Textos dos outros — Crônica “Paredes de mim mesmo” (1954), de Max Nunes

Lins de Vasconcelos, pela pureza do clima e silêncio das noites, já foi lugar recomendado para pessoas fracas. Hoje, com ladrões fazendo footing e malandros à solta, só se recomenda às pessoas fortes, bem arrumadas e de pouco amor à vida. E se você já foi ou não foi à Bahia, mas ainda não foi a Lins de Vasconcelos, então vá! Não tem caruru nem mungunzá, mas tem uma rua chamada das Mangueiras, com Rosas e Carlotas pelas calçadas, que é doce como canção. Cruzando-a perpendicularmente, através de um pequenino beco, você chegará à rua paralela que desce suavemente para a Fonte do Maduro (Fonte das Águas de Nazaré), aonde, nos domingos e feriados, chegam namorados com sede de amor e pessoas doentes que vão lavar o fígado.

Advirto que ninguém deverá se surpreender com o número de cegos que encontrar pelos caminhos: lá em cima, na rua das Mangueiras, construíram um asilo para eles. É um casarão todo branco boiando no verde (um asilo de cegos dentro de uma paisagem tão singularmente bela não é um socorro, é um castigo).

As casas da rua das Mangueiras são todas antigas e líricas. Muitas delas trazem na fachada nomes como Vila Amélia, Lar de Zulmira etc. etc. A mais triste e mais melancólica, porém, é uma casa pequena, de dois quartos e duas salas, de portas e janelas verdes e que agora começam a demolir. A metade já está no chão, e o que resta de pé não há de durar muito. São uns poucos homens, modestos operários de mãos calosas, que se encarregam da ingrata tarefa e que jamais entenderão o que lhes pedi: que a demolissem com carinho, tijolo por tijolo, sem ferir de picareta e martelo aquelas paredes amigas.

Não tive coragem de lhes dizer que minha infância, que se guardava ali, vai perder o pouso. Durante a conversa os operários me informaram que vão construir um prédio de quatro andares, com elevador e tudo.

Naquela época, há mais de vinte e cinco anos, era difícil imaginar que os engenheiros da Otis entrassem por aquela porta para instalar o progresso.

Corro depois ao quintal (ah, o quintal!) e procuro a mangueira que, quando saí, deixei jovem e verde. Encontro-a matrona e cheia de frutos. Mas deve ter me reconhecido, porque deixou cair sobre os meus ombros, como pancada de mão amiga, um dos melhores e mais belos rebentos.

E na rua, como antigamente, vem passando um boi que um menino conduz. Lento e pesadão, vai esmagando no barro os últimos sonhos que porventura eu tenha esquecido por lá.

(Crônica publicada em 2 de dezembro de 1954 e garimpada no livro Uma pulga na camisola, de Max Nunes, com seleção e organização de Ruy Castro, editora Companhia das Letras.)

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NOTAS

1. Max Nunes era médico de formação, mas humorista por orientação. Fez carreira no rádio, escreveu em jornais, migrou pra TV, compôs ditos e piadas que se tornaram cultura popular. Nas NOTAS da postagem anterior soltei uma amostra das graças que criou, e prometi transcrever essa crônica sua, séria, que não se acha na internet: “Paredes de mim mesmo”. Aí está.

2. O texto é bonito na íntegra, mas destaco: “pela pureza do clima e silêncio das noites”, “[uma rua que é] doce como canção”, “um casarão todo branco boiando no verde”, “jamais entenderão o que lhes pedi: que a demolissem com carinho, tijolo por tijolo, sem ferir de picareta e martelo aquelas paredes amigas”, “Não tive coragem de lhes dizer que minha infância, que se guardava ali, vai perder o pouso”, “Lento e pesadão, [o boi] vai esmagando no barro os últimos sonhos que porventura eu tenha esquecido por lá”.

2.1. Um dos trechos tocantes personifica uma velha árvore e nela admite vontades, ainda que limitadas pela sua anatomia:

Corro depois ao quintal (ah, o quintal!) e procuro a mangueira que, quando saí, deixei jovem e verde. Encontro-a matrona e cheia de frutos. Mas deve ter me reconhecido, porque deixou cair sobre os meus ombros, como pancada de mão amiga, um dos melhores e mais belos rebentos.

2.2. E esta passagem

Durante a conversa os operários me informaram que vão construir um prédio de quatro andares, com elevador e tudo.
Naquela época, há mais de vinte e cinco anos, era difícil imaginar que os engenheiros da Otis entrassem por aquela porta para instalar o progresso.

me recorda o poema “A rua diferente”, de Drummond, publicado em Alguma poesia (1930):

Na minha rua estão cortando árvores
botando trilhos
construindo casas.

Minha rua acordou mudada.
Os vizinhos não se conformam.
Eles não sabem que a vida
tem dessas exigências brutas.

Só minha filha goza o espetáculo
e se diverte com os andaimes,
a luz da solda autógena
e o cimento escorrendo nas fôrmas.

A vida tem dessas exigências brutas: instalar o progresso nas paisagens que amamos, confinando-as à memória.

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Max Nunes (o terceiro da esquerda pra direita, em pé) com Jô Soares,
Chico Anysio, Haroldo Barbosa e Juarez Machado

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