Textos dos outros — Excerto de “Correio europeu” (1959), de Marques Rebelo, segmento “Paris”

XLVIII

Quando o amoroso aeronauta entrou no metrô, já lá estavam os três padres de boina preta, com ar campônio e o cheiro peculiar de incenso e suor. Ocupavam os lugares reservados aos mutilados de guerra, cegos ou inválidos civis, e a idade que os separava podia fazer pensar em avô, filho e neto, embora os seus gestos tivessem a mesma idade – mil e novecentos anos de falsa humildade.

O aeronauta era gordinho, baixinho, vermelhote. E não entrou sozinho. Entrou avec. E a dona era assim como um colchão amarrado, com marcas de frio nos dedos vermelhos e maltratados e de falta de sabão em vários outros pontos do anafado corpo. Mas que importância, digamos, tem o sabão ou a falta de sabão para quem está apaixonado? E o bravo dominador dos ares demonstrava publicamente na terra o seu exaltado estado lírico. Com um looping de cabeça enfiou o nariz no cangote da dama, que se sentara ao lado de um dos reverendos, enquanto seu par ficara debruçado nas costas do banco. Ela deu uma sacudidela como se espantasse mosca, e ele, certamente um herói da guerra, metralhou-lhe o pescoço com uma saraivada de beijos. A gorducha demonstrou, por conhecidíssimos estremecimentos, que a sua adiposidade não a encouraçava contra tais projéteis e que o coração fora atingido por eles. Impulsionado pelo êxito do impacto, o aeronauta voltou furiosamente à carga, acompanhando os beijos de palavras consequentes em tom meloso e audível para os passageiros em geral e muito particularmente para os sacerdotes, que se entreolharam com sabedoria de sacristia, tendo o mais velho, por um sorriso condenatório, mostrado seu desprezo por tais práticas terrenas. E o aviador desceu em pique até o volumoso seio da sua Dulcineia. Desceu e mergulhou a mão enamorada naquelas irresistíveis profundezas. Não sei se foi um riso, um grito, ou as duas coisas juntas o que a dama deu. Mas os padres levantaram-se. Levantaram-se ao mesmo tempo como num passo de ballet, enfiaram-se pela porta que se abrira com um suspiro pneumático – estava-se na Concórdia. Da plataforma, num tríplice olhar, condenavam ou invejavam o aviador. Esse, porém, nem eles se tinham levantado e já estava com a sua dama ocupando o banco todo que se vagara. Novo suspiro pneumático e o veículo arrancou, e antes que o aviador praticasse mais um ato por demais aviatório, fui obrigado a descer pois tinha encontro marcado na outra estação.

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NOTAS

1. Às vezes um livro leva a outro, e às vezes leva a outros. Foi assim com Perfis & entrevistas: escritores, artistas, cientistas, do jornalista Daniel Piza (1970-2011), que me pôs pra correr atrás de algumas personalidades que apareceram nas suas páginas. Por causa dele comprei e li Cultura da reclamação, do crítico de arte Robert Hughes – excelente, qualquer hora vou resenhar –, e também por intermédio dele me interessei por Marques Rebelo (1907-1973), que é citado por três entrevistados: João Cabral de Melo Neto, Iberê Camargo e Carlos Heitor Cony. Intrigante num livro tão curto um nome ser lembrado por três pessoas diferentes.

Poucas semanas depois li As cem melhores crônicas brasileiras, e lá estava uma de Rebelo, que marquei pelas imagens e pela neblina da boa solidão. A crônica selecionada ainda vinha em fragmentos, uma forma que me atrai (vide a série “Caderno de exercícios” deste blog). Já bastava de sinais pra procurá-lo e trazê-lo pra minha casa.

O primeiro livro que li seu foi esse Correio europeu (1959), também fragmentário, que a editora José Olympio contextualiza:

As crônicas enfeixadas neste volume apareceram originalmente no vespertino Última Hora, do Rio de Janeiro, em 1951 e 1952, e constituem o conjunto de impressões da viagem que o autor fez pela Europa Ocidental naquele período.

1.1. Nessa excursão Rebelo visitou Portugal, Suíça, Inglaterra, Suécia, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Alemanha, Espanha, Mônaco, Itália, Vaticano, São Marinho e França. Suas impressões de viagem são deliciosas de ler; grifei a maioria delas. Resenhei o livro no Goodreads, mas segue também aqui uma palinha.

Do segmento Hamburgo:

III
Não há nada mais triste do que um porto ao cair da tarde.
Não há nada mais morto que um guindaste retorcido.

Do segmento Estocolmo:

XXIII
A cidade velha é velha mesmo. Com traçado e edificações da Idade Média, ruazinhas estreitas e tortuosas como caminhos de rato, bastiões de altaneira pedra que mantinham o inimigo a distância, fica à volta do palácio real e incrustada no meio da metrópole que se expandiu. Mas está bem-conservada e limpa, como tudo que é nórdico.

Do segmento Veneza:

VII
Mudança é em gôndola. Levam banheira e fogão.

Do segmento Tours:

VI
Não encontrei o cura de Tours nos passeios vesperais por entre melancólicas ruínas de bombardeamentos, mas encontrei uma freira de Tours. Ia de bicicleta com um grande saco de provisões na traseira, as asas da touca voejando como as de um desarvorado, tristonho, pássaro branco.

Do segmento São Marinho, apenas isto e que pra mim foi bem colocado:

Realmente existe.

Foi amor à primeira leitura.

2. “Páginas das páginas”, de Rebelo, que está em As cem melhores crônicas brasileiras, merece aparecer qualquer hora aqui na categoria “Textos dos outros”. Por enquanto, uma amostra:

Sensação de esquecimento, de ausência – o bonde corre. De repente, volto ao mundo sem que nenhum movimento do mundo me tivesse solicitado. Sol brilhante, céu azul, tantos homens. O mesmo cansaço. Sinto que fiz uma pequena experiência de morrer.

Não sei se ela tão fina, tão penetrante, compreendeu a minha agonia. A tarde era opalina e eu me sentia transparente como a água azul da piscina que olhávamos. Pelas alegrias da vida pagamos tão caro, que não sei se seria melhor que fôssemos sempre infelizes.

E o mancebo matou o dragão, casou-se com a filha do rei e viveu sempre pensando, com arrependimento, no dragão.

Não guardo meus defeitos para a intimidade.

Tem autor que é pra gente se hospedar nele.