Itamarismo, literototalitarismo

It’s my party, and I’ll cry if I want to
Cry if I want to
Cry if I want to
You would cry too if it happened to you
(It’s my party – Lesley Gore)

Itamar Vieira Junior, escritor baiano, vendeu mais de 700 mil cópias da sua ficção Torto arado (2019), ganhou loas de radialistas e acadêmicos, marcou um fenômeno editorial no país onde poucos ultrapassam a primeira tiragem, vendeu direitos de tradução pra idiomas como o croata e o eslovaco, virou culto. ¡Pfiu! Mas foi uma resenha negativa do seu último lançamento, Salvar o fogo, que o pôs de olhos espremidos no quarto escuro, rangendo dentes, a barriga pra cima e as mãos entrelaçadas sobre ela. Um instituto julgado morto – a crítica literária reprovativa que não é uma molecagem visando trolls – ainda bafeja: o autor chovido de confetes vê que foi uma desconhecida, sem apelo popular e de carreira não badalada, que perturbou o seu continuísmo. A música some dos seus ouvidos, todos dançam em velocidade 0,5 esbarrando no copo de refrigerante que ele segura, e lá no portão a passante que declina um saquinho de pipoca o encara com uma expressão séria. Consciência imediata: “é ela que me lê”. Renderia um romance de atrasar o sono: O calafrio.

Salvar o fogo já tinha se transformado em amigurumi de crochê quando Lígia Diniz, professora de Teoria da Literatura na UFMG, publicou na revista Quatro Cinco Um a crítica “Espírito do tempo” com o subtítulo: “Itamar Vieira Junior dá centralidade a personagens à margem do Estado, mas seu novo romance Salvar o fogo perde ao recorrer a expedientes gastos da literatura”. Num dos melhores instantes do artigo, Diniz trata das lições às escâncaras no trabalho do escritor que simboliza uma época:

Vieira Junior tinha em mãos uma saga familiar interessante e uma boa e irresolúvel questão: como se permitir viver a dor individual em meio a tanta dor coletiva. Mas o autor parece não acreditar no poder da ficção e da imaginação, e quer garantir que os leitores recebam seus recados. Nenhum detalhe é lançado apenas para que o leitor capture sozinho a deixa; nenhum gesto de opressão passa sem ser destrinchado.

Em dado momento, Moisés diz que “não imaginava serem os livros escritos”. Pensava, diz ele, “que surgiam como nós, das vidas de outras pessoas, vivos”. Vieira Junior parece crer nisso e se esquecer de que a literatura é feita de linguagem escrita, e que a tarefa árdua é transformar a vida em palavras. A atenção à forma, em Salvar o fogo, aparece apenas no uso de analogias cansativas como “Os boatos se alastraram mais rápido do que o fogo do incêndio” ou de recursos como o do discurso indireto livre. Este é empregado, porém, com intuito pedagógico, como no caso em que uma personagem tem visões do passado e as reproduz para nós como se pensasse como os indígenas ao ver os portugueses chegando. Lemos, então, passagens bobas como: “A grande maloca é chamada de igreja”.

É curioso que, no empenho de trazer à ficção a realidade de uma população à margem da modernidade ocidental, o autor recorra a expedientes gastos da literatura mais convencional: mistérios revelados pouco a pouco, alternância entre vozes narrativas que se esclarecem mutuamente e uma insistência na produção imediata de sentido. Mesmo que se considere a motivação político-didática, é de se pensar por que não investir em procedimentos formais menos familiares ao leitor de modo a redobrar a sensação de estarmos diante de algo a que até então não havíamos prestado atenção.

Lugares-comuns e beabá não exigem muita inteligência nem de autores, nem de leitores, mas nesta temporada é possível fazer construções que puem o papel-carbono circulante no bairro e ainda terminar impresso nos jornais como brilhante. Escritores mortos que consideramos ídolos foram ripados ou recebidos com ressalvas pelos seus coetâneos – isso é passado. No presente, figuras bem menores vão cruzando os próprios espaço e tempo só ouvindo hurras e aprovadores uhum. Por causa desse golpe vitorioso que todos aplicam em todos, um Itamar trajando nuvens num trono de nuvens reagiu à crítica de Diniz ao seu último livro assim:

Pessoas brancas são imbatíveis quando nos destinam adjetivos. Se rebatemos a piada racista, somos extremistas e estamos atacando a liberdade de expressão. Se escrevemos sobre nossas dores, somos maniqueístas, nunca será porque essa é a nossa história.

Acabei de colocar um romance na rua e nele mais uma vez segui meu propósito de narrar a história da minha gente, daqueles que me antecederam e daqueles que me cercam. Estou no meio literário há pouco tempo, mas já acumulei repertório suficiente para escrever uma etnografia desse grupo. É claro que eu esperava racismo por minha insubordinação de continuar a escrever. […]

Um jovem branco me perguntou se há literatura no Brasil além da “ladainha escravista”. Se ele conhecesse realmente a literatura brasileira, saberia, numa breve passada de olhos nas livrarias e bibliotecas, que as prateleiras estão cheias de histórias da classe média branca do centro-sul do país. Mas por que resolveu implicar comigo? Eu sei a resposta, mas convido o leitor a exercitar seu raciocínio também.

O pacto da branquitude é implacável. Mesmo quando você não o nota, ele se faz presente. O editor branco escolhe a crítica branca para resenhar um romance atravessado pela raça e pelo colorismo. Eles precisam nos lembrar que na literatura brasileira não há espaço para nós, então o pacto é deixar a avaliação entre eles. Um livro conquistar um bom número de leitores – como ocorreu com Quarto de despejo ou Torto arado – ainda vai, mas dois já é demais.

Eu não quero me manifestar todas as vezes que cospem na minha cara, mas Vini Jr. [ao receber insultos racistas num estádio lotado] me lembrou que precisamos erguer nossa cabeça, pois tê-la curvada nunca nos ajudou em nada.

Então vou contar para vocês os adjetivos que ganhei de uma professora branca em redes sociais simplesmente porque decidi ignorar a “cusparada”: “sujeito” (alguém inferior que não pertence à sua classe e raça), “arrogante” (já vi o mesmo adjetivo destinado a outros corpos negros altivos, como Djamila Ribeiro, Luiza Bairros e Silvio Almeida) e “preguiçoso mental” (será que é um insulto xenófobo por eu ter nascido e ainda viver na Bahia?).

Eu teria muito mais para escrever, mas o espaço desta coluna não me permite. De chantagem à ameaça. A violência racial não nos dá um dia de trégua.

Que escalada. Recuperados da vertigem, psicanalisemos:

A FUGA
Não é obrigatório que o escritor rebata as críticas que recebe, mas se ele deseja impugnar uma apreciação, que se atenha a ela e não fique falando doutra coisa. A menos que essa outra coisa seja de relevância, como “a crítica é suspeita, pois é minha ex-mulher, traída, que me prometeu vingança, mas vamos lá”, ou “a crítica exalta poemas com imagens do tipo copo meio cheio, copo meio vazio e rimas da laia nariz/chafariz/depressão/no avião, então não teria competência pra avaliar estética textual, mas vamos lá”. (O “mas vamos lá” é importante – trazer informações externas pra mostrar as circunstâncias duma crítica mal-intencionada ou feita por alguém que não sabe ler não isenta o criticado de tratar do que o acusam.)

¡GUARDAS!
Com a racialização do caso, Itamar apita pra que capangas voluntários façam o serviço de atacar uma “racista” com os adjetivos que uma racista merece.

A IMPAVIDEZ
Assunção de herói que não cede à opressão militar, que resiste ao esmagamento, bravo indômito, Rosa Parks: “É claro que eu esperava racismo por minha insubordinação de continuar a escrever”.

A COLETIVIZAÇÃO
O aferro à artimanha de tratar uma crítica ao seu livro particular como problema coletivo duma raça, tanto pelo recurso patético-emotivo da primeira pessoa do plural – ¡vejam o que fazem contra nós, vamos reagir! – quanto por atiçar a instintiva rejeição à ameaça eles: “Eles precisam nos lembrar que na literatura brasileira não há espaço para nós, então o pacto é deixar a avaliação entre eles”. Eles tralalá eles.

A jornalista Vera Magalhães engoda a plateia da mesma forma quando acusa seus críticos e agressores verbais de misóginos. Com isso quer nos fazer acreditar que o ódio que a atinge é um ódio ao feminino, portanto os ataques que mexem com ela mexem com todas. Acho que não, Vera. Se o ódio não for voltado especificamente a você, V-e-r-a-M-a-g-a-l-h-ã-e-s, no máximo é um ódio a jornalistas-que-não-publicam-o-que-a-gente-gosta. Recomendo saciar o apetite por donzelas protegidas dos infortúnios em novelas de cavalaria.

O CARADURISMO
Depois das freakanalogias “bolsonarismo é uma forma de nazismo” (um dos filhotes do sociólogo Michel Gherman) e “passaporte vacinal é Holocausto” (um dos lemas antivacina da covid-19), temos aí: quando falaram que meu último livro era meio ruim, lembrei de Carolina Maria de Jesus e Vini Jr.

Carolina (1914-1977) foi uma escritora mineira, negra retinta, que nasceu pobre, migrou pra São Paulo, morou num casebre na favela do Canindé, catou lixo – de onde catou também comida – e depois teve seus diários descobertos e incentivados pelo jornalista Audálio Dantas. O racismo crônico que sofreu é apresentado em primeira pessoa especialmente nos livros Diário de Bitita, sobre sua infância e juventude, e Quarto de despejo, sobre a miséria no Canindé. Enquanto Itamar remói na mídia 1 (um) caso de alegado racismo que teria sofrido – um professor brincou que ele tinha os pés na senzala –, Carolina colecionou na memória ofensas raciais às dúzias. Com os ganhos de seu primeiro livro, Carolina conseguiu arranjar modesta casa de alvenaria, refeições, bons sapatos; já Itamar, angariando 10% do preço de capa de cada exemplar vendido de Torto arado, ficou milionário entre duas Copas. Carolina, logo esquecida, voltou à pobreza e à catação de lixo, morrendo desse jeito; Itamar nunca terá que catar lixo pra sobreviver, mesmo que administre mal sua fortuna.

Vini Jr. é um jogador de futebol brasileiro, negro retinto, que ao atuar pelo clube Real Madrid passou a receber xingamentos de torcidas adversárias que animalizavam sua cor. Deve ter sido alvo de alguns racistas em tempo cheio, mas essa é só uma das inúmeras formas de expressão do racismo, e uma forma rara. É provável que grande parte dos seus injuriantes fosse adepta de artifício muito mais comum: “tenho bons conhecidos dessa minoria, mas meus inimigos que pertencem a ela serão pejorados com base nas suas características minoritárias”. ¿Xingariam um jogador negro do próprio time que estivesse levando o clube nas costas? Não xingariam.

A discriminação ocasional lançarei-mão-dela-quando-precisar também acomete outros grupos: estrangeiros, nordestinos, deficientes, gordos, gays, trans, velhos e semivelhos, desviantes do padrão estético, profissionais estigmatizados (o lixeiro, a prostituta, o varredor). Como faz tempo que ser racista é feio nesta região do globo, essas outras categorias sofrem muito mais com hostilidades do que negros, mas uma tendência engendrada está vendendo que Strange fruit é uma canção sobre o cotidiano atual das Américas e que “há um genocídio de pessoas negras tanto quanto na época da escravidão” (cf. Laurentino Gomes). Usar casos isolados do presente e ruminações de tragédias passadas pra espalhar pânico visando manter uma audiência submissa dentro duma nova seita redentora que é bem-sucedida em transformar fraude em imperativo: abominável, mas fascinante. Poderia ser mais fascinante do que abominável se não morássemos no miolo desse delírio que o coletivo impele sobre todos com mensagens dignas da soberba de quem tem os números e a elite detentora do capital cultural a seu favor: “conforme-se ou vá embora” e “ser moderno é isso, você está por fora” – slogans que ensejariam uma macabra marchinha carnavalesca pra ser cantada em qualquer período contra quem não se ajusta à ardência da vez que os bois, a-históricos, pensam ser a conquista do estágio moral definitivo.

Ser xingado racialmente por uma torcida dum lado, dizerem que seu livro é franzino doutro: coloque essas situações numa balança simbolizada pelas suas mãos no ar, dê uma mexida pra cima e pra baixo a fim de sugerir que está pesando os elementos, depois deixe sua mão esquerda no alto, e a direita… coloque no bolso.

A EXTRAPOLAÇÃO DO SENTIDO DAS PALAVRAS
Ao ser chamado de sujeito, Itamar inventou o pior significado possível pro termo: “alguém inferior que não pertence à sua classe e raça”. Ao ser chamado de arrogante, considerou que essa era uma ofensa lançada contra “corpos negros altivos” em vez duma invectiva corriqueira pra designar qualquer posudo. Ao ser chamado de preguiçoso mental, deixou claro seu complexo de inferioridade geográfico ao ligar a expressão à Bahia. Um baiano logo pensando na Bahia ao ler o termo “preguiçoso” – Freud toma notas.

QUEM NÃO GOSTA DE MIM ME VIOLENTA
“A violência racial não nos dá um dia de trégua.” Um alienado que apanhe essa frase sem o contexto dela vai supor que uma pessoa negra do Alabama, nos anos 30, está protestando após ter sua casa incendiada pela Ku Klux Klan. Buscar o peso da violência racial pra tratar duma crítica literária comum é uma obscenidade que deveria gerar motim, mas nossos intelectuais públicos, Pavarottis na tribuna só quando é pra afrontar molezas, parecem achar que não é hora de criticar Itamar. Bolsonaro poderia sair fortalecido, ou uma rede de boas relações com gente ligada ao setor cultural correria o risco de se romper.

*

Dentre aqueles que usaram seu posto na imprensa pra falar da contenda Vieira vs. Diniz estava o escritor José Eduardo Agualusa, colunista d’O Globo. Depois de parágrafos duma abordagem poxa-meu-amigo-eita-meu-consagrado, Agualusa tentou fazer o “caro Itamar” perceber que, se era pra discutir hierarquia da influência, ele, Itamar, é que estava por cima, e aproveitando da situação pra abusar do próprio poder:

Pior é a acusação de racismo dirigida contra a Lígia Diniz. […] Como assim?! O combate antirracista, e o combate contra a extrema direita em geral, sai prejudicado sempre que alguém na tua posição – relembro: uma posição de grande poder e privilégio – lança acusações deste gênero, absurdas e levianas, para responder a uma opinião discordante. No caso, contra alguém que não tem o teu poder, nem de longe nem de perto. Aceita um abraço, desde Angola, deste teu leitor e admirador.

O abraço não foi aceito, a manha prevaleceu ao pedido adoçado pra tomar vergonha na cara, e o angolano branco também foi chamado de violento por causa dessa coluna, como se verá adiante. Vestindo casacos da estação e tendo como intérpretes escritores e leitores sensíveis, alguns dos tiranos que nos rodeiam descansaram a senha agitadora inimigos do povo pra apostar na expressão inimigos dos oprimidos, a que recorrem pra etiquetar qualquer não-concordo. Tem lastro: autoritários são duros ao punir, mas muitas vezes punem com dureza porque suas sensibilidades foram atingidas – uma piada, um olhar de esguelha, um sussurrado “credo, como nosso ditador dança mal”. Sua astúcia remodelada vige numa sociedade cuja inteligência prática despenca, e seu triunfo excita fulanos diversos: ególatras vitimistas que torcem pela destruição do mundo “porque na escola riram de mim”, entediados que buscam palpitações nas aventuras do ódio, aflitos pelo combo “estou atento às ondas”/ “sou culpado pelos séculos”/ “vejam minhas virtudes”, beneficiados por rupturas sociais que abrem nichos de mercado – novas formas de vender maquiagem, uísque, livros, eventos. Tem ideologia que faz gozar muitos publicitários: é farinha pra panificar na indústria das novidades. Fede e chia, mas prosélitos negam que algo esteja errado. Dizem que o ramo artístico nunca esteve tão certo ao transformar tudo em “recorte”, impor diversidade pra quitar “dívidas ancestrais” e botar estatísticas demográficas acima da excelência. Esse regime de cínicos emplacando um falso clima de bonança criativa é um dos fatores que explicam o farrapo da crítica profissional, agora geralmente dividida entre o elogio histriônico, o resumo pleno de cansaço e a reprovação insípida com trejeitos de por favor, não me levem.

Stálin, um dos patronos dos leitores sensíveis:
se ficava ofendido com um texto, vetava o texto e muitas vezes o autor

Crítica literária negativa virou exemplar tão raro que hoje é acontecimento. Uma boa de marcar foi aquela que Luiz Mauricio Azevedo escreveu pra Folha sobre o livro Homens pretos (não) choram, de Stefano Volp, que lhe rendeu insultos por costume reservados a eugenistas. A cantora Karina Buhr, pinçada à época, disse que o artigo “vomitava racismo” – apesar de não haver nele nenhuma ofensa racial, nem implícita, e apesar do sinal fenotípico de Azevedo ser idêntico ao de Volp: negro. É a mesma Buhr que a revista Quatro Cinco Um quotou na ocasião da morte do diretor teatral José Celso Martinez Corrêa:

O palco continua. Em todo palco. Zé continua. Dói demais, mais do que se pode, mas do tamanho do que se deve. A forma. Seu roteiro não seria mesmo simples, nunca foi. O fogo. Tragycomédiaorgya. Amor. Zé.

Um miniobituário desses só pode ser bem apreciado por pessoas fluentes em fuleirês, e o neologismo já ruim de Zé Celso, “tragycomédiaorgya”, fica pior com uma Buhr asmática agarrada em volta.

Dado que é do feitio da Quatro Cinco Um divulgar esse tipo de ruído como se fosse uma faísca no negrume do luto, também foi um acontecimento quando a revista autorizou que suas tintas estampassem uma resenha que atingia o protegido da ocasião, Itamar Vieira Junior. Paulo Werneck, responsável pelo surpreendente pode-mandar-publicar, foi chamado por Vieira de “editor branco [que escolheu] a crítica branca para resenhar um romance atravessado pela raça e pelo colorismo”. Werneck, que há poucos anos me disse num tuíte que continuaria fazendo da sua revista um panfleto identitário sim, poderia se levantar ante a injustiça de Vieira ao acusá-lo – a ele, patente ativista das letras como pretexto – de ser branco. Não que ele não seja cara pálida, mas situados sabem que as expressões em tom ríspido “seu negro” e a agora reparadora histórica “seu branco” estão qualificando e não apenas descrevendo.

Quem esperava uma reação firme de Werneck jogava contra as probabilidades. No meio dos seus afazeres de transformação de garrafas PET em artesanato pra vender na eclética banca de número 451 ou na Feira Literária Identitária de Paraty (FLIP), ele atendeu Guilherme Amado, jornalista do Metrópoles, pra isto:

Na ocasião a revista publicou uma capa com três materiais sobre o livro: a resenha de Lígia Diniz, uma linda reportagem de sete páginas, da Adriana Ferreira Silva e do Uendel Galter, que foram até o Recôncavo com Itamar, e um episódio do 451 MHz, o podcast da revista, em que converso com Itamar e Adriana. Convido os leitores do Metrópoles a ler e ouvir esses materiais e julgar o editor pelo conjunto do que foi publicado.

Sem risco de vida ou de murros, foi com o pensamento lá em você, networking que Werneck intercedeu ~suave~ em favor da sua revista que tanto tinha feito pra promover as escrevivências itamarianas, e que na mesma época da crítica literária de Diniz patrocinara “uma linda reportagem” com o escritor. Quando sustenta que a inclusão social genuína tem o dever de louvar bugigangas literárias o tom de Werneck é diferente. “Duas almas, ¡ai!, habitam o meu peito”, disse o personagem signatário dum pacto diabólico que criou um lamento pra ser manifestado por signatários doutros tantos pactos.

Foi nessa matéria de Guilherme Amado que Vieira insistiu em chamar seus críticos de racistas, reiterando seu perfil totalitário (Aulete: “Diz-se de pessoa ou de atitude que não admite réplica, contestação”) e deixando à vista seu desconforto intestino:

Ela me chamou de ‘preguiçoso mental, arrogante e vaidoso’. E aí eu saí da inércia, eu disse ‘não, eu não posso mais ficar em silêncio’, porque se fosse um autor branco, dificilmente ela ia para o Twitter proferir ofensas como ela proferiu, mesmo o autor estando em silêncio, eu não escrevi uma linha sobre aquilo. […] e eu vou ter que parar o meu trabalho para responder uma violência generalizada. O texto dela gerou a violência do Agualusa, que, por mais que ele não considere violência, eu considero. Porque ali é o que a gente chama de whitesplaining, uma pessoa branca dizer para uma pessoa de cor o que é racismo. E não foi só o Agualusa, é uma coisa generalizada, tem saído em revistas… Eu nunca vi tanto ódio direcionado a um autor.

Uma esponja úmida largada na pia tem mais compostura do que o campeão de vendas tardiamente caído em si quanto a ser disputável. Sujeitos imaturos trocaram o infame “quem me critica me inveja” pelo agravado “quem me critica oprime a minha identidade”, e é esse tipo de criança que o debate contemporâneo embala anos a fio sem se arriscar a colocar as pernas do bebê gigante no chão pra que ele aprenda a andar e vá se acostumando à arena dos adultos. Não fez bem a Itamar ter sido mimado pelo país inteiro por período tão longo. Agora aí está ele, na mansão, de calças curtas e botinhas, convulsionando porque o último Natal foi incompleto: faltaram dois presentes da lista de pedidos. Se na primeira ocasião festiva alguns já tivessem impedido que uma ilusória unanimidade fosse robustecendo – tendo por corolário saudáveis “nem Jesus” e “é impossível ser bem recebido em auditórios tão distintos” –, hoje talvez o escritor se portasse como uma pessoa normal. Cair depois duma ascensão espetacular, sem recifes pelo caminho, não é pra qualquer um. E estoica, está claro, a “pessoa de cor” em comento não é um isto.

Seu embuste leva a gente a rever a situação de Paulo Coelho, muito mais enxovalhado por fazer o que fez e nem por isso tão vitimista. Mas dá pena do mago que empanturrou a memória coletiva quando Itamar se disse alvo dum ódio inédito: sendo branco, homem, caminhante e sem origem favelada, não tem cartas pra jogar nessa competição. Se criticam o que escreve é porque criticam o que escreve, e não porque tem só um braço, cabelo pixaim, vagina ou genética 20% indígena retrabalhada em panos e acessórios pra parecer 80%.

Foi tirando do sovaco esse esquadro da luta de classes e identidades que Itamar tentou medir o estatuto dum conterrâneo:

Eu acho que talvez as pessoas tenham desacreditado que eu fosse escrever uma outra história, que o livro fosse conseguir ter uma pré-venda expressiva, mas por onde eu passo sempre tem muitos leitores. O Jorge Amado passou um pouco por isso, mas no caso do Jorge não existia a possibilidade de ser racismo, até porque ele era um homem branco. Mas ainda assim, como um escritor popular, eu acho que ele enfrentou muito isso. (grifo meu)

Não deu pra usar raça pra explicar um cisco que voou na carreira de Jorge Amado. Mas se ele fosse negro o diagnóstico estaria pronto no mimeógrafo.

A lógica se disseca numa batida de olhos – tudo de negativo que acontecer a um negro será devido ao racismo –, e na visão totalizante que ela reverbera entram quaisquer desagrados da vida comum. Se uma pessoa negra não viver em estado de perfeição, os tubos racistas que perpassam cada pedaço da sociedade explicam o caso. O termo “estrutural” trata duma alegada alta capilaridade do racismo, servindo de armadura pra que ingênuos e malandros fiquem intocáveis até no ramo literário, onde críticas à forma ou ao conteúdo devem ser atribuídas à intolerância contra o autor e seus personagens. Às vezes é malícia, às vezes é psicose, mas hoje passa como doutrina e tem o patrocínio das instituições – aí inclusas muitas editoras. Tente colocar razão, proporção e o princípio do não anacronismo na conversa e seja proscrito: antiquado, manequim de brechó, de direita, colonial, Rei Leopoldo.

Pela reação ao artigo de Lígia Diniz finalmente foi possível concentrar esse método diversionista em alguém que fez uso dele em grau máximo. A vitória duma receita tão patife ilustra por que se fala cada vez menos de literatura quando o assunto é literatura.

*

Mas nem tudo é rio, a maioria das coisas é só uma lagoa, e elogios não escapam dessa fatalidade. O Luiz Mauricio Azevedo que atrapalhou os festejos a Stefano Volp é o mesmo que considerou preciosa a ficção meia-boca de Conceição Evaristo e que contribuiu pra ajeitar o fraco O avesso da pele, de Jeferson Tenório, ganhador de prêmios e com isso rebaixador do valor das premiações (resenharei num “é logo ali” de mineiro). A Lígia Diniz que apontou trechos desgastados em Salvar o fogo e exprimiu pensamentos subversivos abominados pela Santa Inquisição foi a mesma que burocratizou sua crítica com pedágios e topou jogar a peteca desembolsada por Itamar.

Quanto ao pedágio, alguns trechos:

Vieira Junior mais uma vez fala de um Brasil de cuja existência o Brasil que se entende moderno pouco suspeita ou quer se esquecer. […] Ele merece pontos por trazer ao protagonismo literário quem até há pouco não tinha voz. […] Há algumas décadas, a teórica antirracista bell hooks já nos alertava enfaticamente para os riscos do fascínio dos intelectuais pelo “auto-ódio” dos negros. […] Toni Morrison […] Jamaica Kincaid […] Carlos Eduardo Pereira […] Em vez de um comentário sobre o que se perdeu e se perde desde a invasão dos europeus por aqui, fica o esforço ineficaz de manter um lastro improvável.

No país onde uma turma basta e dispersa deixa de apreciar a fartura cultural nativa porque, alega, mascamos demais os sertões e os socioeconomicamente falidos, de repente Vieira Junior é alguém que “dá voz a quem não tinha”. Isso nos anos 20 do século 21. Voz os tipos de Itamar já tinham faz tempo, na literatura e no cinema; o que parece terem ganhado dele foi uma estranha mania de tomar a palavra pra ministrar aulas.

Sugiro um mote: se você não é o dono da estrada, não me cobre pedágio pra passar por ela. Concessões desnecessárias ou asserções óbvias – “sim, racismo existe”, “sim, as pautas são justas”, “sim, a fome é nefasta” – sintonizam leitores desqualificados que se metem a ler o que está acima da sua capacidade de proveito. Não se está escrevendo O assunto tal explicado aos meus netos pra borrifar adolescência no texto ou pra achar que tudo deve ser formatado conforme os preceitos da Linguagem Simples. Não se estudou tanto pra cozinhar essa sopa ordinária, a ser posta em latas, que é o estilo banalizado pra galera curtir e compartilhar. Recear a incompreensão de gente que é um microuniverso de referências batidas, abobalhada por ideologias e cujo pouco conhecimento provém mais duma precária tradição auricular do que de leituras atentas é prenúncio de trabalho ruim, amesquinhado pelo parâmetro baixo. Escreve-se pro melhor leitor que se puder imaginar dentro do seu domínio. Se inaptos invadirem a área e não entenderem o que se passa – e começarem até a debochar do que não entendem, recurso comum –, paciência: essa é a realidade duma internet cheia de animais que tentam pisar habitats que não são os seus.

A crítica de Lígia Diniz na Quatro Cinco Um não é grosseira nem adepta só do que é fácil, pelo contrário: é elegante, de rico vocabulário, escrita por uma intelectual que tem a cabeça povoada. Mas demonstra medo – ainda que um medo sofisticado – de abalar a glória dum ficcionista que se sugere negro. Então ela traz pra ajudá-la: a) declarações de que há opressão mesmo, o país foi invadido, a causa finalmente desperta interesse; b) uma fila de negros elogiáveis.

Quando homens brancos são resenhados, pouco importa a carga de melanina e as genitálias da bibliografia que vai sendo posta no texto pra fortificar a casa argumentativa. Vem à betoneira quem tiver que vir. Já quando minorias são submetidas a exame, parece que é obrigatório se socorrer de nomes do círculo de identidade do examinado pra evitar ser confundido com patriarcais ou supremacistas arianos. “Tenho a cara da invasão do Brasil, desadoro o trabalho de alguém que afirma ser uma vítima racial, mas vejam quem me ampara neste texto: uma mulher negra, outra mulher negra, uma terceira mulher negra e um homem negro – não sou racista, não sou racista”. O espírito do tempo também está ditando transigências que são absorvidas pelo inconsciente dos críticos, e com parco esforço se percebe o maior proprietário das vontades humanas soprando pelas frestas do que escrevem.

A fúria hepática dos broncos vem quando quer: basta fugir um passo da linha do dogma que já se fica suscetível à gritaria e à tomatada. Se a insurreição de ignorantes empoderados vai avançar sobre o autor mesmo que ele tenha tentado se proteger com pedágios que desanimam o texto – “guilty feet have got no rhythm” –, esse é mais um motivo pra visar gente grande e douta, aquela gente hoje difícil de encontrar e que não fica moralizando ninharia nem aguardando erros opressores nos outros pra fazer arengas condenatórias contra inventadas bruxas a fim de realçar a própria santidade.

Quanto à peteca, aí está:

Demonstrei o meu respeito ao escritor Itamar Vieira Júnior ao ler atentamente seus romances e escrever uma resenha cuidadosa acerca de sua mais recente obra, Salvar o fogo, na revista Quatro Cinco Um. Desde sua coluna na Folha de S.Paulo, o autor vem reiteradamente desfigurando tudo o que escrevi, tanto na resenha quanto no Twitter, para me acusar impropriamente de um crime abominável. Agora, ele distorce seu próprio texto publicado na Folha, no qual se referiu à minha resenha como uma “cusparada”. A nova declaração demonstra, mais uma vez, para minha perplexidade, a dificuldade do autor em lidar com críticas negativas ao seu trabalho, sobretudo quando partem de mulheres.

“[…] sobretudo quando partem de mulheres.” Empunhar as armas do oponente pra atingi-lo nem sempre é uma boa ideia a longo prazo: ao usar o expediente gasto da identidade como blindagem, Diniz valida a impostura de Vieira e tenta ganhar o carinho duma audiência que não está lá pelo debate literário como está pela contenda representativa. Salvar a crítica literária do fogo progressista, com sua estratégia de terra arrasada pra matar de fome quem não é dos nossos, exige não professar uma fé tão alienante.

Se estamos tratando de literatura e não houve menção pejorativa à identidade do criticado, falar de identidade é tergiversação. Quem faz dessas pra se livrar de responder às cobranças tem que ser forçado a voltar ao ponto: “não, Itamar, você não vai mudar de assunto”. Ele se afincará à sua emboscada: que é “uma pessoa de cor”, que um professor fez uma piada sobre seus pés na senzala, que até colegas pardos riram, que sempre soube que seria difícil, que nunca viu algo assim acontecer com outro autor, que corpos negros incomodam, que as editoras são brancas, que ele teria muito mais se não fosse o racismo estrutural cheio de engenheiros pra perpetuá-lo nos encanamentos, que Marielle presente, e também Djamila Ribeiro Silvio Almeida Dodô Azevedo Joaquim Barbosa Pelé Garrincha Arthur Friedenreich Cartola Martinho da Vila Elza Soares Zezé Motta Tony Tornado Glória Maria Mano Brown Marcelo Falcão Martin Luther King Billie Holiday John Coltrane Miles Davis Will Smith Grace Jones CeeLo Green James Baldwin Lima Barreto Pixinguinha Jackson do Pandeiro Grande Otelo Barry White The Notorious B.I.G. Dona Ivone Mussum Jorge Lafond Jeremias da Turma da Mônica Biba & Bongô do Castelo Rá-Tim-Bum Saci Pererê Sônia Guajajara o cacique Raoni a índia Tainá. Repila com obstinação a malandragem obstinada: “não, Itamar, você não vai mudar de assunto”. ¡Criticam meu livro porque eu sou negNÃO, ITAMAR.

Guilherme Amado, cupincha de qualquer proposição das minorias, quis continuar batendo essa peteca, e a própria Lígia Diniz com uma das mãos segurava a sua crítica e com a outra pimbava a gorduchinha de penacho. Não desviar do foco requeria prensar o escritor sobre as acusações de maniqueísmo, de escancaro pedagógico, de frases aguadas como “os boatos se alastraram mais rápido do que o fogo do incêndio”, mas os juízes do caso não interditaram o brusco rumo do colóquio literário quando o debatedor se levantou da mesa e desafiou: “aposto que vocês não sabem jogar peteca”. Diniz sabe um pouco: mesmo que só duas mulheres tenham se destacado ao criticar os livros de Itamar diretamente, ela supôs que esse número já valia uma estatística. “A dificuldade do autor de lidar com críticas negativas sobretudo quando partem de mulheres”. Não acho que Itamar tem problema com mulheres. Parece óbvio que sua cólera pode se voltar contra críticos de qualquer gênero, blasfemos, que ele retaliaria nos enviando dilúvios – mas sem dar tempo pra salvar um casal de cada espécie, já que é um deus de ira apressada.

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Além da infantilidade, outra coisa que abunda em Itamar é a sua presunção. ¿Por que ele deveria agradar alguém do naipe de Lígia Diniz?

A professora é exigente, tem alta qualificação pra captar chavões, ensina a ler. Tanto ensina que logo após seu artigo na Quatro Cinco Um é que transbordaram críticos de crítica pronta: leitores que, tendo lido Itamar, sempre souberam que ele não era isso tudo, mas que esperaram alguém mais calibrado espiolhar um dos seus livros pra só então repugná-lo de pé. Sozinhos, sem mentor, muitos desses pós-analistas seriam incapazes de discernir ouro de bijuteria, e por isso desfila entre nós outro monarca pra reverenciar junto ao inconsciente: o teste cego. Sem carimbo, selo de editora, recomendação de monstro do conhecimento, guru estrangeiro, estatuto canônico ou assinatura prestigiada, possivelmente a maioria dos ditos cultos civis não saberia reconhecer qualidade. Confunda o conteúdo dos frascos e ponha um paladar exigente pra tartamudear:

— ¿Que tal esse poema da Cecília Meireles?
— Excelente de tudo, ela é assombrosa.
— Na verdade esse poema foi escrito por aquele seu colega de Letras, aquele que você dizia ser “no máximo empenhado”.
— Hm… Se bem que agora estou vendo umas nódoas aqui e ali. Essa segunda estrofe, mesmo, é bem fraca.
— ¿Você acha?
— Acho, e agora que você falou é que percebo outras falhas. Eu devia ter prestado mais atenção, tinha lido rapidamente.
— Entendi. Mas quero te dizer que o poema é da Cecília, mesmo.

Lemos crítica literária pra aperfeiçoar o juízo no que é bom e no que é ruim, pra aprender a ver pela instrução de intelectuais experimentados. Mas dá pra encafifar diante dum pessoal vaidoso que os orbita, muitas vezes com ares de paletó e cigarrilha, pondo as pontas dos dedos no peito pra ostentar “eu a-do-ro esse autor francês [emoji de corações saindo dos olhos]”, que diz reconhecer pelo próprio mérito o que presta, mas que apenas segue a opinião fina dos críticos e que nisso é facilmente ludibriável pela troca de rótulos: o vinho barato na garrafa do caro, o livro ruim recheando o autor de renome. Um pessoal que não sabe do que gosta, mas que está bem assessorado e cola nos sabidos, imitados e parafraseados na superfície. Teste cego é o apocalipse do pedantismo. Quase ninguém passa numa versão longa e elaborada dele – operamos pelas enganosas boa vontade, má vontade e birra –, mas pedantes são reprovados desgraçadamente.

A reação de Vieira às queixas de Diniz revela o que ele pensa das centenas de milhares de leitores que já o amam: vocês não são suficientes. Pobre menino rico de pança cheia: deve ter guardado em alguma região da sua mente que o cartaz rápido e temporâneo é suspeito num Brasil de leitura nula ou medíocre, e que o grande público não costuma ter gabarito pra ir além do gostei/não gostei, com as variações “achei genial”, “necessário”, “achei chato”. Talvez aquele silêncio que tantos membros da classe de Diniz mantinham ao passear de elevador pelos seus livros servia pra não opinar mentiras, numa autocensura caminho-do-meio de “não posso falar o que penso, então não vou falar nada”. Ambicionando ser mais do que um escritor das massas, o regente de Bibiana, Belonísia e outras criaturas fez da crítica algo minuciosa que recebeu no crepúsculo do banquete uma obsessão. Quer, afinal, a estima daqueles que podem transformá-lo em clássico da literatura a ser estudado a perder de vista na roda de O quinze, Sagarana e Vidas secas, e não só a paixão dos consumidores efêmeros que o procuram por sentimentalismo, vitrine de Instagram, febre da compra coletiva ou moeda da consciência social em voga.

Pralguém que tinha tanta certeza da própria eternidade clássica, a súbita lucidez sobre a chance de ser só uma histeria que logo vai infernizar os alfarrabistas deve ser mesmo de provocar insônia. Você que acompanha esse drama e foi muito rápido em declarar que o autor de Torto arado “não aceita críticas” dificilmente faria a paspalhice de querer se livrar da ameaça à sua festança apelando a uma identidade que não tem a ver com o caso e que mal lhe pertence. Mas se por módicos reparos ao seu ego bem menos conhecido uma vontade de destruir o crítico usando seu pequeno poder e seus – ¡clap-clap! – apoiadores já te acometeu, you would cry too if it happened to you.

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NOTAS

1. Senta que lá vêm as NOTAS [trompete]. Mas antes um cafezinho e uma espiada no horizonte pela janela da lavanderia.

2. Um modelo de resposta que Itamar poderia ter usado (já que fez questão de rebater uma crítica):

Minha intenção não era escrever para todos e todas, mas para quem quisesse ouvir as histórias da gente com a qual me importo. Escrevi usando as ferramentas que adquiri durante a vida, e qual não foi minha surpresa ao descobrir que muitas pessoas estavam interessadas no que eu tinha a dizer através da ficção. Mas Lígia Diniz parece acreditar que milhões de leitores, editores, acadêmicos e jornalistas do mundo todo que se apaixonaram pelos meus livros estão errados. É um direito dela não querer estar conosco. Só digo que existem várias formas de fazer literatura, e uma literatura brasileira que consegue alcançar tanta gente, daqui e de fora, certamente é algo para se comemorar. Cada um lê o que quer, e eu venho sendo muito lido, como poucos autores foram nestas terras. Lígia pode continuar procurando textos de alto valor que não recorram a “expedientes gastos”. Eu seguirei no meio do povo, acolhendo e sendo acolhido. Axé.

Seria uma resposta chocha pelo enredo e pelo palavreado: “todos e todas”, “e qual não foi minha surpresa”, o recurso às gentes e ao acolhimento – a cara dum Itamar em ambiente ventilado. Mas perspectiva importa, e perto daquela vergonhosa invocação ao racismo pra rebater um baque estético esse papo pareceria até razoável.

3. Há lugar pra alta, pra média e pra baixa literatura entre o público. E há lugar pra que os críticos expliquem, quando surge dúvida durante uma campanha, por que um livro que vem sendo considerado alta literatura é mediano ou apenas um toco. Qualificar e hierarquizar são exercícios comuns numa sociedade que valora o que produz, mas algumas pessoas acham que esse sistema só deve vigorar na avaliação de faqueiros comprados on-line, motoristas de aplicativo e equipes esportivas rivalizando em campeonatos. Disserte sobre a mediania dum livro e receba pelo correio eletrônico mensagens como “faça melhor”, “se a opinião é negativa, deixe pra lá, você não precisa destruir o autor” e “ora, ora, não é o que muitos pensam”.

Ou seja:

a) só tem o direito de criticar quem for capaz de fazer melhor – lógica que ninguém usa pra sapatos, café ou enchimento de lajes;

b) “repudiar um autor no jornal é coisa de gente sem coração”, assevera um panda de pantufas alheio ao papel da crítica de ensinar a ler (e de ensinar autores a aprimorar a escrita);

c) Sidney Sheldon e Danielle Steel eram ótimos, pois multidões gostavam deles – além do mais, “gosto é gosto, vamos ser respeitosos”.

Por aí se vê que a crítica anda entre nós se escorando pelos muros e sufocando gritos com os dedos ao espiar as covas que vão cavando pra ela nas ruas não só por causa da peste identitária, do parco espaço nos jornais, da frouxidão dos boas-praças e do me-coça-que-eu-te-coço, mas porque um tipo de pateta foi avolumar essa entidade agora oceânica chamada opinião pública. A revolução das telas trouxe consigo o ascenso da pessoa comum que às vezes se sai melhor que Os Especialistas, mas também deu confiança ao opinioso, que fala pelos cotovelos platitudes, impropriedades e lambanças. Durma-se com um marulho desses.

4. [noite, corvos, suspense faca-no-chuveiro]
Torto arado tem muitas partes boas.

4.1. [manhã, periquitos verdes bicando mangas maduras, Jethro Tull fazendo shows itinerários numa van]
E tem algumas partes muito ruins.

4.2. Como livro panfletário de massas passa até que bem. Depois resenharei no Goodreads e linkarei aqui.

5. É emblemático que, num país miscigenado, Itamar se apresente como “uma pessoa de cor” e goste de frisar a pele dos inimigos, brancos, mas pareça se precaver de dizer “eu, negro” ou “eu, indígena”. Seu angu fenotípico – mestiço – talvez cause o mesmo constrangimento de ter que assinalar o pardo Flávio Dino, provável futuro ministro do STF, como negro. Esse mal-estar na miscigenação – um incômodo sofrido pelos binários da cor mentalmente colonizados pelos Estados Unidos – fica proutro texto.

6. Já paguei muitos pedágios. Todas as resenhas que escrevi na Amazon pra títulos da Coleção Feminismos Plurais eram pedagiosas. ¿Pra quem eu estava escrevendo? Pra leitores que depois de ler parágrafos e mais parágrafos duma crítica a algum ideólogo racialista se mostram tão intelectualmente pitocos que vão perguntar ¿mas você nega que exista racismo no Brasil? se não houver, escancarado, um <ATENÇÃO, RACISMO EXISTE NO BRASIL, SIM, ISSO NÃO SE PODE NEGAR, NÃO, QUEM NEGA ESSE FATO PODE DEIXAR DE ME SEGUIR, ODEIO RACISTAS>. O problema é que não é esse tipo de leitor que eu quero alcançar; o comércio que o atende é farto e o texto que ele acha acessível pra ler eu acho feio escrever. Então hoje escrevo com um opositor qualificado imaginário sentado num ombro, e, noutro ombro, um policial antipedágio que tem no bolso uma plaquinha com a inscrição <PARE DE SE EXPLICAR PRA QUEM SÓ SABE LER TEXTO DESENHADO>. Inclusive agora mesmo ele está lendo este parágrafo e quase desembolsando a plaquinha, então com licença.

7. Algumas das músicas que embalaram esta postagem:

International Music System – Bonus single / Maurice McGee – Do I do / Lesley Gore – Maybe I know / A Espetacular Charanga do França – Chevette azul / Cancer – Half man half beast