão e desafia: “Posso derrotar qualquer hegeliano na casa!”. Às 7:36 tudo se acalma. Mas às 10 para as oito corre um vento frio pela Independência e há uma premonição do castigo. Mais dez minutos e ninguém se salva. As mulheres cercam o Fernandinho, apreensivas. Mais dez minutos e Porto Alegre despenca no abismo, e aí adeus pólo petroquímico. Mas às 8 tudo está terminado.
Os maridos chegam em casa e elogiam o penteado. Está na hora da novela, o mundo se assenta. Baixa a tensão, das 6 às 8. Fica o perfume na lapela, das 6 às 8. Relíquia da cidade suspensa. No outro dia, das 8 às 6, as coisas se recompõem. E é como se nada tivesse acontecido, das 6 às 8.
(Crônica garimpada no livro QI 14, editora Garatuja, 1975. Coleção Guaipeca, volume I.)
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NOTAS
1. Estava lendo A vaca e o hipogrifo, de Mário Quintana, na edição da Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros, saída em 2008. Falta amor estético em algumas coleções que a Folha de S.Paulo comercializa — os livros parecem feitos pelas mãos geladas dum analista contábil que arranja complemento salarial como capista e diagramador —, então fui buscar o título na edição que a Alfaguara tinha lançado em 2012. Agradável, com a capa mostrando um Quintana que parece performar uma leitura pra retrato, mas de tipografia blog-de-poetisa num tamanho miúdo, mesmo diante de tanto espaço no papel.
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Capa da Alfaguara pr’A vaca e o hipogrifo
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Pesquisei outras edições na internet, pois queria me estabelecer com a alternativa perfeita. A capa da Círculo do Livro era boa — mas o miolo é todo em itálico —, já a capa da editora Globo ilustrava um cavalo de carrossel em leve sépia e ainda se atrevia a um título em fonte Tilibra-jovem, lembrando, no conjunto, algum álbum de banda que tentou imitar os Los Hermanos circa 2005.
Viajo, viajo, viajo, e chego à versão original, a primeirinha, da editora porto-alegrense Garatuja, publicada em 1977, com capa all-type feita por Fernando Jorge Uberti:
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Nessa edição os minicontos, máximas e poemas de A vaca e o hipogrifo estão uns atrás dos outros — modelo econômico que prefiro, embora a Garatuja pudesse ter deixado folgas um pouco maiores entre um texto e o seguinte. Também desaprovo que tudo esteja em itálico, como na Círculo do Livro, tornando cansativa a ênfase plena. Mesmo assim me interessaram as belas capa e contracapa duma editora já morta e que trabalhava fora do hegemônico Sudeste. Foi buscando títulos da Garatuja em sebos que o André descobriu pra nós a compilação QI 14, de 1975, que reúne quatorze humoristas e chargistas gaúchos: Armando Coelho Borges, Batsow, Canini, Edgar Vasques, Edson, Fraga, Juska, Luis Fernando Verissimo, Pacheco, Rekern, Ronaldo, Santiago, Tarso e Torquato Ssó.
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2. A compilação não é muito boa, mas causa leve simpatia: olhar do futuro tanto humor fraco feito no passado dá uma sensação engraçada e até maternalista de poder julgar duma posição confortável aquilo alheio que não resistiu ao tempo — coisa que os autores desconheciam em 1975. Uma criança empolgada vem te mostrar seus desenhos e você sente ternura pelo desastre que ela não tem condições de avaliar porque presa numa mentalidade irresistível. Espírito humorístico de época também aprisiona.
3. Ainda que não muito boa, salvei algumas criações de QI 14. Segue uma amostra:
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Armando Coelho Borges (1)
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Armando Coelho Borges (2)
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Edgar Vasques (1)
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Edgar Vasques (2)
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Juska (1)
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Juska (2)
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Luis Fernando Verissimo (1)
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Luis Fernando Verissimo (2)
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Rekern
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Ronaldo
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Santiago (1)
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Santiago (2)
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Tarso (1)
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Tarso (2)
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Torquato Ssó (1)
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Torquato Ssó (2)
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4. E salvei um texto de Luis Fernando Verissimo, autor geralmente superestimado: de seu Os últimos quartetos de Beethoven, editora Objetiva, mantive quatro textos (de uma dezena) e mais alguns excertos, e de As mentiras que os homens contam mantive apenas cinco textos na íntegra (de quarenta) e também mais alguns excertos. Abaixo, alguns dos bons instantes:
Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.
— Está bem, está bem. Tem uma moça que eu vejo mas nem se pode chamar de amante. Pelo amor de Deus! É só meia hora de três em três dias. E ela é bem baixinha. “Amante” seria um exagero.
Com o tempo, o casal desenvolvera um código pra se comunicar de longe nas reuniões sociais. Quando ele esfregava o nariz queria dizer “Vamos embora”. Quando ela puxava o lóbulo da orelha esquerda queria dizer “Cuidado”, geralmente um aviso para ele mudar de assunto. Puxar o lóbulo da orelha direita significava “Pare de beber”. Se ele então girasse a aliança no dedo, era para dizer “Não chateia”. Se depois ela coçasse o queixo, era “Você me paga”.
Enfim um bolero, n’est pas madame? Fui eu que subornei a orquestra. Agora podemos dançar juntos, eu sentindo os seus seios contra o meu peito, você sentindo as minhas medalhas.
Dizia que não se pode ficar esperando que a vida nos tire para dançar, nós é que temos que persegui-la, enlaçá-la e sair rodopiando. Ela chegara rodopiando a Paris, onde não conhecera nem Hemingway, nem Sartre nem Picasso mas fora cantada no café Les Deux Magots por Gertrude Stein, que apertara seu joelho com a força de um estivador […]
[…] uma vez testara Camões com o pé e recuara, sem mergulhar.
Os dez anos tinham feito estragos. Ela estava acompanhada de um europeuzinho com uma franja loura colada na testa. Ele não tinha mais do que 12 anos e já olhava ao redor com um nojo de gerações.
Tanto esses fragmentos quanto o texto dele que salvei de QI 14 — o acima transcrito “Das 6 às 8” — mostram que, embora superestimado, Verissimo pode render pepitas no faiscar.
5. “Das 6 às 8” é uma ode à libertação num período curto do dia, e não dum dia qualquer: subentende-se que a orgia citadina das 6 às 8 — ou das 18h às 20h — irrompa de segunda a sexta-feira. O domingo não combina com o livramento das 6 às 8. O sábado… depende, mas o coração da crônica não bate por ele.
A zorra acomete quem estava cerceado pelo regimento da repartição, da jornada doméstica, do ambiente escolar. Nem por isso ela deixa de ser contagiosa, atacando aposentados e quem se coçava diante do relógio, todos de repente girando no ritmo dos que saíram desse cativeiro meio-voluntário-meio-obrigatório do horário comercial, e que agora atravessam as ruas, chegam aos bares, propõem discussões com hegelianos num horário de transição. Há magia depois que “o sol se retira como um velho patriarca com o seu xale cinzento, para uma noite de tosse e urinóis”. Tudo com muita vírgula antes da expressão “das 6 às 8”, que é pra enfatizar a fundura desse “furo no tempo” que carimba cada rebuliço.
Estouram crimes e transtornos, perigos e delícias: ¡vive-se! “Um táxi cai no riacho e lidera um lento cortejo de dejetos até o rio”, e mulheres em harmonia de vestimentas coreografam pombas: “há uma revoada de datilógrafas na Praça do Portão”. Até Quintana se atrasa prum compromisso com ele mesmo às 6, e lá adiante “um mendigo vira príncipe na esquina da Uruguai”.
“Porto Alegre é uma cidade suspensa […] como uma miragem.” Fiéis se tornam adúlteros, mas só das 6 às 8 — intervalo regido pela moral doutro planeta.
A travessia está pra terminar, já são 7:36.
Às 8 estão quase todos acomodados, falando amenidades e vendo novelas nesse lugar temporal que é seu terceiro mundo. “No outro dia, das 8 às 6, as coisas se recompõem. E é como se nada tivesse acontecido, das 6 às 8.” Adorável crônica.
6. Todas as imagens desta postagem foram digitalizadas num escâner de mesa Canon Lide 120. Houve uma época em que era uma sensação ter impressora em casa. Hoje acho que obrigatório mesmo, pra quem vive às voltas com leituras, é ter um escâner — um simples e eficaz como esse que eu tenho já é o suficiente pra digitalizar partes que interessam de livros medianos e depois passá-los adiante. (Apartamentos pequenos agradecem a poupança de espaço.) Digitalizar o fichamento dum livro que será mantido e salvar o PDF num e-mail também é útil: os trechos queridos estarão sempre à mão.